3.2. BÜYÜK VE ORTA BOY İŞLETMELER İÇİN FİNANSAL RAPORLAMA
3.5.12. BOBİ FRS Kapsamında Maddi Duran Varlıklar
Nesta seção, procuraremos mostrar as divergências tradutórias quanto ao léxico126 empregado por cada tradutor. Embora as diferenças lexicais raramente fujam do mesmo campo semântico, nosso objetivo é ver dentro de qual registro de língua cada item lexical se situa a fim de nos levar a enxergar um ethos do tradutor, sendo este um somatório das várias análises empreendidas no presente capítulo. Naturalmente, as informações macroestruturais presentes no capítulo precedente nos auxiliarão nesta interpretação dos dados aqui expostos. Iniciamos nossa análise lexical pela observação da tradução dos títulos dos capítulos de Zadig.
Dos 21 capítulos que compõem o conto, 6 deles possuem divergência nas traduções para o português, que correspondem no original a: 1) Les disputes et les audiences; 2) La femme battue; 3) Le bûcher; 4) Le souper; 5) Les rendez-vous; 6) Le brigand. Elaboramos o Quadro 2 para que o leitor possa ampliar a percepção sobre este aspecto pertinente das três traduções. Há ocasiões em que uma tradução coincide com outra e uma apenas em que nenhum título foi traduzido da mesma forma. Colocaremos os títulos dentro do quadro não na ordem em que vêm no conto, mas por semelhança de suas traduções.
Voltaire Mário Quintana/
Galeão Coutinho
Márcia Aguiar Antônio Silva
Les disputes et les audiences Demandas e audiências As disputas e as audiências Disputas e audiências
Le bûcher A pira A fogueira A fogueira
Les rendez-vous As entrevistas Os encontros Os encontros
Le souper A ceia A ceia O jantar
Le brigand O salteador O bandido O salteador
La femme battue A mulher batida A mulher espancada A mulher que apanhava
126
Analisaremos primeiramente o léxico de caráter mais geral e, sem seguida, nos deteremos sobre os itens axiológicos em função de seu caráter argumentativo.
Quadro 15 Títulos – Divergências na Tradução Fonte: (VOLTAIRE, 2002, 2001, 2002, 2006)
Nos três primeiros títulos, a escolha lexical foi a mesma em MA e AS, embora haja divergência quanto à presença de artigos definidos. No capítulo intitulado Les disputes et les audiences, MQ/GC diverge dos outros dois tradutores por utilizar a palavra “demanda” em vez de “disputa”, opção esta feita pelos outros dois tradutores cujas traduções são mais recentes, usando a palavra “disputas”. Não sabemos ao certo a acepção da palavra “demanda” nos anos de 1950, época da tradução de MQ/GC, mas na contemporaneidade esta palavra não possui um sentido tão evidente de disputa e discussão, sentido encontrado no Dicionário Aurélio (FERREIRA, 1975), posto que atualmente a palavra “demanda” é mais usada em áreas comerciais, econômicas e jurídicas. A opção pelo vocábulo “disputa” feita pelos outros dois tradutores alcança uma compreensão mais imediata pelos leitores do atual contexto. No segundo capítulo, “fogueira” também é uma palavra bem mais recorrente que aquela escolhida por MQ/GC, “pira”. No caso do capítulo “Les rendez-vous”, no qual uma bela viúva vai ter com o chefe dos sacerdotes das estrelas para dissuadi-lo de mandar matar Zadig damos razão a MA e AS que intitulou essa passagem “Os encontros” ao passo que MQ/GC, traduziu-o por “As entrevistas ”. Tal termo é perfeitamente possível para rendez-vous, até mesmo nos dias de hoje, não contudo nas circunstâncias sedutoras em que a dama tem suas conversas com o referido sacerdote. Passemos à refeição traduzida ora como “A ceia” em consonância tanto em MQ/GC como em MA, ora como o termo mais moderno “O jantar” por AS, que no entanto faz a mesma escolha de MQ/GC pelo termo “envelhecido” salteador, juntamente com MQ/GC. Dessa vez, quem optou pelo termo mais coloquial dos dias de hoje foi MA – “O bandido”. O único título que divergiu em todas as três traduções foi “La femme battue ”. Em MQ/GC e MA, o adjetivo foi traduzido pelo adjetivo “batida ” e “espancada ”, respectivamente. AS preferiu adjetivar “A mulher ” por uma oração subordinada, que apanhava, a tomar uma roupagem linguística mais próxima do uso que fazem a mídia e as
pessoas no seu dia a dia. Percebemos, a partir da análise realizada acima, que uma tradução pode apresentar-se mais vinculada ao texto fonte, outra ao texto meta; uma se vincula mais ao contexto e época em que foi escrito o texto de partida, outra faz questão de se adequar à língua e contexto dos leitores atuais da tradução, tal como vimos ao responder às perguntas microestruturais na seção anterior.
Dando continuidade à análise semântica de Zadig, recolhemos exemplos de alguns itens lexicais do conto a fim de prosseguirmos na identificação do tipo de ethos construído por cada tradutor. Como sabemos, o conto filosófico de Voltaire possui características dos discursos com função apologética e polêmica127, que visam tanto desqualificar um alvo por meio de termos negativos128, quanto tornar o personagem central da história mais atrativo, com termos elogiosos. Alguns dos termos traduzidos e presentes no quadro abaixo terão maior força axiológica do que seus sinônimos e produzirão um maior efeito argumentativo no leitor do que outros.
Verificar a força axiológica e, portanto, argumentativa dos itens que recolhemos, associado a seu poder de revelar a construção do ethos de cada tradutor é o nosso objetivo com o seguinte quadro:
Mário Quintana Márcia Aguiar Antônio Silva
Epístola dedicatória Ofereço-vos Folgo Avisado Discorrer Vos louvem Epístola dedicatória Ofereço-vos enche-me de orgulho prudente argumentar vos louvem Carta Edicatória Eu te ofereço Orgulho-me Sábio Raciocinar Sejas elogiada Le borgne Boa índole Malgrado Asseclas Aprestou-se Insultosa arrogância Sofri Fazia consistir Beleza Apesar Seqüestradores Preparou-se Altivez insultante amarguei Residia Belo caráter Apesar Raptores Apressou-se Arrogância insultante sofri Alimentava 127
Esses discursos foram expostos na seção 1. 6 do Capítulo 1, numa longa citação de Kerbrat-Orecchioni (1980, p. 78).
128
Se achava Estava Estava Le nez Arroio Arroio Confiou-lhe Regressou A dama Ergueu-se Clamar Córrego Riacho
Tornou-se seu confidente Voltou para casa
A dama Levantou-se Gritar
Riacho Riacho
Fez dele seu confidente Voltou para casa A mulher Se ergueu Xingar Le chien et le cheval Caçadora Palafreneiro Cavalariças Se mostravam Menos amolgado Divisei cocker spanniel palafreneiro estábulo pareciam menos escavada distingui Cadela caçadora Tratador Estábulos Pareciam Menos aprofundada Percebi L’envieux Viu Cumpre (empalar) Contornou a questão Gozava Mesquinha Cear Depara-se Se assinalara Tabuinhas Moita de rosas Tombara Principiava Experimentou Deve-se Apaziguou Tinha Pérfida Cear Apresenta-se Mostrara Tabuinhas Brenha de rosas Caíra Começava Percebeu É preciso Resolveu a questão Gozava Maldosa Jantar Aparece Se havia destacado Tijoletas Pés de roseiras Tinha caído Começava
Les disputes et les audiences
No entanto Vinha falar-lhe Faz exceção de pessoa Bem lhe parecesse Serralho
No entanto
Entretanto Vinha lhe falar Privilegia Bem aprouvesse Harém
Entrementes
Também Vinha lhe falar Faz acepção de pessoa Bem quisesse
Aposento Entretanto
Le bûcher
Se deixasse impressionar Não eludir Não se esquivar
Le souper
Um botão de rosa sobre um pomo de marfim
uma garança em cima de um buxo
Um botão de rosa sobre uma maçã de marfim
Le brigand
Pandemônio Valhacouto Deus-nos-acuda
Le basilic
Sabes É de vosso conhecimento Sabes
Les combats
Aposentos Lójia Aposentos
La danse
Cumpre confessar Temos que dizer Cumpre informar
os de Vossa Majestade os vossos as suas
Quadro 16 Escolhas Lexicais Divergentes.Fonte: (VOLTAIRE, 2001, 2002, 2006)
Como podemos ver no quadro acima, a maioria dos vocábulos pertencentes a um registro mais erudito é oriunda da tradução de MQ/GC que, além de ser a mais antiga, não se encontrava inserida, quando foi primeiramente publicada, no contexto da preocupação em se fazer compreender por adolescentes na faixa etária do Ensino Médio, conforme expusemos no Capítulo 3 acerca do retorno ao ensino de filosofia nas escolas brasileiras. Para os anos 50 e o tipo de público que lia Voltaire, a tradução de MQ/GC não deve ter sido considerada erudita. Mas, se sua tradução é lida ainda hoje, o que nos interessa examinar não é o efeito que ela produziu no passado, e sim o efeito que esse mesmo texto produz nos leitores de hoje. Assim também, procuramos verificar o efeito produzido pelos dois textos, recentemente publicados, no público leitor. Analisemos, portanto, os termos escolhidos pelos três tradutores a fim de visualizar dentro de qual registro estes itens lexicais se situam e qual é o efeito predominantemente produzido por cada tradutor, em decorrência dessa escolha.
Os termos marcados quanto ao registro de língua mais formal são: “epístola” por “carta”; “folgo” ao invés de “orgulho-me”; “discorrer” com relação a “raciocinar” ou “argumentar”; “clamar” em contraste com “gritar” ou “xingar”. No capítulo L’envieux, para dois verbos no pretérito mais que perfeito, AS opta pela forma composta (“se havia destacado” e “tinha caído”), mais produtiva na linguagem cotidiana do que a forma simples desse tempo verbal, empregada por MQ/GC e MA, (“se assinalara”/ “mostrara” e “tombara”/ “caíra”). Nitidamente num registro mais culto de língua estão também os seguintes termos de MQ/GC: “malgrado”, “asseclas”, “arroio”, e “serralho”.
Há exceções, contudo, como nos capítulos L’envieux e Les disputes et les audiences, nos quais os termos mais formais são vistos desta vez na versão de MA, como por exemplo, brenha de rosas e entrementes (em contraste com moita de rosas e no entanto em MQ/GC).
Faz-se mister tecer algumas considerações a respeito dessa tradutora. Como já dissemos, MA declarou, explicitamente, suas intenções tradutórias com o intuito de justificar a nova retradução de Zadig em razão de uma escolha lexical mais adequada aos nossos dias. Contudo, ao contrário de sua expectativa, seu texto provoca um efeito de elegância e de certa erudição. De fato, para o público atual, a representação mental da raça “Cocker spanniel” é bem mais imediata do que em “cadela caçadora” dos outros dois tradutores129. No entanto, desde sua opção pelo pronome vós até escolhas lexicais tais como “eludir”, “garança em cima de um buxo”, “valhacouto”, “pérfida” e “lójia” provocam, no leitor brasileiro da contemporaneidade, o mesmo efeito provocado por alguns termos empregados pela antiga tradução de MQ/GC. Vemos, portanto, certa incoerência entre aquilo que declarou como seu projeto tradutório e aquilo que, de fato, realizou em sua tradução130. Não tecemos tal comentário com o intuito depreciativo, mas sim no sentido de apontar que, como sabemos, a construção do ethos enunciativo possui estreita relação com aquilo que o interlocutor observa no locutor, e não com o que este diz de si mesmo.
Em geral, porém, MA e AS optam pelos termos mais coloquiais do que MQ/GC, tais como: “prudente”/ “sábio” ao invés de “avisado”; “estava” em oposição a “se achava”; “voltou para casa” e não, “regressou”; “estábulo” em contraste com “cavalariças”; “distingui”/ “percebi” ao invés de “divisei”; “deve-se”/ “é preciso” e não, “cumpre”, além de “começava” em oposição a “principiava”.
Dando prosseguimento a nossa análise, podemos também dizer que a próclise encontrada em “ergueu-se” e “vinha falar-lhe”, presentes no texto de MQ/GC, produzem um efeito associado à modalidade escrita da língua e, portanto, remetem a um registro menos coloquial, do qual se aproximam “se ergueu” e “vinha lhe falar”.
129
E há outros exemplos que se assemelham às escolhas do tradutor AS, conforme podemos verificar no quadro.
130
O ethos, como vimos no Capítulo 1, tem mais relação com aquilo que o interlocutor observa no locutor do com aquilo que este diz de si mesmo.
No capítulo Le chien et le cheval quando opta por traduzir sable moins creusé por chão menos amolgado, MQ/GC passa uma idéia mais arcaizante de escritor do que em areia menos escavada ou areia menos aprofundada. Essa duas últimas opções, de registro mais coloquial, produzem uma imagem de enunciador mais moderno pelo uso de uma linguagem acessível aos leitores contemporâneos. MA e, sobretudo, AS constroem, portanto, um ethos coloquial. Em suma, a tradução de MQ/GC é aquela que apresenta um ethos de tradutor mais erudito, situado mais próximo do ethos de MA, e mais distanciado do ethos tradutório de AS, cujas escolhas colocam-no próximo da coloquialidade.
Dando prosseguimento à análise lexical, enfatizamos no presente momento itens a expressarem juízo de valor, os denominados termos axiológicos, examinados em Kerbrat- Orecchioni (1980). Percebemos que, no intuito de expor suas crenças, Voltaire, por meio do narrador do conto, qualifica e desqualifica certos personagens dentro da trama de Zadig. A continuidade da nossa análise implica na apresentação das marcas do enunciador no primeiro capítulo, intitulado Le borgne (O caolho, em todas as traduções). Na passagem que descreve o personagem central do conto, o narrador-enunciador atribui as melhores qualidades a Zadig por meio de substantivos, adjetivos e verbos que expressam axiologicamente o que o enunciador considera positivo em uma pessoa. Percebemos que as marcas da enunciação estão evidenciadas principalmente quando o autor ironiza os personagens, colocando-os em oposição ao modelo de virtude representado pelo actante principal Zadig.
No capítulo que acabamos de mencionar inicia-se por uma descrição do protagonista com termos elogiosos. Qualificado como possuidor de um “beau naturel” que MQ/GC, MA e AS traduzem, respectivamente, por “boa índole”, “beleza” e “belo caráter”, vemos que esse sintagma representou uma das dificuldades tradutórias por apresentar, aparentemente, dois adjetivos associados. Sendo assim, um deles assume a função substantiva que, segundo o dicionário de Burtin-Vinholes (1961), seria o item “naturel”, qualificado positivamente pelo
adjetivo axiológico “beau”131. Ao final desse capítulo, a primeira decepção amorosa de Zadig está apontada na oração seguinte: “Puisque j’ai essuyé, dit-il, un si cruel caprice...”, da qual MQ/GC e AS traduzem o verbo por “sofri” e MA por “amarguei”. Embora saibamos que “sofrer” e “amargar” são sinônimos, percebemos uma maior carga emocional no termo escolhido por MA. A nosso ver, a escolha de tal tradutora atribui uma intensidade dramática que propicia a força argumentativa que o conto filosófico pretende ter.
Num dado momento do capítulo, o enunciador descreve Zadig como incapaz de ridicularizar até mesmo certas práticas em voga, qualificadas por meio de substantivos e adjetivos axiológicos depreciativos. Comparando o texto original com as três traduções que fazem parte desta análise, constatamos certas dissimetrias que nos conduzem a algumas reflexões. Cada tradutor constrói um enunciador distinto, que se mostra por meio de diferentes escolhas lingüísticas. São estas escolhas que irão revelar a idiossincrasia de cada tradutor e, portanto, o seu ethos. Apresentamos a seguir um quadro contendo tal passagem, que analisamos detalhadamente em seguida:
Voltaire Mário Quintana Márcia V. Aguiar Antônio Silva
On était étonné qu’avec beaucoup d’esprit il n’insultât jamais par des
railleries
à ces propos si vagues, si rompus, si tumultueux, à ces décisions ignorantes, à ces turlupinades grossières, à ce vain bruit de
Era de espantar que, com tanto espírito, jamais procurasse meter a ridículo
esses diálogos tão vagos,
tão incoerentes, tão irrequietos,
essas temerárias
maledicências,
esses juízos ignaros,
Era espantoso que mesmo tendo muito espírito nunca se pusesse a zombar
desses discursos tão vagos,
tão fragmentários, tão tumultuosos,
dessas maledicências
temerárias,
dessas decisões ignorantes,
Era de espantar que, com tanto espírito, jamais insultasse com
gracejos por motivos
vagos, incoerentes, criadores de tumulto, com essas maledicências temerárias, essas tiradas ignorantes, essas zombarias 131
MA, portanto, equivoca-se ao atribuir característica física àquilo que vincula-se a uma característica interna do personagem.
paroles, qu’on appelait conversation dans Babylone. essas grosseiras chocarrices,
esse vão palavrório, a que se chama
conversação em
Babilônia.
dessas mistificações grosseiras,
desse vão palavrório que chamavam de
conversação em
Babilônia.
grosseiras,
esse palavrório vazio,
a tudo isso que se chamava conversa em Babilônia.
Quadro 18 Quadro Comparativo dos Termos em Le borgne Fontes: (VOLTAIRE, 2004, p. 13; 2001, p. 66; 2002, p. 05; 2006, p. 17).
Cotejando os termos presentes nas três traduções da citação, percebemos as seguintes diferenças: na primeira parte, os tradutores mantêm o adjetivo axiológico e alternam o substantivo associado. Assim, o adjetivo “vagos” é mantido, mas vem acompanhado de substantivos que enfatizam ou diminuem o grau axiológico do adjetivo, a saber: diálogos, discursos, motivos. Há uma exceção quanto a este aspecto na tradução de Antônio Silva que prima pela tradução do termo railleries por gracejos, mantendo a presença da locução
insulter par des railleries. No entanto, ao traduzir propos por motivos, subverte o enunciado
original uma vez que a locução por motivos vagos não constitui o complemento verbal de insultar como propos si vagues o é de insulter. Por outro lado, a nosso ver, MQ/GC e MA são bem sucedidos na tradução deste ponto do texto por manter o complemento do verbo. Quintana utiliza o substantivo diálogos e Aguiar prefere o termo discursos. Todavia estes dois tradutores omitem a referida locução, mantida com muito esforço pelo terceiro tradutor.
Prosseguindo no exame do capítulo Le borgne, examinamos o caráter axiológico da categoria dos verbos. Como vimos no Capítulo 1, os verbos, quando enunciados pelo locutor são mais marcadamente subjetivos do que se tivessem sido empregados por um actante da ficção. O narrador de Zadig emprega verbos que deixam, pois, entrever sua opinião. Seu julgamento expresso implicitamente enquanto enunciador imprime maior força axiológica, como podemos ver no seguinte trecho:
Zadig surtout ne se vantait pas de mépriser les femmes et de les subjuguer.
MQ/GC -Não se vangloriava, principalmente, de desprezar as mulheres e subjugá-las. MA -Acima de tudo Zadig não se gabava de desprezar as mulheres e de subjugá-las. AS - Zadig não se vangloriava sobretudo de desprezar as mulheres e subjugá-las.
Quadro 12 Exemplo de caráter axiológico Fonte: (VOLTAIRE, 2002, 2001, 2002, 2006, grifo nosso)
É como se o locutor, aqui no caso o narrador, estivesse expressando seu juízo de valor acerca do protagonista e passando, para o leitor, a mensagem subliminar de que tudo o que Zadig disser e fizer ao longo da história deverá ser também considerado positivo. Essa premissa imprimirá às idéias expressas por tal personagem um maior efeito argumentativo, uma vez que são endossadas pelo locutor.
O adversário de Zadig neste primeiro capítulo da história é Orcan, que lhe toma sua noiva. Zadig, portanto, é vítima de uma pessoa que não possui nenhuma de suas qualidades, segundo o narrador. Alem do mais, se superestima, o que confere um valor argumentativo negativo a tudo o que faz e também às pessoas que optaram por sua companhia. Isso contribui para a linha argumentativa do texto ao fazer sobressair as qualidades e, por conseguinte, os feitos e opiniões de Zadig. Eis o trecho a que nos referimos:
Il (Orcan) n’avait aucune des grâces ni des vertus de Zadig; mais, croyant valoir...
MQ/GC - “ Não tinha nenhuma das graças ou virtudes de Zadig; mas julgando valer... MA - “ Não tinha nenhuma das graças nem das virtudes de Zadig; mas crendo valer... AS - “ Não tinha nenhuma das graças nem das virtudes de Zadig; mas julgando valer... Quadro 13 Exemplo de verbo axiológico Fonte: (VOLTAIRE, 2002, 2001, 2002, 2006, grifo nosso)
Novamente encontramos sinônimos: “julgar” e “crer”. Embora o primeiro seja sentido como mais coloquial do que o segundo, o que podemos afirmar é que tanto um como o outro não permitem dúvida quanto à descrença que o enunciador manifesta com relação ao valor do vil personagem.
O que vimos até agora nos autoriza, portanto, reafirmar a presença de uma visada argumentativa do conto filosófico justamente pela presença maciça dos termos com força axiológica, embora saibamos do predomínio do modo narrativo, de acordo com o que expusemos na seção 1. 4 do Capítulo 1.