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2.1. Elitizm Teorileri

2.1.2.1. Vilfredo Pareto (1848-1923)

O modelo de instituição educativa, denominada Instituto de Educação, destinado à formação não só de professoras e professores para o ensino primário, mas dos diferentes profissionais do ensino, já vinha sendo adotado desde o início da década de 1930 em centros urbanos mais avançados da região Sul e Sudeste do País e era considerado o que de mais moderno havia em termos de formação docente. Era o lugar de excelência onde se materializavam os discursos e os saberes da escola nova por meio da prática pedagógica nele realizada.

Os primeiros Institutos de Educação surgidos no Brasil foram idealizados pelos renovadores da Escola Nova, a exemplo de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho. Esses institutos tornaram-se modelares para os demais Estados. O Instituto de Educação do Rio de Janeiro foi criado na administração de Anísio Teixeira, à época ocupante do cargo de Diretor Geral da Instrução Pública do Rio de Janeiro (1931í935). Essa Instituição de ensino, uma nova versão da antiga Escola Normal carioca, passou a ser dirigido por Lourenço Filho, que ficou em seu comando até 1935. A tradicional escola de formação de professores transformou-se “numa organização inteiramente nova, tanto na forma quanto no espírito” (LOURENÇO FILHO, 2001, p. 23). Do ponto de vista de Vidal (2001, p. 18, grifo da autora), o Instituto de Educação seria “o local de formação de professores, organizadores da alma popular; cenário de práticas pautadas nos princípios escolanovistas; laboratório para a produção de uma ciência pedagógica da criança carioca”.

O Instituto de Educação carioca procurava elevar a formação do mestre e da mestra (destinados a atuar no ensino primário) ao nível dos estudos superiores. Para tanto, instituiu

6No ano de 1938, a Escola Normal de Natal contava com uma matrícula de 198 alunos(as), sendo 15 do sexo masculino e 183 do sexo feminino. Em 1939, havia 12 rapazes e 126 moças e um total de 138 alunos. Em 1942, a matrícula total havia caído para 5, sendo 2 rapazes e 3 moças (AQUINO, 2002).

uma Escola Secundária, a Escola de Professores, que corresponderia ao curso profissional pedagógico de nível superior, e ainda contava, como anexo, com o Jardim-de-Infância e a Escola Primária (de aplicação). Além disso, estendia sua ação promovendo cursos de extensão e aperfeiçoamento para os professores já diplomados (LOURENÇO FILHO, 2001).

Seguindo a onda do progresso na formação dos novos mestres, a tradicional Escola Normal da Praça da República, em São Paulo, foi transformada em Instituto Pedagógico pela reforma Lourenço Filho, então Diretor Geral da Instrução Pública de São Paulo. Em 1933, Fernando de Azevedo, nessa mesma função, criou o Instituto de Educação, “ambos idealizados como centro de investigação aplicada e de formação de profissionais do ensino dotados de consciência técnica” (MONARCHA, 1999, p. 328).

Nesse redemoinho de acontecimentos, foi reorganizada a Diretoria Geral da Instrução Pública, e criadas, em sua estrutura, novas seções especializadas para dar respaldo e atender às novas exigências técnico-pedagógicas do ensino. O Instituto de Educação de São Paulo passou a compreender um Jardim de Infância, uma Escola Primária, uma Escola Secundária, uma Escola de Professores, um Centro de Psicologia Aplicado à Educação e um Centro de Puericultura (MONARCHA, 1999).

Assim como nas capitais já citadas, em 1939, a Escola Normal de Porto Alegre (criada em 1869) passa a denominar-se Instituto de Educação General Flores da Cunha. Nesse novo arranjo, teve seus cursos ampliados, compreendendo desde o Jardim de Infância até a Escola de Professores, a qual formava mestres primários, e administradores de ensino. Além disso, mantinha cursos de aperfeiçoamento para professores em exercício docente (LOURO, 1987).

A partir de 1930, o Instituto de Educação de Porto Alegre passou a ser uma instituição modelar para a formação não só do professor primário mas ainda de diretores escolares e inspetores, entre outros profissionais do ensino, via cursos de especialização, alguns dos quais incluíam também a proposta da qualificação de professores que já exerciam o magistério. O Instituto de Educação era reconhecido como escola de mulheres, formador de grande parte das lideranças femininas no magistério gaúcho. Na visão de Louro (1987, p. 16), era “um centro educacional que procurava estar o mais próximo possível das novas diretrizes psicopedagógicas, aparelhando-se com métodos e recursos modernos”.

A criação dos institutos de Educação materializou-se, nas capitais de Estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, pela ação vanguardista de projetos educacionais, em especial aqueles idealizados e executados por Anísio Teixeira, Fernando de

Azevedo e Lourenço Filho, como diretores da Instrução Pública de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Ainda na década de 1930, o governo da Paraíba fundou a Escola de Aperfeiçoamento de Professores, a fim de ampliar os conhecimentos dos mestres e promover o progresso da instrução. Posteriormente, em 1935, essa Escola tornou-se o Instituto de Educação, fundado em 1935 (PINHEIRO, 2002).

Essas instituições fizeram-se fonte de inspiração para os mentores da Lei Orgânica do Ensino Normal, que transformaram o Instituto de Educação em centro de formação de profissionais para a educação de excelência, recomendando a criação desses estabelecimentos de educação nos vários Estados do País. Esse modelo de instituição de formação docente foi regulamentado e estendido a todo o Brasil.

Fixadas as diretrizes e finalidades para o ensino normal nacionalmente, caberia aos Estados adaptarem-se às novas normas. E muitos assim procederam, a exemplo do Paraná, que, de imediato, transformou a tradicional Escola Normal Secundária de Curitiba em Instituto de Educação, por já contar com prédio próprio e uma estrutura favorável para isso (MIGUEL, 1997).

A criação de Institutos de Educação processou-se em ritmos (e em condições) diferentes nos vários Estados do País. No Rio Grande do Norte, em 11 de fevereiro de 1947, o interventor Federal, Orestes da Rocha Lima, baixou o Decreto–Lei nº 684, que adaptou à Legislação Federal o Ensino Normal do Estado, acatando, na íntegra, os dispositivos da Legislação Federal7. Determinou, no artigo quarto, três tipos de estabelecimentos diferentes

para ministrar o ensino normal: o Curso Normal Regional, a Escola Normal e o Instituto de Educação (RIO GRANDE DO NORTE, 1947).

Cada uma dessas instituições passaria a ministrar cursos normais em modalidades diferentes. O Instituto de Educação seria aquela instituição em que se ministraria o curso ginasial e os cursos próprios das Escolas Normais (Cursos Normais de 2º ciclo, o Jardim de Infância e a Escola Primária como anexos), mais os curso de especialização de professor primário e habilitação de administradores escolares e demais cursos. Seria a instituição de formação de educador mais completa para aquele momento. Logo, muitos Estados sentiram-

7O Instituto de Educação, como ramo de ensino de segundo grau, tinha como finalidades: 1) prover a formação

do pessoal docente necessário às escolas primárias; 2) habilitar administradores escolares destinados às mesmas escolas; 3) desenvolver e propagar os conhecimentos e técnicas relativas à educação da infância (RIO GRANDE DO NORTE, 1947, p. 13).

se induzidos a transformar as tradicionais Escolas Normais Oficiais em Institutos de Educação.

No nosso Estado, a criação de um Instituto de Educação não decorria somente de uma adaptação à legislação federal, mas, particularmente, precisava também de que fosse providenciado um espaço físico para o seu funcionamento. Afirmamos isso porque nem mesmo a tradicional Escola Normal de Natal, fundada em 1908, ainda na década de 1950, dispunha de prédio próprio, e sequer apresentava condições técnicas e pedagógicas para o seu funcionamento adequado. Em situação tão desfavorável, como imaginar um Instituto de Educação em Natal?

Assim sendo, o Instituto de Educação, destinado à formação de profissionais para o ensino, permaneceu por muito tempo enclausurado em normas e dispositivos regulamentares, restrito ao registro no papel, conhecido apenas por poucos iluminados. Ainda assim, já se fortalecia a aspiração entre aqueles que constituíam o meio educacional.

A Lei Orgânica do Ensino Normal inspirou a iniciativa da edificação em Natal-RN de um estabelecimento de ensino, em outubro de 1946, que se passou a chamar de Instituto de Educação. Entretanto, em toda a década de 1950, o que funcionou, na prática, foi a tradicional Escola Normal de Natal, que, com a referida lei, foi equiparada às suas congêneres, possibilitando assim a validade, em todo o País, dos diplomas das professoras ali formadas (RIO GRANDE DO NORTE, 1947).

Como a formação docente figurava entre as preocupações nacionais, a Escola Normal de Natal, componente desse cenário, passou a buscar uma aproximação com novas tendências técnico-pedagógicas, que, aos poucos, se foram incorporando às suas atividades e programas. De tal forma que, no final da década de 1940, já acolhia em seu ensino as teorias fundamentadas na Psicologia que circulava no meio educacional do País.

Num período caracterizado pela democratização política, econômica e cultural (1946í1964), o debate fluía nos diversos setores da vida social. Na educação, retomaram-se algumas questões já discutidas no início da década de 1930 e reprimidas no período do Estado Novo, mas que, nesse cenário, ressurgiam com maior força. Esse processo de aprofundamento deu origem a outras discussões, como a renovação metodológica no ensino, o financiamento da educação, a centralização e descentralização do ensino, a educação como via de democratização social, a racionalização da educação, a inserção da mulher no mercado de trabalho, a predominância destas no exercício do magistério primário e, a partir da década de

1950, nos cargos de comando no sistema educacional. Portanto, um cenário barulhento, emissor de múltiplos sons, todos eles, porém, afinados na composição de uma única partitura.

Pesquisamos a Escola Normal de Natal, aspirante a Instituto de Educação, como entidade inserida nesse tempo e nesse espaço. Esse processo investigativo rendeu-nos a constatação de que ela sofreu influência de tudo aquilo que sucedeu em seu entorno, tanto do âmbito nacional como estadual. E não podia ser diferente: os seres inanimados í tal como os animados í não passam à margem dos acontecimentos a sua volta.