O processo de envelhecimento acontece desde que se nasce. Os bebês, aos poucos, perdem a pele sensibilíssima, os cabelos e a voz mudam. Os adultos, por sua vez, prosseguem com o movimento da vida, passando pelas constantes transformações, não apenas físicas, embora essas sejam as que são facilmente notadas. Na velhice, outra vez, a pele é muito delicada, os cabelos embranquecem, a voz aceita a gravidade dos anos. Os sulcos esculpidos na pele, insensíveis à vontade humana, revelam uma vida que atravessou o tempo. Esse é o cenário do conto Ainda, o corpo exibe as marcas do escorrer do tempo:
O rosto, o pescoço, os braços, as mãos, os sulcos do fugir do tempo. O tempo se excede em suas marcas. A pele encrespada se transpõe. Se ratifica. Imemorial, ela dura no duro prazo. Caminha sucessiva. Velhamente. O peso das rugas arrasta seus passos. Sentada, o movimento se solidifica. Recomeçada, ela abre o tubo. O tubo de creme. Tremula o trêmulo gesto de passar o creme. O creme de tratar as mãos. Ainda e antiga (CMV, p. 48).
Na narrativa, o passar do tempo é visto em sua inexorabilidade e excesso. As partes do corpo onde ele mais se acentua são evocadas para expor não apenas o enrugamento da pele, não apenas a idade avançada pelos anos de vida, mas também o lugar da beleza, do autocuidado e da vaidade feminina. O gesto de passar creme nas mãos pode ser lido pela perspectiva de adesão à ditadura da beleza e sua norma de exigir mulheres sempre assépticas e bonitas para seus homens ou para aqueles que desejem conquistar. Cecília Sardenberg, analisando o processo de envelhecimento frente à cultura da eterna juventude, assinala que os amoldamentos e as cobranças decorrentes dos sistemas de produção corpórea abarcam homens e mulheres, “mas é certo que a construção da mulher como objeto de desejo, como é próprio às sociedades contemporâneas ditas ocidentais, resulta em investimentos maiores por parte das mulheres em seguir os padrões estéticos impostos ao seu sexo” (SARDENBERG, 2002, p. 60). No entanto, opto por explorar o ponto de vista do autocuidado e da presença da vaidade feminina em tão avançada idade.
É comum, na velhice, um descuido feminino com a aparência, uma vez que a fase de procura por um companheiro e de procriação já está, via de regra, superada. Vive-se o que Alda Motta chama de “liberdade geracional, e sobretudo existencial (...): já não são bonitas (velho = gasto, feio), não irão atrair homens, nem os de sua idade; já não reproduzem, não há muito o que preservar” (MOTTA, 2002, p.46). Muitas representações de idosas na literatura
apresentam mulheres completamente despreocupadas com a aparência e, às vezes, com a higiene e a saúde. Esse, no entanto, não é o caso da personagem do conto Ainda. Embora apresente no corpo as implacáveis marcas de uma extensa passagem do tempo, ela conserva o gesto de cuidado com as mãos, uma das partes do corpo que facilmente denuncia o tempo de vida. A personagem se recompõe da dificuldade de locomoção, oriunda da vida avançada, e, em meio a tremores, “ainda” passa o creme de tratar as mãos. O advérbio que intitula a narrativa marca a continuidade da ação. Passar creme nas mãos ainda é um movimento executado por ela, mesmo já sendo tão “antiga”, como o período final explicita. Vejo aí a ruptura com a lógica da tirania da beleza e as suas exigências sociais (como a eterna juventude feminina) que minimizam o indivíduo em favor de uma padronização. A mulher do conto mantém o gesto antigo à revelia da “pele encrespada” e dos “sulcos do fugir do tempo” esculpidos nas mãos, rosto, pescoço e braços. O propósito de mascarar as impressões no corpo do passar do tempo, comumente levado à risca pelos súditos da beleza, não é atendido. Ela transpõe as delimitações socioculturais acerca de beleza e de velhice associadas à mulher, vive o corpo como uma construção em si mesmo, e não como “um mero instrumento ou meio com o qual um conjunto de significados culturais é apenas externamente relacionado” (BUTLER, 2003, p. 27). No livro Que corpo é esse?, Elódia Xavier apresenta tipologias de corpos femininos a partir das representações presentes em narrativas brasileiras de autoria feminina. Um dos tipos é o “corpo envelhecido”, que aparece vinculado a “um declínio que desemboca, invariavelmente, na morte” (2007, p. 86), gerando a marginalização do velho. Como a autora assinala, isso ainda é mais intenso para as mulheres idosas, uma vez que, “na sociedade industrial, o velho se torna improdutivo, e as mulheres, consideradas objetos eróticos, quando idosas, tornam-se cartas fora do baralho” (2007, p. 86). Seguindo essa lógica social, a personagem do conto Ainda, afora o cuidado consigo e a demonstração de amor próprio, não teria razões para se submeter ao parâmetro da cultura da eterna juventude e se manter fiel ao gesto de passar creme nas mãos.
No conto Femininamente, a relação com o corpo evidencia a presença da autoestima evocada pelo gesto de se olhar no espelho. Existe aí o cuidado consigo, no entanto outro gesto pode ser lido como índice de uma conformação a um modelo ou como negação de um estereótipo:
O rosto anoitecido, o corpo devastado, o sentar despedaçado. A mão feminina ondeja sensual ajeitando os ralos cabelos mal pintados, o branco mais branco junto ao couro cabeludo aparecido. Desesperadamente, eu não olhava o seu se olhar despartido no espelhinho da bolsa (CMV, p. 82).
A ação de ter na bolsa um espelho e de conferir a aparência nele remete à ideia de vaidade feminina, de autocuidado, num momento da vida em que o físico não tem mais o mesmo vigor e beleza da juventude. O modo sensual como a personagem passa a mão pelos cabelos evoca a conformação sociocultural ao lugar de “objeto erótico” assinalado por Elódia Xavier. Esse gesto evidencia também o quanto o corpo assimila as definições culturais que relegam a mulher à condição de objeto de desejo masculino, promovendo a manutenção dos atributos de sedução, e, por conseguinte, da lógica de dominação simbólica, como aponta Pierre Bourdieu:
O trabalho de transformação dos corpos, ao mesmo tempo sexualmente diferenciado e sexualmente diferenciador, que se realiza em parte através dos efeitos de sugestão mimética, em parte através de injunções explícitas, e em parte, enfim, através de toda a construção simbólica da visão do corpo biológico [...], produz habitus automaticamente diferenciados e diferenciadores (BOURDIEU, 2011, p. 70).
No entanto, o mesmo movimento sensual pode indicar a negação de um estereótipo vinculado à mulher idosa, aquele referente à ausência de qualquer sensualidade nas mulheres de idade avançada. Como afirma Maria José S. Barbosa, “um dos estereótipos mais arraigados sobre mulheres idosas é a imagem da mulher velha descrita como aquela que não possui nem evoca sentimentos sensuais ou apaixonantes. Tais sentimentos quando expressos são considerados aberrantes e anormais” (BARBOSA, 2003, p. 165).
Parece, todavia, que as marcas de declínio e descuido físico (os cabelos mal pintados) não são aliadas à ideia de contrariar aquele estereótipo, mas confluem para a primeira possibilidade. À revelia da imagem demarcada pela decadência, quer decorrente do uso dos adjetivos “devastado” e “despedaçado”, quer pelos cabelos mal pintados, o movimento da mão nos cabelos se repete, está incorporado de uma sensualidade construída culturalmente para feminilizar as mulheres e preservar a estrutura de dominação simbólica.
Também é marcante, em ambos os contos, a pressão que o tempo impõe aos corpos, evocando, sobretudo em Femininamente, a ideia de declínio. Contrariando a relação entre envelhecimento e descuido com a aparência física, as personagens mantêm a atitude de autocuidado, seja mediante o zelo com as mãos, seja através da conferência da própria imagem no espelho, flagrada pela voz narrativa. As marcas impressas no corpo, “o rosto anoitecido, o corpo devastado”, evidenciadas na vagarosidade da locomoção, não restringem
as personagens ao exercício do brio. Ao contrário, elas mantêm gestos que evidenciam o cuidado de si e a presença da autoestima.