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Nas percepções e práticas da sociedade ocidental, o velho é, muitas vezes, vinculado à decrepitude e à incapacidade física e/ou mental, e colocado à margem do convívio e das relações sociais. Mas se a postura da sociedade interfere no lugar social e existencial que

esses seres ocupam, não é menos relevante a atitude que eles próprios têm diante da realidade em que estão assentados e da própria vida. É esse comportamento que contribui sobremaneira para um posicionamento altivo diante das adversidades e opressões mais presentes na velhice.

Apresentando o livro Memória e sociedade: lembranças de velhos, de Ecléa Bosi, Marilena Chauí retoma a pergunta e a resposta feitas pela autora sobre o significado de ser velho: “Que é ser velho?, pergunta você. E responde: em nossa sociedade ser velho é lutar para continuar sendo homem” (CHAUÍ, 1994, p.18). O envelhecimento implica aos velhos o desafio de preservar a sua condição de ser humano, o desafio de romper as opressões imputadas pela família e pelos mecanismos institucionais, e garantir o seu estar em sociedade de maneira íntegra.

As personagens parenteanas elencadas nessa última etapa de representação de mulheres velhas evocam essa integridade: a inteireza de ser elas mesmas e de respeitar seus desejos, suas relações, suas verdades, sua condição de ser humano em interação com o outro, quer esse outro seja o companheiro, os amigos, a família, os cuidadores, todos representantes da sociedade. A dinâmica de preservação do que é significativo pode ser vista nos dois contos, intitulados Bodas de diamante: primeira estória e Bodas de diamante: segunda estória. Neles, o casal protagoniza cenas do cotidiano de quem tem setenta e cinco anos de união e a consistência do bem querer: “eles percorrem o tempo, provam a perenidade, reabitam a solidez. A doçura do olhar no emurchecido do rosto. O lábil tremor do gesto no encontro das mãos” (CMV, p. 40). O primeiro conto relata a comemoração das bodas do casal, com a presença da família, em sua ampla extensão, e dos amigos dos familiares. É na interação entre a personagem masculina e a amiga de uma neta que são deflagradas duas faces do sentimento amoroso da personagem feminina:

Na festa, de repente, ela pergunta por ele. Onde está? Conversando. Uma amiga da bisneta. Jovem rosto, jovem percurso. Ele fala com a moça. Ele sorri pequenininho. Ela pergunta por ele. De longe ela vê. Ela chama. Ela reclama. Ele sempre foi assim? Ela não quer mais partir o bolo. [...] Ele sorri miudinho. [...] Afinal. Ela convém. Ele e ela outra vez no fundamento. O primeiro pedaço de bolo. Para quem? Ela oferece a ele. Ele sorri esperadinho. Eles se abarcam. Permanecentes (CMV, p. 40).

A interação entre a amiga da bisneta e o velhinho provoca na esposa o ciúme e o descontentamento. É evidenciado um recorrente comportamento galanteador dele, que a mobiliza no lugar de quem está atenta a ele, mas também às figuras femininas em interlocução, como a segunda estória mostra:

A enfermeira toda em branco. A seringa. A jovem mão pousada no ombro dele. Vamos? Quando a injeção é na nádega, ele vai para o quarto. Ela pára o bordado. Ela olha. Ela diz. Conjeturavelzinha. Ela não gosta que ele vá para o quarto com a enfermeira. Estas liberdades de hoje. Estas moças. Só pensam em sexo (CMV, p. 41).

Tornam-se claras a desconfiança de outras mulheres em situações de interação com o marido e a insegurança da personagem feminina. Se, no primeiro conto, o marido é responsabilizado quando a ele é atribuído um comportamento questionável, no segundo, a responsabilidade é passada para a enfermeira, reforçando o estereótipo vinculado a essas profissionais. Na vida simples que leva, a personagem feminina, despojada de ideias politicamente corretas e de maiores considerações sobre seu companheiro, apenas quer assegurar o lugar de afetividade, de um relacionamento assentado sobre o tempo, guardado pelas memórias: “Ele fazendo a gaiola de passarinho. Ela bordando as cores da tapeçaria. Eles se lembram. Quando foi? Quando houve? Quando antigamente? Haverá será? Eles insistem no consistir” (CMV, p. 41). Para além dos questionamentos e das determinações, ela quer a manutenção dos afagos e mesmo do ciúme que revigora o relacionamento e mantém a engrenagem afetiva que os torna “permanecentes”.

Aparentemente na contramão dos contos acima, Acordo estabelece o fim de um longo casamento. Aos cinquenta e dois anos de casamento, um casal de velhinhos chega ao consenso de que a convivência desgastada já foi o suficiente:

Eles se impeliam, empurrados por cinquenta e dois anos de vida conjugal. Só se antiamaram, amargos, armados. Mal se reparavam de rancores. Ele falava, ela desfalava. Ela sabia, ele contra-sabia. Ele fazia, ela infazia. Obstantes, se embargavam. Desmutuamente. Qual o lado do azeite? Qual o lado da água? Desaviam. Não que fossem culpados. Avessos no engano, erro de quem. Finalmente um acordo na discórdia consumada. Quase aos oitenta anos de idade, decidiram o divórcio (CMV, p. 74).

Ultrapassado o tempo de maiores cobranças sociais e culturais para homens e mulheres, e para os casais, os velhos desse conto decidem afrouxar os nós que os vincularam por mais de meio século. Quando a velhice se consolida, para além da desvinculação da engrenagem capitalista de produção, ocorre também a despreocupação com a procriação e a formação dos filhos, e com a manutenção do casamento enquanto fundamento para a criação da prole. Se, institucionalmente, os velhos ficam livres de algumas obrigações, como a de votar, na família, essa liberdade também é evidenciada, embora algumas vezes seja travestida

de descaso e indiferença. Na dinâmica familiar, eles são desobrigados e também se autoisentam de demandas domésticas, bem como de convenções e conveniências familiares e sociais, como assinala Alda Motta, abordando, especificamente, a mulher idosa, ao notar que ela está conseguindo “a libertação de certos controles societários que se referiam justamente à reprodução e a tolheram durante toda a juventude” (2002, p. 45). Embora o conto não eleja qualquer dos cônjuges para evidenciar ou problematizar, é sabido que os “controles societários” incidem com muito mais força sobre as mulheres, procurando mantê-las atadas ao homem, ao casamento, aos filhos, ao ideal de família burguesa, ao lar. Somente quando os controles assumiram um grau de irrelevância na vida do casal, foi possível desfazer as amarras de um relacionamento em desamor e criar a possibilidade de experimentar uma vida leve e livre.

A superação das convenções sociais e culturais e a sabedoria altiva de estar acima dos preconceitos e das demarcações é o que embala a dança das duas idosas na festa em comemoração aos vinte e cinco anos de formatura:

O inesperado mais que o de repente. Duas mulheres, duas cabeças de um branco sem fronteiras, dois abraços roliços na grossura dos corpos sem altura. Dançavam iguais no rosto gasto e maquiado igual em tons de festa e no igualmente gasto passo irmão. Como se fossem as donas da festa, nem precisaram se apossar da noite, as reverberações já lhes pertenciam. Dançavam. Rodavam. [...] Aquela insólita figuração, ousadia ou afronta? (VVV, p. 31).

A figura das duas mulheres gordas, baixas e de cabelos brancos dançando juntas, uma “insólita figuração”, é o leitmotiv para o desconforto dos demais participantes da festa. Um leque de prescrições é quebrado pela postura altiva e liberta exibida por elas. O simples fato de elas serem as primeiras a dançar no salão gera o assombro inicial nos presentes, uma vez que o distanciamento dos padrões estéticos femininos não as deixa ficar despercebidas. São mulheres acima do peso convencional, com pouca altura, cujo envelhecimento é exibido nos rostos e nos cabelos sem tintura, irmanadas na maquiagem carregada e nos passos de dança, aludindo ao reflexo de um espelho. Aliás, o espelhamento parece ser o mecanismo de desenvolvimento da narrativa, não só no tocante às duas mulheres e aos movimentos coordenados de sua dança, uma é o reflexo da outra, mas, sobretudo, na dinâmica de inquietação dos colegas de formatura, promovida pelo desconhecimento delas e pelo reconhecimento deles mesmos nas duas. Em sua transgressão às convenções e etiquetas, o jogo entre desconhecê-las e negá-las promove o reconhecimento de que elas são o reflexo

invertido deles. É a partir do verso e reverso da imagem das personagens de cabeça branca, do negar e do reconhecer-se, que as demais festejadas e a narradora, utilizando o pronome nós, questionam-se sobre as escolhas para o futuro presentificado vinte e cinco anos depois da formatura e enxergam o que seus olhos não queriam ver:

Queríamos comemorar ou resgatar o quê? A esperança do que seríamos e não fomos? Quem havíamos sido na rotação dos dias e do sol em volta de um eixo distante de nossa galáxia? [...] Sobreviventes de tempestades e ciclones, quem eram aquelas duas que roliças rolavam em volta de nós? Comodidade, mas autodefesa, não queríamos ver nem saber. Sobretudo precisávamos fazer de conta que não sentíamos qualquer tipo de constrangimento nem gastura. A demonstração do escondidamente óbvio. Quem eram tais as duas que exibiam a evidência insuspeitada por nós vinte e cinco anos antes, no baile de formatura? O tempo roliço rolava sobre as duas cabeças cobertas do branco assumido, liberto do laquê. E do medo do vento que poderia desmanchar o penteado (VVV, p. 31).

A “demonstração do escondidamente óbvio” é a contundente passagem do tempo presentificada nas duas mulheres. Através do metaplasmo, recurso muito caro a Helena Parente Cunha, em paradoxal diálogo com o vocábulo “óbvio”, o jogo de espelhamento entre as personagens é incorporado à linguagem. Elas não apenas assumem o passar do tempo, mas, principalmente, o desprender-se das amarras e prescrições sociais. Dançam à vontade no salão, permitem que seus cabelos interajam com o vento, comem sem culpa os croquetes de camarão, ostentam os cabelos brancos e os quilos advindos com o avançar da idade, libertas da tirania da beleza que costuma aprisionar mulheres de diferentes faixas etárias, como assinala Cecilia Sardenberg:

[...] são ainda as mulheres que representam a grande maioria da clientela de academias de ginástica, dos spas e dos salões de beleza, das clínicas de estética, dos cirurgiões plásticos e da indústria de cosméticos de todos os tipos. De fato, são sobretudo as mulheres que vivem sob a tirania da beleza e, mesmo as magras, sob a tirania das dietas, ‘[...] em um esforço para controlar ou eliminar os aspectos passionais do self para ganhar aprovação e prerrogativas da cultura masculina’ (CHERIN, 1981, p.187) (SARDENBERG, 2002, p. 61).

O espelhamento invertido estabelece ainda uma polarização entre as mulheres assumidamente idosas e as demais festejadas, pautada em distintas identidades de gênero, como assinalo no artigo Femina: perfis femininos na contística de Helena Parente Cunha: