2.5 KAMU AVUKATLARININ MALĠ ve ÖZLÜK HAKLARI
2.5.3 VEKÂLET ÜCRETĠ
O programa Cultura Viva tem suas raízes em anseios e propostas anteriores. A proposta de dinamização da cultura local já estava presente no cenário brasileiro há décadas, dado que este foi um dos elementos centrais das demandas de movimentos sociais (CALABRE, 2009). Foi ainda um elemento central na trajetória de seu formulador, Célio Turino, que trabalhou durante a efervescência da preocupação com o local, nas décadas de 1970 e 1980 (TURINO, entrevista concedida em 22 de janeiro de 2013). Turino trabalhou em feiras de arte, cineclubes, ações em favelas, entre outras ações, e ao longo de sua experiência reparou na força que há na cultura local, conforme demonstra seu relato:
Fui percebendo a potência do povo – das pessoas. O programa nasce do entendimento que as pessoas fazem cultura, e isso não significa que é simplesmente deixar fazer, há uma série de interferências, como o próprio mercado, que direciona gostos e desejos, assim como o estado, que interfere. Pela minha experiência prática percebo esse processo de crescimento, mas que só é eficiente se é feito de dentro pra fora, incentivar na potência e não na carência (TURINO, entrevista concedida em 22 de janeiro de 2013).
A identificação da potência da cultura local levou Célio Turino a testar o “modelo” de pontos de cultura, pela primeira vez, em Campinas, município do estado de São Paulo,
quando foi secretário de cultura. Esta experiência, entretanto, não teve continuidade devido a três motivos principais: a confiança de que o programa permaneceria mesmo depois de sua gestão; a perda do nome do programa, já usado em outra gestão; e a ausência de elementos que garantissem a continuidade do programa. Segundo o próprio Turino:
A experiência de Campinas é ponto de cultura, e ficou apenas naquela gestão. Depois que fui secretário de cultura de Campinas [1990 a 1992], houve três pontos que me fizeram pensar. O primeiro foi que cometi um grande erro: [o nome] ponto de cultura já tinha sido usado no governo anterior. Com a mudança de governo, para trocar a marca, passaram de ponto de cultura para casa de cultura, e isso fez com que o programa perdesse seu significado. Segundo aspecto: o trabalho ganhou capa da Veja: “explosão nos palcos de Campinas”. O Brasil estava em decadência geral, e Campinas estava se
destacando como contraponto: o pessoal se perguntava o que estava acontecendo ali. Tinha programação de teatro, casa de cultura, filas, etc. e eu me lembro que uma moça da Veja me entrevistou e uma das perguntas dela era sobre o fim do governo, se eu não tinha receito que a coisa se perdesse, e eu disse que não, que a coisa era tão forte que não se perderia, e eu disse que era irreversível. Arrogância de jovem. Mudou o governo, e as coisas não foram tão irreversíveis assim. [O terceiro ponto foi que] uma dessas casas de cultura permaneceu. Depois fui ver porque uma tinha se mantido e outras
não: exatamente pelas características que baseiam o Cultura Viva: articulação em rede, vínculos comunitários, e protagonismo e autonomia
(TURINO, entrevista concedida em 22 de janeiro de 2013).
A experiência de Campinas, mesmo não tendo continuidade, serviu como laboratório para destacar que articulação em rede, vínculos comunitários e protagonismo e autonomia foram elementos que favoreceram a continuidade da (única) experiência bem sucedida. Tais elementos, conforme mencionado anteriormente, são as bases do programa Cultura Viva.
Anos após a experiência de Campinas, Gilberto Gil e sua equipe, ao assumir o MinC, formulam um programa de abrangência nacional chamado “Refavela”, com o objetivo de apoiar iniciativas culturais nas periferias das grandes cidades e no interior do Brasil, e para tanto criam a portaria nº 515 de 2003 (SARTOR, 2011:100). O apoio dado às iniciativas culturais seria dado por meio das Bases de Apoio à Cultura (BACs), que buscavam reunir modelos de centros e casas de cultura espalhados pelo país, a critério dos governos que os implantariam. No modelo das BACs, o Estado disponibiliza um espaço ou equipamento cultural para uso de uma determinada comunidade, para que esta desenvolva um determinado tema cultural (dança, teatro, etc.), seja em ação conjunta com a sociedade, ou a pura ação governamental definindo temática, programação, ou seja, o governo como tomador de decisões (TURINO, 2009; ROCHA, 2010).
Mesmo com a publicação da portaria nº 515/2003, o programa “Refavela” não foi efetivado, em razão do deslocamento das prioridades assumidas pelo MinC: passou-se a
valorizar ações, mais do que equipamentos (SARTOR, 2011). Como relata seu idealizador, o programa Cultura Viva surge para substituir o modelo das BACs:
O minC [antes da gestão Gil] queria BACs, que eram focados na instalação física, e eu não concordava com isso. Uma alternativa rápida encontrada foi o programa Cultura Viva. As pessoas costumam associar cultura a distinção, e exatamente por ter uma trajetória diferenciada eu tinha tanta segurança de saber que uma alternativa como essa teria eco. E foi assim (TURINO, entrevista concedida em 22 de janeiro de 2013).
Conforme demonstra Rocha (2010), o modelo das BACs foi então repensado e adaptado, transferindo o foco dos equipamentos físicos para os processos existentes, ou em outras palavras, para os “equipamentos humanos”, por meio do incentivo para que grupos culturais deslocados do “mercado”42 pudessem desenvolver suas ações na comunidade de entorno. O programa surge então em contexto de concentração regional e restrição de recursos, mas busca incentivar ações culturais, mais do que “remediar” carências existentes.
Nas palavras de seu formulador, “o programa trabalha com a lógica de incentivar as potências existentes, e não reparar carências” (TURINO, entrevista concedida em 22 de janeiro de 2013). Isto porque não se trata de suprir necessidades, e sim de incentivar ações que já eram realizadas, e se ampliam por meio do programa. O protagonismo dos agentes culturais, então, surge com maior força na proposta formulada por Célio Turino. Esse programa vai além da garantia de equipamentos, ao potencializar o que já existe em termos de ação cultural dentro de uma comunidade, transformando em última instância os que são negligenciados pela política cultural em sujeitos da ação cultural.
Como dito anteriormente e de acordo com a descrição normativa do programa Cultura Viva, este parte dos conceitos de protagonismo e na gestão compartilhada, na busca da democracia cultural (MINC, 2010; TURINO, 2009), ao permitir que as próprias comunidades desenvolvam e apresentem a sua cultura, nas palavras de Célio Turino: “não dizendo o que as comunidades querem, mas perguntando como o querem” (TURINO, 2009: 63).
O princípio de gestão compartilhada utilizado pelo programa engloba a gestão que mescla diferentes atores, tanto governamentais (união, estados e municípios), que financiam e acompanham a realização das ações, quanto a sociedade civil, que implementa as ações. A gestão compartilhada é parte da rede de pontos de cultura, vale destacar, pois muitos atores da
42 Entende-se por grupos culturais “deslocados do mercado” aqueles que não possuem aporte administrativo suficiente para submeter projetos para linhas de financiamento que exigem muitos procedimentos técnicos, e, portanto não conseguem acessar esses meios, ou mesmo grupos que trabalhem linguagens artísticas negligenciadas e marginalizadas.
rede estão na gestão compartilhada, mas a recíproca não é verdadeira, já que a rede engloba também organizações que não são pontos de cultura, percepção esta compartilhada pelos gestores de pontos de cultura, e representada na fala a seguir:
Gestão compartilhada é uma coisa objetiva, que é o gerenciamento de um contrato, agora a rede ampla inclui inclusive pontos que não tem convênio, outros tipos de convênio. A rede inclui todo mundo, que já foi, que tá querendo ser. A rede é todos os convênios juntos, mais que não tem convênio (Depoimento do Gestor 04, em entrevista concedida em 24/01/2013).
Comparando os dois modelos, por um lado, tem-se as BACs e os equipamentos físicos que essas oferecem, e, por outro lado, o programa Cultura Viva e os equipamentos humanos e físicos proporcionados pelos pontos de cultura, que se articulam em rede, e de acordo com o proposto pela própria comunidade, a partir de ações culturais já realizadas.