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2.2. FİNANSAL RAPORLAMA STANDARTLARININ OLUŞUM SÜRECİ

2.2.2. Türkiye Muhasebe / Finansal Raporlama Standartlarının Oluşum Süreci . 28

2.2.2.1.10. Kamu Gözetimi Muhasebe ve Denetim Standartları

Como já nos referimos, em Análise do discurso e tradução, Eliana Amarante de Mendonça Mendes analisa um gênero muitas vezes compreendido como tradução (a paródia62) à luz da Teoria Semiolinguística do discurso63 de Patrick Charaudeau e afirma praticamente não existirem pesquisas que façam a ponte entre essas duas áreas, a saber, tradução e análise semiolinguística do discurso (MENDES, 2008, p. 31). No entanto, a tradutora e professora da UFRJ Ângela Maria da Silva Corrêa já defendia em 1991 sua tese de doutorado intitulada Erros em tradução do francês para o português: do plano lingüístico ao

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Não somos partidários de se denominar a paródia como tradução. É uma reescrita, como afirma Lefevere, mas não obedece ao princípio de reversibilidade de Eco e não obedece ao contrato de fidelidade de Corrêa (1991).

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plano discursivo, na qual aborda a tradução sob a perspectiva semiolinguística. Corrêa foi a pioneira em trazer a questão da tradução para a Análise do discurso de Patrick Charaudeau.

Nesse trabalho, a autora aponta erros cometidos na tradução do romance canadense Kamouraska, segundo a abordagem semiolinguística do discurso de Charaudeau (1983). O primeiro capítulo da tese é todo dedicado à exposição de seus conceitos centrais, tais como projeto, contrato de fala, competências situacional, discursiva e linguística, entre outros. A seguir, passa à tarefa de relacionar o trabalho de tradução à abordagem semiolinguística, em seus dois momentos principais: o lugar do leitor-tradutor no ato de linguagem e o lugar do escritor-tradutor no ato de linguagem, ou seja, a leitura e compreensão do texto a ser traduzido e a sua posterior reescrita na língua solicitada. Quanto ao primeiro momento, Corrêa refere-se aos aspectos cognitivos da atividade, tais como a questão do conhecimento prévio sobre o assunto, a formulação de hipóteses interpretativas e a recuperação dos aspectos de coesão e coerência textuais. Sendo assim:

O leitor-tradutor deverá ser capaz de identificar-se à imagem do destinatário mais abrangente, devendo mesmo entregar-se à tarefa de analisar os efeitos discursivos produzidos num esforço de reconstruir hipoteticamente a

intencionalidade do texto. As decisões que o tradutor tiver de tomar ao

produzir o texto na língua de tradução (LT) terão obrigatoriamente como ponto de referência o resultado desta atividade analisante (CORRÊA, 1991, p. 31, grifo do autor).

As outras ferramentas importantes para o processamento interpretativo do texto, como acabamos de ver, são os conceitos de competência situacional, discursiva e linguística de Charaudeau (1983), que abordamos em maior profundidade no Capítulo 1. “No processo interpretativo do leitor-tradutor entram em jogo pois a competência situacional e discursiva, que vão interagir com a competência linguística” (CORRÊA, 1991, p. 33). Esses três componentes relacionam-se aos aspectos cognitivos da leitura para produzir a compreensão necessária à tradução.

A interpretação do leitor-tradutor dependerá de sua familiaridade com os assuntos tratados no texto na língua original (TLO), além, é claro, de suas competências linguística, discursiva e situacional (CORRÊA, 1991, p. 37).

Enquanto, de acordo com o senso comum, para se entender bem o que se lê em língua estrangeira é preciso traduzir, na prática o que acontece é o oposto: para se traduzir é preciso ter se dado ao enorme esforço de entender em profundidade aquilo que se leu (Corrêa, 2007). Sem esse esforço compreensivo, como poderia o tradutor colocar-se na posição de reescrever para um novo público leitor um texto o mais semelhante possível àquele que ele leu?

Quanto ao lugar do escritor-tradutor no ato de linguagem, Corrêa (1991, p. 38) faz as seguintes ponderações críticas:

Apesar de produtor de um texto, seu status psico-social é o de “decodificador” e “recodificador” de um texto pré-existente. Isto é, a tradução é vista como se o texto na língua original (TLO) fosse simplesmente decodificável e recodificável em um TLT. Entretanto, [...], o texto não é acessível em si, mas como o resultado da tarefa de um sujeito interpretante, que constrói seus significados [...]. O status do tradutor enquanto escrevente encontra-se falseado em sua base, pois está preso a uma concepção do ato tradutório que anula as possibilidades interpretativas do TLO. (grifo do autor)

Se por um lado a referida pesquisadora reivindica uma melhor compreensão quanto ao lugar do tradutor, sua visão de tradução contém traços evidentes da atitude prescritiva (conforme vimos em BASSNETT, 2003 e veremos logo adiante em RODRIGUES, 2000), advinda sem dúvida de suas fontes de pesquisa no assunto: Taber & Nida (1974), Vinay & Darbelnet (1977). Em suas formulações a respeito do que seja uma boa tradução, vemos a significativa presença do verbo modal dever, indicativa de prescrição:

A tradução deverá ser fiel à melhor leitura possível. [...] Na produção do TLT, o tradutor, para ser fiel (isto é, para produzir um texto análogo ao TLO), deverá buscar intencionalmente os efeitos de sentido que permitam também ao futuro leitor a melhor leitura possível (grifo nosso, CORRÊA, 1991, p. 41).

A partir das objeções a uma tradução aceitável apresentadas em Vinay & Darbelnet (1977, p. 49), Corrêa (1991, p. 40) prescreve por meio do modo verbal do subjuntivo as condições (com o uso do marcador quando) para uma tradução aceitável:

Uma tradução [...] será aceitável: quando a mensagem tiver um sentido em LT [...]; quando além de ter sentido em LT, tiver o mesmo sentido que a mensagem correspondente na língua original (LO) [...]; for estruturalmente aceitável em LT [...]; corresponder a uma realidade cultural de LT [...] e no mesmo registro de língua[...] (grifo nosso em negrito).

A autora a seguir continua expondo o que entende como sendo necessário ao tradutor de tal modo que seja fiel a esses princípios. Prescreve ao tradutor buscar a fidelidade ao sentido e às diferenciações sociais do uso das formas linguísticas no texto original, ao mesmo tempo em que garanta ao leitor da língua traduzida um texto que seja tanto estrutural como culturalmente aceitável. (CORRÊA, 1991, p. 40)

E tece suas críticas ao conceito de Vinay & Darbelnet (1977), apontando uma visão equivocada daquilo que estaria associado a uma visão essencialista da linguagem: “Assim, esse contrato de fidelidade pressuposto por Vinay & Darbelnet também se fundamenta na existência do sentido imanente ao TLO a ser transposto em LT” (CORRÊA, 1991, p. 40). Ainda segundo a autora, o sentido do texto não existe em si, independente do esforço interpretativo do leitor. A imanência do sentido é, portanto, um construto carregado de idealização.

Outro ponto importante na teoria de Charaudeau (1983) é seu conceito de contrato. “O contrato é a relação intersubjetiva que se fundamenta no status psico-socio-historico-físico- cultural que cada um dos sujeitos assume para com o outro e reconhece no outro” (CORRÊA, 1991, p. 17). As entidades responsáveis pela comunicação (a primeira e a segunda pessoa, EU e TU) dispõem-se a assumir certos compromissos, de acordo com o seu projeto de comunicação. Nessa linha, as entidades linguageiras envolvem-se nos mais diferentes tipos de contrato de fala e, no caso da tradução, Corrêa (1991, p. 43) propõe um esquema para o contrato de comunicação da tradução, conforme os esquemas abaixo. Apresentamos primeiramente o seguinte esquema, que consiste na simplificação do esquema 7, que será apresentado mais adiante:

Esquema 6 Contrato de Comunicação da tradução. Fonte: (Corrêa, 1991, p43)

Se fôssemos analisar o esquema acima de acordo com o esquema de Lambert & van Gorp (1985), poderíamos dizer que as duas primeiras relações contratuais referem-se aos contratos literários firmados em cada sistema literário: 1. do contexto de partida; 2. do contexto de chegada. A fim de gerar uma tradução, os dois sistemas estabelecem uma Relação Contratual que Corrêa (1991) intitula Contrato de fidelidade. Para Lambert e van Gorp (1985), o sinal de igualdade = seria substituído por um de equivalência

,

por defenderem que a igualdade é inatingível, como apresentado no esquema abaixo:

EUc(1) TUi (1) EUc(2) TUi (2) (Tradutor)

Esquema 7 Contrato de Fidelidade. Fonte: Adaptação de Corrêa (1991, p.43)

Utilizando a nomenclatura de Lambert e van Gorp, no sistema 1, lado esquerdo da equação acima, o sujeito interpretante torna-se o sujeito comunicante do sistema literário 2 (lado direito). Essa entidade com dois papéis é exatamente aquele a quem chamamos “tradutor”. Remetemos aqui ao blog intitulado Tradutor Profissional no qual seu editor propõe o deus romano Janus como sendo o protetor dos tradutores, uma vez que possui duas faces, “uma das faces no original, outra na tradução; uma no autor, outra no leitor” (TRADUTORPROFISSIONAL, 2009)

Escritor Leitor 1 Escrevente Leitor 2

Relação Contratual Relação Contratual

=

Relação Contratual

De acordo com o que vimos exposto acima, chegamos à definição do Contrato de fidelidade proposta por Corrêa (1991, p. 42):

Assim, para encerrar a questão do Contrato de fidelidade, propomo-nos redefini-lo como a obrigação assumida pelo Tradutor, face ao seu leitor, de que o TLT permita um percurso de leitura análogo ao do leitor mais avisado do TLO, sem deixar de levar em consideração as contingências socio- historico-culturais tanto do ato produtivo do escritor (ou do escrevente) do TLO, quanto as do ato interpretativo do leitor do TLT.

O Esquema 7, mencionado acima, descreve de modo completo as relações acerca dos elementos presentes no processo de tradução.

Esquema 8: Esquema comunicativo da tradução. Fonte: Corrêa, 1991, p. 43.

Temos no esquema, na verdade, a duplicação do ato de linguagem de Charaudeau, uma vez que na tradução há dois fazeres situacionais: o do texto de partida e aquele do texto de chegada, ou texto na língua de origem (TLO) e texto na língua de tradução (TLT) (CORRÊA, 1991, p. 43). Tal esquema integra também os dois esquemas menores (1 e 2), mostrados previamente e insere nele o circuito virtual do Dizer (com os sujeitos enunciadores e destinatários) ao circuito explícito e real do Fazer tradutório, mostrando que, na mente dos leitores de textos traduzidos, o sujeito que escreveu a tradução não é o tradutor, mas o autor do Fazer situacional 1, o que leva ao que vamos explicitar logo adiante.

A relação contratual entre o escritor e o Leitor 2, ou seja, o leitor de seu texto em outra língua, é mediada pela leitura de um Leitor 1, que é o tradutor. No entanto,

A relação contratual do Escritor com o Leitor 1 continua existindo durante o processo de escritura do TLT. O Contrato de fidelidade é visto como a garantia (no nosso entender impossível) da coincidência significativa do Ato de linguagem do Escritor com o Ato de Linguagem do Tradutor. [...] O escrevente-tradutor é então um mediador de um Contrato entre o Escritor e o Leitor 2, tanto que este último comentará sua leitura dizendo: “Acabei de ler um livro de Anne Hébert”, ou “já li No caminho de Swann de Proust” e só excepcionalmente “li a tradução de um livro de Anne Hébert” ou “li a tradução do livro Du côté de chez Swann”.Conclui-se que o Leitor 2 considera que o Contrato literário se mantém entre ele e o Escritor, apesar das diferenças entre o TLO e o TLT (CORRÊA, 1991, p. 43-4, grifo nosso).

Como acaba de afirmar Corrêa ser o Contrato de fidelidade visto como a garantia (a seu ver, e no nosso entender também, impossível) da coincidência significativa do Ato de linguagem do Escritor com o Ato de Linguagem do Tradutor. Há pois contradição quando admite que o Projeto de Escritura do tradutor não é “reconhecido como tal, mas como uma ‘reprodução’ do projeto de um outro, o escritor (ou o escrevente, nos textos não literários). O Dizer 2 é visto como uma cópia, em outro código do Dizer 1.” (p. 44) Para o Leitor 2, o enunciador visualizado é sempre o Escritor, embora o Tradutor tenha tomado a iniciativa de se tornar o Sujeito Comunicante. Devido ao contrato de fidelidade, o que muitas vezes acontece é que a imagem de enunciador produzida pelo TLT - o EUe (2) - é interpretada pelo TUi (2) como remetendo ao EUc(1). O que fica dissimulado, oculto, é o trabalho interpretativo e comunicativo do tradutor – o desempenho deste enquanto TUi(1) e EUc (2). Percebemos, como Corrêa afirmou acima, que a maioria dos leitores lê uma tradução como se fosse a obra no original. Exemplificando, o leitor chega a argumentar: “Li A Odisséia de Homero; terminei a leitura de Madame Bovary de Flaubert”, sem se dar conta de todo o processo que possibilitou o seu acesso à obra em questão.

Na mesma página, Corrêa (1991, p. 44) afirma: “A especificidade da participação interpretativa do Leitor 1 no Ato de linguagem [...] nos impede de aceitar a tradução como

sendo uma ‘cópia’”. O tradutor possui seu projeto de escritura e tal fato, como vimos no início do capítulo, caracteriza por si só o status enunciativo da tradução. Embora haja o compromisso do tradutor com o escritor (conforme vários casos, dentre os quais a interlocução de Eco com seus tradutores), nos propomos discutir a seguir conceitos associados a contrato em tradução tais como fidelidade e equivalência.

Aubert (1987, p. 13), por exemplo, tece profundas ponderações acerca da tradução literal. De São Jerônimo aos atuais pesquisadores em traduções, é de comum acordo que, dada a raridade de ocorrência de universais linguísticos, é preciso desprender-se da forma superficial e aparente das línguas e o que deve ser traduzido é o sentido. Portanto, a priori, a tradução literal deve ser evitada: “De fato, a recomendação por assim dizer unânime de pesquisadores, professores e praticantes da tradução que a tradução literal constitui algo a ser evitado”. O autor acrescenta ainda:

Para "soar bem", para ser não apenas convincente em termos de sua idiomaticidade na língua de chegada (LC) do processo tradutório, mas para efetivamente assegurar sua inteligibilidade, faz-se necessário ao tradutor libertar-se das amarras formais do texto original (AUBERT, 1987, p. 14-15).

Aubert (1987) apresenta os mais variados graus de tradução literal, indo de uma tradução ao “pé da letra” ao procedimento denominado por Vinay & Darbelnet “modulação”: cita como exemplos, “sans retard” - sem demora; “Yours trully” – Atenciosamente. O autor tece considerações acerca da tradução de textos como certidões de nascimento na qual a criatividade do tradutor fica completamente cerceada, à tradução de texto publicitário no qual, “pelo contrário, usualmente exige que o tradutor ultrapasse os limites da tradução stricto

sensu, para elaborar uma verdadeira recriação” (AUBERT, 1987, p. 17).

Apesar dessa afirmação, conclui, paradoxalmente, esse artigo com as seguintes palavras:

Colocada nestes termos, e descartadas as suas manifestações ingênuas e amadorísticas, a literalidade constitui um dos principais desafios do processo tradutório e medida bastante confiável do grau de êxito na busca da

fidelidade, quer ao texto de partida, quer à língua, cultura e leitores

destinatários da tradução (AUBERT, 1987, p. 20, grifo nosso).

Não podemos deixar de admitir que a desconstrução do conceito de equivalência é válida por mostrar que tal conceito não acontece no vácuo. Um texto só pode ser considerado equivalente a outro dentro de determinados parâmetros estabelecidos por uma determinada sociedade. Barbosa (2009)64 pondera que o modo como se encara uma tradução muda de uma época a outra. Na literatura infantil, por exemplo, a tradução de Cinderella de Monteiro Lobato muda totalmente o final da história. Entretanto não houve reclamações na época em que foi publicada, e a tradução foi aceita como uma “equivalência”, como “fiel”. Hoje se reclama levando-nos a concluir que mudou o modo como encaramos, atualmente, a tradução. Outra questão emerge no âmbito das questões sobre a fidelidade da tradução, ou seja a da relatividade desse conceito. Um texto traduzido é fiel, mas fiel a quê? à tradição literária? a quem? ao autor, ao leitor? A cada momento histórico muda o objeto da fidelidade. Hoje, ainda segundo Barbosa (2009), queremos o texto integral, sem nada omitir, sem nada acrescentar, o mais literal possível. Em outras épocas, foi outra tradução que se quis. O tradutor traduz como um homem do seu tempo. De certa forma, podemos dizer que traduzir é um ato logocêntrico. Se achar que não é possível recuperar o sentido do texto, como achar que se pode traduzir? Barbosa conclui enfim, quanto aos conceitos de equivalência e fidelidade: “Acho que se pode fazer uma total desconstrução deles, conceitualmente. Mas também acho que não se consegue trabalhar com tradução segundo a desconstrução desses conceitos65”.

Vê-se em Aubert (1987) a preocupação com a busca da fidelidade. Tal preocupação está presente no mercado de trabalho da tradução, sem o qual a tradução não existiria. Teorias sobre a prática da tradução precisam, sem dúvida, levar em conta as exigências de seu mercado de trabalho, não apenas para submeter-se a ele, mas para com ele dialogar.

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As ideias dessa pesquisadora são oriundas de contato mantido através de correspondência pessoal em e-mail de 04/12/2009)

65

Opinião esta que converge com a de Paulo Henriques Britto, expressa no início do presente capítulo (BENEDETTI & SOBRAL, 2003, p. 92-3).

Ao comparar o tradutor e o autor, José Paulo Paes dá o exemplo de Manuel Bandeira. Este “poeta criador” foi ao mesmo tempo um “poeta criador artesão tradutor” (PAES, 1990, p. 65) e, “tradutor de poesia alheia, aceitava como inevitável, ‘para ser fiel ao [...] sentimento’ nela expresso, ‘suprimir certas coisas e acrescentar outras’, tendo por ponto pacífico que ‘rosas podem ser substituídas por lírios’” (PAES, 1990, p. 66).

Realizaremos agora um passeio teórico pelos conceitos de fidelidade e, sobretudo, equivalência, discutidos por Cristina Carneiro Rodrigues (2000) em Tradução e diferença, a fim de relativizar a noção desses dois conceitos, contudo, a nosso ver, indissociáveis do processo tradutório. Rodrigues (2000) traça um histórico do conceito de equivalência por seus expoentes do campo da Linguística e do campo literário chegando à pós-modernidade, desconstrução e pós-estruturalismo.

Para desenvolver seu texto, Rodrigues examina os trabalhos de quatro importantes teóricos da tradução, quais sejam: John Catford, Eugene Nida, André Lefevere e Gideon Toury Rodrigues analisa, com os dois primeiros, a contribuição da Linguística e, com os dois últimos, os avanços da Literatura em relação ao conceito de equivalência.

Inicialmente, apresenta o ponto de vista pessimista e pouco produtivo acerca da tradução, de Georges Mounin (1963/1975) para, imediatamente, passar às três vertentes que proporcionaram o contato íntimo entre tradução e linguística: a que usou instrumentalmente a linguística para resolver problemas de tradução (representada por Eugene Nida, 1964), na qual se detém mais; a que buscou na teoria linguística bases para a sistematização da tradução (esboçada na obra de Catford, 1965/1980) e a da linguística contrastiva que usou a tradução a fim de encontrar critérios básicos para a comparação entre as línguas.

Em relação à Linguística, afirma: “Alguns consideram até mesmo que a grande contribuição da linguística à tradução é no sentido de sistematizar a equivalência” (RODRIGUES, 2000, p. 26). Para logo em seguida constatar que “Apesar de ser termo tão

utilizado e considerado tão importante, os teóricos enfrentam grande dificuldade para definir o que seria a ‘equivalência’” (RODRIGUES, 2000, p. 27). E manifesta a tese contida no seu texto: “Busco evidenciar que os teóricos, na tentativa de explicar por que a tradução não reproduz o texto de partida, acabaram por recorrer a diferentes conceitos de “equivalência”, o que tem como consequência teorias que idealizam a prática da tradução” (RODRIGUES, 2000, p. 29). Ora, como apontamos no início do presente capítulo, é preciso ficar atento ao fato de que existem hoje, no campo teórico da tradução, alguns exageros que criam uma separação insuplantável entre teoria e prática da tradução.

A vertente da Linguística contrastiva fala em “equivalência de tradução”, cuja definição – “produção de uma mesma sentença em uma outra língua” (RODRIGUES, 2000, p. 35) – aponta para a referida idealização. “Levada ao seu extremo, força à conclusão de que, para cada unidade linguística [...] na língua-fonte, há uma unidade equivalente na língua-alvo e que o papel do tradutor é encontrar essa unidade” (Ivir apud RODRIGUES, p. 35), levando Rodrigues a concluir que: “O quadro retratado sobre o conceito de equivalência em linguística contrastiva mostra, assim, um enfoque completamente dissociado da situação da tradução real” (RODRIGUES, 2000, p. 35)

A segunda vertente, isto é, a proposta de Catford, foi buscar na teoria linguística as bases para a sistematização da tradução. Em sua obra Uma teoria lingüística da tradução (1965/1980), ele pondera sobre os limites da possibilidade de tradução.

A definição de tradução que Catford fornece, “Substituição de material textual [...] por material textual equivalente noutra língua”, o modo como encaminha a discussão e a insuficientemente explicada importância que dá à correspondência formal levam a pensar que sua concepção de tradução é muito próxima à concepção abstrata e idealizada, da qual toda contextualização é retirada, postulada pelos lingüistas contrastivos (Idem, p. 61).

A terceira vertente linguística da tradução abordada por Rodrigues (2000) é aquela representada por Eugene Nida cujo enfoque comunicativo do trabalho era o que o

diferenciava dos modelos formalistas. No entanto, seus trabalhos apontam para uma prescrição e não para uma mera descrição de problemas, como explicitamente disse pretender em Towards a science of translating (1964, p. 8). Há uma série de orações em que emprega é necessário, o tradutor deve, deveríamos, o tradutor precisa (RODRIGUES, 2000, p. 63). Estabelece em Nida & Taber (1974, p. 14-32) conjuntos de prioridades fundamentais, verdadeiras receitas a serem seguidas pelo tradutor: a consistência textual deve prevalecer sobre a correspondência palavra por palavra; a equivalência dinâmica sobre a formal; deve-se usar a forma oral, em vez da forma escrita; devem-se buscar estruturas usadas e aceitas pelo público pretendido, em lugar de usar as de prestígio. Define a tradução como “a produção de mensagens equivalentes” (NIDA & TABER, 1964, p. 120) embora, assim como Catford, não consiga definir o que seja equivalência. Rodrigues (2000, p. 65) constata que é só no glossário