Catorze anos após a realização da primeira assembleia de Montes Claros, em novembro de 1980, no Colégio Marista São José, acontece a Segunda Assembleia Diocesana de Pastoral. Cento e quarenta pessoas participaram deste evento serviu também para marcar as comemorações dos setenta anos de criação da Diocese de Montes Claros. No entendimento de Dom José Alves Trindade, esta grande reunião diocesana tinha como finalidade “descobrir o melhor meio de executar o trabalho de Igreja no cumprimento daquela missão que Jesus lhe confiou, na pessoa dos seus apóstolos”252, e que para executar esta hoje esta missão, a Igreja deveria se orientar “universalmente pelo Concílio Vaticano II, continentalmente pelo CELAM, nacionalmente pela CNBB e regionalmente pelo LESTE II”253. Dom José Alves Trindade ao comentar sobre este acontecimento no informativo diocesano Koinonia, salienta que
simultaneamente 3 questões eram estudadas e discutidas: a primeira – a situação atual das atividades pastorais dentro de cada comunidade paroquial; a segunda – a apreciação do que parece errado ou negativo em meio ao certo e positivo; a terceira – a conveniente elaboração de novo planejamento ao próximo biênio de nossa pastoral254.
Como propósito norteador do planejamento pastoral, a segunda assembleia da Diocese assumiu o objetivo geral da CNBB, “evangelizar a comunidade diocesana de Montes Claros a partir da opção preferencial pelos pobres para libertação integral do homem numa crescente participação e comunhão visando à construção de uma sociedade fraterna, anunciando o Reino definitivo”.255
O ponto de partida do documento diocesano foi inspirado na Conferência de Puebla, a opção preferencial pelos pobres. No entanto, ao desenvolver este tema, o texto final da assembleia esmaece a carga semântica desta expressão tão cara a teologia latino-americana à época. Ao se referir à opção preferencial pelos pobres, diz que esta também “não excluirá a proclamação da Palavra Libertadora para os pobres de fé e os pobres de generosidade, que não sabem repartir”256. O tom moderado no uso desta categoria teológica se expressa da mesma forma em outro trecho do documento,
252
Secretariado Diocesano de Pastoral. Planejamento Diocesano de Pastoral – 1981-1983. p. 01
253
Ibid.
254
Secretariado Diocesano de Pastoral . Boletim Diocesano Koinonia. Dezembro, 1980, nº3, p.02.
255
Secretariado Diocesano de Pastoral. Planejamento Diocesano de Pastoral – 1981-1983. p. 02
256
a ação da Igreja diocesana se propõe levar o pobre a se descobrir dentro da proposta de libertação feita por Jesus que nos quer livres, respeitara a pedagogia do Cristo de toda não-violência, de tal modo se conduzirá que não excluirá a conversão dos mais favorecidos e nem transformará os oprimidos de hoje nos opressores do futuro257.
Uma análise do documento diocesano como um todo, permite-nos entender que, quanto ao seu conteúdo, à parir desta compreensão mais atenuada de opção preferencial pelos pobres, o planejamento da Diocese sugere indicações pastorais para uma caminhada tendo como prioridades a catequese e a responsabilidade social da fé, esta última subdividida em assistência social e promoção da justiça. O texto apresenta ainda, três eixos norteadores com estratégias específicas de ação, o primeiro contempla a unidade visível da Igreja; o segundo, a catequese e a liturgia; e o terceiro, a presença no mundo.
Nesta assembleia, falava-se em pastoral orgânica ao se referir a noção de pastoral de conjunto. A respeito deste modelo pastoral implícito nas diretrizes da assembleia, o Pe. Tadeu, dinamizador deste evento, observa que “as desculpas que não temos tempo, jeito e gente não valem. Aquilo que está sendo feito continuará sendo, só que deverá ser encaixado dentro da orientação da Pastoral Orgânica”258.
As manifestações durante a assembleia refletem um pouco do contexto sócio-eclesial do momento. Padre Inácio em uma de suas intervenções “lembrou que a preparação para o batismo e casamento deve ser obrigatória, que se deveria fazer também preparação para a crisma”259. Depoimento que nos autoriza a concluir que nesta época ainda se buscava superar a concepção sacramentalista do catolicismo reforçando a ideia de uma necessidade de evangelização para os sacramentos
Da mesma forma, é curioso notar um certo clima de temor que pairava sobre participantes da assembleia em virtude repressão militar em pleno vigor à época. E foi o Pe. Inácio quem se manifestou mais uma vez no momento em que se discutia sobre a realidade social, o jesuíta espanhol
observou que os grupos do plenário demonstraram certo receio de falar totalmente a verdade, preocupados com certos julgamentos (DOPS, SNI, etc), e que, para o cristão, esses julgamentos não interessam; e o que realmente interessa é o modo como vivemos o Evangelho260.
257
Ibid.
258
Secretariado Diocesano de Pastoral . Boletim Diocesano Koinonia. Dezembro, 1980, nº3, p.12.
259
Ibid.
260
Em suas observações finais, o texto do planejamento diocesano determina que
a partir de agora, 1º de agosto de 1981, cada organismo da Igreja diocesana irá fazer o seu projeto de ação pastoral. Não podemos mais nos desculpar... a Igreja não tem um plano em ação... a Igreja nos oferece vários e preciosos elementos estratégicos, cabendo aos organismos, ás bases a elaboração de uma tática através de seus projetos de ação pastoral261
Mesmo com este explícito imperativo de ação, mais uma vez, o corpo doutrinal diocesano estabelecido em assembleia não é assimilado pelo corpo eclesial local. A tentativa de se renovar e organizar a estrutura diocesana de pastoral não obtém o êxito esperado. Ao analisar a caminhada da pastoral diocesana, Dom Geraldo afirma que em relação à primeira assembleia, esta “já foi melhor: as paróquias e movimentos que participaram deram uma resposta. Mas para a maior parte da Diocese ficou também só no papel; no entanto, não deixou sempre de ser ponto de referência válido e importante”262. Neste mesmo sentido, é conveniente assinalar o número de pastorais no evento, dez, e o fato de que para cada uma delas foi designado um padre para acompanhar e animar suas atividades. Na visão do Monsenhor Tolentino263, a única conseqüência prática da assembleia.
Interessante notar alguns silêncios presentes no documento final. O primeiro, por não indicar nenhum presbítero para se acompanhar os cinco movimentos eclesiais que lá estavam representados. Ademais, o texto não faz menção em nenhum lugar à Renovação Carismática Católica, que neste período, como já vimos, tinha certa representatividade na Diocese. Da mesma forma, não se encontra na redação a expressão teologia da libertação.
Apesar do contexto acirrado de repressão; dos problemas e insatisfação a pouco detectados na Diocese; da presença de representantes de diversos organismos pastorais; tanto o documento, quanto o relatório do evento, bem como os depoimentos, realçam um ambiente tranquilo nesta Segunda Assembleia Diocesana de Pastoral, sem polêmicas ou discussões mais acirradas. Talvez o clima comemorativo pelos setenta anos de criação da Diocese tenha acalmado os ânimos. Entretanto, alguns nós eclesiais precisariam ainda ser desatados na década de 1980.
261
Ibid., p.24. 262
Secretariado Diocesano de Pastoral. A organização pastoral da Diocese até 1988. Datilografado. 1988, p.08
263
3.6 Dácada de 1980: O Bispo Coadjutor e o começo de um novo ciclo da pastoral