2.2. FİNANSAL RAPORLAMA STANDARTLARININ OLUŞUM SÜRECİ
2.2.1. Uluslararası Finansal Raporlama Standartlarının Oluşum Süreci
2.2.1.1. Uluslararası Finansal Raporlama Standartlarının Oluşturulmasına
Como mencionamos na primeira sessão do presente capítulo, um caso interessante de “prática tradutória50” consiste na tradução fictícia, ou a chamada pseudotradução. Em sua
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Essas questões nortearão nossas análises nos capítulos 3 e 4
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dissertação de mestrado A face oculta de Pagu: um caso de pseudotradução no Brasil do século XX, Annie Alvarenga Hyldgaard Nielsen (2007, p. 25) aprofunda-se sobre o tema e coloca que:
O conceito de pseudotradução encontra respaldo na abordagem teórica conhecida como Descriptive Translation Studies — DTS (Estudos Descritivos da Tradução), que se dedica a estudar tudo que seja apresentado e recebido como tradução, independentemente da existência de um original.
Recorrendo a pesquisas do campo dos Estudos Descritivos da Tradução, empreendidas por Gideon Toury da Universidade de Tel Aviv e Susan Bassnett da Universidade de Warwick, diversos casos de tradução presumida51 foram sendo encontrados ao longo da história, em diversos países e regimes políticos: romances de espionagem, suspense e pornografia na nova literatura hebraica, poemas patrióticos enaltecendo a figura de Stalin, a Living Bible (versão da bíblia inglesa lançada em 1971), O Livro de Mórmon (criador de uma nova religião nos Estados Unidos) e algumas obras que fugiam do padrão literário vigente tal como Papa Hamlet, pretensamente traduzido do norueguês para o alemão a fim de ser aceito na literatura dessa língua no século XIX, sem sofrer represálias por não se submeter ao cultuado naturalismo francês. No Brasil, a pesquisa girou em torno dos contos policiais, publicados por Patrícia Galvão52 (a Pagu) sob o nome de King Shelter. “A preferência por uma nacionalidade estrangeira revela uma estratégia de marketing, visto que o romance policial nacional era quase inexistente na década de 1940” (NIELSEN, 2007). No livro Descriptive Translation Studies and Beyond, Toury aponta vários motivos que levam um autor a optar pelo artifício da tradução fictícia. “No entender do teórico, apresentar um texto original como tradução muitas vezes representa uma tentativa de conferir-lhe o mesmo
seguir), ou são, pelo contrário, uma técnica narrativa, como será visto no caso de O Senhor dos Anéis, Dom Quixote de La Mancha e na brincadeira borgeana da versão segundo Pierre Ménard, e no conto de Voltaire que analisamos na presente tese – Zadig.
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Nomenclatura de Toury (1995).
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prestígio atribuído à língua e à cultura da qual ele supostamente se originou” (NIELSEN, 2007, p. 14).
Além disso, encontramos em romances como Dom Quixote de La Mancha (1605/1615) e em várias obras do escritor argentino Jorge Luis Borges, a estratégia da pseudotradução como forma de brincar com a ficção e a realidade ou, ao contrário, como uma forma de dar à ficção um ar de verdade53:
Algumas obras literárias, sobretudo romances, utilizam traduções fictícias como extensão do “manuscrito encontrado”, um artifício bem comum entre escritores. Como muitos romancistas procuram criar histórias que pareçam críveis aos olhos do leitor, lançam mão de uma gama de recursos literários para dar à narrativa aparência de realidade, dentre as quais estão o relato em primeira pessoa, a forma epistolar, a reportagem e, claro, o manuscrito descoberto após anos e anos oculto (NIELSEN, 2007, p. 18).
Como podemos perceber, o recurso da pseudotradução mostra ser um excelente recurso no campo literário, contribuindo inclusive com inovações da estética literária, ao burlar o padrão nacionalmente aceito, como foi o caso de Papa Hamlet na Alemanha do século XIX (NIELSEN, 2007, p. 21-2). Outro caso curioso encontra-se no conto de Jorge Luis Borges intitulado Pierre Ménard, Autor de ‘Quixote’ (BORGES, 1974, p. 444-450). O caso é citado na Routledge Encyclopedia of Translation Studies, enciclopédia editada por Mona Baker, no verbete “Pseudotradução”54. Neste conto, um fictício escritor francês do século XIX propõe-se “escrever” passagens inteiras, não em francês mas na mesma língua de Cervantes, tal como ele as escreveu. Com tal intuito, se esforça em aprender o espanhol e viver uma vida semelhante a do escritor do século XVII. A brincadeira de Borges, sugere Baker (2005), talvez seja curiosamente uma referência ao próprio estilo de escritura de Borges que, de tão
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É o caso do conto de Voltaire que analisaremos no próximo capítulo. Veremos na epístola de Zadig uma referência à pseudotradução. Ao artifício de dar “à ficção um ar de verdade” Charaudeau denomina efeito de realidade, conforme discutido no Capítulo 1 da presente tese.
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Verbete elaborado por Douglas Robinson. O caso é também citado, como veremos a seguir, no ensaio de Susan Bassnett (1998) When a translation is not a translation?
anglófilo, “ mostrava sinais de interferência do inglês, como se os trabalhos originais de Borges em espanhol fossem traduções do inglês”55. (BAKER, 2005, p. 185)
Gostaríamos (finalmente) de assinalar que se, por um lado, a tradução fictícia ancora- se na isenção da responsabilidade autoral da tradução a fim de não sofrer represálias por uma enunciação própria, o fato de ser consumida como um original comprova, por outro lado, a qualidade que se atribui a uma tradução – são textos apreciados como um igual ao texto original. Paradoxalmente, em alguns casos, o simples fato de ser uma tradução empresta notavelmente ao texto uma maior autoridade, como vimos em diversos casos da literatura mundial. Esse é, a nosso ver, o caráter sutilmente dialético da tradução.
Outra obra ficcional a utilizar a técnica narrativa da pseudotradução é O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien:
A tradição da apresentação de uma fonte antiga valoriza a narrativa [...], a ênfase na “genealogia” do livro, aliada a linhagem dos personagens e a presença de testemunhas, escribas, tradutores, patronos, ajudam a criar e a preservar a “história”. São intermediários humanos que garantem a conservação da autoridade dos textos, traçando para eles uma linha de descendência. O pseudotradutor [...] facilita a representação do relato para um novo grupo de leitores, ou seja, recupera um elo perdido, colocando-se assim numa posição próxima daquela do historiador, que reconta um passado simultaneamente distante no tempo e historicamente relevante, o qual não se pode examinar de perto (GONÇALVES, 2007, p. 60).
Para esse fim, o pseudotradutor utiliza recursos que permitem uma viagem “histórica” e ajudam o leitor a aceitar o relato como verdade. O leitor se deixa convencer pelas informações “históricas” sem questioná-las uma vez que ele está dentro daquilo que Charaudeau chama de Contrato ficcional. Susan Bassnett (1998) publicou um ensaio When a tranlation is not a translation?, no qual corrobora a concepção de contrato e estratégia de legitimação de Charaudeau, através do conceito de collusion (conluio, conspiração56). Na tradução fictícia, o autor cria para si uma persona de tradutor e precisa fazer com que o leitor conspire com ele na criação dessa ilusão. O Senhor dos Anéis é um romance cheio de
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Tal citação foi traduzida pela autora da presente tese.
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referências mitológicas e “históricas”. Ao confundir essas duas referências, Tolkien usou o outro tipo de recurso que Bassnett (1998, p. 27) atribui à pseudotradução: a referência a fontes que o leitor não pode verificar. “O leitor sabe que o autor não está traduzindo, mas se deixa envolver e acredita na tradução, permitindo a manipulação por parte do autor-tradutor. O leitor entra no jogo e faz a ‘tradução’ funcionar” (GONÇALVES, 2007, p. 61). É dessa forma que o mecanismo de collusion acontece, tacitamente, entre autor-tradutor e leitor.
Colocando uma ficção dentro de outra ficção, a pseudotradução outorga ao relato a verossimilhança de que carece. É o que Borges (apud GONÇALVES, 2007, p. 47) chama de ficção dentro da ficção. Ademais, as fontes “históricas” têm a função de autenticar a narrativa.
Gonçalves (2007) enumera as motivações mais comuns apontadas pelos estudiosos como razões para a utilização da pseudotradução:
1) Inserir um novo elemento numa cultura; 2) aventurar-se (um autor) num estilo diferente; 3) driblar a censura; 4) responder a interesses editoriais e comerciais; 5) conferir autoridade política ou religiosa a fim de convencer o público e conquistar simpatizantes e/ou adeptos para uma determinada causa ou doutrina. Gonçalves (2007, p. 73) A autora comenta o artigo de Júlio César Santoyo, La traducción como técnica narrativa, no qual esse fornece uma lista de obras importantes da literatura universal, distribuída num quadro contendo, inclusive, o idioma do suposto original. (GONÇALVES, 2007, p. 66) Fica, assim, comprovada a importância da pseudotradução como técnica narrativa eficaz em decorrência de seu uso por nomes reconhecidos dentro dos cânones literários ocidentais, tais como Cervantes, Montesquieu, Borges e, no que nos concerne, Voltaire. Vimos, pela relevância dos temas suscitados pela pseudotradução, que o seu lugar como objeto de pesquisa no domínio dos Estudos da Tradução está assim garantido.
Como vimos acima, as reflexões sobre a pseudotradução confirmam elementos da análise semiolinguísticatica, uma linha do campo interdisciplinar da AD de expressão francesa. Há convergência entre a referida teoria de Charaudeau e os Estudos da Tradução, por meio do
objeto de estudo que consiste na prática da pseudotradução. Esta prática pode associar-se nitidamente ao conceito de legitimação, apresentada enquanto estratégia discursiva no Dicionário de Análise do Discurso:
Em análise do discurso, a noção de legitimidade pode ser utilizada para significar que o sujeito falante entra em um processo de discurso, que deve conduzir a que reconheça que tem direito à palavra e legitimidade para dizer o que diz [...]. Para Charaudeau, a legitimação é, com a credibilidade e a captação, um dos três espaços das estratégias de discurso. As estratégias de legitimação visam a determinar a posição de autoridade que permite ao sujeito tomar a palavra57 (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2004, p. 295, grifo do autor).
Ao falar de legitimação, nos reportamos automaticamente aos sujeitos envolvidos na comunicação linguageira e sua identidade. Assim como na interação oral, para que um texto seja lido, é necessário que ele seja considerado digno do esforço cognitivo, por parte do leitor. Vejamos o que a análise semiolinguística do discurso diz a respeito da identidade e da legitimação do sujeito:
[...] a identidade do sujeito comunicante é compósita. [...]: o que chamaremos de identidade social e o que chamaremos de identidade
discursiva. [...] A identidade social tem como particularidade a necessidade
de ser reconhecida pelos outros. Ela é o que confere ao sujeito seu ‘direito à
palavra’, o que funda a sua legitimidade (CHARAUDEAU, 2009, p. 314). Vimos anteriormente diversos exemplos de pseudotradução. Um deles mostra de que forma a estratégia da tradução fictícia é eficaz em casos como o do livro Papa Hamlet, que fugia do padrão literário aceito na Alemanha do século XIX, por ter sido declarado como tradução genuína. Tal estratégia serve, também, como uma forma de burlar a rígida estrutura política e moral de uma sociedade, como foram os casos dos poemas presumidamente traduzidos, exaltando a figura de Stalin e dos romances de espionagem, suspense e pornografia, que só tiveram “direito à palavra” na nascente literatura sionista, por terem sido (ficticiamente) traduzidos e “legitimamente trazidos” de outra cultura.
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Charaudeau (2009) aponta para outro aspecto legitimador que outorga a autoridade necessária a um indivíduo dentro de uma situação de comunicação: “O processo de legitimação de alguém é o reconhecimento de um sujeito por outros sujeitos, em nome de um valor aceito por todos” (p. 314). Por sua vez, Toury ressalta o valor que pode ser simplesmente o prestígio de uma língua em determinada cultura: “Tal fenômeno ocorreu de forma muito clara na literatura russa do século XIX, quando havia uma enorme demanda por obras semelhantes aos romances ingleses, muito admirados na época” (TOURY, apud NIELSEN, 2007, p. 14). Nesse mesmo sentido, temos o exemplo da inexistência de um determinado gênero literário, como foi o caso do romance policial no Brasil da década de 1940, relatado na pesquisa sobre a escritora Patrícia Galvão. O fato é que, numa estratégia de marketing Pagu pretensamente traduziu os romances de um inexistente King Shelter, em virtude da preferência nacional por livros do gênero, escritos, não por autores nacionais, mas por autores estrangeiros.
Um conceito central na teoria de Charaudeau é a noção de contrato - mais especificamente Contrato de comunicação58: “é a condição para os parceiros da linguagem se compreenderem minimamente e poderem interagir, co-construindo o sentido, que é a meta essencial de qualquer ato de comunicação” (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2004, p. 130). Entendemos que a relação de cooperação no sentido comunicativo do autor-tradutor com seu leitor seja uma relação contratual59, coincidindo com um conceito de Bassnett (1998): “para que uma tradução possa ser aceita, é necessário que exista um certo tipo de entendimento tácito entre tradutor e leitor, que ela chama de collusion (conluio, conspiração60)” (GONÇALVES, 2007, p. 60). “Há [ ] uma espécie de conluio entre leitores e
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Verbete de Patrick Charaudeau.
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Ver o que Oliveira (2003) expõe acerca do Contrato ficcional no Capítulo 1, na sessão 1. 3.
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escritores” (BASSNETT, 1998, p. 27). E ela acrescenta: “quando tramamos61 sobre algo, nós o acompanhamos e concordamos com ele, mas só até certo ponto”(BASSNETT, 1998, p. 26). Quanto às identidades do sujeito, lembramos que, além da identidade social, que expusemos acima, há também a identidade discursiva. Vejamos suas particularidades:
A identidade social é em parte determinada pela situação de comunicação: ela deve responder à questão que o sujeito falante tem em mente quando toma a palavra: ‘Estou aqui para dizer o quê, considerando o estatuto e o papel que me é conferido por esta situação?’ [...] A identidade discursiva tem a particularidade de ser construída pelo sujeito falante para responder à questão: ‘Estou aqui para falar como?’ [...] O sujeito falante deve pois defender uma imagem de si mesmo (um ethos) que lhe permita,
estrategicamente, responder à questão: ‘como fazer para ser levado a sério?’ (CHARAUDEAU, 2009, p. 316, grifo nosso).
Nesse caso, a forma que se usa a linguagem é o que conta. O ethos de tradutor é preferido ao ethos de autor, no caso da pseudotradução, em virtude da maior legitimidade dentro de uma circunstância hostil à recepção da criação autoral, pelas mais diversas razões, como pudemos ver nos diversos exemplos relatados. No caso do livro O Senhor dos Anéis, vimos que um dos motivos do autor/tradutor recorrer à pseudotradução, que traz os elementos da tradição (fonte julgada confiável), das fontes “históricas”, que têm a função de autenticar a narrativa, atribuindo “veracidade” ao relato ou, como denomina a análise semiolinguística, atribui um efeito de realidade a este. O leitor aceita o relato, sem questionar, porque está submetido ao Contrato ficcional.
A pseudotradução, segundo o que expusemos dos conceitos acima, pode ser considerada uma estratégia de legitimação do sujeito comunicante, ou, nas palavras de Bassnet: “como leitores tramamos com a ideia de tradução nos diversos tipos de práticas de leitura” (BASSNETT, 1998, p. 28).
Estamos diante de um jogo que envolve os elementos: fonte julgada confiável x suposta fonte.
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Tradução nossa sob a supervisão da tradutora Sandra Almeida, que sugeriu o verbo tramar para traduzir to collude, em função de uma polissemia bem-vinda ao conceito.
Abaixo, transcrevemos do trabalho apresentado na ocasião da nossa dissertação de mestrado um parágrafo que permite ilustrar o conluio que se estabelece entre autor e leitor e que, ilustra, agora nos estudos da tradução, o que queremos defender:
Escrever é muito delicado. Significa dizer... Mas não tudo. Algumas omissões são necessárias e a lacuna nem parece existir; outras são provocadas para desafiar o leitor. É um código entre íntimos, como uma piscada de olhos. Decifra-me... ou me largue frustrado. É o que acontece com muitos textos. São como fantasmas. Quando não desvendados, só existem na mente de seu criador. Imagem virtual e extremamente prazerosa, já que recriada à imagem e semelhança do expectador da obra: o leitor” (GUEDES, 1999, p. 11).
A “piscada de olhos” entre escritor e leitor, mencionada na passagem acima, converge com o conceito de conluio, oriundo dos Estudos da Tradução e o conceito de contrato, central na análise semiolinguística do discurso. Esse último conceito continua, portanto, a ser desenvolvido na seção seguinte.