2.1. Osmanlı Devleti’nde Yol Vergisi
2.1.2. Osmanlı Devleti’nde Yol Meselesi
Uma das principais diferenças entre as perspectivas céticas marxista e realistas/ neo- realistas reside nos aspectos da natureza do Estado e do sistema internacional. Enquanto os marxistas partem do pressuposto de que o Estado representa o comitê da burguesia, os realistas e os neo-realistas o consideram como sendo uma instituição relativamente autônoma, que anseia os interesses nacionais.
Neste ínterim, o sistema internacional e a política externa, para os marxistas, estão sujeitos à estrutura da economia nacional. Enquanto que para os realistas, a política externa é determinada pela natureza do sistema internacional.
Segundo Gilpin (2002), os marxistas consideram a guerra, o imperialismo e o Estado como manifestações maléficas de um capitalismo, enquanto que para os realistas esses são meros traços de um sistema político internacional caracterizado pela anarquia.
Além do mais, pode-se afirmar que a compreensão de como a política interna determina as relações internacionais, partindo do pressuposto de que os interesses econômicos prevalecem, requer interpretar como se dá a articulação entre os distintos grupos nacionais.
Para tanto, alguns autores resgatam a teoria marxista, com o objetivo de realizar um exercício de análise das relações internacionais, visando avaliar os fenômenos políticos contemporâneos a partir da compreensão da atuação de grupos nacionais, tais como os sindicatos patronais, sindicatos de trabalhadores, partidos políticos etc. (RACY; ONUKI, 2002)
Apesar de divergências ontológicas profundas, os marxistas e os realistas têm em comum a consideração de que os Estados são os principais protagonistas do cenário internacional, motivo pelo qual estão sempre lutando para aumentar o seu poder e a sua riqueza. Consequentemente, os céticos vêm, sobretudo a partir do final do século XX, uma tendência de reivindicação cada vez maior, por parte de diversos Estados, do uso legítimo da força, bem como das suas prerrogativas jurídicas. Em função disso, estes vêm fortalecendo suas forças armadas, não só com o objetivo de garantir a segurança nacional, mas também de evidenciar a sua essência estadista.
Ademais, os Estados buscam firmar posição quanto à suas respectivas atuações no campo da política, visando operar sobre os mecanismos fiscais e redistributivos, bem como sobre a geração de infra-estruturas necessárias para o atendimento de determinadas demandas internas. Agem, ainda, criando um conjunto de instituições políticas, econômicas e culturais
com o claro objetivo de promulgar uma identidade nacional45.
No entanto, este espectro passou a ser guiado por uma nova concepção econômica,
que “enterrou” o keynesianismo vigente entre as décadas de 50 e 70, e passou a propalar
políticas de cunho econômico baseadas em medidas que atuam pelo lado da oferta, como condição única para se garantir a manutenção de suas taxas de crescimento econômico.
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Neste contexto, destaca-se a criação do estado de bem-estar social que está associado a diversos projetos que contribuíram para a promoção de uma identidade nacional que se expressaram no sentimento de “solidariedade nacional”, e que envolveram, principalmente, uma rede pública de saúde e de previdência social.
Segundo Held ; McGrew para os céticos:
[...] grande parte dessa “imitação” resultou mais da necessidade que de uma escolha. [...] Poderosos interesses econômicos nacionais conseguiram, em muitos casos, sustentar posições hegemônicas em antigos territórios coloniais através da substituição da presença visível da dominação pelo governo invisível de empresas, bancos e organizações internacionais (como o FMI e o Banco Mundial, por exemplo) (2002, p. 29).
As ponderações acima deixam claro que para os céticos essas mudanças representam a adequação à composição vigente da ordem mundial, que está baseada nas relações econômicas capitalistas, mas ao contrario do que defende boa parte dos globalistas, se sustenta no moderno sistema de Estados, na qual um conjunto de ações estratégicas dos Estados mais fortes orientam o funcionamento do sistema internacional.
Mais do que isso, essas condições representam a adequação à composição vigente da ordem mundial, que está baseada no referido moderno sistema de Estados e nas relações econômicas capitalistas, que orientam um conjunto de ações estratégicas dos Estados mais fortes46.
Neste ínterim, a presente corrente tem em grande conta que tais atuações têm levado à ingerência dos organismos internacionais sobre as economias em desenvolvimento, num contexto em que estes primeiros são influenciados pelos interesses dos países desenvolvidos, e principalmente pela potência líder, os Estados Unidos.
Hirst ; Thompson (1998) chamam a atenção para o fato de que a organização política dos Estados é favorecida pela existência de um sistema mundial de direitos, ou seja, a expansão das relações econômicas internacional atua no sentido de ampliar e aperfeiçoar a cooperação entre os Estados soberanos.
É em função disso que os autores colocam em dúvida o que de fato existe de global na globalização, uma vez que esse processo não representa um fenômeno verdadeiramente universal. Tal incongruência implica, neste sentido, na própria impossibilidade de uma especificação sólida do conceito de globalização.
Ademais, como se sabe , os autores buscam desmistificar a idéia de que o processo de internacionalização que o mundo vive hoje teve sua origem nos anos 60. Para tanto, consideram que as relações comerciais internacionais já ocorriam na Europa durante a Idade Média, quase sempre fazendo parte de um escopo de relações que envolviam o Estado e as
46 Cabe ressaltar que esse conjunto de escolhas na verdade é considerado relativamente estreito, sobretudo a
atividades bancárias. E, durante os séculos XVII e XVIII o Estado foi o indutor de diversas empreitadas que abarcaram, principalmente, as colônias para expandir o comércio internacional.
Apesar dessas ponderações, Hirst ; Thompson (1998) afirmam que somente com o advento da revolução industrial o mundo passa a assistir uma nova organização empresarial baseada numa estrutura e numa relação considerada precursora da empresa multinacional contemporânea, a despeito de toda a polêmica acerca da analogia que envolve os conceitos de investimento colonial e investimento estrangeiro direto, uma vez que as classificações contábeis desses capitais, bem como o conceito multinacional, foram desenvolvidos apenas a partir da década de 60, o que dificultou a mensuração dos dados envolvendo estas operações.
Tais ponderações sustentam a tese de que em vez de globalização, uma definição mais adequada para as quadro contemporâneo seria a internacionalização dos mercados financeiros, da tecnologia e de algumas atividades industriais e de serviços, cuja operacionalização se intensifica a partir da década de 70.
Ao propor essa abordagem, Hirst ; Thompson (1998) não procuram negar a existência de um processo crescente de interação global, mas enfatizar o sentido desse processo, que apesar da sua ocorrência a dissolução das economias nacionais dos países industrializados ou o surgimento de um aparato de governabilidade econômica global não passam de uma panacéia, ou seja, a globalização não passa de um mito.
Para tanto, os autores desenvolvem um debate que envolve a polarização entre a análise da realidade contemporânea a partir da hipótese de internacionalização do capital, que vai de encontro à chamada versão “forte” da tese da globalização defendida pela perspectiva globalista, que se baseia nas proposições liberais.
De acordo com esse debate, o “mito da globalização” começa a ser disseminado ao final da Segunda Guerra Mundial, e de forma mais contundente após o período de forte conturbação econômica mundial (1972-1973), quando mudanças significativas apontaram para a inflexão de uma longa fase de crescimento econômico dos países desenvolvidos, que era abalizada pela ativa intervenção dos Estados nacionais, bem como por um multilateralismo das políticas comercial e monetária sob comando dos Estados Unidos.
Ademais, Hirst ; Thompson (1998) partem do pressuposto de que o colapso do Sistema de Bretton Woods; as crises do petróleo; e, a inflação dos países avançados, foram eventos que contribuíram significativamente para gerar um quadro de grande desordem internacional.
Esse período de turbulência levou diversas instituições financeiras e conglomerados industriais a se empenhar na busca de novas bases para os seus investimentos, e de mercados adicionais que compensassem a insegurança doméstica dos países frontalmente afetados pelo quadro adverso. Em função disso, elevados fluxos de empréstimos e financiamentos para o Terceiro Mundo foram viabilizados, além do que, assistiu-se ao crescimento do mercado de eurodólares, e a expansão da participação das exportações no PIB desses países avançados.
Os autores consideram, ainda, que o efetivo fim do controle de câmbio e a desregulamentação dos mercados também contribuíram para a viabilização de diversos mecanismos políticos de internacionalização dos mercados financeiros.
Outro importante marco desse processo, que já foi apontado por Arrighi (2008), refere-se ao desenvolvimento desigual, que gerou, na década de 80, um significativo aumento da produtividade industrial no Japão e na Alemanha, fato que afetou sobremaneira a competitividade inglesa e norte-americana.
O fim do ciclo fordista de produção, e sua substituição por novos métodos organizacionais bem mais flexíveis, denominados pós-fordista, também são considerados importantes eventos que marcam este período.
Para analisar essas questões, Hirst ; Thompson (1998) desenvolvem um modelo representativo da economia global, que envolve um espaço distinto para os atores econômicos nacionais. São representações de tipos ideais, que são utilizados para auxiliar na elaboração de conceitos necessários para a distinção entre o que é a nova economia global, e que são relações econômicas internacionais simplesmente extensivas e intensificadas.
O primeiro tipo, denominado “economia inter-nacional”47, está baseado nas
economias nacionais que estão num crescente processo de integração. Também fazem parte desta concepção os diversos atores econômicos que se relacionam nos mercados mundiais de diversas maneiras.
Assim sendo, as relações comerciais buscam reproduzir as condições competitivas decorrentes das especializações nacionais, bem como da divisão internacional do trabalho. Todavia, esta perspectiva tem apontado para uma mudança significativa das relações econômicas, uma vez que a relevância das relações de comércio tem sido reduzida, e gradualmente substituída pelas relações de investimento cruzado entre nações, sem que a interdependência entre as nações deixe de representar ações estratégicas.
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Em função disso, a política externa e a interna ficam relativamente separadas, expressando diferentes níveis de governabilidade ou funcionamento automático. Caso a segunda opção seja válida, os ajustamentos são avaliados tanto pelos organismos públicos quanto pelas autoridades, que os fazem não como um tema político, mas sim a partir das implicações do mercado.
Os autores consideram que as instituições descritas por este tipo ideal são semelhantes
àquelas da belle époque. No entanto, não reproduzem uma analogia histórica, uma vez que
não avaliam ser possível o funcionamento de um sistema econômico internacional nos moldes do registrado no início do século XX, dada a complexidade das relações atuais. A partir disso, os autores concluem que:
A economia internacional atual é relativamente aberta, mas tem diferenças reais da que prevalecia antes da Primeira Guerra Mundial: ela generalizou e institucionalizou o livre comércio através do GATT; o investimento estrangeiro é diferente em suas modalidades e destinos, embora um alto grau de mobilidade do capital seja uma vez mais uma possibilidade; o sistema monetário internacional é bem diferente; a liberdade de migração do trabalhador foi drasticamente cortada (HIRST ; THOMPSON, 1998, p. 25).
O segundo modelo, denominado “economia globalizada” 48, parte de um tipo ideal
diferente do primeiro, mas que serve para base para um exercício de comparação entre os dois. A economia globalizada tem como o princípio que distintas economias são abarcadas e rearticuladas no sistema a partir das transações internacionais.
Este modelo pressupõe uma economia baseada num conjunto extenso e crescente de interações econômicas internacionais, por meio dos mercados financeiros e comerciais, que passam a expressar tanto oportunidades quanto restrições para as atividades econômicas nacionais, bem como para as atividades reguladoras do Estado.
De acordo com esse modelo, a economia global proporciona às interações nacionais um novo contexto de poder, uma vez que o sistema econômico internacional é considerado independente e socialmente sem ascendência, de tal modo que os mercados e a produção se tornam efetivamente globais. No campo interno, tanto o setor privado quanto o público precisam ter total ciência do que acontece em âmbito internacional.
Este quadro implica, por um lado, no aumento da interdependência sistêmica, e do outro, a interpenetração nacional pelo internacional, ou seja, “[...] em uma economia globalizada como essa, o problema colocado para as autoridades públicas é como construir
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políticas que coordenem e integrem seus esforços de regulação, com o objetivo de enfrentar a interdependência sistemática entre seus atores econômicos” (HIRST ; THOMPSON, 1998 p. 26-27).
De acordo com os autores, este modelo de economia globalizada preconiza uma questão central, que se refere ao modo incerto que envolve a questão da governabilidade. Considerando que os mercados globais são socialmente descontextualizados, a questão que surge é como regulá-los, uma vez que, mesmo em condições de cooperação entre as partes, administrar as diversas demandas é uma tarefa bastante árdua, pois seria impossível erigir arquétipos que integrassem a política nacional e internacional, de tal modo que lhes fossem facultadas a prerrogativa de contrabalançar as forças de mercado oriundas dessa economia globalizada.
Outra importante conseqüência da economia internacional globalizante é o papel das empresas multinacionais, que se tornaram um dos principais atores no cenário econômico mundial contemporâneo. Essa conseqüência chama a atenção, uma vez que as corporações são consideradas a própria expressão da economia globalizada.
A terceira conseqüência da globalização seria o declínio da influência política e do poder de barganha econômica do trabalhador organizado.
E, por fim, o mundo assistiria ao desenvolvimento de uma multipolaridade no sistema político internacional, de tal modo que o poder hegemônico de uma nação não mais imporia seus próprios desígnios, viabilizando, às agências menores (públicas e privadas), uma maior poder de veto, o que esvaziaria qualquer tentativa de uma nação tornar-se hegemônica.
Desacreditando tais proposições, os autores concluem que:
O sistema de comércio mundial nunca foi exatamente uma economia, um sistema distinto governado por suas próprias leis. Neste sentido, a expressão economia internacional sempre foi uma simplificação para o que, na verdade, é o produto da complexa interação das relações políticas e econômicas, modeladas e remodeladas pelas lutas das grandes potências (HIRST ; THOMPSON, 1998, p.32).
Os pontos que sustentam as argumentações dos autores são: i) o atual quadro
econômico internacional vem sendo disseminado desde 1860; ii) há a predominância,
contrariamente ao que se apregoa, de empresas multinacionais com uma forte base nacional,
motivo pelo qual os autores consideram raras as empresas “puramente” transacionais; iii) o
investimento estrangeiro direto está concentrado nas economias avançadas, e não nos países menos desenvolvidos, de tal modo que tais capitais geram pouca renda e emprego para este
concentrados na Tríade/G3 (Europa, Japão e Estados Unidos); e, v) em função dessa concentração, os países membro do G3 tem o poder de coordenar a política que envolve as relações em questão.
Boa parte desses pontos será retomada no capítulo a seguir, quando será desenvolvido o referencial teórico que sustentará a presente tese, que contará com uma análise empírica das variáveis que envolvem os fluxos econômicos internacionais (financeiros e comerciais), bem como com as ponderações acerca das relações entre os organismos internacionais, as principais potências e os países em desenvolvimento.