É interessante notar que no ano seguinte ao término do Concílio, a Diocese de Montes Claros começou a dinamizar a recepção do Concílio Vaticano II, criando o Secretariado Diocesano de Pastoral202. A primeira medida dessa equipe em vistas de uma assembleia diocesana de pastoral foi a realização de uma grande pesquisa sobre a realidade sócio-eclesial desta cidade do Norte de Minas, ação que repercutiu na imprensa local, o jornal Diário de Montes Claros noticiou que “este levantamento visava a posterior elaboração de um planejamento para os trabalhos da Igreja de Montes Claros”203. O mesmo jornal afirma ainda que um questionário com cento e vinte perguntas foi distribuído para diversos grupos da cidade. De acordo com o Boletim Diocesano de Pastoral204 de três de outubro a onze de novembro de 1966 foram realizados treze cursos de conscientização e atualização do laicato. A doutrina conciliar foi apresentada para discussão em grupos na Matriz, Cintra, Paróquia São Sebastião, Estudantes, Vicentinos e Marianos, Legião de Maria, Catedral, Acadêmicos, Seminários, Movimento Familiar Cristão e outros casais, além do Alto São João e com as religiosas. É notório o empenho deste grupo inicial no sentido de atualizar a pastoral diocesana à luz da doutrina conciliar, o informativo da Diocese salienta a dedicação dos ”expositores e dirigentes de círculos que, sacrificando seus afazeres, vinham ao Secretariado estudar temas e técnicas a fim de garantirem o êxito em seu trabalho”205, e é importante destacar que estes expositores ou dirigentes, em sua maioria, eram leigos; do clero, a figura de
201
Secretariado Diocesano de Pastoral. Boletim Diocesano de Pastora l - Dez-1966, nº2, p.01.
202
Não encontramos fontes para precisar a data do início deste trabalho, mas o Boletim Diocesano em dezembro de 1966 faz menção das atividades deste novo organismo da Diocese ao longo de todo ano de 1966.
203
PESQUISA Sobre a Realidade Católica. Diário de Montes Claros, Montes Claros, 14 ago. 1966.
204
Secretariado Diocesano de Pastoral. Boletim Diocesano de Pastora l - Dez-1966, nº2, p.01.
205
destaque que dinamizava os trabalhos era o Padre Paulo Pimenta, auxiliado pelas irmãs Angelina e Maria Fidelina206.
Também é indicador deste firme propósito em dar prosseguimento aos anseios suscitados pelo Concílio, a vinda a Montes Claros de padres do Regional Leste II da CNBB para ajudar a avaliar o trabalho e assessorar o planejamento pastoral207. Ainda sobre o empenho da equipe diocesana em se preparar para tal missão, o informativo da Diocese comenta da participação do Padre Paulo Pimenta em curso em Belo Horizonte sobre técnica de trabalho em grupo. Sobre este fato, comenta o Boletim diocesano, Padre Paulo “voltou entusiasmado e como sempre muito disposto a continuar o processo de planejamento”208.
Diante de tantas iniciativas de formação à luz dos decretos conciliares, convém notar a conscientização do grupo com relação à realidade social. O modo como a secretária de pastoral fala ao se referir ao que se assistia na época é revelador de uma abertura às novas perspectivas que a fé deveria contemplar:
Montes Claros, uma cidade de entroncamento, divisa com a Bahia, ponte para o Nordeste, era terrível o que acontecia aqui naquela época. Éramos revoltados, eu e o Padre Paulo. O povo vinha para cá, para seguir para São Paulo, mas quando chegava aqui o dinheiro acabava e eles ficavam jogados na rua perto da estação, não tinham assistência de nada, nem de ninguém. Estávamos querendo tirar o povo da rua. As pessoas não eram mendigos não, eram pessoas do Nordeste que queriam seguir para São Paulo e que quando chegavam aqui acabava o dinheiro. Tinha muito crime, muita violência, então nós lutamos muito para acabar com a miséria aqui. A Igreja era voltada para as elites rurais, fomos desbravadores do sertão209.
Um outro aspecto que nos chamou a atenção neste período, foi a postura dos leigos durante os cursos de atualização pastoral nas paróquias, pois esta “foi a primeira vez em que os leigos puderam falar algo na Igreja, havia uma insatisfação queríamos transformação”210. Ao que vemos, as pessoas realmente se manifestaram, “falaram sem rodeios os pontos positivos e negativos que acharam, pesando mais os positivos. Os depoimentos deixaram transparecer o entusiasmo e a esperança no Movimento de Renovação da Igreja”211. Este
206
Cf. Ibid.
207
Cf. Secretariado Diocesano de Pastoral. Boletim Diocesano de Pastora l - Dez-1966, nº2, p.02.
208
Ibid.
209
Ibid.
210
ARAUJO, Zuleika Antunes. Op. cit.
211
Secretariado Diocesano de Pastoral. Boletim Diocesano de Pastora l - Dez-1966, nº2, p.02.
mesmo espírito questionador foi retratado no jornal diocesano à época ao comentar sobre os debates, “quando o vento passa sibilando pelos telhados, torcendo galhos, sacudindo velhas arvores, levando consigo uma nuvem de pó a empanar a beleza da natureza, parece nada trazer de positivo. Entretanto, traz escondido em suas asas prenúncios de renovação”212. Isto parece ter soado estranho tanto para alguns clérigos quanto para os leigos, visto que a mesma matéria que trazia o conteúdo destas discussões depois de falar sobre a crítica construtiva como instrumento do homem moderno faz referência ao “parecer de muita gente simples, acostumada a ver na hierarquia algo de intocável”213, e confirma que “ninguém escapou à tesourinha construtiva nestes 13 cursos havidos”214.
Toda esta jornada culminou na realização da Primeira Assembleia Diocesana de Pastoral, cujo objetivo era “renovar a Igreja, conforme a imagem do Vaticano II”215. As próprias reuniões preparatórias para esta assembleia se constituíram num momento privilegiado de exercício de participação, visando despertar os leigos para viver a Igreja renovada proposta pelo Vaticano II. Temos aqui, de fato, a primeira tentativa de aplicar a doutrina conciliar na Igreja Particular de Montes Claros, com destaque para a abertura aos leigos, pois no dizer de Dom Geraldo Magela de Castro, arcebispo emérito de Montes Claros, “o Concílio dizia que a Igreja era Povo de Deus, mas não havia povo de Deus para a recepção desta Igreja”216.
Desta Assembleia surgem então as primeiras Diretrizes Pastorais da Diocese de Montes Claros. A elaboração das mesmas baseou-se no método ver, julgar, e agir. O texto final apresenta a doutrina conciliar sobre determinado assunto, as constatações da realidade, as sugestões dos cursos e as diretrizes e atividades propostas aprovadas. Dom José Alves Trindade, na apresentação do documento217, conclama a coragem de nossa adesão individual a uma responsabilidade perseverante; a humildade pelo trabalho em comum. Com a finalidade de renovar a Igreja, as trinta e oito diretrizes diocesanas conclamava a vivência em comunidade, afim de reproduzir-se pouco a pouco, a imagem da Igreja que o Vaticano II projetou.
Uma análise desta assembleia no contexto do conjunto da história do pós-concilio nesta Igreja local, permite-nos afirmar que nela aconteceu o que Routhier chama de recepção
212
Secretariado Diocesano de Pastoral. Boletim Diocesano de Pastora l - Dez-1966, nº2, p.02.
213
Ibid.
214
Ibid.
215
Secretariado Diocesano de Pastoral.Diretrizes Pastorais de Montes Claros – 1967-1970, p.09.
216
CASTRO, G. M. de. A recepção do Concílio na Diocese de Montes Claros. Simpósio sobre os 40 anos do Vaticano II. Montes Claros. 27 de nov. 2005.
217
querigmática, “o conjunto de esforços postos em obra pelos pastores para tornar conhecidas as decisões de um concílio e as promover eficazmente”218. A imagem de Igreja local plasmada nas diretrizes da Primeira Assembleia Diocesana de Pastoral não foi implementada nas práticas eclesiais como se esperava. A Igreja não estava preparada para tantas mudanças repentinas, havia um clima de incertezas desconfiança neste período. Monsenhor Toletinho relata que, quando padre novo, recém chegado dos estudos em Roma, depois de ter vivido bem de perto a atmosfera do Concílio, ao comentar animado sobre a existência em Montes Claros de diretrizes pastorais já inspiradas no Vaticano II, notou o olhar de reprovação que recebeu de parte do clero, numa reunião Presbiteral. O que encontramos em históricos do Secretariado Diocesano de Pastoral219 é a afirmação de que o documento ficou só no papel. Ao que vemos, as novas estruturas eclesiais nele previstas não foram assimiladas nem em nível de Diocese nem em nível paroquial. Entretanto, se o espírito conciliar não se acomodou de forma conveniente nas estruturas eclesiásticas diocesanas, espaço não lhe faltou, nesta porção do povo de Deus do Norte de Minas.