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2.1. KURAMSAL BİLGİLER

2.1.3. Müzikte Modern ve Postmodern Dönem

Cláudio Nogueira (2004, 2013a), em sua tese de doutorado e em texto posterior, desenvolveu longamente, de maneira bastante clara e amplamente fundamentada, utilizando diversos autores de diferentes áreas, como a sociologia, a psicanálise e a filosofia, uma resposta à questão acima colocada. O autor chegou então a uma teoria geral sobre a motivação humana para resolver o “problema da orientação social da ação individual” e poder “compreender como os indivíduos lidam com as múltiplas influências a que são submetidos, aceitando-as ou rejeitando-as em maior ou menor grau” (2013a, p. 4). Trazer aqui toda a argumentação de Nogueira talvez seja desnecessário e mesmo impraticável, já que o próprio autor se utilizou de uma tese inteira para elaborar sua argumentação. Restringir-me-ei, então, a apontar algumas de suas conclusões/soluções.

A argumentação desenvolvida por Nogueira (2013a), a partir de múltiplos autores, para abordar o problema da orientação social da ação individual o leva a defender a hipótese de que os indivíduos agem, diante das múltiplas influências a que são submetidos, a partir de uma “necessidade de segurança ontológica, de estabelecimento de uma versão socialmente compartilhada da realidade.” (2013a, p. 46). Em outras palavras, “os indivíduos precisam, antes de tudo, sentir-se seguros em relação às suas percepções, crenças e valores. Essa segurança seria obtida por meio da confirmação ou do reconhecimento alheio.” (2013a, p. 49).

Os indivíduos tenderiam, portanto, a cada momento e ao longo de toda a sua trajetória de vida, a sustentar a versão da realidade que lhes parecesse fazer mais sentido, que fosse mais plausível ou, simplesmente, que fosse mais facilmente reconhecida como válida. (NOGUEIRA, 2013a, p. 49).

Tendo isso em vista, caberia ao sociólogo “investigar quais os apoios que o indivíduo encontrou e encontra que o levam a sustentar essa versão específica da realidade.” (NOGUEIRA, 2013a, p. 49). O trabalho do investigador, portanto, se torna bastante complexo, pois não basta que categorize os indivíduos em grandes grupos ou tipos ideais para que se consiga entender completamente suas formas de agir individualmente (como faz a macrossociologia). Porém, não basta também que o investigador apenas descreva as múltiplas influências a que determinado indivíduo foi submetido e aponte aquela a que ele teria se

submetido mais fortemente tendo em vista suas disposições presentes (como faz a microssociologia disposicionalista de Lahire). É preciso conseguir explicar o que o levou a se submeter, total ou parcialmente, a certa(s) influência(s) e a rejeitar, total ou parcialmente, outra(s). A necessidade de segurança ontológica ajudaria nessa explicação.

Em resumo, a ideia é que os indivíduos vão ser mais ou menos propensos a impor aos outros suas versões da realidade conforme tenham encontrado no passado e acreditem poder encontrar no presente interações rituais ou círculos de reconhecimento nos quais essas versões possam ser aceitas como válidas. Inversamente, os indivíduos seriam mais ou menos propensos a aceitar a versão da realidade alheia conforme tenham encontrado no passado e acreditem poder encontrar no presente interações rituais ou círculos de reconhecimento alternativos nos quais suas próprias definições da realidade possam ser aceitas como válidas. Dito de uma forma ainda mais simples, tudo dependeria dos apoios sociais encontrados pelos indivíduos, no passado e no presente, para suas versões da realidade. (NOGUEIRA, 2013a, p. 41).

Na tentativa de fortalecer sua versão da realidade, os indivíduos se afastariam das pessoas e ambientes em que sua versão da realidade é contestada e se aproximariam daqueles em que acreditam poder ter essa versão da realidade reconhecida como válida. Além disso, haveria a tentativa de imposição da versão da realidade a “outros indivíduos ou grupos mais ou menos destoantes.” Neste caso, os resultados poderiam ser variados. Obtendo sucesso com essa imposição, os indivíduos conquistariam o reconhecimento alheio, mas, fracassando, modificariam total ou parcialmente a versão da realidade que originalmente sustentavam ou se afastariam total ou parcialmente dos indivíduos envolvidos.

Basicamente, essa seria a forma de agir dos indivíduos diante da multiplicidade de influências e versões da realidade encontradas em sua trajetória, conforme nos indica Nogueira (2013a).

O grau em que uma dada versão da realidade poderia ser socialmente reconhecida como válida seria indicado pelas experiências passadas do indivíduo, ou seja, pelos sucessos e fracassos que este tenha obtido em interações rituais e círculos de reconhecimento anteriores. Em poucas palavras, o indivíduo se sentiria mais ou menos seguro em relação às suas percepções ou à sua versão da realidade conforme estas tenham sido mais ou menos reconhecidas pelos outros ao longo de sua trajetória de vida. O reconhecimento efetivo de uma dada versão da realidade dependeria, no entanto, do estado atual do mercado de interações rituais ou do leque de círculos de reconhecimento. Dito de forma bem simples, tudo dependeria da existência ou não, no contexto presente, de outras pessoas dispostas (por identificação espontânea ou por conversão ou imposição) a reconhecer a versão da realidade que o indivíduo aprendeu a sustentar ao longo de sua trajetória passada. (NOGUEIRA, 2013a, p. 44-45).

Quando faltasse ao indivíduo, total ou parcialmente, apoios sociais, ele “se tornaria inseguro e predisposto a aceitar as tentativas de submissão ou conversão alheias”, já que seria “difícil acreditar em si mesmo e em suas possibilidades de sucesso sem o reconhecimento alheio da validade dessas percepções.” No entanto, “os indivíduos não abdicariam de uma dada versão da realidade sem possuírem outra passível de ser socialmente compartilhada.” (NOGUEIRA, 2013a, p. 47).

Com base nessas conclusões de Nogueira, a compreensão de trajetórias individuais, que é uma das propostas deste trabalho, não se afasta muito, portanto, da proposta metodológica de Bernard Lahire, pois, de qualquer forma, é preciso conhecer as experiências vividas pelos atores desde a infância para se chegar a uma compreensão mais profunda sobre quem eles são e como eles se tornaram quem eles são. A diferença é que, enquanto com Lahire ficamos mais num nível descritivo – em que dizemos, por exemplo, a partir do conhecimento da trajetória de vida de um indivíduo, que ele se tornou um leitor porque recebeu influências de outros leitores (pais e/ou amigos e/ou professores e/ou patrões etc.) –, a partir dos conceitos de reconhecimento e segurança ontológica poderíamos explicar os modos como os indivíduos lidaram com as múltiplas influências.

Em vez de simplesmente descrever as múltiplas influências sofridas pelo indivíduo ou de se atribuir, de maneira ad hoc, uma importância causal maior ou menor a essa ou aquela influência, propõe-se aqui um modelo geral de interpretação do modo como os indivíduos lidam com as influências sociais, ou seja, com as tentativas de submissão ou conversão alheias. (NOGUEIRA, 2013a, p. 52).

Esse “modelo geral de interpretação”, de fato, acrescenta algo muito importante à proposta teórico-metodológica de Lahire. Aplicando o modelo aos estudos de caso aqui propostos, poderíamos então supor encontrar na trajetória de cada indivíduo múltiplas influências para se tornarem ou não leitores de livros. A algumas dessas influências os indivíduos iriam se submeter (ou se apropriar), enquanto a outras não. Como se trata de indivíduos leitores, supõe-se então, grosso modo, que eles teriam se apropriado/submetido às influências “positivas” para se tornarem leitores enquanto teriam se afastado ou rejeitado as influências “negativas” (o que a proposta de Lahire já permitiria compreender), e a explicação estaria no fato de que as influências positivas seriam fonte de reconhecimento e aumentariam a segurança ontológica desses indivíduos, ao contrário das influências negativas (é o que Nogueira traz de principal acréscimo). Num exemplo hipotético, se um indivíduo integra um grupo em que todos são leitores e apenas esse indivíduo não o é, supõe-se que, para se sentir

parte desse grupo e ser reconhecido por ele, passando então a sustentar uma versão da realidade tida como válida, ele também deverá se tornar um leitor (ou ao menos se apresentar como um leitor). Em poucas palavras, na perspectiva de Lahire diríamos simplesmente que o indivíduo se tornou leitor por ter sido influenciado por esse grupo; já na proposta teórica de Nogueira, explicaríamos que ele foi influenciado e “convertido” por esse grupo porque o ser humano precisa ter validada a sua versão da realidade, necessita se sentir reconhecido e seguro de ser quem ele é. Caso ele não se convertesse, se sentiria excluído e poderia até mesmo se excluir fisicamente da participação no grupo, isolando-se e/ou aderindo então a outro grupo em que ser leitor não fosse um pré-requisito para a validação de seu pertencimento (caso vislumbrasse essa possibilidade).