2.1. KURAMSAL BİLGİLER
2.1.5. Türkiye Cumhuriyeti’nde Müzik Eğitimi Süreci
Randall Collins (1993, p. 221-222) relaciona, rapidamente, o altruísmo ao reconhecimento social e à energia emocional, algo que creio ser importante para esta pesquisa, já que os casos analisados se referem não apenas a indivíduos que são leitores mas que também são considerados tipos altruístas por distribuírem livros e leituras para a população supostamente sem qualquer custo.
Para Collins, “O altruísmo é uma situação em que um indivíduo dá algo de valor a fim de beneficiar alguém”, sendo que esse “algo de valor” pode ser tanto bens materiais quanto “tempo e esforço” – o que estiver em oferta mais abundante. (COLLINS, 1993, p. 221-222). As formas de altruísmo mais complexas, segundo Collins, seriam aquelas em que os “receptores” da caridade não são do mesmo grupo dos “doadores”. Nesses casos, os doadores teriam poder e recursos superiores aos dos receptores, o que centraria a atenção na superioridade do poder dos doadores e na superioridade de suas posses materiais. Para Collins, isso faria com que o foco de um ritual de caridade fosse “explicitamente autocongratulatório, gerando capital simbólico no processo de doar capital material. [...] Longe de ser um sacrifício de poder, há um
7 Este raciocínio me parece estar pressuposto na teoria de Collins, ainda que não de maneira muito desenvolvida nos textos de referência desta tese. Cláudio Nogueira, no entanto, considera que a perspectiva de Collins trata a interação social “como um simples balcão de trocas no qual os indivíduos se apresentam com suas identidades pré-construídas (no caso da teoria de Collins, seus símbolos de pertencimento) e recebem as recompensas ou punições que lhes são institucionalmente reservadas.” (NOGUEIRA, 2013a, p. 31).
retorno de energia para a participação nesse tipo de caridade”. Por isso, “Pessoas que fazem grandes contribuições de caridade normalmente fazem isso em uma situação de participação ritual altamente divulgada”, pois assim o investimento na doação se torna um ganho também para o doador. (COLLINS, 1993, 221-222).
Como se percebe, a perspectiva de Collins, ainda que coloque a motivação para a ação dos atores sobretudo na busca de energia emocional, considera que é no reconhecimento alheio, no olhar da sociedade, que essa energia será encontrada. Energia emocional e reconhecimento social seriam duas coisas intimamente relacionadas. Assim, afirmar peremptoriamente que o que os indivíduos buscam em suas interações é energia emocional ou reconhecimento social, energia emocional ou segurança ontológica, pode, talvez, ser apenas uma questão de perspectiva: as pessoas buscariam energia emocional porque ela promoveria segurança ontológica e elas buscariam segurança ontológica porque ela aumentaria a energia emocional.
Tomemos o exemplo do altruísmo. Collins indica que se trata de uma ação que produz muita energia emocional justamente porque gera uma visibilidade positiva. Numa sociedade de princípios cristãos, por exemplo, ações altruístas são extremamente bem vistas. Mesmo no caso de um altruísmo anônimo (por exemplo, doar dinheiro a uma campanha solidária sem se identificar aos receptores da doação e sem compartilhar a ação com qualquer pessoa), não faltaria em tal ação uma recompensa de energia emocional ou um reconhecimento da versão da realidade. Contudo, não estariam implícitas nessa ação a visibilidade. O indivíduo poderia se sentir energizado emocionalmente justamente por estar provando a si mesmo que não precisa do olhar do outro para realizar suas ações e se sentir bem com isso. Ele estaria, nesse caso, validando seus próprios princípios, validando sua versão da realidade que diz que o altruísmo não deveria visar a ganhos para o doador, não deveria ser autointeressado. Com isso, provavelmente esse indivíduo sentir-se-ia mais seguro em ser quem ele é e em defender socialmente os valores que defende, já que a ação de comprovação para si de seu desinteresse em ganhos próprios seria altamente energizante. Porém, certamente seria mais recompensador emocionalmente se, em uma conversa ou em uma discussão, por exemplo, ele pudesse provar a falta de interesse próprio no altruísmo declarando que fez uma doação anônima, mas então ele estaria tirando a ação do anonimato e contrariando a própria afirmação. Ou seja, esse exemplo, que pode ser considerado extremo, mostra que é possível obter energia emocional e validar sua versão da realidade sem ter de contar com o olhar do outro, porém essa energia emocional seria provavelmente de um nível muito mais baixo e a validação da versão da realidade seria de pouco valor. Portanto, um altruísmo completamente anônimo seria, talvez,
um caso de ação isolada, que dificilmente se converteria em um hábito recorrente, dificilmente se converteria em uma disposição.
Ao contrário do que pode parecer, no entanto, avaliar o altruísmo sob esta perspectiva não significa, ou não deveria significar, uma desvalorização desse tipo de ação. É importante esclarecer isso já que os casos aqui analisados se referem a indivíduos que podem ser considerados altruístas e cujas ações ganharam grande visibilidade na sociedade e na mídia. O interesse da análise é em perceber o significado e a motivação das ações, não em julgar seu valor (sobretudo porque, a partir da perspectiva aqui considerada, todo e qualquer hábito, de toda e qualquer pessoa, visaria (também) a ganhos pessoais, o que não deixa ninguém isento para apontar o autointeresse como um “pecado”).
Enfim, como se abordará, sobre o caso de cada indivíduo, repercussões de suas histórias na mídia, considera-se que tais repercussões, desde que não sejam “negativas”, seriam altamente recompensadoras do ponto de vista da energia emocional e, se convergentes com a autoimagem que esses indivíduos apresentam, representariam uma importante validação da versão da realidade desses indivíduos, reforçando sua segurança ontológica. Dessa forma, seria de se esperar que os indivíduos procurassem corresponder (mais ou menos conscientemente) à imagem que a mídia faz deles (o que, como já adiantado no começo do capítulo, o primeiro encontro confirmou e será demonstrado na segunda parte de cada análise, referente a esse primeiro encontro).
Com base na perspectiva teórico-metodológica apresentada, procurou-se ainda descrever e analisar interações sociais vividas pelos indivíduos durante toda a sua trajetória, da primeira infância até dias recentes, que teriam relação com a formação de suas disposições para a leitura e promoção de livros. Mesmo com as limitações dos dados, inerente ao tipo de coleta, espera-se que as cadeias de interações descritas, analisadas em relação ao nível de energia emocional que forneceram ou extraíram e em relação ao quanto satisfizeram as necessidades de reconhecimento e segurança ontológica ou atuaram para a conversão das versões da realidade dos indivíduos, permitam oferecer retratos coerentes da formação de leitores nos/dos meios populares e suficientemente instigantes para promover reflexões produtivas sobre essa formação.