3.2. BÜYÜK VE ORTA BOY İŞLETMELER İÇİN FİNANSAL RAPORLAMA
3.5.22. BOBİ FRS Kapsamında Konsolide Finansal Tablolar
Procedemos no presente capítulo à análise microestrutural, o que representa a análise lingüística propriamente dita. No intuito de concluir sobre o ethos de cada tradutor, examinamos os seus textos quanto ao Parâmetro do Sujeito Nulo e a ordem inversa a ele associada. Tentamos identificar os sistemas pronominais de cada tradutor para os alocutivos franceses, vendo, em seguida, os processos tradutórios quanto a acréscimos e omissões existentes nos textos de MQ/GC, MA e AS, guiados por duas questões levantadas por Lambert & van Gorp (1985). Analisamos detalhadamente também as escolhas lexicais a fim de identificá-las a um registro de língua e a uma escala axiológica e, por fim, encontramo-nos no momento diante da tarefa de apontar para o ethos construído por cada um dos tradutores.
Gostaríamos de novamente ponderar acerca de que aquilo que podemos inferir dos processos tradutórios está limitado ao texto que vemos diante de nós. Sem dúvida, a análise macroestrutural do capítulo precedente pôde nos auxiliar na interpretação, mas temos consciência de que nunca teremos acesso ao que pensou o autor, no momento do seu trabalho tradutório. O que aqui fazemos, portanto, é expor nossas impressões a partir do material linguageiro, conforme colocamos na introdução deste capítulo.
Quanto ao primeiro elemento analisado, vimos que se, por um lado a tradução de MQ/GC é aquela a possuir mais sujeitos expressos, por outro, é nela que encontramos um número indiscutivelmente maior de inversões verbo-sujeito. Já as traduções de MA e AS apresentam uma quantidade um pouco maior de sujeitos nulos, mas não preenchem o requisito ligado à inversão livre. Portanto, nossa hipótese de que a primeira tradução estaria mais vinculada ao Parâmetro do Sujeito Nulo, foi confirmada, o que a situa num registro mais erudito de língua.
Com relação ao sistema pronominal dos tradutores, identificamos que todos optaram por pronomes alocutários que atribuíssem um efeito arcaizante ao texto na língua de chegada. Contudo, MA e AS variaram menos na tradução dos pronomes vous e tu, sendo que este tradutor apresentou, em diversos momentos, a confusão entre 2ª e 3ª pessoas, típica da língua portuguesa em seu registro oral. MQ/GC, ao contrário, diversificou suas opções pronominais com a coerência normativa do registro escrito. MA apresenta um único caso de falta de critério pronominal e sua opção pelo alocutivo vós, associando seu texto ao registro formal. Sua opção tradutória produz portanto um efeito de erudição próximo ao efeito produzido pelo texto de MQ/GC, os quais distinguem-se do efeito produzido pela tradução de AS que, embora utilizando-se do pronome arcaico tu, aproxima-se muito do registro coloquial da língua oral, como vimos.
As perguntas microestruturais apontaram para maior quantidade de acréscimos e omissões em MQ/GC, seguido por poucas omissões na tradução de AS e de nenhuma na versão de MA. Esta tradutora tende a voltar sua tradução mais para o texto fonte, ao passo que AS e MQ/GC voltam-se mais para o contexto de chegada. O efeito de erudição está aqui mais associado ao texto de MA. Também quanto às escolhas lexicais, esta tradutora não se aproxima tanto da coloquialidade quanto AS. Contudo, nesse aspecto, é MQ/GC que emprega o registro mais erudito.
Podemos concluir, conforme já dissemos, que o efeito erudito produzidos pelos textos de MA e MQ/GC aproximam-se bastante. Ao passo que a falta de ordem não canônica, a “confusão” pronominal e a escolha lexical de AS o aproximam muito de um ethos coloquial de tradutor.
Tratamos na presente tese de uma pesquisa sobre quatro traduções existentes no mercado editorial brasileiro. O texto fonte dessas traduções é o conto filosófico Zadig de Voltaire. Nosso corpus constituiu-se, portanto, de tais traduções e do referido conto em francês. Procuramos cotejar esses textos a fim de visualizarmos diferenças que nos levassem a refletir sobre o processo da tradução, nas suas dimensões tanto macro quanto microestrutural.
Iniciamos nosso estudo tratando de teorias linguísticas que apontassem para uma determinada visão de língua que nos auxiliasse na tarefa de evidenciar o aspecto enunciativo da tradução. Conceitos importantes tais como modo de organização do discurso e visada comunicativa nos auxiliaram a descrever o texto de Voltaire como um discurso organizado narrativamente embora tivesse por finalidade persuadir o leitor a pensar a realidade tal como o autor francês o fazia. Portanto, procuramos no primeiro capítulo da presente tese, expor conceitos da análise semiolinguística do discurso que nos dessem subsídios na análise do conto filosófico e de suas traduções para o português do Brasil, realizada nos capítulos 3 e 4. A teoria de Patrick Charaudeau, inserida dentro do domínio da Análise do Discurso com base na Teoria da Enunciação, enfoca os sujeitos da linguagem integrantes da encenação comunicativa, tanto no circuito do Fazer (EUc e TUi) como no do Dizer (EUe e TUd). Tal paradigma nos possibilitou abordar a subjetividade do sujeito linguageiro, expressa por meio das escolhas linguísticas analisadas no Capítulo 4.
Completamos tal embasamento teórico ao discutir, no Capítulo 2, determinados conceitos controversos sobre tradução, tais como o status enunciativo do texto traduzido, os conceitos de fidelidade e equivalência, o de conluio e de pseudotradução.
Esses dois últimos conceitos revelaram-se importantes pontos de convergência entre a Análise do Discurso e os Estudos da Tradução. A pseudotradução, posta em evidência pelos Estudos Descritivos da Tradução, encontra-se plenamente justificada enquanto estratégia discursiva de legitimação do enunciador, em virtude da autoridade que empresta ao texto; o conceito de conluio, por seu lado, vê-se respaldado no Contrato de comunicação, evidenciado pela análise semiolinguística do discurso.
Procuramos demonstrar, no capítulo consagrado aos Estudos da Tradução, a posição de que essa é uma atividade enunciativa e uma realização autoral, segundo a Lei de Direito Autoral. De acordo com José Lambert, traduzir não é algo automático e, por esse motivo, difere da atividade de cópia e subsequente transposição para outra língua, conforme pode ser visto em nota que consta da Introdução da presente tese. A aparente facilidade de se traduzir, presumida por muitos leitores, implica na verdade em se fazer escolhas a todo tempo. Embora a tradução seja, de acordo com a lei acima mencionada, uma obra derivada, não deixa de ser inédita e original, uma vez que não havia sido nunca anteriormente realizada. Por esse motivo, conseguimos aferir plágios de tradução pelo cotejo dos textos, que não podem ser, de forma alguma, iguais. Mas, por outro lado, postulamos que essa prática não é uma escrita criativa. Nesse ponto, de acordo com a mesma lei, ela difere da criação primígena. Por exemplo, o trabalho de escrever uma tese de doutorado corresponde a um esforço diferente daquele feito quando traduzimos a tese de outro pesquisador!
É preciso, contudo, ter em mente que as limitações verificadas na tradução estão também relacionadas ao fato de que a linguagem já é em si algo limitado, haja vista que não conseguimos dizer tudo o que queremos e os mal-entendidos estão presentes em toda interlocução, seja ela monolíngue ou bilíngue. Tal reflexão acerca da linguagem é, a nosso ver, a grande contribuição que a teoria psicanalítica, abordada quanto à sua
relação com a tradução e o conceito de enunciação, na seção 2. 6, pode oferecer quanto à faculdade simbólica da linguagem e, consequentemente, à teoria da tradução.
Nos Capítulos 3 e 4, partimos da lista de questões propostas por Lambert e van Gorp (1985) que se referem a aspectos macroestruturais da tradução e a detalhes microestruturais. No Capítulo 3, nos propusemos a analisar as circunstâncias de produção das quatro traduções e do conto de Voltaire. Expusemos os autores que, a princípio pensávamos serem cinco mas que, por meio de um cotejo, verificamos serem apenas quatro, em razão da presença de duas traduções idênticas. De acordo com os conceitos de enunciação e autoria, que trabalhamos nos Capítulos 1 e 2, coube-nos portanto afirmar que nesse caso os dois textos configuram uma única enunciação e, por conseguinte, a existência de um único autor. Sendo assim, apenas um dos dois escritores é responsável por essa tradução: Galeão Coutinho ou Mário Quintana, e por isso associamos o nome dos dois a uma única tradução/enunciação. Uma vez que a configuração de cópia se deu, pudemos afirmar ter havido plágio. Não entramos, porém, no mérito quanto a quem coube a responsabilidade desta ilegalidade. Contudo, denunciamos tal fato a Denise Bottman, detentora de um blog com essa finalidade que, no entanto, não logrou desvendar a questão (Cf. as postagens dos dias 20/01/2010, 22/01/2010, 26/01/2010 no blog naogostodeplagio). Enfim, deixamos como sugestão para pesquisas posteriores o trabalho de investigação sobre as circunstâncias desse plágio.
Dada a responsabilidade autoral da tradução, resolvemos procurar, pois, o estilo de cada tradutor de Zadig em português. Era preciso ver a inscrição do sujeito-tradutor nos enunciados. Por esse motivo, vimos o conceito de ethos em diversas teorias linguísticas, dentre elas a Análise do Discurso de expressão francesa. Esse conceito refere-se à imagem que o locutor produz de si para ser levado a sério e influenciar seu
destinatário. Tal imagem manifesta-se por meio de suas escolhas linguísticas. Essas escolhas, feitas tanto por Voltaire quanto por seus tradutores – Mário Quintana/Galeão Coutinho (MQ/GC), Márcia V. M. Aguiar e Antônio G. da Silva – constituem-se em pistas para detectar a imagem que esses autores constroem, portanto, de si. Sendo assim, no Capítulo 4, dedicado às análises microestruturais, logramos detectar certas escolhas sintático-lexicais empreendidas pelos tradutores com relação ao texto de partida. Examinamos algumas categorias lexicais axiológicas, tais como substantivos, verbos e adjetivos avaliativos que, como vimos no primeiro capítulo, expressam o juízo de valor dos enunciadores, com vista a aferir a visada argumentativa do conto filosófico. Finalmente, ao investigarmos diversos parâmetros de análise tais como a explicitação ou não do pronome sujeito, a inversão livre, as escolhas tradutórias para os pronomes vous e tu do texto em francês e, enfim, as escolhas lexicais, pudemos classificar o ethos dos tradutores de acordo com duas categorias - erudito ou coloquial - em função do registro de língua configurado.
Um ponto crítico da tradução do francês para o português é a questão pronominal. Por esse motivo, realizamos intensa pesquisa bibliográfica a respeito da tradução dos pronomes tu e vous para os seus correspondentes em vernáculo: tu, você, vós, o/a senhor/a, etc. Ao olharmos para o nosso corpus, nos encontramos diante do fato de que as três traduções que possuímos estavam permeadas de tu e vós e raríssimos você, o que revela o projeto de construir uma enunciação de registro erudito para a tradução do texto iluminista francês. No entanto, verificamos diversas inconsistências no sistema pronominal da tradução de Antônio Silva, muito poucas em Márcia Aguiar e nenhuma em MQ/GC. Tais oscilações e inconsistências pronominais são típicas da língua oral na contemporaneidade e revelam em si a mudança no parâmetro pronominal do português brasileiro, assinalada pela Teoria linguística funcionalista, entre outras.
Por estar o registro oral mais próximo da coloquialidade, verificamos a aproximação das duas traduções mais recentes entre si, embora aparentemente Márcia Aguiar tenha optado pelo alocutivo vós e Antônio Silva pelo emprego maciço de tu. MQ/GC, por sua vez, fez uso tanto de vós quanto de tu mas, por estar seu sistema pronominal inserido na norma culta da língua vernácula, seu texto provoca no leitor um efeito de maior erudição.
Portanto, o fato de haver, no escopo das teorias linguísticas funcionalista e gerativa, uma constatação acerca da mudança de comportamento da língua portuguesa falada no Brasil nos levou a formular a hipótese de que as duas traduções mais atuais espelhariam essas transformações. Como vimos no primeiro capítulo, o Parâmetro do Sujeito Nulo distingue as línguas entre aquelas que autorizam a elisão do pronome sujeito e, quando este aparece, recorrem à inversão livre; e outras que explicitam o pronome sujeito, colocando-o na ordem direta canônica sujeito-verbo, o que denota um registro de língua coloquial. Inversamente, quando o enunciador visa imprimir em sua enunciação um registro mais formal ou erudito, utiliza-se da língua não como ela o é hoje, mas tal como era em épocas mais remotas. O que constatamos, feitas as análises, é que a tradução que remonta a 1951, embora com uma quantidade ligeiramente maior de pronomes sujeito explícitos, recorre maciçamente à inversão livre, o que, ao lado dos outros critérios acima expostos, nos permitiu configurar seu registro a serviço de um ethos erudito de enunciador. As escolhas tradutórias feitas para os pronomes alocutários franceses e para os itens lexicais, associadas às circunstâncias macroestruturais das outras duas traduções mais recentes, nos levam a distinguir um ethos mais descuidado e informal em Antônio Silva e um ethos de tradutor mais sofisticado no texto de Márcia Aguiar, embora MQ/GC permaneça sendo o enunciador a ter construído o ethos mais próximo do registro erudito. O maior uso da ordem indireta e as escolhas lexicais feitas
por esse enunciador nos autorizam a concluir, portanto, pela confirmação de nossa hipótese inicial.
Ao longo da análise empreendida, o que procuramos realizar foi descrever as traduções do nosso corpus ao invés de prescrever de acordo com normas pré- estabelecidas, conforme foi preconizado pelos Estudos Descritivos da Tradução. Verificamos, tal como a orientadora dessa tese que o ethos do tradutor fica, muitas vezes, encoberto pelo ethos do escritor. Na maioria dos casos, o tradutor que possibilitou a leitura das obras traduzidas fica esquecido e ocultado, como aponta Corrêa (1991), em decorrência do que se ouve de certos leitores que não lêem grego, por exemplo, ao dizerem: “Li a Odisséia de Homero”. Deduzimos de afirmações como essa que o processo da tradução permanece despercebido, tanto de forma proposital, como vimos no caso da pseudotradução, quanto à sua revelia, quando seu nome não é citado em muitas resenhas literárias nem consta, geralmente, na capa da obra que traduziu.
Tínhamos também, ao iniciar essa tese, muitas inquietações, sendo uma delas convergente com a preocupação de Paulo Henriques Britto e Lia Wyler a respeito da distância entre a teoria e a prática da tradução. Trabalhadores e teóricos da tradução divergem quanto a questões tais como fidelidade, normas tradutórias, direitos autorais, mercado editorial etc. O tradutor fica perdido nesse fogo cruzado entre acadêmicos de gabinete e as exigências dos leitores e do mercado de trabalho. Por isso achamos que o Contrato de fidelidade proposto por Corrêa (1991, p. 42), embora sendo um conceito discutível, aproxima, a nosso ver, a prática e a teoria da tradução. O que o mercado editorial solicita do tradutor é, segundo sabemos através de tradutores que prestam serviço às editoras Record, Rocco, José Olympio e outras editoras cariocas, um texto de chegada bem escrito em português. Portanto, é preciso reestabelecer o diálogo entre
teóricos e práticos da tradução a fim de que ambos se beneficiem dos estudos empreendidos nesse setor do conhecimento.
A nosso ver, a defesa da tradução não passa por posições extremas, nada salutares a uma atividade tão importante e que não cessa de acontecer. Embora muitas vezes desprestigiado, tanto no meio acadêmico quanto pelos seus consumidores, o trabalho da tradução desperta importantes questionamentos acerca da linguagem humana, como procuramos demonstrar reunindo na presente tese teóricos tais como Benveniste, Kerbrat-Orecchioni, Chomsky e Charaudeau, além dos teóricos em tradução como Susan Bassnett e José Lambert.
É notório que toda ciência nova vai se constituindo ao longo das pesquisas realizadas no seu âmbito. Nosso intuito com essa tese foi apontar avanços na pesquisa de questões relacionadas à tradução. Temos consciência de que as análises que aqui empreendemos podem ser estendidas e que muitas ramificações sairão daí. Por fim, esperamos ter apontado algumas indagações, propícias não apenas para o campo teórico, mas também para o terreno prático do trabalho incessante da tradução.
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