Nesse subgênero, estão os escritores que buscaram no jornalismo uma forma de sobreviver financeiramente e divulgar o seu trabalho, da mesma forma que foi descrito no item 3.4 deste trabalho. Como já ressaltado, é extensa a lista de escritores que encontraram no jornalismo uma profissão que conta com a palavra escrita como principal ferramenta de trabalho. A diferença, porém, entre os jornalistas puro sangue candidatos a escritor, apontados anteriormente, e os personagens-jornalistas dos romances de Erico Verissimo é que, na ficção, nenhum deles atinge a consagração literária.
Outro ponto importante a se destacar, e que diferencia o “puro sangue Candidato a Escritor” do gênero sanguessuga, é que, apesar de atuar no jornalismo buscando algo para além do próprio jornalismo, o candidato a escritor não pretende a ascensão política e financeira, mas sim uma realização literária que perpassa pela atividade jornalística.
As personagens-jornalistas que aparecem nesse subgênero são: Noel, personagem dos livros: “Um lugar ao sol” e “Saga”; Leocádio Santarém, de “Música ao longe”; e Armênio Albuquerque, de “Caminhos cruzados”. Observa-se, desde já, a diferença entre Noel e os outros dois candidatos a escritores. Enquanto o primeiro atua como repórter no jornal onde trabalha no primeiro romance e em seu próprio jornal no segundo, os outros dois são colunistas que buscam no jornal a divulgação de seus textos. Ressalta-se aqui a função dos colunistas e comentaristas em um jornal:
Na sua mais importante manifestação, esses profissionais são colunistas, com artigos assinados, que aparecem a intervalos regulares, nos jornais, ou comentaristas que dão as suas opiniões com igual regularidade nos grandes programas noticiosos da televisão (HOHENBERG, 1981, p. 399). Além disso, a participação desse colunista nem sempre está de acordo com os interesses da maioria dos proprietários dos jornais em que publicam os seus artigos (HOHENBERG, 1981).
Nesse sentido, foi apresentada inicialmente a figura de Leocádio Santarém, de “Música ao longe”, lançado em 1936. Essa personagem é secundária e aparece pouco durante a narrativa. Como ressaltado, ele não chega a ser um repórter, mas um colaborador candidato a escritor que busca no jornal uma forma de divulgar seus textos. Graças a isso, acaba se tornando uma referência intelectual da cidade fictícia de Jacarecanga, onde se desenvolve o enredo.
O jornal para o qual ele colabora se chama A Gazeta. Além de escrever para esse jornal, ele acaba se tornando uma fonte para os repórteres da cidade. “Um dia descobriram uma pedra esquisita num quintal e foram pedir para o seu Leocádio dizer o que era. O velho ficou com a pedra muito tempo e depois escreveu um artigo muito comprido na Gazeta explicando” (VERISSIMO, 1983, p. 157). Além disso, ele era descrito como “o cidadão mais bem instruído de Jacarecanga” (VERISSIMO, 1983, p. 71), e as suas participações no jornal frequentemente eram no sentido de tratar sobre assuntos considerados inexplicáveis pela ciência da época - pelo menos de Jacarecanga. Um exemplo disso foi quando ele escreveu um texto para o jornal local intitulado “O mundo antes do aparecimento do homem”. Entretanto, sua participação no romance não dura muito, pois ele acaba morrendo na metade do livro.
Outro colunista candidato a escritor da obra de Erico Verissimo é Armênio Albuquerque, de “Caminhos cruzados”, publicado em 1935. Na obra, Erico Verissimo
enfatiza as diferenças sociais, tendo como palco a cidade de Porto Alegre. O romance conta a história de diversas personagens narrada a partir de suas trajetórias em cinco dias, com início no sábado e término na quarta-feira. Como a maioria dos jornalistas da época, Armênio Albuquerque possui formação em outra área, no caso, no Direito. Ele trabalha como cronista da revista local Pathé Baby, semanário da vida social local, e como correspondente de outros dois jornais do Rio de Janeiro. Julga-se um poeta de marca maior. “Ele se gaba de seu grande dinamismo que lhe permite ser com sucesso e a um só tempo advogado de dois sindicatos, cronista social duma revista, correspondente de dois jornais do Rio e leão da moda” (VERISSIMO, 1982, p. 213).
Graças a essa condição, ele frequenta as festas da alta sociedade, onde também revela suas habilidades como observador.
Contempla com uma admiração respeitosa o rosto de Vera. Ela não é propriamente bonita. É esquisita, tem uma coisa diferente das outras. Cabeça miúda, corpo de rapaz, esbelta, gestos masculinos. Exquise. (Armênio gosta de pensar em francês.) Étrange. Fausse-maigre. Tem qualquer coisa de gata. Quelque chose de chatte. Sua voz é algo que lembra um choque de objetos de madeira. Voz de pau - será que se pode dizer assim? E é de boa família, gente de dinheiro, o pai promete fazer carreira na política. Armênio pode pensar à vontade, porque Vera está ausente [...] Étrange! Unique! (VERISSIMO, 1982, p. 95-6).
Inclusive, ele utiliza essas observações nas suas crônicas para o Pathé Baby. “A senhorita Fulana com o seu vestido de tal cor e o seu jeito assim. A senhorita Beltrana com seus olhos de amêndoas e a sua boca de rubi. E o desfile de flores continua. O poeta olha para tudo, deslumbrado” (VERISSIMO, 1982, p. 213). Na sequência do artigo, o cronista se autodenomina um amante do belo sexo. “Armênio, escrupuloso, arrisca a palavra amante. Vai dar que falar. Alguém pode maliciar. Melhor substituir por admirador” (VERISSIMO, 2981, p. 214).
Armênio é um tipo de jornalista candidato a escritor diferente dos demais, pois ele não almeja a glória literária em grande escala, contentando-se em obter um sucesso no seu círculo de amizades.
Armênio larga a caneta e relê a crônica. Esplêndida! Os rapazes do clube vão comentar. O número de Pathé Baby correrá entre as moças, de mão em mão. No dia seguinte elas lhe hão de sorrir agradecidas. Sim, porque todas sabem que Maurice des Jardins é ele. E Vera? Se comoverá? (VERISSIMO, 1982, p. 214).
Como afirmado anteriormente, a obra: “Caminhos cruzados” causou polêmica na época de sua publicação, pelo tom de denúncia social que ela apresenta. Armênio é uma caricatura do jornalista que ingressava no jornalismo da época com o objetivo de se tornar escritor, não só por amor às letras, mas também para se promover socialmente. Apesar disso, a inspiração que ele tem em escrever sobre o que ele vê acaba caracterizando-o como um “puro sangue Candidato a Escritor”, pois sua maior recompensa está no prazer de escrever para o jornal. “Contente da vida, Armênio sai para a rua assobiando uma valsa de Strauss. Que dia bonito para descrever numa crônica! „Na manhã de ouro as silhuetas gráceis das nossas beldades‟ [...]” (VERISSIMO, 1982, p. 252).
Por fim, a última personagem-jornalista desse subgênero é Noel, que, como já mencionado, aparece em dois romances: “Um lugar ao sol” e “Saga”. Diferentemente dos outros dois personagens citados anteriormente, Noel é repórter que trabalha em jornal, mas com o objetivo de ser escritor.
Em “Um lugar ao sol”, Erico Verissimo utilizou vários personagens de seu primeiro romance, “Clarissa”. Noel é um deles, que aqui já está casado com a mesma Fernanda de “Saga”, e que está grávida. A exemplo de outros jornalistas da época, Noel é formado em Direito. Oriundo de família rica, Noel entra no jornalismo, descrito como um trabalho cansativo e com ordenado baixo, com o objetivo de ser escritor e de passar a não depender financeiramente dos pais. Entretanto, ele acaba se decepcionando com a rotina da redação do jornal A Tarde, onde ele trabalhava.
Aborrecia o jornal. Fazia um esforço desesperado para sintonizar com os rapazes da redação. Inútil. Sentia a hostilidade surda e sorridente dos repórteres para quem ele era simplesmente o mocinho família, que tinha um diploma, que escrevia a crônica de arte, a resenha dos livros da semana; o mocinho que ficava à sombra de sua mesa, enquanto eles saíam para a vida, metiam-se em bibocas, reviravam os subúrbios, visitavam a chefatura e as delegacias à cata de desastres, crimes e outras reportagens sensacionais. Ele se aborrecia com os repórteres; mas era um aborrecimento tingido duma tímida admiração, quase inveja, a mesma inveja que o menino mimado tem do companheiro pobre que vive descalço, que é livre e sabe subir nas árvores, jogar o pião e brigar com coragem (VERISSIMO, 1983, p. 167).
Além desse sentimento estranho que Noel tinha pela sua profissão e pelas pessoas que ele conhecia por meio dela, ele não queria pedir dinheiro aos pais, o que o obriga a enfrentar suas dificuldades financeiras. Outro aspecto problemático na vida de Noel são os problemas de relacionamento com a sogra e o cunhado.
Fazendo jornalismo não com o objetivo de enriquecer ou de se tornar um político, mas sim com o intuito de ser escritor, Noel não apresentava o chamado faro jornalístico, pois muitas vezes deixava passar diante de seus olhos histórias que renderiam grandes reportagens:
Noel pensou no jornal, no sacrifício cotidiano. Via na redação coisas incríveis. Apareciam pais comovidos e assustados, pedindo notícias de filhos menores desaparecidos. Lembrava-se de uma pobre velha malcheirante que fora contar a história desgraçada de uma neta de quatorze anos violentada por um preto. Ficara sentada na redação, cercada de repórteres. Ele, Noel, ouvira a história narrada entre soluços, via a cara enrugada, os olhos viscosos, a boca sem dentes da pobre criatura. E o mau cheiro que aquele corpo murcho e sujo despedia impediram que ele sentisse piedade. Chegou a odiar a velha. E odiou-se por tê-la odiado. Mas era impossível sentir compaixão por uma criatura daquelas. E, enquanto os repórteres escutavam e estenografavam a narrativa, ele ficara a pensar na sua incapacidade de compreensão com a miséria alheia (VERISSIMO, 1983, p. 228-9).
Essa incapacidade de compreensão dos problemas do mundo e a sua falta de indignação com a situação é que coloca Noel entre os puros sangues candidatos a escritor, em vez dos cães de guarda. Além disso, era do jornal que ele tirava o sustento de sua esposa e via uma possibilidade de ser escritor. “Noel tinha de aturar o jornal porque era o seu ganha-pão. Quisera desistir, fugir, arranjar outro trabalho, procurar o pai. Não fazia nada disso por causa de Fernanda” (VERISSIMO, 1983, p. 229).
Em outro trecho do livro, Noel recebe um pai de 24 anos que acabara de perder o filho pequeno e, ao ouvir o relato da história, em vez de encarar o drama desse pai como uma potencial reportagem, ele lhe entregou uma cédula de dinheiro sem olhar o valor. Na sequência da narrativa, chega um repórter que começa a fazer um interrogatório ao jovem e descobre que ele é o filho de um famoso empresário, chamado Marcínio Fraga, da Fraga & Matos. O repórter comenta com Noel: “Menino, que reportagem! O filho dum capitalista na mais negra miséria. Que furo! - voltou-se para o doente. Escute, já esteve noutro jornal? Não? Ótimo! Mas vá contando a sua história” (VERISSIMO, 1983, p. 279).
Sem sentir vontade de se envolver na rotina jornalística, Noel aproveitava as horas em que não estava no jornal para escrever seus contos e romances, pelos quais Fernanda luta até encontrar uma editora que os publique.
Já em “Saga”, o pai de Noel morre, e, com o dinheiro que herda, sua esposa Fernanda e ele montam o jornal Aventura, que faz oposição ao jornal A Ordem.
Enquanto Fernanda, como uma típica jornalista puro sangue cão de guarda, briga com os empresários locais em nome do jornalismo, Noel segue utilizando o jornal para publicar seus textos literários. Outra característica de Noel, descrita por Erico Verissimo, é o ar sonhador do jornalista, com uma versão fantasiosa da vida, descrita pela personagem Vasco da seguinte forma:
E não sei por que me sinto tomado dum súbito aborrecimento por Noel. A vida está cheia de dramas e misérias e ele se obstina em escrever doces histórias impossíveis, prometendo às crianças um mundo que elas nunca hão de encontrar na realidade (VERISSIMO, 1978, p. 199).
Entretanto, os aspirantes a escritor da ficção de Erico Verissimo não são lá muito bem-sucedidos. Isso fica claro no seguinte trecho do romance:
Noel, como de hábito, está silencioso: Até hoje não consigo descobrir seus verdadeiros sentimentos para comigo. Pouca coisa disse desde que nos sentamos a esta mesa. Não sei que pensamentos lhe estarão cruzando a mente, mas imagino que continua a se debater em grandes problemas morais. Tenho a intuição de que foram vãos os esforços de Fernanda para trazê-lo ao mundo real e matar nele o medo da vida.
- Que notícias me dás de teu livro? - pergunto. Ele encolhe os ombros.
- Teve o destino de quase todos os livros que não oferecem a literatura de que o público gosta.
Fernanda intervém:
- Tenho tentado explicar ao Noel que o fato de um livro ficar nas prateleiras das livrarias não deve constituir motivo de desencorajamento para o autor (VERISSIMO, 1978, p. 185).
Pode-se, assim, considerar o puro sangue candidato a escritor da obra de Erico Verissimo como um jornalista que não chega a ser apaixonado pela profissão, mas sim encontra nela um viés para a literatura. Enquanto, por um lado, nenhum dos personagens citados busca no jornalismo dinheiro ou ascensão política, por outro, nenhum deles chega a obter sucesso ou a ingressar no jornalismo com o objetivo de se valer das histórias de suas matérias e colunas para compor romances de realidade, como os já referidos no New journalism. Essas três personagens jornalistas estão no jornalismo com ambições literárias, mas, por desconhecerem as rotinas da profissão e a sua função, acabam ficando frustradas e insatisfeitas.