Toda pesquisa constitui um caminho a percorrer. Os caminhos muitas vezes são cheios de surpresas, pois são desconhecidos e podem apresentar novidades durante o percurso. Novidades estas que possibilitam visualizar o objeto de investigação a partir de outras perspectivas. Propomo-nos, assim, analisar a recepção do Concílio Vaticano II na Diocese de Montes Claros, e não deixa de ser instigante pesquisar um período muito complexo na Igreja local a qual pertenço, sobretudo, por se tratar da retrospectiva de uma época em que muitos protagonistas estão no meio de nós. Este trabalho se converteu em uma oportunidade ímpar de entrar em diálogo com os atores sócio-eclesiais e com as fontes escritas deste rico momento da história da Igreja.
O ponto de partida de nossa investigação foram, então, as categorias: Concílio Vaticano II e Igreja local. Colocamo-nos diante do desfio de analisar a relação entre a “magna assembleia” realizada em Roma e uma diocese no Norte de Minas Gerais. A ponte encontrada por nós para ligar realidades tão díspares, foi a teologia da recepção. De posse desse instrumental teórico, partimos para o nosso campo de pesquisa com um objetivo em mente, verificar o impacto e a ressonância do Concílio Vaticano II na Diocese de Montes Claros.
O nosso intento primeiro foi revisitar a Assembleia Conciliar que aconteceu em Roma. Lá percebemos que se constituiu um equívoco considerá-la ponto de partida para todas as mudanças que na Igreja ocorreram após a sua realização. Encontramos antecedentes históricos que já apontavam para algumas reformas que foram, durante o Concílio, debatidas, reelaboradas e acolhidas como norma de fé para toda a Igreja. Vimos que João XXIII, ao convocar o Vaticano II, entrou na esteira desse movimento de renovação. O período preparatório, a forma de livre debates nas chamadas aulas conciliares, o aprofundamento das discussões, as vezes, ásperas e demoradas, para se chegar a um consenso, indicaram o valor do lento, mas profícuo processo sinodal de elaboração da doutrina conciliar, o que deixou para a Igreja um duplo ensinamento, o dos decretos e o experimentado por eles nesta dinâmica sinodal. Certo é que nos deparamos com um acontecimento que delineou claramente uma nova teologia e desencadeou uma nova forma de orientar todo o agir eclesial.
De posse da compreensão deste potencial renovador do Vaticano II, nos voltamos para a análise da recepção enquanto categoria teológica. Isto por que a simples promulgação dos documentos não garante a sua implementação na vida da Igreja. Desta forma, a recepção se torna um aspecto complementar à realidade conciliar, como momento necessário após cada acontecimento sinodal em todas as instâncias da Igreja. Esta recepção não é a simples adequação de um sujeito eclesial às normas definidas. Recepção é fato teológico, é o sim do conjunto do povo de Deus, sob a ação do Espírito às novas perspectivas de fé explicitadas
numa determinada instância eclesial. A comunidade faz um reconhecimento consciente da presença da Palavra de Deus, da inspiração do Espírito e do testemunho da Tradição na nova instrução que lhe é apresentada e toma para si. O Espírito que dinamizou a elaboração das diretrizes deve ecoar também no coração de cada fiel e da comunidade como um todo, dando- lhes a capacidade de reconhecer como sua, a regra de fé da Igreja. Este entendimento nos faz compreender que a recepção se opera, acima de tudo, por vínculos espirituais e não somente vínculos jurídicos.
No terceiro momento de nossa pesquisa nos dirigimos à Igreja local de Montes Claros no Norte de Minas, para verificar como esta Igreja diocesana respondeu ao impulso renovador do Vaticano II. Buscamos adentrar com maior profundidade no desenvolvimento da Igreja diocesana de Montes Claros no período pós-conciliar, para, assim, destacar de forma mais clara, o que se conseguiu nesta Igreja local com a realização do Concílio.
Aqui nossa pesquisa tomou novos contornos, pois – não contando com nenhuma pesquisa anterior que abordasse tal contexto sob a perspectiva por nós analisada e sendo nosso objetivo uma abordagem diacrônica que voltar ao passado como alguém que adentra um antigo sótão e vasculhando suas prateleiras, encontramos objetos valiosos carregados de informações. São atas esquecidas, manuscritos com a tinta já desbotada pelo tempo perdidos entre páginas amarelas de escritos ainda datilografados; cartilhas no fundo de uma caixa, livros que, há muito, alimentavam traças, jornais caídos ao chão, em um canto; e o mais importante, os vívidos depoimentos daqueles que testemunharam momentos que os livros não conseguiram registrar. Foi a partir deste amontoado de pontas, que se isoladas, talvez pouco significasse, que tecemos o tapete da história e, com muita reverência, caminhamos sobre ele para compreendermos melhor o tempo presente e lançarmos as linhas mestras que projetarão o nosso amanhã.
A primeira assembleia diocesana de Pastoral apresenta o Concílio a uma pequena parte da Diocese, foi o primeiro anúncio, entretanto o modo de ser Igreja equacionado pelo Concílio era incompatível com as práticas eclesiais de então no Norte de Minas. A mentalidade religiosa da época, fortemente marcada pela presença da eclesiologia pré- conciliar, impermeabilizava as estruturas eclesiásticas e a nova teologia eclesial não encontrava aí espaço. Mas os processos de recepção são múltiplos. As novidades que não foram implementas pelas decisões da Primeira Assembleia chegavam por caminhos diversos, mostrando a não-linearidade do fenômeno da recepção, visto que a efervescência de iniciativas eclesiais, fundamentalmente, composta por leigos mostrou-nos este vigor do Espírito que sopra onde quer, percebe-se aí a importância do protagonismo dos leigos na
Diocese, a partir dos anos de 1970. Claro que este novo núcleo de atividades, a não acolhida das diretrizes da Primeira Assembleia, as dificuldades que a Igreja como um todo enfrentou no pós-concílio, fizeram com que problemas e dificuldades fossem notados também nesta Igreja local no final da década de 1970.
Nesse ambiente, aconteceu a segunda assembleia em 1980, que num tom mais celebrativo pelos setenta anos da Diocese, e com discurso moderado, não criou polêmicas, talvez até por receio de que se repetisse o que aconteceu nas reuniões da assembleia de 1966. Nota-se, contudo que um problema já estava instalado: surgiram muitos organismos eclesiais, mas estas pastorais e movimentos foram se organizando sem uma orientação e unidade diocesana. A Diocese não tinha estruturas pastorais que as acolhessem e lhes dessem um direcionamento comum.
Foi nesse contexto que o religioso Geraldo Magela de Castro foi nomeado bispo coadjutor com direito a sucessão. Era padre da região, conhecedor da realidade Norte Mineira, Dom Geraldo, impôs um novo ritmo aos trabalhos na Diocese, no sentido de colocar a estrutura diocesana de pastoral de acordo com as inspirações conciliares. Seu empenho pessoal, o desejo de alguns padres, a insistência de algumas pastorais, fizeram com que, pouco a pouco fossem criadas estruturas diocesanas capazes de dar mais organicidade ao desenvolvimento dos trabalhos desta Igreja. Assim, ao nosso entender, a Terceira Assembleia Diocesana de Pastoral de 1990 fechou um ciclo de recepção do Concílio, iniciado em 1966 e canonizou a pastoral de conjunto e os organismos diocesanos de serviço e de governo, imprimindo um novo rumo aos trabalhos eclesiais desta Diocese. O que nos revela que vinte e cinco anos foram necessários para que eixos centrais da teologia conciliar fossem assimilados por esta Diocese de Montes Claros.
Acreditamos que nossa pesquisa possa nos inspirar a não nos instalar e nos conformar com o que já somos, fazemos ou possuímos, mas procurar sempre nos colocar a caminho, para que a Igreja manifestada em seus mais diversos sujeitos e organismos eclesiais se empenhe para tornar presente na vida das pessoas e na sociedade o acontecimento de salvação desejado pelo Pai, manifestado pelo Filho e atualizado na presença do Espírito na história.
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