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a) Analisador 1 – Internação como forma de “acolhimento” para mulheres em situação de violência

Foi difícil a abordagem aos profissionais do hospital, a espera para ser recebida pela psicóloga e pela assistente social foi longa, esperei por mais de duas longas horas para realizar as entrevistas. As perguntas não se direcionaram para os casos das usuárias que haviam sido internadas lá, mas sim, perguntou-se a respeito dos cuidados direcionados às mulheres em situação de violêcia, a articulação com a rede de atenção às mulheres, o conhecimento das políticas para mulheres e a interface entre os fenômenos violência e transtornos mentais. Ou seja, o roteiro era semelhante senão

igual ao roteiro semiestruturado direcionado para a equipe do CRMC/RN. Tal roteiro segue por todos os serviços do itinerário percorrido.

A primeira pergunta tinha o intuito de saber se naquele hospital psiquiátrico era comum a queixa de mulheres que viviam em situação de violência no momento de sua chegada. Em maioria, as respostas obtidas revelaram que inicialmente esta questão não era comum, que raramente essa demanda aparecia de forma expressa e, caso houvesse, seria difícil de esconder, pois segundo os profissionais “elas chegam tão fragilizadas e necessitadas de atenção que ao serem internadas sentem-se seguras” (Profissional do Hospital Psiquiátrico Dr. Severino Lopes).

Em relação à existência de algum tipo de protocolo no acolhimento inicial que abordasse o tema da violência, evidenciou-se, por parte dos profissionais entrevistados, que esta temática não fazia parte da abordagem inicial na chegada das usuárias. Tais situações só poderiam ser expressas ou visíveis quando a “mulher” (paciente) já estava internada e passava pelos atendimentos psicológicos e pela assistência social do hospital:

Pelo que eu posso dizer é que às vezes, a equipe que recebe a paciente vem dizendo: “a paciente estava com agitação”, esse é o chavão. Com o tempo, quando ela está em condições de informar se por trás dessa agitação existiu alguma situação de violência em casa ou social. Às vezes essa situação de explanar a violência é através do acolhimento com a Psicologia depois da internação. (Profissional do Hospital)

A dificuldade em abordar a temática da violência num momento inicial neste hospital é ratificada pelo temor da equipe em “perder” a paciente: a equipe teme pela “desinternação”, “Porque se a gente fizer aquele cerco muito grande, isso acaba

afastando e não consegue intervir. Porque a família vem e tira e a gente não pode impedir ela de tirar” (Profissional do Hospital).

Aí ao invés de a gente ajudar, acaba desprotegendo ela. Agindo assim com mais calma, a gente vai ouvindo, vai trazendo a família para um programa de orientação de uma forma sem abordar diretamente a violência, a gente consegue chegar com mais facilidade. (Profissional do Hospital)

Revela-se aqui que a internação psiquiátrica, segundo a equipe, é uma forma de “proteção” para tais usuárias e que abordar o tema da violência é uma problemática a ser abordada depois que a paciente já está internada. Depois disso, as especialidades Psicologia e Serviço Social entram em ação com suas técnicas para uma abordagem mais específica. Caso contrário, a família poderia levar a paciente do hospital.

A questão consecutiva do roteiro versava sobre a articulação com a rede de atenção às mulheres. As respostas elegem a frustação como sentimento mais próximo da realidade vivida em relação a essa questão no hospital. Os encaminhamentos e a espera da contra-referência são recursos percebidos como insatisfatórios: “A gente encaminha, mas não sabe se a paciente chega lá. Vai saber depois quando ela volta para o pronto- socorro do Hospital Psiquiátrico João Machado” (Profissional do Hospital). Este hospital regula os leitos psiquiátricos do município.

Outro ponto a ser observado é que alguns recursos internos utilizados no hospital, tais como como: palestras informativas com foco na identidade de gênero feminina, são consideradas, por parte da equipe, como “articulações com a rede de atenção às mulheres”: “A gente busca conhecimento da rede, essa semana teve até uma palestra já. Procuramos informar os familiares e as próprias mulheres sobre a situação delas em relação a tudo. Das questões da vida dela, enquanto mulher, enquanto casada, enquanto mãe” (Profissional do Hospital).

A interface entre a violência sofrida e os impactos para a saúde mental das usuárias foi o tema da outra questão. A equipe, acusa a interface, porém não acredita que a situação de violência possa desencadear um transtorno mental, seja ele comum ou severo.

Um modelo ideal de articulação entre as políticas é questionado e as respostas que obtivemos revelam procedimentos centralizados e individualizados nas especialidades no hospital. O trecho que segue nos conta um pouco sobre um mundo lá fora do hospital e o profissional como incumbido de realizar esta ponte. Para tanto ele usa, como meio de transporte, uma escuta isenta de julgamento valorativo. O funcionamento do hospital para estes casos não é questionado:

Eu estou aqui pra trabalhar, pra melhorar a vida dos usuários desse hospital. Eles aqui dentro, enquanto a gente puder articular com o mundo lá fora com as necessidades que eles têm que a gente possa fazer essa ponte inicialmente, mas que eles comecem a se ligar e a fazerem essa ponte. É pensar o que eu faço com essa escuta, porque não faço só “hurrum, ok”, mas o que eu faço com essa escuta não julgando, mas o que cabe a essa demanda. (Profissional do Hospital)

Finalizei esta entrevista pedindo uma sugestão de como abodar a temática da violência num primeiro momento, na chegada ao hospital. Neste sentido a ideia sugerida foi: “A senhora acredita que sofre algum tipo de violência?”. Assim, segundo a equipe, a paciente se sentiria mais a vontade em responder, mas, aparentemente, esta temática ainda não faz parte de uma preocupação deste serviço. Ainda ressoa em meus ouvidos a desimplicação da instituição em relação a esta temática remontando-me a frase outrora escutada: “esta (violência de gênero contra as mulheres) não é nossa demanda”.

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