2.2. Cumhuriyet Dönemi Yol Vergisi
2.2.1.5. Şose ve Köprüler Hakkındaki Kanun
Como já citado anteriormente, a disseminação das proposições neoliberais pelo mundo ocorre a partir de elementos externos, por meio da atuação dos organismos internacionais e das principais potências capitaneadas por Washington e internos a partir do consentimento, o que significa que as transformações próprias do arcabouço neoliberal também dependem da constituição de uma anuência política que para se efetivar deve contar com o apoio de uma ampla camada da sociedade.
Como se sabe, em alguns casos a implantação da agenda neoliberal se concretizou por meio do uso da força militar, como no caso do Chile, ou pela imposição financeira, a partir das operações de salvamento do FMI em alguns países.
Mas, em geral, a sua efetiva dispersão pelo mundo em desenvolvimento está associada à concepção de um sentimento fatalista, que tem limitado a percepção de opções políticas, de tal modo que se cria um sentimento apoiado numa condição em que não existem alternativas, se não trilhar o caminho do Consenso de Washington.
É bem verdade que a edificação do referido consentimento tem variado de país para país, de tal modo que sua materialização não é homogênea, até porque os mecanismos culturais e ideológicos pelos quais tais princípios se disseminam são muitos, e geralmente estão vinculados aos aspectos cotidianos de cada sociedade.
Não obstante, não se pode negar que o neoliberalismo impregnou o senso comum da idéia de que suas origens ontológicas estão baseadas numa verdade absoluta, segundo a qual sua efetivação, ou seja, a adoção de políticas condizentes com suas proposições é imprescindível e própria do processo de regulação da ordem social.
Tal perspectiva parte do pressuposto de que a fundamentação desse consentimento político está baseada na categoria desenvolvida por Gramsci (2006) de senso comum. Para o autor, a construção desse consentimento político é falsamente difundida a partir de questões culturais, fator que permite torná-lo praticamente irreversível em seus fins.
Em função disso, considera-se que a disseminação do senso comum está baseada nas práticas de socialização cultural, e afetam profundamente as questões políticas tanto na esfera nacional quanto regional.
Além disso, e baseando-se em Harvey, avalia-se que:
[...] o senso comum pode ser profundamente enganoso, escamoteando ou obscurecendo problemas reais sob preconceitos culturais. Valores culturais e tradicionais (como a crença em Deus e nos país ou concepções da posição das mulheres na sociedade) e temores (de comunistas, imigrantes, estrangeiros ou “outros” em geral) podem ser mobilizados para mascarar outras realidades. Podem-se invocar slogans políticos que mascarem estratégias específicas por traz de vagos artifícios retóricos (2008, p. 49)49.
A disseminação desses princípios se dá por diversos canais, através dos quais as proposições ideológicas são transmitidas. Dentre eles, destacam-se os meios de comunicação e a sociedade civil, com destaque para as universidades, as igrejas e as associações patronais.
Nos Estados Unidos as proposições neoliberais encontraram um amplo espectro de atuação nessas instituições, e se efetivaram a partir dos financiamentos, por parte das
empresas que compõem o grupo acima, de boa parte do “estoque de bancos de idéias” 50; pela
associação às empresas que atuam nos meios de comunicação; e, pela “conversão” de muitos
49
Segundo o autor: “A palavra liberdade ressoa tão amplamente na compreensão do senso comum que têm os norte-americanos que se tornou “um botão que as elites podem pressionar para abrir a porta às massas” a fim de justificar quase qualquer coisa. Foi assim que Bush pôde justificar respectivamente a guerra do Iraque.” (HARVEY, 2008, p. 49)
50
Como exemplo, Harvey (2008) cita a importância da Câmara de Comércio e a Federação Nacional da Indústria norte-americana na disseminação dos princípios neoliberais. O autor afirma que a Câmara foi tem canalizado um imenso volume de recursos com o claro objetivo tanto de fazer lobby junto ao legislativo quanto promover pesquisas condizentes com seus interesses, que se baseiam nos princípios do neoliberalismo. Entre os principais resultados dessa “empreitada” destacam-se a formação dos chamados “bancos de idéias”, tais como a Heritage Foundation, o Hoover Institute, o Center for the Study of American Enterprise Institute e a National Bureau of Economic Research (NBER), que em geral fomentam estudos que buscam elaborar argumentos técnicos e
empíricos para fundamentar e defender os princípios constantes da perspectiva neoliberal, sobretudo nas áreas das Ciências Econômicas, da Ciência Política, da Sociologia e da Filosofia. Cabe, ainda, chamar a atenção para o fato de que o autor aponta que quase metade dos recursos utilizados pela NBER veio de corporações que figura
intelectuais “à maneira neoliberal de pensar”, de tal modo que se conseguiu criar um ambiente favorável ao neoliberalismo e, assim, associá-lo à idéia de que sua adoção é a única opção viável para que os indivíduos possam alcançar a liberdade plena.
Deve-se destacar, ainda, como ilustração dessa percepção, o fato de que a comunidade acadêmica e a NBER nutrem uma forte e estreita relação, de tal modo que a formatação de diversas escolas, com destaque para aquelas vinculadas aos cursos de economia, passou a estar condizente com os matizes teóricos ligados ao neoliberalismo.
Essa relação encontra respaldo na categoria de campo científico (espaço que envolve a
produção científica), desenvolvida por Bourdieu (1983) 51. Segundo o autor esse campo é a
própria expressão de um campo social, na qual as relações de força visam favorecer os interesses dos seus membros. Ademais, as disputas travadas dentro do campo científico têm o objetivo de proporcionar a obtenção e a manutenção da autoridade científica, que apesar de individual tende a se agregar a um determinado poder social.
Sucintamente, pode-se afirmar que essa perspectiva mostra que uma agenda de pesquisa deve levar em consideração não apenas relevância do objeto de estudo, mas, também a possibilidade dos “resultados obtidos” garantirem o destaque no campo científico do qual faz parte52.
Essa discussão está envolta por amplo e complexo debate atrelado o uso da linguagem, que não cabe ser aprofundado nesse trabalho, mas que traz à tona um conceito de capital que está associado à estrutura de classes e suas relações “inter-estamentais”.
Baseando-se nessa premissa, é possível se fazer um paralelo dessa discussão com a afirmação de que a disseminação dos princípios neoliberais encontra ressonância nesses
sistemas simbólicos53, sobretudo porque esses se consolidam a partir de uma imposição
ideológica que se espalha de maneira imperceptível, reproduzindo o discurso e a ideologia das classes dominantes.
Neste sentido, uma vez difundida a ideologia neoliberal nas camadas da sociedade civil - com destaque para os meios de comunicações, os centros de pesquisa e as
51 BOURDIEU, P. O campo científico. In: ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: Ática,
1983. (Col. "Grandes Cientistas Sociais", vol. 39).
52
Por sua vez, tal proposição está baseada na categoria habitus, que para o autor representa um: “[...] sistema de disposições inconscientes que constitui o produto da interiorização das estruturas objetivas e que, enquanto lugar geométrico dos determinados objetivos e de uma determinação, do futuro objetivo e das esperanças subjetivas, tende a produzir práticas e, por esta via, carreiras objetivamente ajustadas às estruturas objetivas.” (BOURDIEU, 1998, p. 201-202)
53
Bourdieu (1998) considera que o poder simbólico, ao se materializar a partir dos usos da linguagem, reafirma as próprias formas de poder, que em geral assumem contornos irreconhecíveis e atuam em ambientes nos quais são desconhecidos os seus verdadeiros fundamentos baseados no processo de dominação.
universidades - o passo seguinte foi se estabelecer e se solidificar nos partidos políticos, que ao chegarem ao governo passaram a corporificar, por meio do processo político, tais ideais no próprio poder do Estado.
Neste ponto, cabe retomar a categoria de senso comum, desenvolvida por Gramsci (2006), para concluir que sua proposição torna-se evidente à medida que permite a disseminação dos princípios neoliberais a partir de recursos que fazem uso de valores culturais que expressam um verdadeiro poder simbólico.
E, nesse ínterim, considera-se, baseando-se em Harvey, que:
O projeto declarado de restauração do poder econômico a uma pequena elite provavelmente não teria muito apoio popular. Mas um esforço programático de defesa da causa das liberdades individuais poderia construir um apelo a uma base popular, disfarçando assim o trabalho de restauração do poder de classe. Além disso, uma vez que fez a virada neoliberal, o aparato do Estado pôde usar seus poderes de persuasão necessários à perpetuação de seu poder. [...] esse foi o ponto forte particular de Thatcher e Reagan (2008, p. 50).
Cabe ressaltar, ainda, que a retórica neoliberal, baseada nos princípios da individualidade, na política da identidade, no multiculturalismo e no consumismo, busca se sustentar nas forças sociais, vendendo uma falácia que é a meta da justiça social por meio da conquista do poder do Estado. O neoliberalismo usa do seu discurso para vender tais ideais, que no seu arcabouço é uma conseqüência natural, quando a opção é a sua adoção.
Neste sentido, o neoliberalismo faz o papel ideológico dos interesses em questão, para desenvolver, na prática, estratégias que se baseiam tanto na liberdade de escolha individual, que envolve o consumo, o estilo de vida, as formas de expressão, quanto nas práticas culturais. Assim sendo:
A neoliberalização precisava, política e economicamente, da construção de uma cultura populista neoliberal fundada no mercado que promovesse o consumismo diferenciado e o libertarianismo individual. No tocante a isso, ela se mostrou mais que compatível com o impulso cultural chamado pós-modernismo, que havia muito espreitava no ninho, mas agora podia surgir, emplumado, como dominante tanto cultural quanto intelectual. Foi esse o desafio que as corporações e as elites de classe se puseram a aprimorar nos anos de 1980. (HARVEY, 2008, p. 52)
Além disso, o autor chama a atenção para o fato de que:
As idéias econômicas mobilizadas em apoio à virada neoliberal se configuraram, segundo Blyth, como uma complexa fusão de monetarismo (Friedman), expectativas racionais (Lucas), escolha pública (Buchanan e Tullock) e das idéias (menos respeitáveis, mas nem por isso privadas de influência) sobre o lado da oferta de
Laffer [...] O ponto comum mais aceitável desses argumentos era a alegação de que a intervenção do governo era antes o problema do que a solução, e que uma política monetária estável associada a radicais cortes de impostos nas faixas mais altas produziria uma economia mais saudável ao manter os incentivos à atividade empreendedora corretamente alinhada. (HARVEY, 2008, p. 63-64)
Por sua vez, não se pode minimizar o papel da imprensa norte-americana
especializada, capitaneada pelo Wall Street Journal, que também se encarregou de propagar
tais idéias, vendendo ao mundo que a solução dos problemas econômicos passaria, inevitavelmente, pela adoção das medidas constantes do receituário neoliberal.
Nas universidades tais ideais também foram se estabelecendo, e passaram a compor a maioria dos trabalhos que formam os bancos de idéias, bem como influenciam as principais escolas de economia e negócios norte-americanas, que assumiram um papel central para chamada ortodoxia neoliberal.
Além disso, deve-se lembrar que essas universidades se tornaram verdadeiros campos de treinamento para alunos de outros países e de economistas, denominados por Willianson
(1992) de technopol,54, que viriam a compor os quadros técnicos do Banco Mundial e do FMI,
de diversos governos, além de outros organismos, de tal modo que as proposições da ortodoxia econômica estão sendo difundidas mundo afora.
Como exemplo da situação acima, basta lembrar que os economistas responsáveis pela elaboração e implementação do Plano Real foram formados por universidades norte- americanas, e boa parte deles compõe o quadro docente do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, que é reconhecidamente caracterizado por sua ortodoxia neoclássica55.
Por fim, vale ressaltar, ainda, o fato de que as bases da edificação do consentimento neoliberal na Grã-Bretanha são um pouco distintas das que compuseram o processo norte- americano, em função das diferenças que envolvem tanto os aspectos culturais quanto políticos dos dois países.
De acordo com Harvey (2008), historicamente o poder corporativo (industrial e financeiro) na Grã-Bretanha é avesso ao chamado ativismo político aberto, de tal modo que
54
Williamson (1992) chamou de technopols uma burocracia estruturada, que geralmente é formada por
economistas que além do amplo conhecimento teórico do mainstream econômico, capaz de manejar os
instrumentos de política econômica sem estarem sujeitos às pressões corporativas.
55
Todos esses economistas fizeram os seus doutorados nas principais escolas de economia nos Estados Unidos que representam o pensamento ortodoxo. Pedro Malan é PhD por Berkley e professor do Departamento de
Economia da PUC-RJ; Edmar Bacha é PhD por Yale e professor do Departamento de Economia da PUC-RJ;
André Lara Resende é PhD pelo MIT e professor do Departamento de Economia da PUC-RJ; Gustavo Franco é PhD por Harvard e professor do Departamento de Economia da PUC-RJ ; e, Pérsio Arida é PhD pelo MIT.
sua atuação tende a ser bem mais direta sobre o governo, a academia, o poder judiciário e sobre o funcionalismo público.
Ademais, o autor chama a atenção para o fato de que as condições políticas, antes da era Thatcher, eram determinadas pelo poder do Partido Trabalhista, que por sua vez estava alicerçado pelo poder da classe trabalhadora, o que contribuiu para a implementação de um amplo programa de bem-estar social, estado esse que se tornou objeto de ataque.
Nos meios acadêmicos os princípios neoliberais já se destacavam, representando uma forte oposição aos mecanismos implementados de pelo Partido Trabalhista. Entre os principais nomes que defendiam os ideais propostos por Hayek destaca-se Keith Joseph do Insitute of Economic Affairs, que se tornou ao longo do governo Thatcher um dos seus
principais “gurus”. Também contribuiu para tal formatação a criação do Centre for Policy
Studies (1974), e do Adam Smith Institute (1976).
Concomitantemente, os meios de comunicação, capitaneados pelo Financial Times,
também passaram a se comprometer com o neoliberalismo, fato que contribuiu, sobremaneira, para afetar a opinião pública no país.
Somado a esse movimento a Grã-Bretanha recorre, ao longo dos anos 70, duas vezes aos FMI, por conta do agravamento de sua crise econômica, dando início, ainda sob o gabinete do Partido Trabalhista, à profundos cortes nos gastos sociais, motivo pelo qual uma intensa crise no governo se estabelece levando à queda do gabinete, que foi substituído por um novo formado pela Primeira Ministra Margareth Thatcher, cuja atuação em prol dos princípios ligados ao pensamento neoliberal dispensa apresentações.
Por fim, cabe reafirmar que historicamente a implementação política dessa agenda neoliberal tem variado de país para país, como será analisado especificamente no caso brasileiro, o que não a torna homogênea em sua plenitude, a ponto dos idealizadores do Consenso de Washington, ao revisarem suas propostas iniciais, justificarem que a não obtenção dos resultados tão propalados decorre da adoção parcial das políticas propostas.