O debate sobre estresse não é novo, tendo sido apontado por Lipp (1996) que as primeiras referências à palavra stress significando “aflição” e “adversidade” datam do século XIV. No século XVII, o vocábulo, que tem origem no latim, passou a ser utilizado em inglês para designar “pressão”, “desconforto”, “adversidade”. Até meados do século passado o termo ainda era muito estudado apenas na visão fisiológica. Somente a partir das últimas décadas é que foi dado enfoque aos aspectos psicológicos.
O primeiro a utilizar o termo stress em seus estudos foi Hans Selye, em 1936. O autor inicialmente propôs o uso do termo a partir do estudo de que uma patologia emerge de um “tríplice mecanismo” formado pela “1) ação direta do agente externo – o aparente produtor da doença; 2) fatores internos que inibem tal ação; 3) fatores internos que facilitam tal ação” (SELYE, 1965, p. 244). O estresse seria então causado, em certo grau, por todos os agentes de doença em potencial. Segundo o autor, “através de tal mecanismo, eles podem modificar as respostas do corpo, alterando as forças internas de resistência e submissão”. O foco de seu estudo estava na fisiologia do estresse e nas diversas reações orgânicas decorrentes do estado de tensão que ocorrem no organismo, visando prepará-lo para enfrentar as fontes de pressão ao qual está sendo submetido. Esse enfoque foi posteriormente denominado “abordagem biológica do estresse” cujo foco encontra-se nas manifestações físicas do estresse, como um processo orgânico centrado na autopreservação e nas reações biológicas do corpo exposto a agentes estressores externos, e nas três fases do estresse inicialmente descritas por Selye (1956): alarme (ou alerta), resistência e exaustão.
Independentemente da fase, Robbins (2007) agrupou e descreveu três categorias de estresse potencial: ambiental, organizacional e individual.
Compreendem-se por “fatores ambientais” as incertezas decorrentes dos âmbitos econômico, político e tecnológico, principalmente aquelas oriundas de mudanças nos ciclos dos negócios.
Por “fatores organizacionais”, compreendem-se as pressões para evitar erros e para atingir metas e prazos, sendo que estes últimos podem ser categorizados segundo demandas classificadas por Robbins (2007, p. 440-441), em “demandas de tarefas [...], demandas de papéis [...] e demandas interpessoais”.
Por “demandas de tarefas”, compreendem-se os fatores que se relacionam diretamente ao trabalho das pessoas, ou seja, o conjunto de características físicas, de condições de trabalho e de qualificações esperadas para a realização do cargo. Couto (1987, p. 97) aponta que um “ambiente tenso, inseguro ou de medo” imposto pelas empresas como forma de aumentar a produtividade de fato produz resultados de curto prazo, mas o exagero na tensão diminui a produtividade posteriormente. Este autor sugere que “o grau de pressão deve ser dosado no sentido de não ocasionar uma ruptura do equilíbrio”.
Por “demandas de papéis”, Robbins (2007) aponta a pressão sofrida pelo trabalhador em função do papel que desempenha na organização. Couto (1987, p. 99) aponta este aspecto como sendo a “responsabilidade excessiva versus a capacidade do executante”. Quando há maior exigência de um trabalhador do que seu tempo ou suas qualificações permitem, a sobrecarga é vivenciada. E, ainda segundo o autor, “pode aparecer uma série de sintomas psicossomáticos, caracterizando o stress da responsabilidade excessiva em relação à capacidade do indivíduo”.
Já as “demandas interpessoais” são aquelas voltadas ao relacionamento com os demais membros da organização. “Relações interpessoais difíceis com chefes, colegas, subordinados e parentes costumam ser uma fonte importante de sobrecarga e stress” (COUTO, 1987, p. 163). Nessa mesma direção, Zille (2005) reforça esta questão e aponta que o relacionamento com pessoas difíceis, muitas vezes, com características de personalidade obsessiva compulsiva e, até mesmo, com patologias graves de ordem comportamental constitui fonte de
tensão excessiva no ambiente profissional, podendo precipitar quadros importantes de estresse no trabalho.
Finalmente, os “fatores individuais”, como os problemas pessoais nos âmbitos familiar e econômico, as dificuldades de relacionamentos, as diferenças individuais e características de personalidade do indivíduo irão influenciar diretamente sua percepção da realidade, do contexto no qual está inserido e, consequentemente, na possível formação de quadros de estresse. Para Robbins (2007, p. 104), a percepção é o modo segundo o qual o indivíduo constrói em si a representação e o conhecimento que possui das coisas, pessoas e situações, sendo a percepção “o processo pelo qual os indivíduos organizam e interpretam suas impressões sensoriais com a finalidade de dar sentido ao seu ambiente”. Pesquisas sobre percepção demonstram consistentemente que pessoas diferentes podem perceber uma mesma coisa de maneiras diferentes. A percepção é definida e moldada, portanto, por diversos fatores, com especial destaque para o observador (seus valores, atitudes, motivações, interesses, experiências e expectativas), para o próprio objeto ou alvo da percepção (novidade, movimento, sons, tamanho, cenário, proximidade e semelhança) e, finalmente, para o contexto ao qual a percepção pertence (momento, ambiente de trabalho e ambiente social).
Pode-se dizer que a estrutura psíquica do indivíduo e suas relações com as exigências psíquicas do meio em que está inserido são geradoras de estresse. Para Couto (1987, p. 27) “quando a estrutura psíquica do indivíduo se torna incapaz de suportar as exigências psíquicas do meio, o desempenho da pessoa cai, ocorrendo o stress de sobrecarga”. A situação inversa é o chamado “estresse por monotonia”. Para o autor, “o indivíduo dotado de certa estrutura psíquica, adaptada para certa dose de desafios, vive poucas exigências psíquicas”. Portanto, o estresse pode aparecer como resultado de exigências em excesso ou ausência destas.
Quanto à sua duração, o estresse pode ser: agudo, quando apresenta ocorrência determinada de até duas ou três semanas, aproximadamente; e crônico “se o estado de inadaptação perdurar por mais tempo”. Neste último caso, pode acarretar danos maiores à saúde dos indivíduos (COUTO, 1987, p. 17).
Selye (1974) caracteriza o estresse por uma síndrome específica de fatos biológicos, apresentando-se como uma resposta inespecífica do corpo diante de exigências às quais está sendo submetido. Para o autor, o estresse se manifesta de duas formas: o “distresse”, ou
estresse da derrota, forma como é conhecido pelo seu lado negativo; e o “eustresse”, ou estresse da realização, estresse sob seu viés positivo. No nível emocional, pode-se dizer que as reações ao estresse são bastante diferentes. Para Lipp (2005, p. 11) “o ser humano se energiza através da produção da adrenalina, a sobrevivência é preservada e uma sensação de plenitude é freqüentemente alcançada”. Porém, isso só ocorre na fase inicial do estresse, o alarme (ou alerta).
Vale ressaltar que, apesar de os dois termos serem empregados de forma separada para distinguir as consequências positivas e negativas do estresse para a vida do indivíduo, quimicamente, do ponto de vista fisiológico, essas duas formas de reação são exatamente iguais.