Após este longo trabalho, enfim, em maio de 1990 realiza-se a Terceira Assembleia Diocesana de Pastoral, com duzentos e quarenta e oito participantes das diversas paróquias, padres, religiosos e religiosas. Vemos aqui a manifestação do que Borges de Pinho chama de estrutura sinodal ou conciliar da Igreja, que para ele é “a realização do ser mais profundo da Igreja que vive, manifesta e desenvolve a sua unidade, na diversidade de pessoas e de comunidades, na complementariedade de dons tece a sua catolicidade”294. Para Monsenhor Tolentino esta Assembleia “foi o divisor de águas da pastoral diocesana, pois depois de um processo participativo, consolidou-se a visão de uma Igreja povo de Deus vivendo em comunidade, o que apontou caminhos claros para uma pastoral de conjunto”295. Estas diretrizes pastorais apresentaram como objetivo
evangelizar o povo de nossa Diocese, a partir de nossa realidade procurando uma caminhada de conjunto para sermos uma Igreja Povo de Deus, em comunidade, fortalecendo as comunidades locais, seus grupos de base, equipes de serviço e pastorais, sendo uns pelos outros, buscando ser uma Igreja verdadeira comunidade de fé, esperança e caridade, sinal e instrumento do Reino de Deus, que une fé e vida e luta por um mundo justo e fraterno296.
O ponto fulcral dos ensinamentos emanados da Terceira Assembleia Diocesana de Pastoral é o capítulo quatro das diretrizes, que sob o título de “o retrato da Igreja que queremos ser” assinala: “para ser fiel ao projeto de Deus revelado na Bíblia e para transformar
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Secretariado Diocesano de Pastoral.. Texto base para 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral. Cartilha, 1990.
294
PINHO , J. B DE. A recepçâo como realidade ecclesial e tarefa ecuménica , en «Didaskalia» 23 (1993), p.127
295
TOLENTINO, G. M. O Concílio Vaticano II na Arquidiocese de Montes Claros. 2013. Entrevista concedida à Fábio Vieira de Souza.
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a realidade de pecado em nossa região, nos comprometemos a ser uma Igreja, cujo retrato tenha os seguintes traços”297.
O primeiro aspecto ressaltado é o da Igreja Povo de Deus; “queremos ser uma Igreja povo de Deus, guiada pelo Espírito Santo, reunida em Jesus Cristo, dentro da realidade e vivendo o compromisso da fé”298.Na explicitação desse ponto vemos uma preocupação eminentemente pastoral, o enfoque é sobre a ação deste povo de Deus da (Arqui) diocese de Montes Claros, a noção teológica de Igreja mistério, da revelação histórica de um desígnio divino, de um acontecimento de salvação contidos na doutrina conciliar299 não foram explicitados, o que vemos é o desejo de se evidenciar a missão específica do sujeito eclesial de um determinada Igreja local.
O segundo traço norteador da pastoral diocesana é o de Igreja Comunidade; “queremos uma Igreja comunidade, que seja lugar de comunhão e participação entre leigo, bispo, padres e religiosos leigos. Padres e bispo bem misturados no meio do povo”300. Apesar do texto deste tópico valorizar as comunidades locais, indicando a necessidade da integração das pastorais e movimentos na vida comunidade e apresentar um modelo de paróquia organizada em comunidades eclesiais de base, chama-nos a atenção o indicativo dos padres e bispos bem misturados no meio do povo, pois parece-nos não haver a compreensão de uma adequada teologia dos ministérios.
O terceiro indicador deseja uma Igreja evangelizada e evangelizadora; onde se diz que “queremos ser uma Igreja que se deixe evangelizar e que seja evangelizadora”301. Acentua-se neste tópico a Palavra de Deus como vida e força da caminhada, com especial destaque para a revelação da vontade de Deus através dos acontecimentos, da comunidade, em vistas de uma transformação duradoura da comunidade.
Igreja servidora é o quarto apontamento da diretrizes da assembleia diocesana; “queremos ser uma Igreja servidora, onde haja participação nos diversos serviços302”. A imagem iluminadora desta dimensão é o “Jesus que veio para servir. Servir ao Pai na construção do Reino”303. O texto fala em equipes de serviço para atender às necessidades da comunidade, e cita a catequese, a liturgia, o batismo, o engajamento nas lutas populares, dando a clara ideia de um efetivo protagonismo dos leigos.
297
Secretariado Diocesano de Pastoral. Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais. 1990, p.26
298
Ibid. p. 27
299
LG 1-8
300
Secretariado Diocesano de Pastoral. Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais. 1990, p.28.
301
Secretariado Diocesano de Pastoral. Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais. 1990, p.29.
302
Secretariado Diocesano de Pastoral. Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais. 1990, p.30.
303
O quinto e último aspecto eclesial delineado pela Terceira Assembleia de Pastoral apresenta uma Igreja com opção libertadora; “queremos uma Igreja a serviço da libertação total do homem, à luz da evangélica opção pelos empobrecidos, lutando pela construção de uma sociedade justa e fraterna, que seja sinal do reino definitivo”. Este traço reivindica de forma mais incisiva o comprometimento da Igreja diocesana com a transformação social. A libertação dos empobrecidos e a necessidade de uma caridade libertadora que supere o assistencialismo é a tônica desta diretriz eclesial. “Queremos uma Igreja que olhe bem para a vida do povo, para suas dificuldades, alegrias e tristezas”304, numa clara alusão aos ensinamentos conciliares contidos na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que aborda o tema da Igreja no mundo de hoje.
Estes cinco traços da Igreja que queremos ser, propostos pela assembleia diocesana reivindicam a urgência da necessidade de se renovar atitudes pastorais e para isto precisaria-se de medidas de ações conjuntas para toda Diocese que pudessem servir de orientação pastoral para esta Igreja particular e isto em sintonia com os apelos do Concilio Vaticano II, os documentos da Conferência Episcopal Latino Americana - Medellin e Puebla – os documentos da CNBB e a realidade sócio-eclesial da região. Assim, quatro encaminhamentos concretos para a ação pastoral foram indicados.
O primeiro encaminhamento diz respeito ao batismo; depois de explicitar a teologia do batismo, o documento diocesano apresenta normas pastorais comuns para preparação e administração deste sacramento. Podemos afirmar que esta foi a primeira ação concreta no intuito de se estabelecer em todas as paróquias e comunidades uma linguagem e práticas comuns a partir de uma norma própria da Igreja local. O processo participativo de elaboração destas normas e o modo como elas foram assimiladas pelas discussões tanto nas comunidades quanto a nível diocesano nos indica claramente que esta experiência pode ser compreendida como uma espécie de ensaio para que a partir dela se desenvolvesse uma ampla pastoral de conjunto que contemplasse os mais diversos aspectos da vida eclesial.
O segundo encaminhamento prático da Terceira Assembleia Diocesana fala de uma catequese libertadora. O texto dá pistas de ação para a transmissão da fé nas comunidades. Indica a necessidade de uma catequese narrativa que possa “ajudar as pessoas a conhecer a Palavra de Deus, conhecer a história do povo da Bíblia, conhecer o jeito com que Deus trata o seu povo”305, mas que povo? O povo desta (Arqui) diocese. Apresentar a realidade sócio- eclesial do Norte de Minas é uma outra orientação, um indicativo de que a “catequese deve
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Secretariado Diocesano de Pastoral. Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais. 1990, p.39.
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educar a pessoa para unir fé e vida”306. Interessante também notar que o documento entende como catequese toda ação educativa da Igreja, “missa, círculo bíblico, curso de noivos, etc”307.
O terceiro tópico apresentado como caminho para se chegar ao modelo de Igreja local plasmado no documento diocesano aborda a temática dos ministérios ou serviços. O texto da assembleia salienta: “Para que a Igreja que queremos ser tenha vida, é preciso que os cristãos coloquem a serviço da comunidade os dons que receberam do Espírito Santo”308. Vemos aqui o desejo de se fomentar a corresponsabilidade dos leigos na ação pastoral, em função, principalmente, da extensão da Diocese e do número insuficiente de padres. A assembleia pensou em organismos de participação que favorecessem a implementação de uma pastoral orgânica. Foram apontados então, em nível de Diocese o conselho diocesano de pastoral e o secretariado diocesano de pastoral, e nas paróquias os conselhos paróquias e as equipes de coordenação de comunidade. E o texto foi além, se dirigindo diretamente aos leigos, “precisamos também de ministros extraordinários, mulheres e homens, que assumam algumas funções exercidas por padres e diáconos, tendo em vista a quantidade de comunidades e cristãos a serem atendidos”309. Ministros extraordinários da comunhão eucarística, do batismo, da Palavra, dos enfermos, das exéquias e assistentes extraordinários do matrimônio foram sugeridos como necessários, ressaltando ainda a possibilidade futura de alguns destes virem a se tornar diáconos permanentes. Com estes ministérios, destaca a orientação diocesana, “a comunidade se sente mais responsável por sua vida de fé e de celebração dos sacramentos. A Igreja vai se tornando toda ela ministerial”310.
A quarta e última pista de ação da pastoral diocesana aprovada na Terceira Assembleia traz o conceito-chave pastoral de conjunto. A teologia desta orientação emerge da noção Igreja-comunhão presente na doutrina conciliar. Nesse sentido a diretriz diocesana destaca a razão teológica deste modo de se compreender e organizar a pastoral, a “ Palavra de Deus nos chama a vida de comunhão com Ele e com os irmãos”. por isso, explicita o texto, “a Igreja deve estar a serviço desta comunhão, dentro dela e na sociedade”.311 O que nos leva a constatar que na fundamentação teológica de uma pastoral de conjunto a assembleia contemplou dois aspectos da mais alta conta para a eclesiologia que emerge dos decretos
306
Secretariado Diocesano de Pastoral. Compromissos Eclesiais e Diretrizes Pastorais. 1990, p.39.
307 Ibid. 308 Ibid. p.41. 309 Ibid. p.43. 310 Ibid. p.43. 311
conciliares, os elementos ad intra e ad extra, da Igreja consigo mesma e da Igreja em sua relação com a sociedade. Pensando numa organização coordenada que favoreça uma maior participação de todo povo de Deus, o texto sublinha a importância de se criar estruturas diocesanas que facilitem uma ação eclesial ordenada em vistas de encaminhamentos comuns para toda a Igreja local. Assim, foram estabelecidos organismos diocesanos de pastoral de conjunto. Primeiro, um conselho e uma coordenação diocesana de pastoral, ambos com uma representatividade maior de leigos. A coordenação, por exemplo, apresentava em sua composição dez leigos, três religiosos e dois padres. Instituiu-se também o secretariado diocesano de pastoral.
Esta Terceira Assembleia Diocesana de Pastoral realizada vinte e Cinco anos depois dos primeiros contatos desta Igreja local com as ideias conciliares, é o ponto de chegada de nossa pesquisa, pois a partir dos encaminhamentos deste evento, a Igreja Particular de Montes Claros foi, progressivamente, consolidando ainda mais a sua renovação pastoral, à luz do Concílio Vaticano II. Esta porção do povo de Deus no Norte de Minas Gerais começa, então a delinear uma identidade diocesana própria, dando mais vigor à inspiração conciliar de Igreja Povo de Deus.