Os jornais analisados foram “A Província de São Paulo”, que em 1890 passa a ser “O Estado de São Paulo”, da capital paulista, o “Correio do Oeste”, “O Tempo”, o “Diário do Rio Claro”, “O Rio Claro”, “A Mocidade” e “A Semana Militar”, da cidade de Rio Claro.
Acredita-se na relevância do conhecimento acerca da história do jornal observado para a interpretação dos dados. Deve-se investigar a finalidade da publicação do jornal, a responsabilidade social que detinha e a qual público era direcionado. Na sequência, discorre- se sobre os fatos que marcaram o surgimento e a vida do jornal da cidade de São Paulo, durante os anos de 1880 a 1920. No que concerne aos jornais rioclarenses, devido à carência de registros, não foi possível realizar esse tipo de levantamento. Assim, apenas alguns outros aspectos são retratados.
4.3.1.2.1 Resumo histórico do periódico “A Província de São Paulo”, posteriormente “O Estado de São Paulo”
Grande parte da imprensa brasileira, emergida durante o século XIX, lançava-se na sociedade – intervindo no espaço público –, com a finalidade de difundir, a partir da palavra escrita, determinadas opiniões, crenças e valores, defendidos por um conjunto de indivíduos com os mesmos interesses. Segundo Luca (2005, p. 133-134),
Os aspectos comerciais da atividade eram secundários diante da tarefa de interpor-se nos debates e dar publicidade às propostas, ou seja, divulgá-las e torná-las conhecidas. A imprensa teve papel relevante em momentos políticos decisivos, como a Independência, a Abdicação de D. Pedro I, a Abolição e a República.
Assim, nesse cenário, destaca-se o surgimento, em São Paulo, do jornal “A Província de São Paulo”, fundado em 1874 por treze militantes republicanos – encontra-se, também, o registro de terem sido dezesseis militantes – que aceitaram a proposta, divulgada pelos participantes da Convenção de Itu, de 1873, da criação de um diário com ideias voltadas ao combate da Monarquia e da escravidão. A primeira edição foi publicada em 04 de janeiro de 1875. Com o advento da República, recebeu o nome de “O Estado de São Paulo” (FERNANDES, 1998), sendo, atualmente, o mais antigo dos periódicos em circulação na capital.
Quanto à relevância da fundação desse jornal – apresentado, nos primeiros anos, sob o formato de quatro páginas e um número reduzido de colunas, devido à restrita tecnologia da época –, justifica-se pelo fato de “A Província de São Paulo” ter sido, através dos textos publicados de Francisco Rangel Pestana e Américo de Campos (os primeiros redatores do periódico em questão), o primeiro grande divulgador do ideário republicano e abolicionista. De acordo com Pontes (2009, p.2),
Sua tiragem inicial era de 2.000 exemplares, bastante significativa para a população da cidade, estimada em 31 mil. Pode-se dizer que a partir de então o jornal foi crescendo com a cidade e influenciando cada vez mais a evolução política do país, com a enorme responsabilidade de ser o principal veículo da mais republicana das cidades brasileiras.
No princípio do século XX, após o advento da República e durante o transcorrer de seu primeiro período, conhecido como República Velha (1889 – 1930), com a modernização das técnicas de impressão e ilustração, houve o aumento no número de páginas e colunas, a elaboração de exemplares mais atrativos e, consequentemente, maiores tiragens. Em janeiro de 1890, já com o nome de “O Estado de São Paulo”, a tiragem havia atingido a marca de 8
mil. Doze anos depois, Júlio Mesquita, redator desde 1885 e genro de José Alves de Cerqueira César, um dos fundadores do periódico, tornou-se o único proprietário. No mesmo ano de 1902, juntos, redator e fundador, lideraram a 1ª dissidência republicana, fomentando, então, uma linha de oposição sistemática aos governos estadual e federal.
No entanto, referente às inovações do início do século passado, reflexo também do espantoso crescimento da cidade de São Paulo, pode-se notar que não se limitaram apenas às modificações na produção, organização, direção e financiamento, mas chegaram também a interferir no conteúdo do jornal. Cabe destacar, também, que
A mudança fundamental, contudo, expressou-se no declínio da doutrinação em prol da informação, aspecto facilitado pelas agências internacionais, cuja presença no Brasil teve início nas primeiras décadas do século passado – Havas, Reuters, Associated Press e United Press Association – e pelas redes de sucursais dos principais diários no país e exterior. Consagrou-se a idéia de que o jornal cumpria a nobre função de informar ao leitor o que se passou, com rigoroso respeito à “verdade dos fatos”. (LUCA, 2008, p.152-153)
Apesar do referido jornal indicar apoio a determinada posição política, de acordo com a época, sempre se declarou editorialmente independente, livre para veicular qualquer tipo de informação. Para Luca (2008, p. 162-163), contudo,
Tal liberdade diante de poderes constituídos era considerada essencial para o livre exercício da crítica, vista como indispensável ao pleno funcionamento do jogo democrático. Análises a respeito da trajetória do jornal bem evidenciaram os limites e as ambigüidades desse apregoado liberalismo, cuja fidelidade flutuava ao sabor das circunstâncias e diminuía sensivelmente diante de riscos efetivos de transformações sociopolíticas mais profundas.
Em 1926, “O Estado de São Paulo” apoiou a fundação do Partido Democrático (PD), na capital, organizado para combater as práticas oligárquicas perrepistas – referentes às ações do Partido Republicano Paulista (PRP) – e os poderes por elas estabelecidos. Quatro anos mais tarde, o jornal apoiou a “Aliança Liberal” e a candidatura de Getúlio Vargas à presidência, em oposição a Júlio Prestes, o candidato oficial do PRP. Nesse mesmo ano, atingiu a tiragem de 100 mil exemplares e lançou aos domingos um suplemento em rotogravura, com grande destaque para as ilustrações fotográficas. Nesse período de modificações, contínuas, a imprensa pôde conhecer múltiplos processos de inovação tecnológica que acarretaram o aumento das tiragens, como já mencionado, a variedade de formatos e tipos de papel, a melhor qualidade das impressões e o menor custo do impresso, propiciando um ensaio da comunicação em massa. (ELEUTÉRIO, 2008).
No ano de 1932, “O Estado de São Paulo”, juntamente com alguns aliados, liderou a Revolução Constitucionalista. O jornal, a cidade e o estado de São Paulo, a fim de melhorias, reivindicavam eleições livres e uma Constituição. Para Cohen (2008, p. 112), “A “celebração do progresso” marca o periodismo paulista do início do século XX. A cidade de São Paulo era enaltecida como o palco das transformações e modernizações constantes.”
Em 1964, o periódico apoiou o movimento militar que depôs o presidente João Goulart, opondo-se, posteriormente, aos radicais de extrema direita que objetivavam a perpetuação dos militares no poder. Dois anos depois, o Grupo Estado lançou o “Jornal da Tarde” – diário que retrata de um modo diferenciado os problemas urbanos. Em 1968, as produções do Grupo passaram a ser censuradas, por adotarem uma posição contrária ao regime militar. No lugar das notícias banidas, colocavam-se poemas de Camões e receitas culinárias. No entanto, apesar das dificuldades, o Grupo Estado continuou a criar outros meios de divulgação: em 1970, surgiu a “Agência Estado” e, em 1972, o “Estúdio Eldorado”. No ano de 1993, a cor do logotipo do cabeçalho de “O Estado de São Paulo”, por escolha dos assinantes, passou a ser azul. Três anos depois, Ruy Mesquita, jornalista, tornou-se o diretor responsável do jornal.
Ainda, dentre as inovações, ocorreu, em 2000, a fusão dos sites da “Agência Estado”, “O Estado de São Paulo” e “Jornal da Tarde”, resultando num portal, ainda em funcionamento, que transmite as notícias em tempo real. De acordo com Pontes (2009, p. 8), “muitos outros projetos estão em andamento, no intuito de divulgar publicamente o enorme acervo histórico e cultural de O Estado de São Paulo [...].”
Deve-se, por fim, sem haver uma profunda discussão acerca do rótulo – já que isso não se encaixa dentre os propósitos desta investigação – apenas mencionar que, para alguns estudiosos da história da imprensa brasileira, o jornal “O Estado de São Paulo”, assim como o “Correio Paulistano” e “O Diário Nacional”, constitui a grande imprensa paulistana. Para Luca (2008, p. 149),
A expressão grande imprensa, apesar de consagrada, é bastante vaga e imprecisa, além de adquirir sentidos e significados peculiares em função do momento histórico em que é empregada. De forma genérica designa o conjunto de títulos que, num dado contexto, compõe a porção mais significativa dos periódicos em termos de circulação, perenidade, aparelhamento técnico, organizacional e financeiro.
Desse modo, conclui-se que “O Estado de São Paulo”, segundo Eleutério (2008, p. 88- 89),
Amparado em sólidos capitais, conjugou a ideologia elitista das classes dirigentes com um veio de defesa do cidadão. Marcado pelo arrojo dos avanços técnicos, o jornal garantiu seu lugar como um dos principais veículos de comunicação de São Paulo e mesmo do Brasil, durante a maior parte do século XX.
A seguir, apresentam-se alguns fatos da cronologia histórica do Grupo Estado, ocorridos entre os anos ao redor do período compreendido pela presente pesquisa – 1880 a 1920.
Cronologia Histórica do Grupo Estado
1882 - Em janeiro, ocorre nova alteração societária. Rangel Pestana passa a ser o maior cotista.
1884
- Alberto Salles entra na sociedade injetando capital, tornando-se diretor- gerente.
- Américo de Campos e José Maria Lisboa saem contrariados com a campanha antilusitana empreendida pelo novo sócio e fundam o “Diário Popular”.
1885
- Júlio Mesquita se torna redator ao lado de Rangel Pestana.
- De outro lado, o antilusitanismo de Alberto Salles quase leva o jornal à falência (todos os anunciantes portugueses boicotam a empresa).
- Alberto Salles retira-se e o jornal é salvo por Júlio Mesquita.
1888
- “A Província de São Paulo” passa a pertencer à firma Rangel Pestana & Cia. - Júlio Mesquita, além de redator, torna-se gerente.
- O formato do jornal aumenta.
1891 - Rangel Pestana, doente e desgostoso com a República, afasta-se do jornal, cedendo sua participação à Cia. Impressora Paulista.
1895
- A propriedade do jornal passa da Cia. Impressora Paulista para J. Filinto & Cia.
- José Filinto da Silva é o gerente e Júlio Mesquita, o redator.
1896 - A tiragem atinge 10.000 exemplares. - Sai o primeiro “Almanaque do Estado”.
1897 - Francisco Mesquita, pai de Júlio Mesquita, se associa à firma J. Filinto & Cia.
1906 - Nestor Pestana entra para o jornal e começa a trabalhar como redator.
1907 - A empresa proprietária do jornal passa a ser uma sociedade anônima em 27 de dezembro.
1908
- É importada uma máquina “Albert”: o jornal passa a ter 16 páginas e a composição passa a ser feita com linotipos, abandonando-se o antigo processo manual feito por 40 tipógrafos.
- É aberta uma sucursal em Lisboa.
1911 - Abertura de uma sucursal em Roma, dirigida por Nicolau Ancona Lopes.
1912
- Nestor Pestana assume interinamente a chefia da redação.
- Armando de Salles Oliveira e, em seguida, Ricardo Figueiredo assumem a gerência.
1915
- Em maio é lançada a edição vespertina de “O Estado de São Paulo”, que passa a ser conhecida pelo nome de “Estadinho”, quando Júlio de Mesquita Filho inicia sua carreira de jornalista, como colaborador.
1916 - Sai o segundo “Almanaque do Estado”. - A tiragem média do jornal atinge 35.000 exemplares, com edições diárias oscilando de 16 a 20 páginas.
1921
- Em fevereiro deixa de circular “O Estadinho”.
- Três meses depois, Júlio de Mesquita Filho assume a secretaria de “O Estado de São Paulo”.
Quadro 663 – Cronologia Histórica do Grupo Estado.
4.3.1.2.2 Informações dos jornais rioclarenses
O jornal “Correio do Oeste”, de 1880, lançado nesse mesmo ano, tinha como editor- gerente Nicolao Wendling. Nele, um órgão imparcial, aceitavam-se, mediante pagamento, anúncios e artigos a pedido, devidamente responsabilizados. As matérias de interesse geral eram publicadas gratuitamente. No cabeçalho, indicava possuir diversos colaboradores. O exemplar analisado apresentava quatro páginas.
Quanto ao periódico “O Tempo”, de 1885, publicado pela primeira vez em 1882, era dirigido pelo bacharel Eduardo de Camargo Neves e gerenciado por José David Teixeira. Os anúncios e os comunicados, nele contidos, também eram de responsabilidade dos autores. O exemplar averiguado era constituído de quatro páginas.
“O Diário do Rio Claro”, de 1894, havia sido fundado em 1886, e, no exemplar observado, constava como responsável por sua direção José Davio Teixeira. O número de páginas permanecia igual ao dos jornais dos anos anteriores.
O jornal “O Rio Claro”, dos anos de 1900 a 1915, apresentava Manoel Fernandes de Oliveira, de acordo com as datas, em determinada função. No início aparecia como diretor e redator para, posteriormente, ocupar a posição de diretor-proprietário. Em 1905, era publicado às terças-feiras, sextas-feiras e domingo, enquanto o jornal “O Rio Clarinho” era impresso às quartas-feiras, quintas-feiras e sábados. Em 1910, o jornal possuía, também, um redator político, Dr. J. Teixeira Junior, e um redator secretário, Tenente-coronel Zulmiro de Campos. O número de páginas em todos esses exemplares também é quatro.
Os periódicos “A Mocidade” e “A Semana Militar”, de 1920, lançados, respectivamente, em 1919 e 1918, são os que, em termos, mais se distanciam das características presentes tanto nos jornais da cidade de São Paulo quanto nos jornais rioclarenses. “A Mocidade”, definido como um jornal crítico, literário e humorístico, de propriedade e direção do “Grupo dos Diabinhos”, era publicado aos domingos e, envolto por
63 Informações extraídas, e adaptadas, de Pontes (2009), no link Conheça o jornal, no site
um tom irreverente, apontava características bastante particulares, como uma redação dita ambulante e a frase “AMISADE e ALTIVEZ”, posta como a “divisa” do jornal. O exemplar analisado apresentava oito páginas, sendo uma preenchida por um sumário. Quanto ao jornal “A Semana Militar”, denominado propriedade da “Sexta Companhia de Metralhadoras” e sob o lema “O Exercito é a Escola Normal do Patriotismo”, com quatro páginas, embora tenha apresentado algumas poucas matérias com assuntos interessantes a essa esfera da sociedade, foram encontrados, nele, praticamente, os mesmos, e na mesma proporção, gêneros textuais vistos nos exemplares dos outros jornais. Ocupavam as posições de redator-chefe e redator- secretário Gonçalves Meira e Cabo Wenefledo Toledo, nessa ordem.