2.1. Elitizm Teorileri
2.1.2.3. Roberto Michels (1876-1936)
Na passagem da década de 1940 a 1950, ocorreu a regulamentação de instituições e entidades que há tempo já eram reclamadas pelas novas injunções sociais, culturais e educacionais que se forjavam no cenário estadual. Estas, pelo menos no plano legal, sinalizavam os presságios de uma sociedade que caminhava em busca da ampliação do setor público no tocante à criação e à regulamentação de instituições importantes para o progresso social.
O governo de José Augusto Varela (31/07/1947 a 31/01/1951) enquadrou-se no período em que predominou, no Brasil, o modelo político denominado populismo (1946í1964), o qual se caracterizou por sugerir uma aliança entre o poder estabelecido e as classes sociais. Esse modelo, fortemente vinculado aos ditames da sociedade capitalista, engendrava, por outro lado, uma mentalidade social de que os governadores estavam conduzindo o poder para servir aos interesses do povo. Em relação a José Augusto Varela, Mariz e Suassuna (2002, p. 345) afirmam que “sua administração foi marcada pela austeridade, honestidade e zelo no trato do dinheiro público”. Entretanto, Germano (1989) enfatiza que, nesse intervalo de tempo, os grupos políticos que se revezavam no poder eram representantes dos interesses das oligarquias norte-rio-grandenses.
O governador Dix-Sept Rosado (1951)8 assumiu o cargo, em janeiro de 1951, com a
incumbência de executar várias leis, que o seu antecessor, José Augusto Varela, promulgou, em 1949, no final de seu mandato (e cuja execução traria importante contribuição para o 8O Governador Jerônimo Dix- Sept Rosado Maia assumiu em 31 de janeiro de 1951, mas, aos cinco meses de sua administração, em 12 de junho de mesmo ano, faleceu, vítima de desastre aéreo. Assumiu em seu lugar o vice-governador Sylvio Piza Pedroza, o qual cumpriu o mandato de cinco anos, conforme a Constituição estadual de 1947 (MARIZ; SUASSUNA, 2002, p. 346).
desenvolvimento cultural e educacional do Estado), tais como a Lei de nº. 291, que criou o Museu e Arquivo Público do Estado (RIO GRANDE DO NORTE, 1949a); a lei 202, que criou a Escola Prática de Agricultura, em Macaíba (RIO GRANDE DO NORTE, 1949b); e a Lei nº 255, que criou o Serviço de Ensino Supletivo no Rio Grande do Norte e regulamentou a Campanha de Alfabetização de Adultos (RIO GRANDE DO NORTE, 1949d).
Dessa tiragem, sobressaiu o Estatuto do Magistério Público (instituído em 21 de dezembro de 1949, pela Lei nº. 270), que passou a regular “o provimento e a vacância dos cargos do Magistério Público Estadual, direitos, deveres, vantagens e responsabilidades dos professores públicos do Estado” (RIO GRANDE DO NORTE, 1949e, p. 299). O Estatuto do Magistério Público, que garantia os diretos adquiridos, definia, também, os quadros de professores, a forma de nomeação, os critérios para realização de concursos públicos para admissão dos professores e professoras do Estado, sem estabelecer regras diferenciadas para um ou outro sexo. Foi aprovado nos dias finais do governo de José Augusto Varela como que num acerto de contas com os professores do Estado.
Na esteira das inovações, foi instituída a Lei nº. 204 (RIO GRANDE DO NORTE, 1949c), que criou o Curso Normal Regional, junto às Escolas Normais de Natal e Mossoró, devendo seguir as normas do decreto 684, que adaptou a legislação estadual à Lei Orgânica do Ensino Normal de 1946, porém as iniciativas deveriam partir das instâncias estaduais.
As leis supracitadas só foram executadas, a partir de 1951, no Governo de Sylvio Piza Pedroza9. Os Cursos Normais Regionais, criados por uma dessas leis, eram vistos como forma de solucionar os problemas da formação de professores nas cidades mais afastadas da capital e na zona rural do Estado. O governo interpretava-os como “providência utilíssima” (RIO GRANDE DO NORTE, MENSAGEM, 1952, p. 10).
Assim como em outros Estados, esses cursos contribuíram para viabilizar a expansão do ensino normal em cidades interioranas do Rio Grande do Norte, tais como: Nova Cruz, Ceará Mirim, Pau dos Ferros, Martins, Apodi, Florânia, Alexandria, Angicos, Açu e Macau. Eram destinados à formação de regentes de ensino primário, uma vez que as duas Escolas Normais existentes não davam conta de formar professores, por circunstâncias diversas, para atender às necessidades no interior do Estado.
O Governador acreditava que, com a efetivação desses cursos, em poucos anos, os municípios do Estado contariam com “professores diplomados em número suficiente para provimento de suas escolas, atualmente, em grande maioria, regidas por professores leigos,
sem o conveniente preparo educacional” (RIO GRANDE DO NORTE, MENSAGEM, 1952, p. 10). Tais políticas educacionais intentavam promover, mesmo que tardiamente, a formação de professoras para o ensino primário até então inexistente nesses setores do interior do Estado.
A falta de profissional com qualificação na área educacional era marcante em todos os níveis de ensino, a começar pelos próprios Cursos Normais Regionais, cujos docentes eram convocados entre as personalidades de prestígio, que exerciam as mais diversas profissões naquelas cidades, tal como está expresso em mensagem governamental: “o corpo docente [dos cursos de regentes] está constituído por pessoas de projeção intelectual e moral do meio: médicos, bacharéis, agrônomos, sacerdotes e professores” (RIO GRANDE DO NORTE, MENSAGEM, 1952, p. 10).
Assim, no princípio da década de 1950, a tão propagada formação docente, no Rio Grande do Norte, ganha proporções significativas, saindo dos corredores da Escola Normal de Natal e da Escola Normal de Mossoró. Essas instituições perdem a exclusividade, mas assumem a condição de referências na formação docente. Os cursos de formação de professoras saem das cidades centrais do Estado Potiguar para os recônditos mais longínquos norte-rio-grandenses, sendo, naquelas comunidades, os portadores do anúncio dos tempos modernos, do progresso em fluxo permanente.