• Sonuç bulunamadı

“(...) ele tem que entender.” (Paula)

Nas falas dos alunos, é explicitada, também, a percepção de que leitura e compreensão estão relacionadas, perspectiva assumida por Smith (1991, p. 16), ao afirmar que “ler é menos uma questão de extrair sons de letras impressas do que dar significado a estas letras”. Sousa (1993) também entende “a leitura na sua vertente da compreensão”. Embora seja possível ler algum texto e, eventualmente, não compreendê-lo, ler seria mais que decodificar, seria compreender. Lucas afirma que se uma pessoa sabe ler, ela compreende o que lê.

Pe: Quando a pessoa fala assim: eu li um texto, eu entendi o que eu li, isso quer dizer o quê?

L: Isso quer dizer que a pessoa leu o texto e compreendeu o que estava sendo tratado e refletiu dentro da sua própria cabeça. Mas, também, pode ser em grupo. A pessoa, antes dela refletir, ela tem que entender o que é que está sendo tratado. Quando ela sabe ler é que ela sabe compreender as coisas. Ela aí sabe, ah... tão falando disso.

E esse compreender vai se manifestar de formas diferentes. Os alunos explicitaram que quem compreende manifesta a compreensão explicando com suas próprias palavras o que leu, recontando ou resumindo o texto lido.

Segundo Emília, se uma pessoa entender o texto, vai ser capaz de explicá-lo sem precisar voltar ao texto e poderá, também, escrever outro texto a partir do texto lido.

E: Compreender o que lê, ela, quando ela lê um texto e sabe explicar com as palavras dela, sem precisar de ler o texto de novo para poder lembrar. Quando a gente não entende, eu, pelo menos, não entendo, eu não lembro nada do texto.

(...)

E: (...) se ele, depois, conseguiu fazer uma produção de texto e explicar, é porque ele entendeu o texto e leu claramente.

Bia afirma que quem entende demonstra a compreensão recontando ou resumindo o texto. Nas palavras dela: “contando a história do texto, fazendo um resumo dele”.

Para os alunos, uma das capacidades de um “bom” leitor seria, então, entender o que leu e demonstrar isso de diferentes maneiras. Essas manifestações, explicitadas em suas falas, estão de acordo com algumas “habilidades de letramento” indicadas por Cafiero (2005) como sendo habilidades do “leitor competente”. A autora apresenta

alguns conjuntos de habilidades, relacionadas a determinados objetivos. O que os alunos mencionaram, como possíveis manifestações da compreensão, relaciona-se com “a habilidade de construir uma representação global do texto, juntando as informações disponíveis”: “fazer resumos; recontar o que leu, fazendo paráfrases” (CAFIERO, 2005, p. 44).

Por outro lado, para os alunos, o leitor com “dificuldade” é aquele que não consegue compreender o que lê.

Pe: (...) o que que você diria que é um leitor com dificuldade de compreender o texto?

Leo: É o leitor que não entendeu o livro.

Pe: (...) o que que é isto? Ter dificuldade de compreensão? Paula: É porque a pessoa lê... um leitor assim: ele lê sem pensar.

Paula considera, também, que se o aluno não entende o que lê pode ser porque estava sem motivação para uma determinada leitura, em um determinado momento. Os propósitos da leitura não se tornaram seus, eram, somente, do professor. Segundo Paula,

P: (...) ele não compreende, porque ele, eu acho que ele não está a fim, mesmo, de ler. Aí, ele lê sem pensar, começa a ler e não está nem aí (para o) porquê, se ele está compreendendo ou não. Só tem que lembrar das coisas. Nem... não está nem aí. Por exemplo, ele está estudando uma coisa, ele está achando um saco estudar aquilo, ele não quer estudar mais, ele esqueceu de tudo que estava lá, lê o texto só para relembrar e não estava nem um pouco a fim, porque, por exemplo, a professora deu, ele não estava nem um pouco a fim. Aí ele fica sem... sem entender nada, porque ele vai lendo sem pensar, sem falar, sem nada. Lê e não lê de novo porque... ah... finge que entendeu, fala que entendeu e quando faz pergunta, lá para todo mundo, falando mesmo, às vezes a professora faz perguntas, ele vai e fala assim... ele nem responde nada, porque ele sabe que não entendeu nada.

Emília, por sua vez, afirma que não compreender indica “um problema que a pessoa tem”, evidenciando a reprodução de um Discurso sobre o aluno ser portador de alguma “dificuldade”, que talvez tenha tido influência sobre ela.

Pe: E o leitor com dificuldade de compreensão? O que que é isso, dificuldade de compreender o texto? O que isso significa para você? E: Para mim, significa uma pessoa que ela não entende o texto de jeito nenhum, nem se ela ... ela pode ser deste país e não entender o texto, ela consegue ler claramente e não entender. Ela... é um problema que a pessoa tem. Ela tem que fazer aula particular, vai ter que aprender a ler tudo de novo.

Os alunos, assim, evidenciam uma percepção de “bom” leitor que não se limita somente a “ler em tom de ditado, ao grupo”. Além disso, consideram “bons” leitores os alunos que “empreendem o próprio trabalho de apropriação de conhecimentos”

(ROCKWELL, 1987, p. 236), demonstrando isso através de uma produção de texto, de uma explicação, de um reconto ou de um resumo do que leram.

Por outro lado, as “dificuldades” estariam relacionadas ao fato de os alunos não entenderem os textos lidos. Isso poderia ocorrer por não terem objetivos próprios para as leituras que fazem e, devido a isso, não terem interesse, comprometendo, assim a compreensão. Há, ainda, a percepção de o aluno apresentar alguma “dificuldade” por ele ser “portador” de algum “problema”, conforme sugeriu a aluna Emília.