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3. BÖLÜM

3.3. Yol Vergisi’nin Nüfusa Etkileri

Apesar do enfoque central dessa tese tratar dos fluxos de IED, a conexão entre as diversas ramificações da globalização demanda que também se faça uma breve análise do comércio internacional.

A adoção de medidas liberalizantes no âmbito do comércio internacional – que se operacionalizam, principalmente, por meio de dois mecanismos: a eliminação das cotas de importações; e, a redução e/ou unificação e tarifas de importações – de fato tem contribuído para a ampliação das relações comerciais globais, sobretudo a partir da metade da década de 80, conforme mostra a figura abaixo.

Este comportamento evidencia a nova onda de globalização que vai se concretizar a partir da década de 90, e que tem como um dos seus principais marcos a efetiva atuação da Organização Mundial do Comércio (OMC), inaugurando uma nova fase das relações internacionais.

100 150 200 250 300 350 400 450 500 550 600 1950 - 1960 1970 - 1980 1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 Importações Exportações

Figura 6 – Índice de Exportações e Importações Mundiais (1950-1960 = 100)

Fonte: WTO

Como se sabe, depois de sucessivas tentativas, a Rodada Uruguai só foi estabelecida quatro anos após o previsto, com o Acordo de Marrakesh em 1994, dando origem a efetiva formação da OMC. Cabe lembrar que o atraso das constituições da OMC foi ocasionado, principalmente, pelas dissensões envolvendo os Estados Unidos e a União Européia, sobretudo nas questões envolvendo o comércio agrícola.

Apesar da relevância dos países desenvolvidos no cenário econômico internacional, e nas organizações internacionais, como já fora discutido anteriormente, não se pode negar que a proposta de uma função de tribunal da OMC; a isonomia entre os países membros; e, a obrigatoriedade da aceitação das regras por todos aqueles que a compõe, a distingue de outros organismos internacionais, principalmente o FMI e o Banco Mundial, uma vez que esses se baseiam numa estrutura hierárquica, permitindo a canalização das ingerências dos países desenvolvidos, principalmente dos Estados Unidos e de parte da Europa.

Apesar dessa distinção, reafirma-se aqui que a formação estatutária da OMC em 1994 permitiu a efetiva composição (em conjunto com o FMI e o Banco Mundial) do sistema de

sustentação oriundo do sistema de Bretton Woods, o que unificou os objetivos de assegurar

uma maior coesão entre as políticas comerciais, financeiras e monetárias, o que envolve, de modo inclusivo, a cooperação entre os três organismos.

A fundação da OMC se dá em meio a um período de intensa expansão do comércio internacional, que de acordo com a figura abaixo registrou uma taxa de crescimento bem superior à taxa de crescimento da produção mundial.

Outra importante evidência apontada pela figura abaixo, é que o comércio internacional, apesar de crescer a taxas bem superiores à produção mundial, apresentou uma sensibilidade também maior nos períodos de crise, ou seja, nos períodos de recessão, a queda do comércio internacional foi maior do que a da produção, com destaque para os anos de 1982, 1998 e 2001, fato que exprime, entre outros fatores, uma reversão das tendências liberalizantes. -10,00 -5,00 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 1961-1970 1982 1985 1988 1991 1994 1997 2000 2003

PIB - var. % Crescimento das exportações e importações (var. %) Crescimento medio (1981-2003)

Comercio mundial - 6,11% Economia - 2,63%

Figura 7 – PIB e Exportações (var. %)

Fonte: Elaborado pelo autor a partir dos dados da OMC e do Banco Mundial.

A principal justificativa desse fenômeno, o crescimento do comércio internacional, foi o processo de integração dos mercados nacionais, que no bojo do movimento de globalização, que como já fora discutido anteriormente, também fez crescer o grau de interdependência das economias nacionais.

Não obstante esses resultados, considera-se que ainda são predominantes as atividades econômicas nacionais, uma vez que a relação entre as exportações e o produto mundial

apresenta uma proporção inferior a um terço, apesar da sua tendência de crescimento, sobretudo a partir do final dos anos 80 e início dos anos 90, conforme mostra a Figura abaixo.

Exportações Mundiais de Bens e Serviços (% do PIB)

10 12 14 16 18 20 22 24 26 28 1960 1964 1968 1972 1976 1980 1984 1988 1992 1996 2000 2004

Figura 8 – Exportações Mundiais de Bens e Serviços em relação ao PIB (em %) Fonte: Banco Mundial

Uma análise mais detalhada dos dados de comércio internacional corrobora a hipótese desenvolvida no primeiro capítulo de que boa parte do comércio internacional está concentrada em torno de quatro grandes centros: a América Anglo-Saxônica, a Europa Ocidental, o Japão (que formam o G3) e Ásia. Cabe lembrar que com exceção do último grupo, os países que compõem esses pólos são desenvolvidos.

A despeito de todo esse movimento supracitado, as evidências também reafirmam uma relativa estabilidade da participação desse pequeno grupo de países entre os principais exportadores, mesmo após a intensificação das relações comerciais a partir do final da década

de 80, de tal modo que são identificadas poucas alterações nas posições do ranking dos dez

maiores exportadores, que em conjunto têm respondido por cerca de metade do volume negociado mundialmente, conforme mostra a tabela abaixo.

Outra importante evidência que os dados sobre o comércio internacional sugerem reitera a sensível redução da participação dos Estados Unidos no comércio internacional. No entanto, tal situação não deve ser ajuizada levando-se em consideração apenas o fluxo exportações norte-americanas, outros pontos devem ser levados em consideração, como por

exemplo, a absorção das rendas oriundas dos investimentos diretos, que responderam por um

volume médio proporcional a 12% das exportações totais do país79.

Em contrapartida, o crescimento da participação chinesa no volume total de mercadorias vendidas merece destaque, uma vez que o país tem sustentado, ao longo da

última década, uma das principais posições no ranking do internacional de comércio.

Quanto às importações, o que se percebe é o crescimento da concentração entre os dez maiores importadores de mercadorias, dos quais fazem parte os já tradicionais membros do G3 (Europa Ocidental, América Anglo-Saxônica e Japão), mas que também incluem, proporcionando o aumento dessa centralização, os negócios envolvendo a China e Hong Kong.

Tabela 1 – Principais Países Importadores e Exportadores de Mercadorias (part. %)

P a ís e s e xp o rt a d o re s 1 9 4 9 -1 9 4 9 a n o s 5 0 a n o s 6 0 a n o s 7 0 a n o s 8 0 a n o s 9 0 a n o s 2 0 0 0 U n it e d S t a t e s o f A m e ric a 2 4 ,3 1 5 ,7 1 4 ,2 1 1 ,5 1 1 ,2 1 1 ,9 9 ,5 Ge rm a n y 0 ,0 6 ,6 9 , 7 1 0 ,5 1 0 ,2 1 0 ,2 9 ,4 C h in a 0 ,8 2 ,2 4 , 4 6 ,7 8 ,5 8 ,2 5 ,9 J a p a n 3 ,8 5 ,0 5 , 4 5 ,9 5 ,5 5 ,8 4 ,6 F ra n c e 1 3 ,2 9 ,0 7 , 2 5 ,1 5 ,1 4 ,9 3 ,8 N e t h e rla n d s 0 ,0 1 ,7 1 , 2 0 ,8 1 ,4 2 ,8 6 ,7 U n it e d K in g d o m a n d N .Ire la n d 1 ,2 2 ,1 3 , 7 4 ,0 4 ,2 4 ,5 3 ,7 It a ly 2 ,6 3 ,1 3 , 8 4 ,4 3 ,8 3 ,8 3 ,8 C a n a d a 6 ,1 5 ,0 4 , 8 4 ,0 4 ,0 3 ,8 3 ,5 C h in a , H o n g K o n g S A R 0 ,9 0 ,6 0 , 6 0 ,8 1 ,6 3 ,2 2 ,8 S o m a t ó ria 5 2 ,9 5 0 ,9 5 5 ,1 5 3 ,8 5 5 ,5 5 9 ,1 5 3 ,8 P a ís e s im p o rt a d o re s 1 9 4 8 -1 9 4 9 a n o s 5 0 a n o s 6 0 a n o s 7 0 a n o s 8 0 a n o s 9 0 a n o s 2 0 0 0 U n it e d S t a t e s o f A m e ric a 1 4 ,4 1 3 ,1 1 2 ,3 1 3 ,1 1 5 ,3 1 5 ,6 1 6 ,4 Ge rm a n y 0 ,0 5 ,7 8 , 1 8 ,9 8 ,3 8 ,9 7 ,5 J a p a n 1 ,5 2 ,7 4 , 5 6 ,3 6 ,5 6 ,0 4 ,9 U n it e d K in g d o m a n d N .Ire la n d 1 5 ,5 1 0 ,4 8 , 0 5 ,9 5 ,7 5 ,5 4 ,9 F ra n c e 5 ,9 5 ,0 5 , 5 6 ,3 6 ,0 5 ,7 4 ,8 It a ly 1 ,6 2 ,7 4 , 0 4 ,4 4 ,6 4 ,1 3 ,6 C h in a 0 ,0 1 ,6 1 , 0 0 ,8 1 ,5 2 ,4 5 ,6 N e t h e rla n d s 3 ,9 3 ,7 4 , 4 4 ,6 3 ,6 3 ,4 3 ,4 C a n a d a 5 ,2 5 ,0 4 , 5 3 ,8 3 ,6 3 ,5 3 ,1 C h in a , H o n g K o n g S A R 1 ,1 0 ,8 0 , 8 0 ,9 1 ,6 3 ,3 2 ,9 S o m a t ó ria 4 8 ,9 5 0 ,6 5 3 ,1 5 4 ,8 5 6 ,6 5 8 ,5 5 7 ,0 P rin c ip a is im p o rt a d o re s e e xp o rt a d o re s (p a rt . % )

Fonte: Elaborado pelo autor a partir dos dados da WTO.

As atividades de serviços, que têm sido responsáveis por cerca de 20% do comércio

exterior total (mercadorias e serviços) nas últimas três décadas80, também se encontram

concentradas nas dez maiores economias (54,2% nos anos 2000), apesar de ter apresentado uma relativa dispersão ao longo das últimas três décadas. Todavia, apesar do crescimento absoluto registrado, também chama a atenção a relativa estabilidade das posições dos países que figuram entre os principais exportadores de serviços, conforme mostra a Tabela abaixo.

79

Para os anos 80, 90 e 2000 as rendas oriundas dos investimentos diretos norte-americanas foram respectivamente 12,6%, 11,7% e 13,0%. Dados calculados a partir do Balanço de Pagamentos dos Estados Unidos.

80

Tabela 2 – Principais Países Exportadores e Importadores de Serviços (part.%)

Paíse s e xpo rtad ore s an os 80 a nos 90 a no s 2000

Un ite d St ate s of America 16,8 18,3 15,9

Un ite d King dom an d N.Ire land 7,7 6,9 8,2

Ge rma ny 9,1 7,2 4,7 Franc e 7,8 6,4 6,1 Ja pan 5,5 5,0 4,2 Sp ain 4,7 5,0 3,6 Ita ly 3,3 3,3 3,7 Ne the rlan ds 3,7 3,7 3,1 Ch ina 1,9 2,6 2,5 Ch ina , Ho ng Ko ng SA R 2,3 2,3 2,2 So má toria 62,9 60,7 54,2

Paíse s impo rtad ore s an os 80 a nos 90 a no s 2000

Un ite d St ate s of America 13,8 12,4 13,1

Ge rma ny 9,2 9,9 8,4

Ja pan 8,5 9,1 5,8

Un ite d King dom an d N.Ire land 5,8 5,7 6,6

Franc e 6,5 5,6 4,1 Ita ly 3,9 4,6 3,8 Ne the rlan ds 3,6 3,5 3,1 Ca nad a 3,0 2,9 2,7 Ch ina 0,4 1,5 3,3 Sa udi Arabia 5,4 2,1 1,4 Soma tória 60,0 57,4 52,3

Princ ipa is expo rtad ore s e imp orta do res de s erv iço s (p art. %)

Fonte: Elaborado pelo autor a partir dos dados da WTO.

A Tabela acima também aponta para um movimento bastante semelhante às exportações de serviços se efetivando nas importações de serviços, ou seja, não há registro de oscilações significativas na posição e na participação dos países tradicionalmente membros

desse ranking, exceto pelo crescimento da participação da China, e pela forte retração dos

negócios envolvendo a Arábia Saudita.

No que tange ao crescimento da importância da Ásia no comercio internacional de mercadorias, este deve ser avaliado num contexto mais amplo, que também inclui países que estão fora deste continente, e que tem a ver com as condições tecno-científicas dos países em

desenvolvimento denominados NICs (Newly industrialized countries)81

.

Os NICs, dos quais o Brasil e a China também fazem parte, têm em comum a ampliação de suas respectivas bases industriais voltadas à atividade exportadora, cujas peculiaridades demandariam uma avaliação específica que não será objeto de análise neste trabalho, mas que tem como destaque a ser citado a importância da produção de bens de alta

81 Fazem parte desse grupo os seguintes países: África do Sul, México, Brasil, Índia, Malásia, Filipinas,

tecnologia nas suas respectivas pautas de exportação, conforme mostra a tabela abaixo que inclui alguns destes países82.

Tabela 3 - Exportações de Bens de Alta Tecnologia (part. nas exportações totais – em %)

País/Período Anos 80 Anos 90 Anos 2000

Singapore 18,1 50,8 58,7 Malaysia 39,5 45,3 57,0 Korea, Rep. 16,7 23,4 32,1 United States 16,3 32,4 31,2 Thailand 18,8 25,8 29,6 United Kingdom 24,9 26,4 28,7 China - 8,7 25,8 Japan 23,9 25,1 24,4 Mexico 5,0 14,1 21,0 France 15,5 19,1 21,0 Germany 11,1 13,0 17,1 Canada 11,4 14,9 15,2 Brazil 3,2 6,7 14,7 Italy 7,0 8,0 8,3 Fonte : WTO.

Voltando à justificativa da integração dos mercados nacionais como um dos principais determinantes comércio internacional, a avaliação dessas correntes comerciais internacionais contribui para a evidência de que ainda prevalece um considerável descompasso entre o grupo de países industrializados e o resto do mundo, ou seja, reafirma a inexistência de um movimento comercial efetivamente global, no sentido estrito da universalidade.

Tal assertiva pode ser justificada por uma simples constatação empírica que mostra que de um total de 216 países, 180 tiveram uma participação de 11,98% do volume mundial

de exportações, ao longo dos anos 200083, o que significa que apenas 36 países concentraram

quase 90% dos negócios internacionais envolvendo a venda de mercadorias e serviços.

A composição desses fluxos inter-regionais de comércio indica que as trocas globais ainda mantêm uma estrutura nuclear, que funciona a partir de ramificações entre os quatro pólos, o que inclui algumas áreas periféricas, que estão ligadas a um ou dois dos pólos centrais.

Exemplo disso, é que a América Latina ainda depende primeiramente dos Estados Unidos e, em seguida, da União Européia. Já a Comunidade dos Estados Independentes, a Europa Oriental e a África dependem sobremaneira da União Européia. Além disso, apesar de

82 Como o próximo capítulo tratará de avaliar o fluxo de IED no Brasil, parte dessa discussão será abordada. 83

um conjunto de tratativas, inclusive envolvendo o governo brasileiro, ainda são incipientes as correntes comerciais no âmbito Sul-Sul.

Outra importante característica que deve ser destacada, é que nestes principais centros comerciais as transações envolvendo os blocos regionais têm crescido sensivelmente, e são significativamente superiores aos índices registrados nos países periféricos.

Exemplo disso, é que o comércio intra-regional na União Européia, para o ano de

2002, foi de 67,92%. No NAFTA (North American Free Trade Agreement) a mesma medida

foi de 44,61%. Para a ASEAN (Association of South East Asian Nations) o comércio inter-

bloco foi de 24,12. Já a relação entre a Comunidade Andina foi de apenas 10,23%, enquanto

que no MERCOSUL de 14,88%84.

Além disso, o comércio internacional exprime outro contraste histórico: enquanto os blocos compostos por países desenvolvidos têm as suas pautas de exportações baseadas em produtos de elevado valor agregado, os países em desenvolvimento concentram suas exportações nos bens primários, salvo as exceções que fazem parte do grupo acima citado, os NICs. Na tabela abaixo, é possível constatar tais evidências, cujo destaque deve ser feito à União Européia e ao NAFTA.

Os dados também mostram que o caso mais gritante, entre os avaliados, é da Comunidade Andina, cuja participação dos produtos manufaturados não chega a um quarto das suas exportações totais.

Para o caso do MERCOSUL, cabe uma avaliação específica, em que é possível identificar uma maior participação (43,27%) dos produtos manufaturados quando o cálculo inclui o Brasil. Porém, sem o Brasil as condições da pauta de exportação dos demais países se assemelham à Comunidade Andina.

Já para a ASEAN, uma avaliação distinta também se faz necessária, uma vez que ao excluir os dados da Malásia, de Cingapura e da Tailândia, constata-se uma participação relativamente elevada dos produtos primários para o bloco, próxima a 40%. Cabe ressaltar que esses três países concentram boa parte das exportações totais do bloco, perfazendo quase três quartos do volume total negociado.

84

Tabela 4 – Exportação de bens primários e manufaturados – Blocos regionais (part. nas exportações totais – em %) - 2002

BLOCOS part. % primários part. % manufaturados

NAFTA 20,54 76,22 MERCOSUL1 54,87 43,27 MERCOSUL2 71,29 26,45 ANDINO 77,06 22,93 ASEAN3 23,38 74,80 ASEAN4 38,05 61,77 UNIÃO EUROPÉIA 15,85 80,53 1 MERCOSUL completo 2 MERCOSUL menos o Brasil 3 ASEAN completa

4 ASEAN menos Malasia, Cingapura e Tailândia

Elaborado pelo autor, a partir dos dados da OMC. Disponível em: www.wto.org

É mais do que evidente que as disparidades comerciais entre Sul e o Norte exprimem as vantagens estruturais das economias dos países desenvolvidos. Porém, outro ponto importante que deve ser ressalvado, refere-se ao protecionismo dos países desenvolvidos sobre suas atividades agrícolas, que prejudica frontalmente os países em desenvolvimento, e geralmente representam um dos principais pontos de dissenso nas negociações da OMC.

É exatamente neste ponto, que cabe destacar a relação desse grupo de países (desenvolvidos) e a OMC, uma vez que o novo contexto que se efetiva, por meio das negociações e das regras implementadas, tem enfatizado a importância da diplomacia comercial, no sentido de atuar sobre essas desvantagens.

Neste sentido, a OMC tornou-se um fórum, que entre outras coisas, tem buscado afetar a maneira de se fazer política externa, particularmente dos países em desenvolvimento, ao trazer à tona a atuação de uma diplomacia comercial que tem procurado atuar sobre os pontos de divergência com os países desenvolvidos, sobretudo no que se refere à manutenção desse protecionismo.

Porém, cabe lembrar que a Rodada Uruguai do GATT pautou, principalmente, as negociações envolvendo os setores industriais, com destaque para os segmentos de alta tecnologia. Ademais, o novo sistema multilateral de comércio atuou sobre as atividades de

serviços85, bem como tratou de regulamentar os aspectos relacionados à propriedade

intelectual e à proteção de patentes86.

85 Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS). 86

Essas questões estavam especificamente relacionadas aos interesses dos países desenvolvidos, enquanto as tratativas envolvendo as barreiras ao setor agrícola, de interesse dos países em desenvolvimento, têm avançado marginalmente.

Cabe aqui, então, ressaltar o papel preponderante dos Estados Unidos e da União Européia no sentido de postergar as negociações envolvendo a redução das barreiras no setor agrícola, que no bojo do acordo da Casa de Blair, tem confirmado a maneira de atuação contraditória, pelo menos do ponto de vista retórico que envolve a globalização e do processo de liberalização, desses países.

Em função disso, pode-se afirmar que o acordo de Marrakesh serviu para ampliar as assimetrias que envolvem esses dois mundos, apesar de toda uma preocupação propalada pela OMC de atuar sobre o comércio agrícola, priorizando as discussões que envolvem o setor, mas sempre esbarrando nos interesses das grandes potências.

Fica evidente, que a OMC não tem conseguido um desempenho isonômico, algo que contrapõe a sua própria origem, isso porque os europeus e os norte-americanos têm constantemente dificultado o estabelecimento de uma agenda básica que inclua as questões de interesse dos países em desenvolvimento, o que implica numa verdadeira falta de compromisso com o próprio acordo de Marrakesh.

Ademais, o que se percebe é que todas as pregações acerca da minimização do peso do Estado na economia, propaladas pelos arautos do Consenso de Washington, igualmente não encontram evidências nos fatos, dado que as rodadas de negociações da OMC apenas reafirmam a intervenção dos Estados das grandes potências, fato que, por sua vez, exprime uma contradição em termos da própria agenda neoliberal.

Na realidade, o que se percebe é que não apenas os Estados continuam sendo fundamentais nas questões econômicas, como também as mesas de negociação ampliam o processo regulatório do mercado internacional, que na grande maioria das vezes visa atender os interesses dos países desenvolvidos, que a partir dos seus Estados conseguem vantagens que serão usufruídas pelas empresas multinacionais sediadas nesses, fato que também corrobora as proposições teóricas desenvolvidas ao longo deste trabalho.

Historicamente, esse padrão de comércio internacional tem refletido o comportamento recorrente das grandes potências, que ao longo dos seus ciclos de desenvolvimento econômico contou com as intervenções estatais para proteger suas atividades.

Cabe lembrar que esse comportamento reproduz uma atuação recorrente das grandes potências, uma vez que na constituição do GATT, em 1948, os países industrializados, capitaneados pelos Estados Unidos, impuseram um conjunto de novas regras envolvendo as

tarifas externas dos bens de alto valor agregado, mas excluiu da pauta de negociações os produtos agrícolas, além de outros acordos envolvendo atividades caracterizadas por trabalho intensivo, o que afetou frontalmente os países mais pobres.

Agora, em meio a uma fase em que predomina o pensamento neoliberal, tais empreitadas buscam manter as mesmas assimetrias, mas atuando sobre novas áreas, especificamente a propriedade intelectual e os serviços.

Com o Acordo de Marrakech, passou-se a regular, por meios do TRIPs e do GATS atividades que guardam estreita relação com os interesses das grandes corporações multinacionais, lembrando que sequer este primeiro acordo tem uma relação direta com as atividades de comércio.

Também não se pode esquecer que a aprovação desses acordos, por parte dos membros da OMC, foi realizada a partir de uma série de negociações, junto aos países em desenvolvimento, que prometiam abrir novas tratativas sobre a atividade agrícola, mas as mesmas se arrastam até os dias de hoje.

Portanto, é prevalecente, pelo menos até 2002, aquilo que no linguajar de Genebra se

denomina “Quad”, ou seja, a atuação conjunta dos Estados Unidos, da Comunidade Européia,

do Japão e do Canadá em defesa das propostas liberalizantes da Rodada do Uruguai87. Essa

atuação tem como princípio um tipo de barganha em que se buscam vantagens sem que sejam

necessárias quaisquer concessões de grande monta88.

Em função disso, pode-se afirmar que o protecionismo agrícola dos países desenvolvidos se tornou um ponto de instabilidade para o sistema comercial multilateral, o que em vários momentos tem colocado em dúvida a própria essência da OMC.

Portanto, a OMC, que deveria se destacar das demais instituições de Bretton Woods

pelo seu caráter multilateral e pela inexistência de uma hierarquia controlada pelas principais potências, parece não estar conseguindo empreender um efetivo sucesso, pelo menos no que tange aos interesses dos países em desenvolvimento, isso porque os Estados Unidos e a Europa ainda não assimilaram essa forma multilateral de negociações, fato que contribui para reafirmar a manutenção de sua posição hegemônica dentro do sistema internacional, ao mesmo tempo em que a Europa se mantém fiel a um dos pilares de sua origem, à Política Agrícola Comum.

87

Ver Presser (2005).

88

Para alguns analistas, o ano de 2003 pode marcar uma efetiva reversão desse quadro, com a formação, capitaneada pelo Brasil e pela Índia, do G20, que buscou confrontar de maneira efetiva a posições do Quad

quanto aos subsídios agrícolas, incluindo, de maneira mais concreta, o tema nas rodadas de negociação que se seguem. Porém, tendo em vista o fato de que este trabalho está circunscrito ao período 1990-2002, tal tema não será objeto de análise.