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Ainda sobre a composição dos hipertextos digitais, resta tratar da tecnologia que é diferente da presente no meio impresso, sobretudo aqueles recursos responsáveis pela acelerada localização de informações no meio digital, o que ficou popularmente conhecido como navegação, e consequentemente, sua influência na compreensão de informações.

Ao considerarmos a história da criação do hipertexto digital, constatamos que ele surge da necessidade de organização de muitas informações para posteriores localizações e seleções. Bush (2007 [1945]) é considerado por muitos o primeiro pesquisador a sugerir um sistema que desse conta de selecionar informações, ao qual ele dá o nome de Memex. Para o autor, a forma como se organizam as informações, numérico e alfabeticamente, é artificial, pois

a mente humana não trabalha dessa maneira. Ela opera por associação. Com um item a seu alcance, move para o seguinte, que é sugerido por uma associação de pensamentos, de acordo com alguma pista da rede intricada composta pelas células do cérebro. Há outras características, naturalmente; pistas que não são com freqüência seguidas são propensas a enfraquecer, os itens não são permanentes, a memória é transitória. (BUSH, 2007 [1945], p. 24)

No entanto, o Memex não se limitaria apenas a localizar informações. O autor sugeriu que o Memex relacionaria as informações buscadas pelo leitor, apresentando-as organizadamente, além de submetê-las a outras pessoas, fazendo relações como na analogia que ele apresenta com o funcionamento associativo da mente humana. Essa é a gênese dos hiperlinks.

Em 1960, já com computadores, pois a proposta de Bush seria feita com microfilmes, Ted Nelson (1996) apresentou um embrião do hipertexto digital, inclusive foi ele quem criou o termo hipertexto. O seu projeto Xanadu é um meio digital que tem como principal função mostrar multidimensionalmente vários textos sobre um mesmo assunto, interligados, de modo que tenhamos todas as informações sobre determinado assunto em todos os seus contextos. Isso permitiria uma leitura não sequencial e uma seleção de informações escolhida pelos leitores individualmente, que ainda contariam com as fontes de onde vieram os textos. As ligações entre esses textos, que seriam os hiperlinks, chamou atenção de Tim Berners-Lee que utilizou essa ferramenta para criar a World Wide Web – www ou Web – , meio digital que reúne hipertextos, mais usado, mais conhecido, sinônimo de Internet, porém é mais um ambiente do modo digital, muito criticado por Ted Nelson. Segundo Nelson (1996), a Web é um simulacro do papel, pois se utiliza de links para ligar textos copiados, já prontos, sem fontes citadas. Textos produzidos como os produzidos no papel, sem utilizar os melhores recursos de um meio digital, que seria a reunião não linear, multissequencial e multidimensional de muitos textos sobre um mesmo assunto disponibilizados ao leitor (NELSON, 1996). Se considerarmos a crítica de Nelson, podemos afirmar que, excetuando os hiperlinks, o meio digital mais usado hoje, que é a Web, apresenta textos convencionais como os produzidos no papel, para os quais utilizaríamos as mesmas habilidades de leitura e escrita do impresso.

Seria insuficiente, contudo, utilizar essa crítica de Nelson para defender o ponto de vista, de acordo com o qual os hipertextos digitais não promovem uma revolução cognitiva, e, sim, que eles são novas tecnologias de leitura com as quais lidamos, utilizando habilidades de leitura indiscriminadamente, isto é, sem a necessidade de diferenciar se são habilidades do meio digital ou impresso. Nelson parece desconsiderar sobremaneira justamente alguns fatores de melhorias por que passou a Web. No início, nos primeiros anos da década de 1990, a Web era um amontoado de publicações impressas transpostas para o formato digital na linguagem

HTML13, interligados pelos hiperlinks. Em grande parte dos sites, portais e sistemas atuais da Web, isso ainda acontece, porém, surgiram outros formatos de páginas, ora com mais ou com menos características do impresso e recursos do digital. Portanto, Nelson (1996) parece desconsiderar que a Web evoluiu. Em resumo, Bush (1945) concebeu o Memex a partir de uma analogia com a mente, que, na prática, seria um mecanismo de localização e organização de microfilmes para o leitor. Nelson (1996), com o recurso dos hiperlinks, pretendia dar vida à analogia entre hipertexto e processamento da mente no seu projeto Xanadu, no qual faz várias associações (como na mente de Bush) entre informações sobre determinado assunto para o leitor. E Berners-Lee simplificou a ideia de Nelson, utilizando o hiperlink para executar a primeira proposta de Bush, criar um localizador de informações, que era o embrião da Web, apesar de não ser o objetivo final de Berners-Lee, que queria criar uma Web semântica, como explica Frauenfelder (2007, p. 42) a seguir.

Esta idéia adiciona etiquetas de definição à informação das páginas da Web e as conecta de modo que os computadores descubram dados de modo mais eficiente e formem novas associações entre pedaços de informação, criando, na realidade, uma base de dados distribuída globalmente. Embora seja parte da intenção original de Berners-Lee para a sua invenção, a Web Semântica, que está há 15 anos em construção, já revelou uma parcela de ceticismo. Mas Berners-Lee acredita que, em breve, ela ganhará aceitação, permitindo aos computadores extrair significado de informação dispersa, assim como hoje a Internet conecta documentos individuais de forma simples.

O objetivo original de Berners-Lee está muito próximo do Projeto Xanadu de Nelson. Pensar uma máquina que faz associações para o seu dono e organiza-lhe a vida parece mais objetivo da Inteligência Artificial, mas é isto que esses autores propõem: não um sistema de localização de documentos como a Web, mas um sistema que associa informações e não apenas as encontra e exibe.

Os responsáveis pelo formato Web, como o temos hoje, são Marc Andreessen e Eric Bina, que, a partir da ideia inicial de Berners-Lee, criaram um navegador, o Mosaic, formato Jpeg de imagens, o sistema Java e janelas atualizáveis entre outros programas que formam a base da Web (NELSON, 2005).

A partir dessas tecnologias de base, a Web surgiu com as iniciativas de sistemas de associações de informações de bancos dados e dos usos que as pessoas fazem desses recursos.

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HyperText Markup Language – HTML. Linguagem de Marcação de Hipertexto. É a linguagem de programação para criar páginas na Web.

Ainda que a Web não seja o hipertexto imaginado por Bush, Nelson e Berners-Lee, recursos tais como os sites de busca, as comunidades virtuais de relacionamento, hoje chamadas de redes sociais, de publicação de fotos, vídeos e textos, as ferramentas de edição colaborativa como as wikis e blogs, com imagens também, e as ferramentas de comunicação como as mensagens instantâneas de texto e voz são novas tecnologias surgidas na última década que fizeram mudar também os modos como os sujeitos utilizavam a Web, desde a década de 1990.

De um lado, o hipertexto como metáfora da mente deu lugar a um hipertexto como a Web, embora a associação de informação vislumbrada por Bush, Nelson e Berners-Lee não tenha sido possível. De outro lado, o uso social que fizemos da Web criou outros meios como os sites de busca, com os quais as pessoas fazem suas próprias associações, como já ocorria antes no impresso, utilizando habilidades de leitura já conhecidas, porém, com as facilidades das novas tecnologias de ler. Portanto, tanto quanto antes, os sujeitos precisam de suas habilidades para ler no meio digital, pois os processamentos de informação, em grande medida, ainda são feitos pelos sujeitos mais do que pelas máquinas.

Benzer Belgeler