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3. MATERYAL VE METOT

3.3. Veri Toplama Araçları

Naquele domingo do dia 15 de maio, a sessão foi marcada para se iniciar às 9 horas da manhã. Segundo o Diario de Minas, teve início às 9 horas e 30 minutos. Lidas as duas atas das

sessões antecedentes, Francisco Campos divulgou os telegramas recebidos.288 Em seguida, Magalhães Drummond e Firmino Costa apresentam pedidos de retificações nas publicações de conclusões e aditivos relativos às teses por eles apresentados.289

286 Minas Geraes, 15 de maio, p. 10 -11. 287 Diario de Minas, 15 de maio, 1ª p.

288 De Aracaju, Recife, Curityba e Florianópolis, ou seja, do norte ao sul do país.

289 Firmino Costa se justifica dizendo que, ao apresentar um aditivo à tese QP 3, não foram excluídas as conclusões apresentadas por sua relatora, Isabel Bastos, conforme fez parecer a publicação do dia anterior. Chama atenção a parte final das conclusões dessa relatora, sobre o número de alunos em sala. Segundo ela, nenhum disparate maior, em materia de organização escolar, do que a accumulação excessiva de creanças, em um grupo ou escola, e entregues a um só individuo, director ou professor. Esse regimen, que está adquirindo fôros de cidade, fere fundo o principio da acessibilidade das escolas [Minas Geraes, 16 e 17 de maio, p. 8]. A quê estariam endereçadas essas críticas?

Por sua vez, João Augusto Chaves e Ricardo de Souza Cruz fazem declaração de votos para

constar nos annaes.290

Passa-se, então, às discussões das teses programadas, como sempre, na véspera. A primeira delas, a OGE 8, relativa à classificação, promoção e premiação dos professores por seu trabalho, ou seja, vinculada aos elementos componentes de uma “carreira do magistério”, foi objeto de muitos apartes – emendas e substitutivos – alguns aprovados, outros rejeitados e outros mais prejudicados.291 Em seguida, sem polêmica aparente, é aprovada a conclusão proposta para a tese DTM 6. Passa-se á discussão da seguinte these, sobre Escolas Infantis –

Qual a melhor organização que se deve dar á escola infantil para que esta preencha seus fins? Qual o methodo preferivel? (EI 1).292 A relatora, Ondina Brandão, dentre outras ponderações, destaca que o fim do Jardim Infantil não é instruir e sim educar, continuando a

acção do lar.293 Quanto à organização, refere-se aos horários, programas, papel da mestra. O método a ser adoptado, segundo ela, é o misto, ou seja, aquele que resultaria da uma fusão das propostas de Froebel, Montessori e DeCroly (sic), por nenhum [deles] preencher, em

separado, os fins desejados. Antes de chegar a essa conclusão, expõe, em linhas gerais, o pensamento de cada um desses pedagogos europeus, destacando o que considera positivo em cada um, especialmente no que se refere aos materiais de ensino e às atividades. Aparentemente, as posições da relatora não provocaram discussões.294 Pode-se pensar, talvez, que a referência aos autores estrangeiros, tenha sido recebida de um modo “natural” – estariam eles, à essa época, já amplamente divulgados entre os educadores? Por fim, discutiu- se a tese AE 4 – Os actuais livros adoptados para o ensino da leitura preenchem os fins

desejados? Na discussão dessa tese há uma tensão latente, que pode ser deduzida dos termos antagônicos das conclusões publicadas: uma, negando a questão posta e outra resultante de

290 Também chama a atenção a declaração de voto de João Augusto Chaves, sobre a tese QP 7, relativa à idade mínima e máxima para admissão de alunos. É interessante destacar a amplitude do intervalo temporal de idade ao que ele denomina de creança: – Si a edade de 6 annos é para iniciar as noções de educação dos sentidos e da

linguagem, a de 15 annos é para terminar os estudos, elementares, [sic] levando a creança comsigo um preparo

que assegure, ao menos em parte, no meio onde se acha ou em outro, um roteiro por onde tenha de começar a vida [Minas Geraes, 16 e 17 de maio, p. 8].

291 Dois pontos merecem um comentário. Primeiro, o Minas Geraes noticia que a relatora, Vitalia Campos, defende seu parecer, lendo trechos diversos desse trabalho. Tal relatório não está publicado. Seria interessante localizá-lo. Outro ponto, diz respeito ao estudo da “carreira do magistério” que pode ser deduzida das posições questionadas e/ou defendidas.

292 Minas Geraes, 16 e 17 de maio, p. 8. 293 Minas Geraes, 16 e 17 de maio, p. 8.

294 Acho importante destacar o teor de uma proposta de emenda [aprovada] e uma declaração de voto, ambos no sentido de que se criasse uma classe de Jardim de Infancia, onde não houvesse escolas infantis e em todos os grupos escolares do interior do Estado. [Minas Geraes, 16 e 17 de maio, p. 9].

uma declaração apresentada à mesa, afirmando-a.295 As tensões sobre esse tema dos livros didáticos ficará mais evidenciada, quando se discutir a tese seguinte, relativa ao aparelhamento escolar.

A parte final da sessão ordinária desse domingo foi destinada à apresentação de diversas

moções. A primeira delas, apresentada por Alberto Alvares, diz respeito à implementação do

fundo escolar, dispositivo criado pela Constituição Estadual e que, segundo ele, poderia assegurar as condições para tornar effectiva a obrigatoriedade escolar. Em sua proposta, Alvares sugere tanto as regras para a aplicação desse fundo quanto os percentuais a serem aplicados nas diversas fontes tributárias concorrentes para a sua formação. Dentre essas fontes, destaca o imposto ‘per capta’ para cuja justificativa recorre aos argumentos de Ruy Barbosa e dos países que o adotaram. Por fim, apresenta um cálculo do valor aproximado do montante a ser arrecadado para esse fundo, discriminando cada item. Evidentemente, essa moção tem aprovação unânime. Margarida Praxedes propôs, também, a conveniencia de

estabelecer uma porcentagem sobre o imposto de importação, a ser destinada para as caixas

escolares, medida considerada inconstitucional, por Alberto Alvares. Outra moção, apresentada por Cordeiro Valladares, referiu-se à exoneração dos funcionários públicos. As indicações apresentadas relacionam-se a: premios de viagem para os professores (apresentada por por Philocelina da Costa Mattos Almeida), applauso e agradecimento a Mello Vianna, Sandoval de Azevedo e Lucio dos Santos (Guerino Casasanta), saudações a Manoel Thomaz de Carvalho Britto e ao falecido João Pinheiro (Juscelino de Aguiar), comissão de professores

para elaborar livros (Ramos Cesar e Julio Bueno).296 Aparentemente, essas posições apontam

295 Os termos das conclusões aprovadas foram: – Não. Alguns não permittem desenvolver a intelligencia e a iniciativa dos alumnos: outros são pobres em vocabularios emquanto em diversos encontramos vocabulario improprio ao ensino de creanças menores de 14 annos, phraseologia difficil, complicada e acima da comprehensão dos alumnos primarios. Quasi todos não são attrahentes e não se prestam ao cultivo da memoria

e imaginação da creança. Essa posição foi apresentada por Firmino Costa que a propôs à comissão cujo relator

foi Affonso Santos. Já os termos da declaração, apresentada por Oswaldo de Mello Campos foram os seguintes: – Os abaixo assignados, membros do Conselho Superior da Instrucção Publica, declaram que discordam dos termos peremptorios com que foram redigidas as conclusões da commissão relatora da 4.ª these sobre apparelhamento escolar, visto como, em duas consultas, sob fórma de plebiscito, feitas ao magisterio primario do Estado e, mais tarde, ao da Capital, poucos foram os compendios renegados e consequentemente, abolidos da lista dos livros adoptados para o ensino de leitura. É evidente que algo ocorreu aqui. O Conselho Superior de Instrucção tinha, entre suas atribuições, a aprovação dos livros que poderiam ser adotados pelas escolas. Affonso dos Santos era membro desse Conselho e, também, relator dessa tese. Entretanto, o texto da conclusão aprovado foi o proposto for Firmino Costa. Ou seja, a posição aprovada pelos congressistas contrariava as posições do Conselho e a forma encontrada para registrar isso foi através de uma declaração. Portanto, é preciso investigar melhor as relações desse Conselho com os demais “grupos” que constituíam o campo educacional, nesse momento.

296 A moção sobre o fundo escolar apresenta dados muito interessantes para a compreensão do quadro financeiro do Estado, no período.

para dois campos de interesse bem distintos, bem demarcados: o educacional e o político. Encerrando os trabalhos da manhã, são solicitadas várias rectificações, publicadas na próxima edição do Minas Geraes, ou seja, na edição que, nesse momento, serve de fonte para a compreensão aproximada do que se passara. Antes de ser levantada a sessão, o sr. Alberto

Alvares consulta á casa si convém prorogar por mais dois dias os trabalhos do Congresso, sendo approvada a prorogação.297

A tarde desse domingo foi destinada a linda festa que o sr. Secretario do Interior, com o

concurso de nossa sociedade, offereceu aos srs. membros do 1º Congresso de Instrucção Primaria, no grupo escolar ‘Afonso Penna’,298 festa essa cuja cobertura é apresentada pelo

Minas Geraes e Diario de Minas.299 Apesar de seguir o padrão dos registros de outros eventos afins, os jornais parecem dar um destaque especial a essa festa. Assim é que as autoridades mais importantes, o núcleo mais central do executivo mineiro são os últimos a chegarem e os primeiros a saírem; a programação executada é publicada, incluindo a relação das professoras e alunas envolvidas bem como dos responsáveis pelo aparato musical; o “tom” dado à descrição do evento está mais próximo de uma “idealização” que de algo que se dá “no mundo dos homens”, ou seja, de modo a fazer parecer, para aqueles que não estiveram presentes e tomam conhecimento através dos jornais, que o ocorrido foi um “protótipo de perfeição”. Mesmo assim, dois pontos merecem destaque/análise, pois “extravasam” os limites do Congresso. O primeiro diz respeito à referência que é feita a outra festa ocorrida na semana anterior, no dia 4 de maio, no Parque Municipal de Belo Horizonte – a Tarde Azul,

um festival que a alta sociedade promoveu em homenagem á exma. sra. d. Julieta de Andrade, esposa do presidente Antonio Carlos – amplamente divulgada pelo Diario de

Minas. As perguntas – por que, para quê e para quem essa festa foi realizada, exatamente uma semana antes da realização do Primeiro Congresso de IP, além da escolha desse nome – têm persistido. Tenho algumas hipóteses ligeiras. Uma é que, nessa festa reuniu-se especificamente, “a turma da capital”. Outra é que, na pessoa da esposa de Antonio Carlos,

297 Minas Geraes, 16 e 17 de maio, p. 9. 298 Minas Geraes, 16 e 17 de maio, p. 14.

299 Não há registro dessa festa no Correio Mineiro – é provável que seus representantes não tenham sido convidados. É interessante comparar o enfoque dado por um e por outro, as aproximações e os distanciamentos. Já sabemos que o redator oficial do Congresso, no Minas Geraes foi Negrão de Lima. Entretanto, ainda não encontrei dados concretos sobre isso, quanto ao Diario de Minas e Correio Mineiro, apenas algumas pistas. O

Correio Mineiro do dia 20 de maio publicou, na primeira página, notícia de um banquete offerecido á imprensa

pela bancada de Juiz de Fóra. Parto do suposto de que Carlos Drummond de Andrade (Carlos Andrade) e Gregoriano Canedo tenham feito a cobertura do evento pelo Diario de Minas e Jair Silva, pelo Correio Mineiro. Carlos Drumond de Andrade pode ser identificado na foto do banquete, publicada na primeira página da edição de 21 de maio de 1927, também no Correio Mineiro.

estava-se homenageando as mães, grupo de mulheres que seria substituído pelas professoras no Congresso de IP. Outra ainda é que, ao ser divulgada, com destaque, pelo Diario de

Minas, apresentava-se como um evento específico do PRM. O fato é que, quanto às mães, o

mesmo jornal, no dia 3, publica o discurso de Carlos Góes Pela glorificação das mães

brasileiras, pronunciado na festa destinada às mães, ocorrida na Escola Normal Modelo, no dia 1º de maio. Conclusão que se pode pensar: todo o projeto político de educação popular não poderia obter sucesso sem a participação efetiva das mães; além disso, ao dar ênfase na formação da professora, a próxima reforma educacional procurava assegurar, de antemão, o lugar privilegiado das mães na formação das creanças. O segundo ponto de destaque da festa no Affonso Penna está relacionado ao baile, em que duzentos pares ... encheram aquellas

horas de uma alegria e encanto de juventude.300 Em diversos momentos, os jornais fazem referência à beleza e juventude das professoras, aos seus chapéus, à elegância, ao uso discreto de pós e ruges, à inteligência. Pude encontrar uma charge na revista Semana illustrada que traz a estatistica de cupido em Bello Horizonte: rapazes – 21.000; moças – 3.000 (cada rapaz

– 1 namorada; cada moça – 14 namorados).301 Provavelmente, esse quadro era o mesmo no

mês de maio, pois chama a atenção do redator do Correio Mineiro a preponderância das mulheres sobre os homens no conjunto dos congressistas.302 Assim, a referência a duzentos

pares dançando remete a um “equilíbrio momentâneo” na demografia da cidade, relativo ao

grupo social de maior prestígio.303 Teria o Primeiro Congresso de Instrucção Primaria sido, também, um momento propício para a constituição de novas famílias?304