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I. HAKKÂRİ İLİ HAKKINDA GENEL BİLGİ

I.5. Hakkâri’de Sosyal ve Kültürel Yaşam

I.5.7. Hakkâri’de Masal Anlatma Geleneği

3.3. Gerçeğin Birebir Yansıması Olarak İşlenen Motifler

3.3.9. Yıldız Motifi

Sentado à mesa de uma restauração51, Karl von Koseritz fartava-se com o pedido de porção de carne que havia feito e que repetira outras três vezes, acompanhadas por uma garrafa de Médoc. Logo depois, pediu que lhe trouxessem um charuto, e, assim, tomou um café com a sensação de que era ele um verdadeiro gentleman. Não levava em suas mãos, no entanto, algo que de fato um gentleman gostasse. Mas isso era superficial. “Gott sei Dank!” era a frase que varria seus pensamentos. Tinha, pois, a percepção de ter se tornado ser humano novamente.52

Foi por meio dessas palavras autobiográficas que Karl von Koseritz descreveu parte do seu retorno a Hamburgo, em março de 1851, após a sua primeira experiência marítima a bordo do grande barco Diana, com destino à Bahia, no Brasil. A viagem atendia à vontade do jovem prussiano em transferir-se para o serviço de marinha de um país estrangeiro. Porém, a experiência fora para ele um desencanto, ao recordar-se das dificuldades e dos fardos da vida no mar, bem como lembrar-se das comodidades e do aconchego do lar que havia deixado.

Seu desgosto com o primeiro ensaio marítimo e o retorno à Europa não o impediram de retornar ao Brasil. No dia 22 de junho de 1851, colocou-se a bordo de uma embarcação que transportava mercenários ao Brasil. Sem conhecer o futuro que se desenharia nas décadas seguintes, ficaria ele distante por mais de trinta anos de sua terra natal. A partir dessas notas biográficas que se encontram em texto publicado em seu almanaque anual, cabe compreender a conjuntura que integrou Karl von Koseritz ao Brasil.

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GERTZ, René (org). Karl von Koseritz. Seleção de Textos. Porto Alegre: Edipucrs, 1999, p. 7.

51 Na descrição feita por Koseritz, a palavra Restauration, denominação bastante usual para a época, pode ser

tratada como sinônimo de restaurante, já que esta é uma palavra que deriva originalmente da palavra latina “restaurare” ou “restauratio”, ou seja, por referir-se a locais em que a força física era restaurada por meio da alimentação.

O jovem Karl Julius Christian Heinrich Ferdinand von Koseritz nasceu em 3 de fevereiro de 183053, em Dessau, ducado de Anhalt54 e era filho do Barão Karl Johann Friederich von Koseritz, major e diretor do real correio prussiano, e de Wilhelmina Caroline Stedingk von Koseritz. Em Dessau, frequentou o colégio Philantrophium, e quando adolescente, dedicou-se aos estudos de política, chegando, inclusive, a participar dos movimentos liberais na cidade de Berlim. Segundo Sérgio Roberto Dillenburg, em consequência disso, tornou-se aluno interno do colégio Wittenberg, represália aplicada por seus pais.55 Não se adaptou, no entanto, à disciplina rígida, e, após quatro semanas, abandonou o local. A partir de então, passou a dedicar-se à leitura de clássicos, entre eles Schiller, e outras obras cujo tema se concentrava em episódios de guerra e de revoluções, bem como livros que narravam a vida exótica em países e lugares distantes. Mais tarde, em 1848, o redemoinho revolucionário, segundo Oberacker, parece ter empolgado Koseritz, arremessando-o para fora da trajetória preestabelecida.56

Do outro lado do oceano, as agitações políticas da metade do século XIX envolviam a fronteira entre o Império brasileiro e as nações platinas – Argentina e Uruguai. Essa tensão diplomática promoveu a chegada de mercenários ao Brasil, que consequentemente, somada a outros fatores, fez com que o jovem Karl von Koseritz adotasse o país como sua segunda pátria e sua morada definitiva. A tarefa atribuída por D. Pedro II ao Tenente Coronel Sebastião do Rego Barros57, que se dirigiu à Europa, resultou na obtenção de armamentos e de equipamentos, bem como na contratação de uma organização militar, que já se encontrava formada desde 1848 para defender os interesses do ducado de Schleswig e do condado de Holstein58, e que foi dissolvida em janeiro de 1851. Os resultados do

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Há controvérsias sobre a data de nascimento. Oberacker destaca o ano de 1834, atestada pela existência de uma cópia da certidão de nascimento de Koseritz, no Instituto Martius-Staden, em São Paulo, além de apresentar a Igreja e Castelo de Stª Mary como local do batismo, em 16 de março de 1834. Por outro lado, Imgart Grützmann, a partir de um texto de Koseritz, vale-se do ano de 1830 para o seu nascimento, sustentado pela afirmação autobiográfica de que em 1852, tinha Koseritz vinte e dois anos de idade. Optamos em utilizar o ano de 1830, pela confirmação da idade feita pelo Deutsche Zeitung, em nota sobre a morte de Koseritz, dizendo que ele teria alcançado sessenta anos, em 1890. Cf. Deutsche Zeitung, 3/6/1890.

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Encontra-se no arquivo do Instituto Martius-Staden, em São Paulo, fotocópia da certidão de nascimento de Karl von Koseritz, bem como a cópia da certidão de emigração, em 1857.

55 DILLENBURG, Grandes nomes da comunicação..., op. cit., p. 5.

56 OBERACKER JR, Carlos H. Carlos von Koseritz. São Paulo: Anhambi, 1961, p. 20. 57 Foi Ministro da Guerra, em 1837.

58 Os mercenários contratados haviam lutado contra a Dinamarca nas batalhas de Idstedt (24 e 25 de julho de

1850) e Friedrichsstadt (4 de outubro de 1850). Cf. DREHER, Martin Norberto. Wilhelm Rotermund. Seu tempo – Suas obras. São Leopoldo: Oikos, 2014, p. 22. Datada em 6 de novembro de 1850, a Lei do Orçamento nº 586 permitiu que o Poder Executivo do Brasil arregimentasse estrangeiros para a 1º Linha do Exército, para

empreendimento militar foram significativos: entre abril e setembro de 1851, dirigiu- se ao Brasil um grupo composto por mais de 1.700 soldados, entre eles 50 oficiais, tecnicamente e intelectualmente qualificado para a guerra.59 As despesas com a vinda do contingente eram de responsabilidade do Império. Os mercenários, ao ingressarem no batalhão, passavam a receber 25 táleres60 da moeda pátria. Ao final dos confrontos, entre as diferentes possibilidades oferecidas, prometia-se a doação de terras (cada soldado poderia receber 22.500 braças quadradas de terras coloniais), a oferta de prêmio em dinheiro ao final de quatro anos (período de validade do contrato), a viagem de regresso gratuita a qualquer porto europeu, ou receber 80$000 em ouro61.

Em agosto de 1851 aportava no Rio de Janeiro62 o veleiro Heinrich. Trazia consigo parte dos soldados e dos oficiais que pertenciam à “Legião Alemã” que o Império brasileiro mandara buscar para empreender a luta contra Rosas. O comandante Boyen – o “velho prussiano com a peruca despenteada” – estava acompanhado por um efetivo formado de 156 homens, pertencentes ao agrupamento de Infantaria. Ao chegar ao Rio de Janeiro, os mais de cem homens gritavam de maneira entusiasmada: “Sie leben hoch, hoch lebe sie, die brumsilianische Artillerie!” Koseritz encontrava-se no alto da verga do Royal-Sails, de onde avistava o Pão-de-Açúcar, o Corcovado, a Tijuca, etc. Sua calça de couro e sua camisa azul podiam destoar dos trajes oficiais da embarcação, mas as expectativas pela nova terra eram, certamente, as mesmas dos demais homens que ali se encontravam.63

serem empregados nas fronteiras. A ação fazia parte dos preparativos para a mobilização para a Guerra contra Oribe e Rosas, consistente em elevar-se a 1º do Exército ao efetivo de 26.000 homens. Cf. BENTO, Cláudio Moreira. Estrangeiros e Descendentes na História Militar no Rio Grande do Sul de 1635 a 1870. Porto Alegre: A Nação/DAC/SEC, 1976.

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A primeira embarcação, o veleiro Hamburg sob orientações do comandante Henrichsen, partiu no dia 7 de abril e chegou ao Rio de Janeiro em 25 de maio, transportando um efetivo de 270 homens, distribuídos em 1ª e 3ª Companhia. No total, deslocaram-se da Europa para o Brasil 10 embarcações que trouxeram homens, artilharia e equipamentos de guerra. Idem

60

Moeda de prata.

61 MARQUES, Luiz Alberto de Souza. Memórias de um de um professor: a instigante história de vida do

professor Frederico Michaelsen - de imigrante contratado como soldado mercenário na guerra contra Rosas em 1851 (Argentina) a professor primário em colônia alemã do Rio Grande do Sul. História da Educação, Pelotas, v. 14, n. 30, p. 181-205, jan.-abr. 2010, p. 187.

62 As datas foram estimadas por Cláudio Moreira Bento, com base na viagem de Caesar Godeffroy, de 47 dias.

BENTO, Estrangeiros e Descendentes na História Militar..., op. cit., loc. cit.

63 Os detalhes dessa chegada de Koseritz ao Brasil são resgatados na obra Bilder aus Brasilien (Imagens do

O primeiro alojamento dos soldados, a caserna da Praia Vermelha, foi construído aos pés do Pão-de-Açúcar. Para Koseritz, o serviço militar estava concluído, e uma nova etapa se abria ao jovem alemão. Na manhã seguinte, os companheiros de viagem Jansen e Wedel buscaram-no e levaram-no à terra firme. Tornava-se soldado, sendo incorporado como mercenário ao 2º Regimento da Reserva da Cavalaria montada a pé.64 Mais tarde, ele e uma parte dos mercenários foi deslocada para o sul do Império, à cidade portuária de Rio Grande, onde Koseritz limitou-se aos serviços de caserna.

Embora sua chegada ao Brasil estivesse vinculada a um projeto militar do Império, Karl von Koseritz logo abandonou a tropa, assim como outros o fizeram. Conforme Hilda Flores65, a maior parte dos legionários permaneceu como força reserva, e somente 80 artilheiros e algumas centenas de sapadores66 engajaram-se na Batalha de Monte Caseros67, cuja luta resultou na derrota de Rosas.

O grupo de soldados europeus era constituído por um corpo de homens bastante heterogêneo, marcado pela ausência de um real conteúdo que os unisse e que justificasse a mobilização que os levaria para uma grande travessia, do Velho para o Novo Mundo.68 Problemas como o desconhecimento em relação ao país, a subestimação do grau de instrução dos soldados, desentendimentos provocados por diversos motivos com as autoridades militares brasileiras, bem como descontentamentos com autoridades oficiais da Legião, somado ao espírito aventureiro, dispersaram um bom número de homens para outras direções. Em pouco tempo, a Legião foi dissolvida, e alguns soldados retornaram à Europa, enquanto outros aqui permaneceram e passaram a exercer papéis distintos daqueles que inicialmente os trouxeram ao país. Alguns deles desempenharam influência política, econômica e social, sendo conhecidos, também, como Brummer. Karl von Koseritz foi um desses personagens que continuou a fazer sua vida no Brasil.

Brummer, em alemão, significa “zumbidor”, “rezingão”, “murmurador”, descontente com a sua sorte. Um dos Brummer relatava que chamavam assim as

64 A descrição do momento de chegada ao Brasil foi retomada por Koseritz na importante obra Bilder aus Brasilien, 1885, p. 19.

65

FLORES, HILDA. Prefácio. In: Memórias de Brummer. Porto Alegre: EST, 1997, p. 8.

66 Soldados encarregados de abrir fossos, trincheiras ou galerias subterrâneas. 67

Em 3 de fevereiro de 1852, ocorria a mais importante batalha contra a aliança Oribe-Rosas, que foi derrotada por tropas oriundas do Brasil, do Uruguai e das províncias argentinas de Entre Ríos e Corrientes.

moedas graúdas de cobre que recebiam os soldados como soldo, passando a expressão a denominar os próprios mercenários69. Brummer de destaque: Barão von Kahlden, além de Karl von Koseritz, Wilhelm ter Brüggen e Frederico Hänsel, que foram membros da Assembleia Provincial do Rio Grande do Sul; Herrmann Rudolf Wendroth, pintor que registrou em aquarelas a vida da província naqueles tempos; Franz Lothar de la Rue, primeiro diretor da colônia de Teutônia; Carl Otto Brinckmann, atuou na imprensa em Santa Maria; Carlos Jansen, jornalista em Porto Alegre.

A tarefa como mercenário foi, de fato, efêmera. Koseritz não se envolveu nas batalhas para as quais alguns de seus companheiros foram levados. Desertou, e passou a construir uma trajetória de vida no Rio Grande do Sul, alinhada às principais questões que marcaram sua época. Conforme Carneiro70, do gesto de desistência desculpar-se-ia mais tarde, lembrando que havia deixado a Legião antes mesmo do juramento à bandeira, ou a qualquer pagamento que pudesse vir a receber.

Assim, estabeleceu-se na província de São Pedro do Rio Grande do Sul, permanecendo primeiramente na cidade de Rio Grande, e, mais tarde, em 1852, fixou-se em Pelotas. Foi cozinheiro, trabalhador jornaleiro e portuário. Segundo Oberacker71, os primeiros momentos de sua vida foram difíceis, como as noites de inverno, quando buscava abrigo debaixo de um forno de pão, para poder contornar as dificuldades nas quais se encontrava. Resultado da sua situação miserável, debilitado pela fome e pelo reumatismo, foi recolhido à Santa Casa de Misericórdia da cidade, quando então conheceu o jornalista francês Telêmaco Bouliech72, engajado em ações de caridade, bem como no quadro maçônico da localidade, fato que sugere o primeiro contato que Koseritz tivera com a maçonaria brasileira. Permaneceu internado durante algumas semanas, e, depois que se encontrava novamente restabelecido, rumou à região da Campanha, onde foi contratado como professor particular e de piano, e vagou, também, como tropeiro. Nesse momento, pelo ano de 1855, casou-se com a filha de um estancieiro da região, Zeferina Maria

69 OBERACKER, Carlos von..., op. cit, p. 17. 70

CARNEIRO, Karl von..., op. cit., p. 9.

71

OBERACKER, op. cit., p. 22.

72 Segundo Elaine Colussi, Bouliech aparece indicado como dirigente maçônico da loja Honra e Humanidade de

Pelotas, desde 1855. Cf. COLUSSI, Elaine Lúcia. Plantando ramas de acácia: a maçonaria gaúcha na segunda metade do século XIX. Porto Alegre: Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, 1998. Tese (Doutorado em História), Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1998, p. 319.

de Vasconcelos. Suas habilidades pessoais e o domínio crescente da língua portuguesa levaram-no gradativamente a uma posição de destaque, o que incluía, mais tarde, uma carreira na área da imprensa.

Casado, mudou-se para Rio Grande, em 1855. Segundo alguns de seus relatos, chegou à cidade com sua esposa, sem qualquer bem material. Dedicou-se à atividade de contador nos negócios comerciais de José Maria Perry de Carvalho. O leiloeiro, que negociava mobílias, porcelanas e também escravos73, enxergava em Koseritz a possibilidade de continuidade aos negócios. Porém, não era esse o desejo do jovem alemão. Percebia-se, naquele momento, como um homem voltado muito mais para as atividades literárias, elaborando, no escritório do senhor Carvalho, alguns planos, como a redação de suas memórias e a produção de poesias. Quanto ao primeiro projeto, desistiu. O segundo foi abandonado depois que enviou o caderno com os seus versos à sua mãe, que opinou dizendo que ele havia escrito coisas interessantes, mas, no geral, a leitura se tornara algo incompreensível.

As tentativas de Koseritz quanto à busca de um ofício que valorizasse o seu talento para a escrita não cessaram. Ele redigiu uma carta a Jansen, que dirigia o jornal Einwanderer, em Porto Alegre, porém, sem sucesso, já que o amigo não necessitava de grandes auxílios na tipografia. Passou a investir na produção de artigos para jornais brasileiros, pois acreditava já ter um domínio completo sobre a língua do país. Sendo assim, apresentou um projeto de 80 páginas, intitulado Crime de Guerra, que foi rejeitado pelo proprietário do jornal Diário do Rio Grande, Antônio Estevão, alegando que não havia espaço suficiente para publicar algo tão extenso como aquilo que havia escrito. Sem desistir do seu objetivo, foi apresentar o mesmo projeto a Bernardino Berlink, do jornal Rio Grandense. A receptividade ao texto do jovem escritor foi a mesma. Berlink, no entanto, desafiou Koseritz a escrever algo sobre outro tema. Após uma longa conversa, segundo o relato de Koseritz, foi contratado como ajudante. Nesta tipografia, Koseritz pouco recebia pela produção de alguns artigos, mas o valor real do ofício manifestava-se pelo aprendizado proporcionado para dominar melhor a língua local, para reconhecer o conteúdo e o

73 Cf. CARATTI, Jônatas Marques. O solo da liberdade: as trajetórias da preta Faustina e do pardo Anacleto pela

fronteira rio-grandense em tempos do processo abolicionista uruguaio (1842 – 1862). São Leopoldo: Unisinos, 2010. Dissertação (Mestrado em História), Programa de Pós-Graduação em História, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2010, p. 49.

tom adotados pelas técnicas da imprensa, bem como para iniciar uma aproximação ao público leitor do Rio Grandense.

No final do mesmo ano, assumiu a função de professor no Collegio União, em Pelotas, decisão que o fez mudar de cidade. Em 1856, publicou o seu primeiro livro, pela tipografia de Luís José de Campos. Segundo Koseritz, a obra foi utilizada pelos seus alunos, diante da ausência de materiais dessa natureza, além de auxiliar “aos respectivos Senhores Professores na sua, mais que árdua tarefa de ensinar a História Universal sem compêndio português algum”.74

Koseritz relata que, na época de sua chegada a Pelotas, existia um pequeno periódico, que circulava duas vezes por semana e que era redigido por Telemeco Bouliech. Em 27 de setembro de 1856, entrou para a redação dessa folha. Dedicou- se a fazer análises da política europeia, bem como a noticiar importantes fatos locais. Ao mesmo tempo, auxiliou na criação do gênero crítico no folhetim de Pelotas, usando os pseudônimos Vigia e Cosmopolita. Koseritz acreditava que, de fato, o seu ponto forte era a crítica teatral, ao reconhecer que integrava uma capacitada comunidade dramática na cidade. Para tanto, destacava os nomes de Joaquim Augusto e Dona Rosina de Souza.

Foi em Pelotas que Koseritz também reencontrou Herrmann Rudolf Wendroth75, também Brummer, pintor de importantes telas e cenas sobre o Rio Grande do Sul. Tanto em Rio Grande quanto em Pelotas, ambos acabaram excedendo-se em seus encontros, com farras e bebidas. Em registro escrito no almanaque, Koseritz escreveu que “para a decoração local, os anteriores ocupantes (principalmente Wendroth) preocuparam-se em encher as paredes com caricaturas e produções literárias”76, fazendo alusão ao espaço da sela na qual Wendroth teria ficado preso, e mais tarde o próprio Koseritz. Além disso, passou a fazer parte de outros espaços sociais, que incluíam expoentes literários, como Lobo da Costa77 e

74Citação presente no periódico O Brado do Sul, 15 de junho de 1859, p. 3. Cf. MELLO, Juliane, Cardozo de.

Carlos de Koseritz. In: Dicionário de autores de Rio Grande do século XIX. Disponível em

<http://www.fontes.furg.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4&Itemid=2> Acesso em 17 de abr. de 2013.

75 Integrante da Legião Alemã, após o fim da guerra para a qual foi contratado, Wendroth teve passagem em Rio

Grande, Pelotas, Porto Alegre, Rio Pardo e Lavras do Sul.

76Koseritz’ Deutscher Volkskalender, 1881, p. 87.

77 Jovem, aos doze anos, Lobo da Costa dedicava-se a escrever poesias. Alguns de seus poemas foram

Bernardo Taveira Junior78, que exemplificam o gosto de Koseritz pela arte de escrever.

Ao final do ano de 1857, retirou-se do Collegio União e fundou o seu próprio estabelecimento de ensino, associando-se a Emil Grauert. O empreendimento tornou-se um espaço conhecido para a cidade, e Koseritz pôde garantir a si uma vida mais tranquila e segura. No entanto, dizia que a imprensa não o deixava em paz, mesmo que tivesse abandonado as atividades como redator do jornal O Noticiador, para assumir a função de professor.

Com o passar do tempo, deixou de lado as atividades da escola para dedicar- se a um caderno mensal de ficção. Não era uma imprensa política, e tinha lá suas vantagens, uma vez que esse tipo de escrita não despertava inimizades, como acontecera em outros periódicos ao longo de sua atuação na imprensa. Mais seguro e com condições econômicas confortáveis, Koseritz comprou uma pequena oficina em Jaguarão, montou-a numa casa vizinha a sua, e nomeou o tipógrafo Lourenço da Motta, como sócio, deixando a ele a responsabilidade pelos negócios. Não pretendia enriquecer com a atividade. O seu desejo era escrever. Nascia, então, o Ramalhete Rio Grandense, que resultou na circulação de três ou quatro cadernos de periodicidade mensal, nos quais Koseritz experimentava o gênero da novela. O material era complementado com textos científicos e de crítica. Já para a parte poética, contava com alguns colaboradores. Com o passar do tempo, renovou os materiais de impressão, e assim que a tipografia pode ser montada, animou-se para