Para que uma propaganda seja feita, é necessário que o “produto” a ser anunciado seja conhecido por quem fará a propaganda, bem como o público que se deseja alcançar. Portanto, a apresentação de um livro através desse gênero textual pressupõe que houve compreensão do que se leu e que foi feita também uma avaliação, no sentido de querer indicar, ou não, determinado livro.
No dia 5/6, primeiro dia de apresentação das propagandas feitas pelos alunos, depois que sete alunos haviam apresentado, chegou a vez de Emília apresentar a sua. Ouvindo os comentários da professora a respeito de cinco das sete propagandas
apresentadas, Emília considerou que a sua não estaria de acordo com os critérios estabelecidos pela professora e, assim, antecipou a provável avaliação da professora sobre seu trabalho, afirmando: “ficou muito ruim, professora”. Por sua afirmativa, percebe-se que ela já havia notado que o seu trabalho não era uma propaganda, provavelmente devido aos comentários da professora sobre as propagandas apresentadas antes da dela. A professora fez uma leitura silenciosa do trabalho de Emília e confirmou a expectativa da aluna, afirmando que ela não quis ler porque o que ela havia feito não era uma propaganda. A professora, então, comentou que apenas dois alunos haviam apresentado uma propaganda e afirmou que estava percebendo que a turma não havia aprendido a escrever esse gênero textual.
Castanheira (2004, p. 30), citando Heap63 (1991), apresenta um exemplo de uma situação na qual “os critérios utilizados pela professora e pelos alunos na definição do que seria considerado conhecimento adequado” divergem e, devido a isso, há conflitos. Mesmo que a situação das propagandas não seja a de interpretação de um conto, como no exemplo citado por Castanheira, pode-se dizer que ocorre uma situação semelhante no que diz respeito ao conflito que se instaura devido às diferentes percepções do que seria uma propaganda.
Aquilo que é considerado conhecimento (por exemplo, contar casos, usar a linguagem em espaços institucionais, responder a perguntas sobre uma história) depende de seu contexto de uso e (...) o fato de se saber alguma coisa não corresponde de forma clara e direta à sua simples demonstração numa determinada situação social (CASTANHEIRA, 2004, p. 31).
Quando a professora afirma que os alunos não haviam aprendido o que era uma propaganda, ela evidencia uma expectativa de já ter havido, por parte deles, uma apropriação desse gênero textual. Na afirmação “vocês não aprenderam”, está subentendido: “foi ensinado e vocês não aprenderam”. Castanheira (2004) observa que não se aprende apenas através da transmissão de um conteúdo, por isso deve-se levar em conta a necessidade dos alunos de perceberem e se apropriarem dos significados em seus contextos.
Uma visão de que o objeto do ensino e da aprendizagem refere-se somente à transmissão de um conteúdo claramente definido é reducionista, pois não leva em conta o fato de que a ação e a aprendizagem são processos interpretativos e requerem a compreensão por parte dos participantes de como as coisas devem ser realizadas em determinado contexto (CASTANHEIRA, 2004,p. 32).
63
HEAP, J. A situated perspective on what counts as reading. In: BAKER, C.; LUKE, A. (Ed.). Towards
A professora, então, anunciou que as propagandas seriam refeitas em sala de aula. Ela não estava satisfeita com os trabalhos apresentados na biblioteca no dia 5/6 por perceber que não houve apropriação do gênero por parte dos alunos. A professora dedicou mais tempo para rever com eles como deveria ser uma propaganda: características, objetivos, funções e formas de organização. Conforme mencionado no item “a estrutura das propagandas”, esse gênero textual deveria ser “um texto curto, que informava sobre o tema do livro e que procurava despertar o interesse do leitor/ouvinte”.
A professora lembrou aos alunos para organizarem as propagandas de acordo com o que haviam discutido, pois os trabalhos seriam expostos na biblioteca: “Organizem da melhor forma possível, isso vai para a biblioteca, a bibliotecária vai expor o trabalho de todo mundo”.
No dia seguinte, a professora comentou que todas as propagandas tinham ficado boas, isto é, estavam visualmente bem organizadas, coloridas, com imagens desenhadas pelos alunos relacionadas aos livros lidos, construídas com frases curtas, tudo isso com o objetivo de fazer com que os leitores se interessassem pelos livros apresentados. Por essas razões, na segunda-feira seguinte, todas elas estavam expostas na biblioteca, de forma que um possível leitor pudesse ter acesso a elas.
A dedicação da professora é um exemplo de que os alunos precisavam de mais orientação e discussão para se apropriarem dos conhecimentos relativos a esse gênero textual, a ponto de poderem compartilhar a mesma perspectiva da professora. Percebe- se que o trabalho desenvolvido pela professora possibilitou a apropriação “dos significados em seus contextos”.
Além disso, a escrita com um “para quê” – exposição na biblioteca – pode ter funcionado como um motivador. Os alunos escreviam para interlocutores além da professora e colegas de sala: colegas de outras turmas, que freqüentavam a biblioteca e veriam as propagandas feitas por eles. Existia a possibilidade de influenciar alguém a ler, ou não, o livro que foi lido por eles.
Antunes (2003, p. 48) afirma que a escrita, na vida, sempre tem um propósito comunicativo, um “propósito funcional qualquer”, possibilitando, sem dúvida, “a realização de alguma atividade sócio-comunicativa”. Segundo a autora, às vezes parece que a escola se esquece disso e trabalha a escrita sem objetivos, porém “socialmente,
não existe a escrita ‘para nada’, ‘para não dizer’, ‘para não ser ato de linguagem’”. A escrita dos alunos, no caso as propagandas, tinha um propósito comunicativo.
As propagandas que os alunos apresentaram na aula do dia 12/6, uma semana após a primeira, foram consideradas boas pela professora. Os alunos demonstraram uma apropriação do gênero. Nessa aula, as expectativas da professora e dos alunos coincidiram em relação ao que seria uma propaganda.
Na semana anterior, o comentário da professora havia sido que os alunos não haviam aprendido a fazer propagandas. Depois da discussão em sala, revendo com os alunos como escrever esse gênero, o resultado foi visível: todos conseguiram realizar a tarefa, conforme foi mencionado. Revelaram, dessa forma, uma compreensão adequada de como fazer uma propaganda.