Se em 1966, na sua Primeira Assembleia Pastoral, a Igreja de Montes Claros buscava abrir-se à renovação proposta pelo Vaticano II, com o intuito de ser uma Igreja Povo de Deus, dando aos leigos espaço para se tornarem sujeitos da ação pastoral , aos poucos, pôde-se ver claramente que os leigos encontraram e assumiram lugar na Diocese de Montes Claros. Os impulsos e motivações originados no Concílio Vaticano II e os apelos do contexto histórico fizeram emergir as mais diversas iniciativas pastorais protagonizadas por leigos na Igreja diocesana do Norte de Minas. Neste sentido, podemos destacar alguns fatos: em 1971, leigos de Montes Claros vão a São Paulo participar do Cursilho de Cristandade para implantá-lo nas terras norte-mineiras no ano seguinte, movimento este que mais impulsionou a participação dos leigos no pós Vaticano II em nossa região220; nesse mesmo ano começam trabalhos de formação de lideranças comunitárias à luz do Vaticano II na Paróquia Senhor do Bonfim em Bocaiúva, com então pároco, Padre Geraldo Magela de Castro, segundo coordenador
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ROUTHIER apud PINHO, José Eduardo B. Op.cit., p.49. 219
Secretariado Diocesano de Pastoral. A organização pastoral da Diocese até 1988. Datilografado. 1988.
220
CASTRO, G. M. A Renovação Pastoral da Arquidiocese de Montes Claros no Período Pós-Conciliar. Montes Claros, 2011. Entrevista concedida à Fábio Vieira de Souza.
diocesano de pastoral, função que assumiu em 1969. Sobre este incipiente movimento de renovação da ação da Igreja, pontua Padre Geraldo, “a gente buscava formar dirigentes de culto, ministros, despertar o povo para coordenar os trabalhos nas comunidades”.221 Esta experiência do Pe. Geraldo Magela em Bocaiúva foi compartilha com o Pe. Osanan, para lá enviado pelo Bispo diocesano, com a finalidade de se preparar com o coordenador de pastoral para que, em seguida, ocupasse esta função na Diocese.
Ao assumir tal encargo, o Pe. Osanan, em 1975, elaborou as Diretrizes Pastorais para a Diocese de Montes Claros. Não foram frutos de uma assembleia, mas apontamentos para orientar a ação pastoral, posto que as diretrizes da Primeira Assembleia, além de não terem sido postas em prática, vigorariam somente até 1970. Neste texto que aparece pela primeira vez a expressão Comunidades Eclesiais Base222.
Logo a seguir, em 1976, casais participam do ECC em São Bernardo do Campo com o Pe. Afonso Pastore e trazem este movimento para Montes Claros, inicialmente na Igreja Matriz de Nossa Senhora e São José223;
Um outro movimento que encontrou espaço em Montes Claros foi a Renovação Carismática Católica, trazido para a Diocese em 1975 por um grupo de leigos que participaram de um encontro na capital mineira. O jornal diocesano Koinonia em sua edição de maio de 1979 analisa amplamente a atuação da RCC, por se tratar de um movimento novo, com um jeito de atuação e práticas que eram, até então, desconhecidas no cenário católico. Quem assinou a matéria foi o Pe. Tadeu, responsável por acompanhar o grupo.
Em nossa Diocese, o Sr. Bispo tem conhecimento da RCC e assumiu a posição da CNBB - permissão cautelosa... Há seis grupos organizados na cidade de Montes Claros e há também em Bocaiúva... temos promovido, na cidade de Montes Claros, retiros e encontros de aprofundamento. Quando das grandes festas litúrgicas celebramos uma assembleia. Na última, terça- feira de páscoa, reuniram-se mais de setecentas pessoas224.
Padre Tadeu, coordenador diocesano de pastoral, fala ainda da sua profunda experiência com o movimento da Renovação,
221
CASTRO, G. M. A Renovação Pastoral da Arquidiocese de Montes Claros no Período Pós-Conciliar. Montes Claros, 2011. Entrevista concedida à Fábio Vieira de Souza.
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Cf. SECRETARIADO DIOCESANO DE PASTORAL. Diretrizes Pastorais de Montes Claros –1975-1978.
223
Mameluque, G. A Pastoral Familiar na Arquidiocese de Montes Claros. Montes Claros, 2011. Entrevista concedida à Fábio Vieira de Souza.
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Secretariado Diocesano de Pastoral . Boletim Diocesano Koinonia. Maio, 1979, nº1, p.32.
para mim, pessoalmente, a RCC representou a retomada do meu sacerdócio, não digo numa estrada de flores e bonita (não se existe tal estrada), mas, colocou-me com os pés mais firmes em qualquer estrada e, qualquer estrada do discípulo é um bom pedaço de calvário...quanto a uma experiência mais pessoal, marcou-me muito um reconhecimento, em nível de opção, de Jesus como Senhor (o dono), Jesus Cristo como o Bom Pastor. Tal experiência eu a vivi em Ribeirão Preto, num retiro espiritual em 1975. Foram momentos inesquecíveis vividos com o Bom Pastor, com seu amor pessoal225.
Do ponto de vista pastoral, a análise do Padre Tadeu busca demonstrar a pertinência do movimento, “ eu vejo na renovação uma oportunidade de canalizar, sadiamente, a nossa religiosidade popular. Sinto que a renovação traz uma dinâmica oportuna em benefício de uma liturgia que satisfaça”226, e ele continua com seus elogios a Renovação Carismática, “encontro procedimentos úteis para a descoberta e vida de oração, vivência sacramental, fé como compromisso mais pessoal com Jesus do que mesmo um intelectualismo religioso, vejo um forte compromisso com a Igreja...e a existencial compreensão da salvação.”227
Para o então coordenador diocesano de pastoral, o movimento carismático “se coloca como plataforma de todos os engajamentos apostólicos da Igreja”228. Em seu discurso percebe-se claramente a tentativa de se fugir da polarização entre dois modelos eclesiais distintos, “não vejo contradição entre teologia da libertação e a RCC, pelo contrário, se a pastoral é orgânica, o horizontal e o vertical devem se equilibrar, acho que qualquer opção pastoral, se estiver vinculada a posições eclesiológicas parciais, minimistas e exclusivistas, é nociva”229. Este aceno do Pe. Tadeu antecipa algumas dificuldades que a pastoral diocesana iria enfrentar a partir de posturas eclesiais antagônicas e inflexíveis por parte de algumas pastorais e movimentos.
Ainda sobre o emergir do protagonismo dos leigos, o Koinonia de agosto de 1979, trouxe matéria do Padre Zuba sobre o andamento das atividades da Sociedade São Vicente de Paulo na Diocese de Montes Claros. É interessante notar como ele expressa o quadro geral do movimento na região e a influência da renovação conciliar sobre seus trabalhos.
Após o Concílio Vaticano II, sem perder a estrutura básica de sua origem, o movimento vem se adaptando às diretrizes do mesmo e à realidade
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Secretariado Diocesano de Pastoral . Boletim Diocesano Koinonia. Maio, 1979, nº1, p.32.
226 Ibid. 227 Ibid. 228 Ibid. 229 Ibid.
moderna...contamos com 95 conferências... Na área de aprofundamento e preparo, promovemos assembleias, encontros, jornadas, reuniões e o curso de formação vicentina. Este com estrutura, filosofia e espiritualidade próprias, dentro de modernas técnicas psico-sociais adotadas pelos cristãos hodiernos, visa adaptar-nos às renovações eclesiais e ao mundo moderno, às linhas da pastoral de conjunto230.
O mesmo jornal cita a participação de lavradores na Diocese no Encontro Estadual da Comissão Pastoral da Terra em João Monlevade. E acrescenta que meses depois, m 17 de setembro estiveram reunidos com Sr. Bispo Diocesano alguns sacerdotes e cerca de trinta trabalhadores rurais para um dia de reflexão com Pe. Jerônimo da Diocese de Teófilo Otoni, coordenador estadual da CPT, para discutir sobre o problema da terra. O Padre Geraldo Pedro, de Coração de Jesus e o Irmão Marista Afonso Murad foram designados pelo Bispo para coordenarem este trabalho na Diocese231.
Esta nova postura encontrada na Arquidiocese de Montes Claros a partir dos anos de 1970 se tornou objeto de estudo de alguns pesquisadores232. Esta bibliografia revela a presença de fatos e personagens que evidenciam uma Igreja cuja história recente foi marcada pelo espírito conciliar, proporcionando práticas e discursos capazes de colocar a fé em diálogo com a realidade social no sentido de desenvolver um trabalho de conscientização e de transformação socioeconômica, com o leigo assumindo seu papel na Igreja e na sociedade.
Esta transformação no pensamento católico em Montes Claros influenciou a ação de muitos leigos, com uma clara indicação dos desdobramentos sócio-políticos da fé. O processo de redefinição das práticas e do discurso católico no Norte de Minas se acentuou a partir dos fins da década de 1970. Rosely Carlos em sua pesquisa de doutorado, Aprender na Prática: Narrativas e histórias de lideranças camponesas, no sertão, Norte de Minas, nas últimas três décadas, nos apresenta algumas histórias de vida que indicam uma mudança de paradigma religioso no cenário norte mineiro, com um fecundo diálogo entre fé cristã e práxis política. O depoimento de Juarez Teixeira, liderança sindical na luta pela terra e na luta dos assalariados do eucalipto no município de Bocaiúva, reflete uma gradativa mudança de mentalidade. Ele
230
Secretariado Diocesano de Pastoral . Boletim Diocesano Koinonia. Agosto, 1979, nº2, p.12.
231
Cf. Ibid.
232
Abordaram esta temática das transformações da Igreja Católica no Norte de Minas no pós-Vaticano II. Evelina A. F. Oliveira com sua obra Nova cidade, Velha Política: poder local e desenvolvimento regional na área mineira do Nordeste. Maceió: EDUFAL, 2000; Leandro A Mendes com seu trabalho O Povo de Deus na Política: Partido dos Trabalhadores e Igreja Católica em Montes Claros na década de 1980, Dissertação de Mestrado, UFU; Antonio A. Souza, em A Igreja entrou renovadamente na festa: Igreja e carisma no sertão de Minas Gerais, Tese de doutorado, USP, 2006; e Rosely Carlos com sua pesquisa, Aprender na Prática: Narrativas e histórias de lideranças camponesas, no sertão, Norte de Minas, nas últimas três décadas. Tese de doutorado, UFMG, 2011.
“desde criança, junto com sua mãe, participou efetivamente dos grupos religiosos na comunidade... Depois que aprendeu a ler passou a ser o leitor do grupo, puxador da reza e, mais tarde, foi dirigente de culto por 20 anos”233. Sua história de vida revela a entrada de uma nova perspectiva de fé na Diocese de Montes Claros:
“Comecei em 73. Mais aí sim, o que alavancou tudo foi esse movimento das Comunidades Eclesiais de Base, graças, portanto à Teologia da Libertação. Foi onde eu e muita gente abrimos os olhos - que o rezar só por rezar não resolve os problemas e mesmo as ações só da igreja não eram tudo. Era preciso outras ferramentas. Então, a partir das Comunidades de Base, nasceu essa outra visão: que era necessário ter outra organização que não fosse só religiosa”234.
Maria do Rosário Oliveira Costa, da comunidade rural de Catarina, em Bocaiúva, também teve sua trajetória de vida marcada por um engajamento político a partir de sua experiência de fé.
“Destacou-se na década de 80, primeiro como tesoureira do Sindicato dos Trabalhadores Rurais
do seu município... Foi dirigente regional e estadual da FETAEMG (Federação dos Trabalhadores
Rurais de MG)”235. Sobre o momento que antecedeu seu engajamento, suas palavras revelam a
presença de elementos bem próprios da religiosidade popular do sertanejo do Norte de Minas,
”antes disso eu já era rezadeira de terço na comunidade, cantava roda... É cantar as músicas e jogar verso. Aqui sempre na Catarina, porque eu saí daqui pro movimento mesmo por causa desse... conhecimento que a gente tinha. Rezava o terço mais meu padrinho Agostin, o pessoal chamava “Agostín, tem um terço de Santo Antônio, nós vamos rezar pra Santo Antônio, pra Bom Jesus, pra Santos Reis”. Ele era folião, em casa falava: “Eu queria que fosse você que fosse rezar pra nós lá na folia”. Então lá ia ele rezar o terço e a gente combinava antes: “Eu rezo a Ave Maria e ocês responde a Santa Maria”236.
Para Rosely Carlos, da reza na comunidade, Maria do Rosário, influenciada pelos novos discursos religiosos que passaram a se fazer presente nesta Igreja local, se tornou referência feminina no sindicalismo rural, na região e em Minas Gerais237.
Mendes, em sua dissertação, O Povo de Deus na Política: Partido dos Trabalhadores e Igreja Católica em Montes Claros na década de 1980, nos apresenta dois depoimentos que corroboram esta preocupação social que passou a marcar o pensamento católico no Norte de
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AUGUSTO, Rosely C. Aprender na Prática: Narrativas e histórias de lideranças camponesas, no sertão, Norte de Minas, nas últimas três décadas. Tese (doutorado), UFMG, 2011, p.56.
234 Ibid. 235 Ibid., p. 65. 236 Ibid. 237 Cf. Ibid.
Minas, a partir da experiência das comunidades eclesiais de base. São eles os de Maria Helena Mendes e Alvimar Ribeiro. Vale a pena destacar a transformação destes atores sócio-eclesiais no que diz respeito às suas práticas. A primeira, Maria Helena Mendes, foi “catequista nos anos 70 que veio se tornar presidente da associação dos moradores, a frequentar as reuniões da Pastoral Operária e a se filiar ao Partido dos Trabalhadores”238. Já Alvimar Ribeiro, “em meados de 70 iniciou sua atuação na Igreja por meio do grupo dos Vicentinos, logo depois se tornou ministro da eucaristia, em 1979 participou de um Encontro das CEBs em João Monlevade, e logo depois passa a fazer parte da Pastoral Operária e se torna membro do diretório do PT local”239.
Rosely Carlos relata um depoimento deste mesmo senhor Alvimar Ribeiro, numa das primeiras manifestações políticas da qual participou, ainda na ditadura, 1982, no acontecimento que ficou nacionalmente conhecido como o “Ato Político de Cachoeirinha”, narrativa que, ao nosso ver, explicita bem a tomada de consciência política a partir da prática religiosa:
Inclusive, em 82, naquela viagem que a gente fez a Cachoeirinha eu ainda estava exercendo a profissão de pedreiro, nas construções em Montes Claros. Mas enquanto operário me despertou essa solidariedade de conhecer e saber. Na minha cabeça naquele momento a polícia tava do nosso lado e não do lado do pessoal (riso – de si). Pra mim, a polícia ia pra lá pra dar segurança (riso) pra nós, né? Mas quando... inclusive eu fui um dos que fui abordado no ônibus, onde estava Durval, onde estava Pe. Toninho, eu fui abordado pelo policial, que pra mim também usava era espingarda e não aquele fuzil, eu fui abordado e estava com a Bíblia na bolsa. E aí ele me perguntou “cadê o revólver que você vinha trazendo.” E aí eu tirei a Bíblia e falei “ó, meu revolver é esse” (emoção). Mas pra mim, na minha cabeça naquele momento ... pra mim ele estava nos protegendo, a partir do momento que ele tomou a máquina do Pe. Toninho, nessa hora ele fez a gente recolher num canto, nessa hora me dei conta de que realmente eles estavam contra a gente. Que ali eles não tavam era nada a favor de trabalhador e daquilo que a gente tava lutando. Porque a figura do padre, pra gente era muito forte... E eles inclusive só tiraram o filme e devolveram, porque ele [o padre] era cunhado do Aureliano Chaves. [...] Então eu me dei conta de que se fez aquilo com um padre, então eles realmente não estavam a nosso favor. Aí então me dei conta que as coisas começaram a definir na prática... Quer dizer, um policial que toma a máquina de um padre porque tava fotografando eles, a repressão... Então me dei conta que naquele momento a polícia já não estava do nosso lado... Como eles estavam me acusando que eu estava com revólver... então eu já comecei a definir que de fato não estavam ali pra proteger, estava pra reprimir...Esse é o aprendizado na prática... porque vamos supor... naquele momento eu ia na igreja... ia nos vicentinos... mas em
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MENDES, Leandro A. O Povo de Deus na Política: Partido dos Trabalhadores e Igreja Católica em Montes Claros na década de 1980. Dissertação (mestrado), UFU, 2010, p.56.
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momento nenhum você aprendia isso que você fazia uma leitura e refletia. [...] mas eu aprendi foi lá. Até meus colegas de serviço me diziam “Moço, não vai nesse negócio não, que esse negócio é perigoso.” Mas a ansiedade e a curiosidade de conhecer batia mais alto. Podia falar colega, o que quiser, mas naquele momento ali, você se sente, primeiro, apoiado pelos outros, pelo grupo [...] e naquele momento você define mesmo quem é A e quem é B. A polícia está com cachorro, com tudo, te cerca e aí, do lado de cá, você se apóia dentro de uma igreja e você está com seus colegas, você tem ali o cunhado de um cara que assume um cargo alto no Estado, desse cara também é tirado um filme da máquina, quer dizer ali tá muito claro. Te dá toda a clareza de que lado realmente é o lado repressor e de que lado você está...”240.
A história de vida e a trajetória política destas lideranças indicam uma clara mudança de postura de setores da Igreja no Norte de Minas Gerais, enfatizando uma maior preocupação sobre o aspecto social. O nosso olhar percebeu nestes depoimentos a presença de um discurso bem elaborado, que revela uma teologia do engajamento bem própria deste período. Suas próprias experiências revelam uma Igreja atenta às reivindicações sociais do momento. Assim, a presença da Igreja nos sertões Norte de Minas, inspirada nas ideias do pós-concílio, possibilitou entre algumas lideranças locais uma trajetória marcada por uma identidade político-religiosa.
Estes apontamentos nos permite perceber que além do surgimento de novas estruturas de participação - pastorais e movimentos - pouco a pouco uma nova mentalidade em consonância com as ideias conciliares se tornando realidade em alguns setores desta Diocese Norte Mineira. Um exemplo ilustrativo desta transformação vemos no Relatório do I Encontro Regional de CEBs, realizado em Montes Claros em março de 1983. Quando perguntados sobre o papel desempenhado pelas CEBs, os participantes responderam:
Resolução de problemas existentes, auxílio aos necessitados, luta pelos direitos dos menos privilegiados (água, escola, asfalto, mutirão para construção do salão paroquial e da creche), novena de natal em família, campanha da fraternidade, mês da Bíblia; reflexão baseada no método Ver, Julgar e Agir, terços meditados, cultos dominicais, processo de conscientização; Pastoral Operária; Associação de Moradores de Bairro; extensão de séries, campanha mutirão para construção de barracos.241
Além das atividades e iniciativas pastorais elencadas, a Segunda Assembleia Diocesana de Pastoral, realizada em 1980, registrou a participação das seguintes organismos
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ALVIMAR apud AUGUSTO, Rosely C. Op. cit., p. 271
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SECRETARIADO DIOCESANO DE PASTORAL. Relatório do I Encontro Regional de CEBs – Regional Norte. Montes Claros, março de 1983.
eclesiais: Comissão das CEBs, Pastoral da Saúde, Pastoral Carcerária, Pastoral Familiar, Pastoral da Juventude, Pastoral Vocacional, Pastoral Operária, Pastoral da Terra, Comissão de Liturgia, Comissão de Justiça e Paz e de associações e movimentos como o Círculo de Trabalhadores Cristãos, Legião de Maria, Cursilho de Cristandade, Movimentos de Casais e Vicentinos. Chama-nos a atenção o fato de que dez, dos treze movimentos e pastorais elencados surgiram nos cinco últimos anos que antecederam a segunda assembleia diocesana pastoral, indicando uma presença considerável da renovação preconizada pelo Concílio Vaticano II. Os dados ora apresentados, evidenciam que nos anos de 1970, a Igreja Católica de Montes Claros foi marcada por uma efervescência de iniciativas eclesiais cujo núcleo fundamental era composto predominantemente por leigos.
Entretanto, nem tudo são flores. As águas do Concílio que fizeram brotar o trigo trouxeram consigo também o joio. Neste período, segundo Dom Geraldo Magela de Castro, “para se iniciar um trabalho pastoral, um grupo de leigos interessados procurava o bispo, ele consentia, e a nova ação pastoral começava suas atividades, sem uma organicidade que permitisse uma pastoral diocesana de conjunto”242. Embora tal prática favorecesse a participação, tornou-se perceptível alguma insuficiência no que tange aos elementos fomentadores de uma caminhada comum.
Se as estruturas eclesiásticas diocesanas já não haviam se renovado de modo conveniente no imediato pós-Concílio; se houve o surgimento de vários movimentos e pastorais das mais diversificadas orientações teológicas sem o devido alinhamento de suas ações eclesiais; se a crise pós-conciliar na região retirou vários presbíteros das fileiras clericais; somos obrigados a concluir que a Diocese de Montes Claros atravessava por uma crise no final da década de 1970.
A reunião do presbitério em abril de 1979 expôs, sem rodeios e de forma veemente, os problemas que se constatavam nesta Igreja local à época. Primeiro,“questionou-se o estilo de trabalho pastoral feito pelos padres e a eficácia da presença e atuação do Bispo frente à Diocese”243. Em seguida
alguns padres demonstraram o seu descontentamento e suas preocupações diante de certas situações em nossa Diocese. Entre outras. A saída de colegas