Os traços básicos da história do estado, e particularmente da cidade, de São Paulo são transformações econômicas, rearticulações geográficas e mobilidades sociais. Quanto à capital, segundo Queiroz (2004, p. 17),
Qualquer que seja o ângulo ou período escolhido para conhecer-lhe a história, terá de conter uma perspectiva dinâmica e levar em conta que a referida história está intimamente mesclada à do Estado, à do país e à do sistema de forças internacionais em que este se insere.
Os acontecimentos paulistas retratam um continuado processo de crescimento. Apura- se, de acordo com Love (1982, p. 17), que
Em 1872, a cidade possuía cerca de 31.000 habitantes; em 1970, a grande São Paulo ocupava o oitavo lugar entre as maiores áreas metropolitanas do mundo, com 6.000.000 de habitantes na capital propriamente dita e 8.000.000 no total. O crescimento demográfico do estado, embora menos rápido, foi também espetacular. De uma população de 840.000 pessoas em 1872, São Paulo atingiu a cifra de 18.000.000, em 1970, quase equivalente ao total de habitantes no estado de Nova Yorque, no mesmo ano.64
Como anteriormente descrito, o café, em meados do século XIX, tornou-se o principal produto de exportação no estado de São Paulo. A transferência do foco da produção cafeeira do Vale do Paraíba para o Oeste Paulista, liderada por Campinas e estimulada pela implementação de estradas de ferro, foi de fundamental importância para o desenvolvimento econômico da cidade de São Paulo (NOZOE, 2004). Para Nozoe (2004, p. 100),
A hegemonia econômica de São Paulo na rede de cidades paulistas consolidou-se, contudo, somente a partir das últimas décadas do século XIX, quando passou a abrigar, nos limites de seu território, o mais importante mercado de mão-de-obra livre e um expressivo número de estabelecimentos industriais e bancários.
Além da economia cafeeira, ainda se apresentaram como propulsoras do desenvolvimento da cidade de São Paulo a criação da Academia de Direito e a introdução das ferrovias. Esses fatos podem delimitar três fases, provavelmente distintas, da história da capital paulista (CAMPOS, 2004). “Com o apoio material fornecido pelo café, operou-se a passagem de uma maneira de viver, característica do “arraial dos sertanistas”, para o “burgo dos estudantes” e para a futura metrópole, orgulhosa de sua paulistanidade.” (CAMPOS, 2004, p. 251)
Dentre outros serviços – destaque aos relacionados à saúde pública, por exemplo –, o estado paulista também foi pioneiro nos feitos no campo da educação. Comprova-se que,
No final do período imperial, o estado apresentava o mesmo quadro triste predominante no resto do país, isto é, o analfabetismo era quase total. Em 1890, considerando-se todos os grupos de idade, apenas 15% de toda a população brasileira era alfabetizada; a taxa paulista estava a um ponto abaixo da nacional. [...] São Paulo ocupava o décimo lugar entre todos os demais componentes da Federação. Mas, já em 1920 subiria para o segundo lugar, com 30% do total da população já alfabetizados. (LOVE, 1982, p. 132)
Quanto à composição étnica e racial da população paulista, pode-se apontar profundas alterações após o declínio da Monarquia. Durante toda a República Velha, o fluxo de imigrantes – e em anos seguintes, o fluxo de migrantes – foi grande. Tem-se que, “no fim do
64 O autor utiliza, em todo o texto, as palavras ‘capital’ e ‘São Paulo’ para se referir à cidade de São Paulo e ao
século XIX e no início do século XX, São Paulo era uma das maiores cidades de imigração no mundo” (HALL, 2004, p. 121).
Adiante, o autor ainda acrescenta, referente à política de mão-de-obra elaborada pelos fazendeiros de café, na capital paulista:
Conseguiram criar um mercado de trabalho capitalista no campo, desde o fim do século XIX, por meio de um amplo programa de imigração subsidiado pelos governos do Estado e da nação, transferindo assim os custos consideráveis do sistema à sociedade como um todo. (HALL, 2004, p. 121)
Desse modo, a inserção de imigrantes, principalmente os europeus, com padrões culturais e hábitos de consumo diversos dos observados até então, resultou em relevantes mudanças na vida econômica e social da cidade de São Paulo (SAES, 2004).
Ressalta-se, também, que São Paulo foi o centro do mais importante acontecimento artístico que ocorreu no país: o movimento modernista, durante as décadas de 1920 e 1930. Do ponto de vista cultural, como também em outros aspectos, a capital dominava o estado. Distingue-se, também, durante esses anos, a imprensa paulista. Segundo Love (2004, p. 130),
Entre 1911 e 1929, praticamente dobrou o número de jornais diários em São Paulo, atingindo um total de 66, superior à circulação em qualquer outro estado da federação e representando o dobro dos que eram publicados no Distrito Federal. Não se têm dados completos sobre a tiragem desses jornais, mas é certo que a distribuição aumentou muito durante a Primeira República. [...] os jornais que circulavam na cidade de São Paulo dispunham de uma grande vantagem: o acesso a uma rede ferroviária que permitia atingir até mesmo os leitores em cidades localizadas no sertão remoto, no próprio dia da publicação.
Para Cruz (2004, p. 360), “o movimento de crescimento e circulação da imprensa periódica acompanha o próprio ritmo de desenvolvimento da Cidade.” A autora, à frente, afirma: “ampliando socialmente seus conceitos de difusão, renovando sua linguagem e seu estilo, a imprensa ganha a Cidade.” (CRUZ, 2004, p. 361)
Conclui-se que, embora não se possa abstrair os aspectos negativos que emergiram com a proeminência, em várias diretrizes, do estado e da capital paulista, a história de São Paulo reproduz “uma experiência de pioneirismo e prosperidade, de exploração e de destruição, mas, acima de tudo, uma história de crescimento sem paralelo.” (LOVE, 1982, p. 53).
Expõem-se, na sequência, os fatos considerados importantes que ocorreram na cidade de São Paulo, por volta dos anos de 1880 a 1920. Torna-se, ainda mais, nítida a singular expansão das atividades sociais, políticas, culturais e financeiras alcançada por esse espaço do território brasileiro.
Cronologia Histórica da cidade de São Paulo: 1880 a 1920
Ano Efeméride
1882 - Instalado o Centro Abolicionista de São Paulo, tendo como presidente honorário
Luís Gama.
1886 - Iniciada a publicação de O Amigo do Povo, dedicado aos interesses dos operários.
- O imperado D. Pedro II visita São Paulo pela última vez.
1887
- Publicados os livros Pátria Paulista, de Alberto Sales, e São Paulo Independente, de Martim Francisco, que pregavam a separação de São Paulo para formar nova nação.
- Iniciada a publicação de Redenção, jornal abolicionista que defendia a libertação imediata dos escravos, dirigido por Antonio Bento de Sousa e Castro.
1889
- Inaugurado o Banco de São Paulo, em sessão no edifício da Caixa Filial do Banco do Brasil.
- Instalado o governo republicano provisório de São Paulo, integrado por Prudente de Morais Barros, Francisco Rangel Pestana e Coronel Joaquim de Sousa Mursa.
1890 - Eleitos os primeiros senadores por São Paulo no regime republicano: Prudente de
Morais, Campos Sales e Rangel Pestana. Também eleitos 22 deputados.
1891
- Fundada a Companhia Matarazzo.
- Inaugurada a avenida Paulista, que é pavimentada apenas em 1916.
- Sancionada a lei federal que torna os municípios autônomos quanto à vida econômica e administrativa e fixa em dezesseis o número de vereadores.
1893 - Iniciada a publicação do jornal em italiano Fanfulla, fundado e dirigido por Vitalino
Rotellini, ainda em circulação.
1895 - Fundados o Partido Monarquista de São Paulo e o Partido Republicano
Parlamentar.
1897 - Iniciada a publicação do jornal em alemão Deutsch-Zeitung, que atualmente é
bilíngue.
1901 - Fundados o Partido Republicano Dissidente de São Paulo, sob a orientação política
de Prudente de Morais.
1905 - Criada a Pinacoteca do Estado, que começa a funcionar regularmente em 1911.
- Promulgada a segunda Constituição do Estado de São Paulo.
1907
- Criado o Arquivo Municipal, para recolher e organizar o antigo Arquivo da Câmara de São Paulo e os acervos das intendências. Foi reorganizado em 1935, sob orientação de Mário de Andrade.
1908 - Chegam os primeiros imigrantes japoneses, desembarcados do navio Kasato-Maru e
instalados na Hospedaria dos Imigrantes.
1911 - Criadas a empresa Indústrias Reunidas Matarazzo. 1912
- Criadas a Sociedade de Cultura Artística e a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (a atual sede foi inaugurada em 1920).
- Inaugurados o Banco Comercial do Estado de São Paulo, sob direção de José Maria Whitaker, e a Mappin & Webb B. Limited.
1913 - Criada a Associação Kagoshima do Brasil, por imigrantes japoneses, com a
intenção de auxiliar a imigração de seus conterrâneos.
1914 - Iniciada a publicação de A Cigarra, sob a direção de Gelásio Pimenta, a revista de
variedades mais popular na Cidade. Foi publicada até a década de 1960.
1915 - Iniciada a publicação do jornal O Menelick, primeiro jornal da comunidade negra de
São Paulo.
1916 - Estabelecida eleição direta para prefeito.
1917 - Iniciada a maior greve operária da história da Cidade, com a paralisação do
Cotonifício Rodolfo Crespi, sucedida pela adesão dos operários de outras fábricas.
1919
- Instalada a oficina de montagem de veículo Ford.
- Fundados o Centro dos Industriais de Fiação e Tecelagem de São Paulo (a primeira associação patronal da Cidade).
- Iniciada greve operária que se estende por quase um mês. Quadro 765– Cronologia Histórica da cidade de São Paulo: 1880 a 1920.