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Abnegadas em favor do pai, do companheiro, dos filhos ou da família como um todo, muitas mulheres resignam-se às condições estabelecidas e “passam a ser e a viver para os outros e não para si mesmas e sua afirmação pessoal consiste precisamente em negar-se como pessoa” (ROCHA-COUTINHO, 1994, p. 33). Em muitas narrativas, é forte a presença de mulheres paralisadas diante da realidade em que estão inseridas, encarceradas nos modelos e convenções sociais construídos para elas, e, assim, destituídas delas mesmas. Algumas estão insatisfeitas com a situação em que se encontram, outras nem desconfiam que exista outro modo de viver e se relacionar que não seja o que elas experienciam. Por caminhos distintos em suas relações, cada uma delas se vê ferida pelo fio da navalha empunhada pela lógica androcêntrica.

A protagonista do conto O pai, estagnada entre a vida e a presença cerceadora do genitor, é a primeira dessas mulheres abnegadas, paralisadas diante das vontades e determinações alheias. Ela é a primeira personagem do primeiro livro de contos de Helena Parente Cunha e, como precursora, parece sinalizar uma marca que muitas outras carregarão. A figura paterna representa todo tipo de restrição a que a personagem está subordinada, sobretudo, a limitação amorosa, impedindo-a de se relacionar com qualquer homem:

O pai parado na porta, entre o triângulo e a buzina do carro. Quem é aquele desgraçado que lhe deu carona? [...] Quem é aquele... Pelo amor de Deus, pai, eu tenho quarenta anos, até quando você vai pedir satisfações de minha vida? Desculpe, pai, papaizinho, eu rasguei meu vestido brincando no quintal, desculpe (OP, p. 2).

É evidente a culpa, originária da infância, que envolve a personagem feminina e a faz acatar as intervenções impertinentes do pai. O jogo entre a culpa feminina e a dependência emocional paterna estabelece a base de funcionamento da engrenagem do relacionamento entre pai e filha. O pai, em sua dependência emocional, preenche o lugar da esposa morta com a figura da filha. Ela, por sua vez, aceita, presa à necessidade de agradar o pai e fugir da culpa oriunda da interrupção de tal circuito, e, ao mesmo tempo, atada ao pedido da mãe: “de agora em diante, minha filha, você tem que tomar conta de seu pai, fazer companhia a ele, seja uma boa filha” (OP, p. 2). O pedido materno transforma-se numa sentença de morte em vida. Para cumpri-lo, ela estaciona seu viver para se dedicar às vontades do pai, sempre na impossibilidade de contrariá-lo, o que significa enovelar-se na viscosa e estagnante destituição de si mesma:

Hoje nós vamos ao cinema juntos. Hoje nós vamos ao aniversário de sua tia. Por que você quer sair sozinha? Filha ingrata, eu faço tudo para lhe distrair e você fica aí toda emburrada. Domingo que vem nós vamos passar o dia em Itaparica na casa de seu padrinho (mas papai) você não quer ir por quê? Você tem que espairecer (OP, p. 3).

O “cuidado” exacerbado é antes chantagem emocional16

. Travestidas de atenção, cuidado e preocupação, as falas paternas são imperativos, ordens dadas à filha impossibilitada de contrariá-lo, afirmando ainda mais sua autoridade paterna, semelhante ao que acontece em Mulher no espelho, cujo pai é um verdadeiro déspota, que proíbe tudo, e cuja ordem é inquestionável:

[...] meu pai, grande demais, anulava todos ao seu redor. Senhor e dono. Voz de minha mãe não se deixava ouvir. [...]

Insignificantes éramos todos nós, em volta dele, todo-poderoso, mandando e antimandando, e nós, aos seus pés, submissos, submetidos, subjugados, submergidos, subtraídos (ME, p. 24).

Essa autoridade é decorrente da ordem da dominação masculina que outorga ao pai uma autoridade inquestionável (pater familias) desencadeadora do ódio ao pai, vivenciado pela personagem feminina de O pai e pela protagonista de Mulher no espelho. Como assinala Pierre Bourdieu, esse ódio é direcionado

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Tomo como chantagem emocional o conceito utilizado por Maria Lúcia Rocha-Coutinho ao discutir estratégias de controle feminino como resultado do papel e posição social da mulher, utilizadas por homens, filhos e pela própria mulher: “Por ‘chantagem emocional’ entendemos qualquer medo, sentimento ou sofrimento projetado por um agente social [...] sobre uma pessoa [...], com quem mantém um vínculo afetivo mais ou menos estável; ou qualquer ação feita por este agente social [...] em favor do outro [...] e que este agente social sente que deve ser reconhecido e retribuído (ROCHA-COUTINHO, 1994, p. 148).

[...] menos contra a necessidade que o discurso paterno pretende desvelar e mais contra a adesão arbitrária ao que o pai todo poderoso lhe exige, provando assim sua fragilidade: fragilidade da cumplicidade resignada, que concorda sem resistência; fragilidade da complacência que extrai satisfação e vaidade do prazer cruel de desiludir, isto é, de fazer partilhar de sua própria desilusão, de sua própria resignação, de sua própria derrota (BOURDIEU, 2011, p.89).

Ambas as protagonistas são impelidas a aceitar as intervenções paternas devido ao peso da culpa e da chantagem recorrente. O pavor de decepcionar o pai, decorrente do desejo paterno de que o primeiro filho fosse um menino e não uma menina, mobiliza a protagonista de Mulher no espelho em direção a todo tipo de subserviência ao pai, como a mulher que escreve revela, em itálico: “esta foi a sua primeira sensação de culpa. Por causa dessa decepção primordial que você deu a seu pai, você procurou sempre, inútil tentativa, compensá-lo pela perda. A partir daí, você começou a traçar seu caminho de obediência e submissão” (ME, p. 59). A culpa leva a personagem ao completo devotamento ao pai e às determinações, resguardando-lhe, inclusive, a imagem diante dos convites das amigas:

Às minhas colegas eu dizia não gosto. Da mesma forma que dizia não vou ao cinema porque não gosto. Não vou à praia porque não gosto. Não gosto, não gosto, como se não gostar justificasse tanta ausência. Como se não gostar fosse mais legítimo do que dizer meu pai não deixa. E não deixava. Por que eu não queria que as minhas colegas soubessem que ele não deixava? (ME, p. 45).

A protagonista de Mulher no espelho vive uma relação de dependência semelhante à da personagem feminina de O pai. No relacionamento entre pai e filha presentes no romance, a dependência emocional decorre da seguinte estrutura: o pai desejou um menino como primogênito, nasceu uma menina que se sente culpada por não ser menino e pelo pai (na percepção dela) dedicar mais atenção ao segundo filho, um menino. O pai, por sua vez, devota-se ao filho desejado, rejeitando ainda mais a filha, alvo das suas dominações, inclusive por ser mulher. No entanto, o que diferencia as protagonistas de O pai e de Mulher no espelho é a consciência – inexistente na primeira, e desperta na segunda, quando adulta – o que a faz compreender aquela engrenagem emocional: “eu dependia de meu pai. E meu pai dependia de mim. Ele, senhor de minha vida e do meu dia, dependia de mim. Eu, pobre criatura aos seus pés. Os que mandam dependendo dos que obedecem” (ME, p. 72). A dependência emocional é que a mantém no lugar de resignação e subserviência, pois, como ela afirma: “para viver bem com meu pai que eu amava, aprendi a viver para amá-lo. Um pai muito grande para os

meus olhos pequenos. Nunca via meu pai completamente. Não levantava a cabeça para falar com ele” (ME, p. 15).

No caso da filha do conto O pai, a condescendência implica a inércia em que ela se enreda, resvala na não realização de seus desejos, e é representada pelas alusões ao teorema de Pitágoras (o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos) e à lei de Lavoisier (na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma). Ambos aludem à inexorabilidade das verdades que expõem, apontam a inabalável ausência de mudança no cenário, a permanente estagnação da personagem feminina:

Os ângulos de um triângulo somam 180º. Por quê? Nunca, mas nunca mesmo poderá mudar? Esta soma será eternamente mesma num universo onde nada se perde e tudo se transforma? Nada se perde, nem os dias nem os anos nem as horas, nada se perde, mas tudo se transforma num monturo de lembranças rançosas de tudo que não pôde ser no baile de formatura (OP, p. 3).

É válido salientar o campo semântico e as imagens de gosma e cansaço, que aludem metaforicamente à paralisia que imobiliza a personagem diante da vida. O vocábulo “gosma” parece envolvê-la completamente, acentuando o quanto ela está impregnada de imobilidade, ou seja, o quanto há de ausência de movimento diante da própria existência:

Aquele cansaço de existir, aquela gosma impregnando os ossos, os músculos, os tecidos, o sangue estagnado sob a pele desbotada, nem mesmo um gesto a se estender no ar, ela parada na porta, nem indo nem vindo, só ali, não se mexendo, há quanto tempo a última alegria? o último sorriso? Cansaço, esforço inútil de respirar, gosma grudando o ar e a parca luz do quarto fechado (OP, p.1).

Resignada ao que poderia ter sido e não foi (o baile de formatura, o namorado, as saídas sozinha), a protagonista assume a postura característica do pai: estar parado na porta:

Cansaço. Cansaço de existir. Ela parada na porta, entre ficar e não sair, o corpo colado numa gosma nem fria nem quente, um amarrado nos ossos, um grude se enfiando pelos poros [...] O quadrado do sim é igual à soma do quadrado de todos os nãos incendiados na medula. Cansaço de viver e não viver. Nada se perde nada se ganha. O universo inteiro transformado num atoleiro bolorento de esquecimentos do que nunca aconteceu em nenhum dia, em nenhuma hora... (OP, p.4).

Mesmo depois de ele estar morto, permanece a estagnação, já instalada na filha. A incorporação da atitude parece enfatizar a letargia em que ela se encontra, completamente

ausente da própria vida, imobilizada, como afirma Elódia Xavier, ao analisar o corpo em narrativas de autoria feminina:

[...] e, morto o pai, seu corpo está agora imobilizado, passivamente parado na porta. Este corpo que perdeu até mesmo suas funções básicas, cujos ossos, músculos, tecidos e sangue estão estagnados, é o produto da ordem social que limita o espaço da mulher, acabando por imobilizá-la (XAVIER, 2007, p. 81).

O pai é o responsável por impingir nela o torpor que a retém mesmo depois da morte dele. Ao assumir a vida paterna e abdicar da própria vida, a personagem ausenta-se de si mesma presa às determinações da infância que requerem obediência ao pai, mas também atada ao pedido materno.

Semelhante cerceamento vive a protagonista de A filha, vigiada pelo pai que a impede de viver a sexualidade que arde no corpo:

Em silêncio ela vivia o seu desejo. As cenas de sexo dos filmes lhe davam vertigem, sensações poderosas escavam seu corpo. Ela mordia os dedos. Desvario. Seu sexo virgem gritava. Intacta. O inflamável. Até quando? Todas as noites, a noite indormida. Todas as manhãs, de manhã muito cedo. Os dez quilômetros de corrida na praia. Todos os dias o dia do pai começava antes dela voltar. Inquisidor, ante o fiscalizável. Por que você demorou tanto? Toda a sua vida naquela pergunta. Como em toda a sua vida, ela nada dizia. Tomava sua ducha fria (CMV, p. 68).

Toda a vida da filha está impregnada pela repressão sexual e pelo controle paterno. A ardência de um sexo virgem pulsando em desejo é obrigada a ser sublimada pelas corridas na praia, pelos dedos mordidos. Toda essa negação do desejo e de si mesma é decorrente da premissa de que o poder do pai não deve ser contrariado. À semelhança do que ocorre com a personagem de O pai, o controle é camuflado de cuidado, mas facilmente percebe-se a fiscalização por trás da fala paterna. Do mesmo modo, surge o ódio diante da impossibilidade de contrariar o poder paterno, explícito mediante a voz narrativa – “Toda a sua vida naquela pergunta” –, e da indignante opção de aplacar a raiva e o desejo com uma ducha fria.

A abnegação é duas vezes vivida por essa filha. Sufoca a sua sexualidade, reprimida pelas convenções sociais, e nega a si, enquanto sujeito no mundo, impossibilitada de questionar o pai. Toda a negação de si mesma decorre de sua condição de filha, de quem se encontra sob o poder, sob a tutela, sob a autoridade “inquestionável” do pai.

Ainda na esfera das relações pautadas na autoridade de um dos sujeitos sobre o outro, vê-se a auto-anulação das personagens dos contos Cândida e Correspondência. No primeiro,

a sujeição à madrinha é o centro da trama e o motivo da fuga, no segundo, quem exerce a autoridade e a coação é a mãe, através da dependência emocional e do adoecimento como estratégias de controle.

Cândida, como o nome indica, assumia atitudes dóceis e angelicais na vida resignada, sob os cuidados da madrinha:

Ela se chamava Cândida e cândida era. Morava com a madrinha e agradecida. A madrinha gostava, era de alegria. A madrinha mais dizia, toda manifesta. A moça havia em se existir pomba, consentida. Obedecia e cedia em tal recato, a todos intacta brandura. A madrinha mais falava, toda declarada. A afilhada em seu quieto se dobrava. Angelical estar, sem malícia nem maldade. A madrinha não cabia no compreender. O inesperado gesto. Um dia, escondidamente. Cândida fugiu de casa com um motorista de caminhão (CMV, p. 19).

Vivendo sob os favores da madrinha, restava à Cândida corresponder aos desejos e expectativas dela, enquadrando-se, abrindo mão de estar no mundo em concordância com sua personalidade, como os vocábulos “agradecida”, “consentida”, “obedecia”, “cedia” enfatizam. A condição de tutelada impõe adequar-se às condições e determinações estabelecidas pelo tutor (a). Mas, para surpresa da madrinha, acostumada à condescendência da afilhada, Cândida transgride a norma e se exerce na fuga com o motorista de caminhão, rompendo o cerco de abnegação.

A personagem de Correspondência é emaranhada nas teias da negação de si, através da autoridade materna e da noção de respeito e submissão aos pais, amplamente difundida pelo cristianismo sob uma perspectiva moralizante:

Foi há muitos e muitos anos. A vida naquela cidade se tornava cada vez mais difícil. Era preciso partir, começar em outro lugar. Sair do precário, do desamparado. O marido toma um Ita no Norte. Vai para o Rio de Janeiro. Carta pra lá carta pra cá. Um ano depois ele manda dinheiro. A esposa podia ir. A mãe da esposa era paralítica. Quando a filha dizia vou viajar, a mãe cometia um ataque. A filha não que não ia. O marido se esperava. Carta pra lá carta pra cá. Passa um ano passa outro ano, mamãe, eu vou viajar. A mãe paralítica redundava os ataques. O marido em esperava. Passaram-se cinco anos. Carta pra lá carta pra cá. Sete anos depois a mãe paralítica morreu. Carta pra lá carta pra lá carta pra lá (CMV, p. 58).

Atada às estratégias de controle materno, a personagem vê o casamento desfazer-se mediante as correspondências sem respostas. Abrindo mão de si e de seu casamento, ela retém o reencontro com o marido devido aos rogos e ataques da mãe. As expressões “cometer um ataque” e “redundar os ataques”, usadas pela voz narrativa, evidencia o quanto há de controle

estratégico na atitude materna, conduzindo o leitor a pensar num planejamento, talvez inconsciente, da ação. Analisando as formas de controle e manipulação usadas por mulheres para influenciar aqueles que estão à sua volta, Maria Lúcia Rocha-Coutinho evidencia o elemento desigualdade como o motivador para tais condutas. Ela afirma: “[...] muitas das estratégias utilizadas por homens e mulheres para controlar as pessoas à sua volta emergem de suas posições estruturadas de desigualdade social” (1994, p. 137). Sem dúvida, a relação entre as duas personagens é pautada na diferença social que envolve mãe/ autoridade e filha/ submissão, afora a diferença demarcada pela deficiência física. A mãe sabe os meandros pelos quais pode demover a filha do desejo de reencontrar o marido – o apelo ao emocional:

[...] chorar pode ser uma maneira eficaz de despertar piedade e levar o outro a fazer o que se deseja, a fim de que a dor de quem chora seja minimizada. As mulheres, como grupo de baixo poder, provavelmente desenvolveram uma forma de pressão psicológica para influenciar o comportamento dos parceiros masculinos e dos filhos (ROCHA-COUTINHO, 1994, p. 138).

A protagonista de Correspondência, assim como as de O pai e A filha resignam-se, destituídas de si mesmas em favor de não contrariar o outro que não as vê como sujeitos, como pessoas. Antes, oprime-as sob a lógica do controle e da dominação, seja através do pátrio poder ou do poder materno, menos expansivo nos domínios sociais e econômicos, porém altamente impactante na esfera doméstica. Conforme esclarece Maria Lúcia Rocha- Coutinho, exercido pela mãe, esse tipo de poder atua “sobre os bens ‘simbólicos’ dos filhos, uma vez que ela se torna produtora de sentido, nomeadora de seus atos e sentimentos, produtora de mandos e dúvidas. E este poder, por ser simbólico, não é menos opressivo” (ibidem, p.34). Cândida, diferentemente dessas personagens, subverte a ordem de submissão à madrinha tutora e foge à procura de exercer o seu estar no mundo.

Tecido pelo fio da subjetividade que caracteriza o texto epistolar, e grafado pelo itálico que anuncia a voz em primeira pessoa, o conto A carta apresenta uma personagem dividida entre ficar com o companheiro e fazer o doutorado no exterior, também vivendo a opressão, mas, dessa vez, proveniente da dúvida:

Eu quero voltar. Eu quero que você venha. Eu quero ficar. Eu não gosto de ultimato. Por que ter de escolher entre você e a tese? Por que só poder fazer o doutorado aí? Por que você não aceita a proposta e vem trabalhar como leitor aqui em Los Angeles? Por que nosso filho tem que nascer longe do teu pulsar? Por que a contemporização se desfez na diferença de fusos horários? (ACAC, p. 65).

Grávida, com uma bolsa de estudos para cursar a pós-graduação, ela se vê inquieta e insegura. As perguntas apontam a insatisfação e a insubmissão dela diante do ultimato, não o aceitando prontamente, mas também revelam a postura autoritária e intransigente do parceiro, conhecedor das estratégias do falocentrismo, como o fragmento a seguir aponta:

Fiquei. Era preciso. Eu não podia esperar mais. Você não quis considerar as minhas razões, é claro que eu poderia fazer o doutorado aí, mas não seria a mesma coisa. A língua estrangeira, você sabe mais do que eu, exige contato direto, mas você não quer levar isso em conta. E me deu o famigerado ultimato, eu teria que escolher, ou ficar com você ou seguir a carreira. Logo você, que tanto falou e escreveu sobre as artimanhas e as aberrações do falocentrismo dominador (ACAC, p. 61).

A protagonista se digladia entre os imperativos que a levaram a ficar em Los Angeles e a incompreensão do parceiro. A permanência naquela cidade é tida como uma necessidade (“era preciso”) decorrente da escolha pelo doutorado no exterior. O companheiro, conhecedor das armadilhas enredadas pela Ordem do Falo, não se distancia delas nesse momento, ao contrário, utiliza-as com o intuito de demovê-la do investimento na carreira profissional, ao exigir a escolha. Dentro da lógica calcada na dominação masculina, existe a constante vinculação feminina à inferioridade, sobretudo, no mundo do trabalho fora de casa, da vida profissional, pois “qualquer que seja sua posição no espaço social, as mulheres têm em comum o fato de estarem separadas dos homens por um coeficiente simbólico negativo que [...] afeta negativamente tudo que elas são e fazem” (BOURDIEU, 2011, p. 111). A marca negativa que a personagem carrega por ser mulher autoriza o parceiro a desprestigiar a sua vida profissional, ao lhe propor o abandono do investimento na carreira.

Inquietação similar com a vida profissional e a vida familiar é tematizada no romance As doze cores do vermelho, através de sua protagonista. Dividida entre os modelos sociais e a satisfação pessoal, ela oscila entre alavancar a carreira de artista plástica e as solicitações familiares, sobretudo, do marido e da filha menor:

Você viaja e viaja. [...] Luzes e risos em novas exposições. [...] Você pede uma ligação internacional. A voz de seu marido em recuadas margens. A menina está viajando para cantar num festival de conjuntos de rock. A menina não quer seguir a orientação do psiquiatra e recusa os medicamentos e se nega a falar. Seu marido gagueja que você deve voltar. Limitações distantemente próximas. Você está longe de seu corpo na cama. Você cancela as duas últimas exposições (ADCV, p. 91).

É semelhante também a desqualificação da carreira profissional da artista plástica pelo seu marido, decorrente do “coeficiente simbólico negativo” apontado por Bourdieu, que permite aos homens arvorarem-se numa suposta condição de superioridade. Desde o casamento, foi instalado o impasse entre a pintura e a exaltação dos afazeres domésticos, sempre relembrados pelo marido. Diminuído em sua apatia e inércia, ele não dispensa qualquer oportunidade de rebaixar as telas e a artista ao não compreensível:

[...] seu marido esbarra no cavalete e o quadro cai. As corres escorregam. Seu marido diz que não faz mal porque ninguém iria comprar aquele quadro horrível. Ele diz que você não deve fazer a exposição na galeria da praia para não se arriscar ao ridículo e além do mais ninguém vai comprar aqueles