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Conforme Deschênes e Moretti (2009), para capturar a verdadeira relação

entre temperatura e mortalidade, é preciso que se considerem os impactos completos

de longo prazo. Avaliar apenas a relação contemporânea pode superestimar os

impactos se houver efeito antecipação e subestimá-los se existir efeito retardado.

As consequências das variações da temperatura, em termos de mortalidade,

provavelmente diferem entre subpopulações, com impactos maiores entre aquelas

relativamente menos saudáveis. A idade é um importante determinante da saúde e os

recém-nascidos e idosos são mais sensíveis a eventos climáticos (DESCHÊNES;

GREENSTONE, 2007). Por fim, deve-se considerar também a não linearidade da

relação entre temperatura e mortalidade.

+

+

+

+

=

j l ctd std cd ctl PREC dl ctj TMEAN dj ctd

TMEAN

PREC

Y

θ

δ

α

γ

ε

,

(23)

em que Y

ctd

é a taxa de mortalidade (mortes por 100 mil habitantes) do grupo

demográfico d, no município c e no ano t. Serão avaliados os efeitos sobre vinte

grupos demográficos, originados da interação entre dez categorias de idade (0-1, 1-4,

5-14, 15-24, 25-34, 35-44, 45-54, 55-64, 65-74 e 75 anos ou mais) e gênero. ε

ctd

é

termo de erro estocástico.

As variáveis TMEAN denotam o número de meses, no ano t e no município

ctj

c, em que a temperatura média mensal esteve em uma das seis faixas (abaixo de

15ºC, 15-18, 18-21, 21-24, 24-27 e acima de 27ºC). Essa estratégia de usar faixas de

temperatura permite captar as relações não-lineares entre temperatura e mortalidade.

ctl

PREC são variáveis que indicam o número de meses, no ano t e no município c,

em que a precipitação total mensal esteve em uma das oito faixas (abaixo de 50 mm,

50-100, 100-150, 150-200, 200-250, 250-300, 300-350 e acima de 350 mm).

cd

α

são um conjunto de efeitos fixos de município por grupo demográfico.

Eles captam, para cada grupo demográfico, todos os determinantes da taxa de

mortalidade que são invariantes ao longo do tempo, específicos de cada município e

não observados. Desse modo, diferenças na qualidade hospitalar permanente ou na

saúde geral da população local, por exemplo, não perturbarão os efeitos das variáveis

climáticas.

std

γ

são efeitos fixos estado/ano que variam entre os grupos demográficos.

Eles controlam as mudanças temporais na variável dependente que são comuns

dentro de um grupo demográfico, em determinado estado. Devido à carência de

dados, esses efeitos fixos serão empregados para tentar controlar os determinantes de

fatalidades que variam entre estados e ao longo tempo, como condições de habitação,

de saneamento e de nutrição da população, controle e imunização de doenças

epidêmicas, número de leitos hospitalares e de profissionais de saúde por mil

habitantes, gasto público com saúde per capita etc.

A abordagem utilizada permite identificar o impacto completo das variações

na temperatura sobre a taxa de mortalidade da população. Deschênes e Moretti

(2009), entre outros autores, sugerem que o efeito completo de dias quentes e frios

sobre a mortalidade se estende por um período de aproximadamente trinta dias. Com

isso, dado que a equação (23) utiliza a distribuição das temperaturas médias mensais

durante o ano, os resultados de sua estimação devem ser livres do efeito antecipação

e dos impactos retardados. Assim, os coeficientes θ

djTMEAN

refletem o impacto

completo de longo prazo de um mês com a temperatura média em determinada faixa.

A variável TMEAN referente à faixa de temperatura 21-24ºC foi retirada da

j

equação (23) durante sua estimação, tal que cada coeficiente θ

j

representa o

impacto estimado de um mês adicional com a temperatura média na faixa j sobre a

taxa de mortalidade, relativo à taxa de mortalidade associada a um mês com

temperatura média entre 21 e 24ºC.

Os coeficientes estimados da equação (23) foram utilizados para prever o

impacto das mudanças climáticas sobre a mortalidade nos períodos 2010-2039, 2040-

2069 e 2070-2099. Para tal, a seguinte fórmula foi empregada:

Δ

×

=

j cj TMEAN dj cd cd

TMEAN

POP

M

θˆ

000

.

100

,

(24)

em que

cd

M

é o número adicional anual de mortes previsto para o grupo demográfico

d no município c;

cd

POP é a população média (no período 1980-2002) do grupo demográfico d

no município c;

TMEAN dj

θˆ

são os parâmetros estimados da equação (23) para o grupo

demográfico d; e

cj

TMEAN

Δ

é a diferença entre o número médio de meses por ano que o

município c se deparará com temperaturas na faixa j no futuro (2010-2039,

2040-2069 ou 2070-2099) e o número médio de meses por ano que ele

observou temperaturas nesta mesma faixa no período 1980-2002.

As projeções de mudanças climáticas do IPCC são baseadas em diferentes

cenários sobre as futuras emissões de gases de efeito estufa, as quais dependem das

suposições que se faz a respeito da evolução de variáveis demográficas, tecnológicas

e econômicas. As projeções de temperatura para os períodos 2010-2039, 2040-2069

ou 2070-2099 utilizadas neste trabalho são baseadas em dois cenários elaborados

pelo IPCC (2000): A1B e A2.

O cenário A1 descreve um mundo futuro de crescimento econômico muito

rápido, com a população global alcançando um pico em meados do século e

declinando em seguida e a rápida introdução de tecnologias novas e mais eficientes.

As principais questões subjacentes são a convergência entre as regiões, a capacitação

e o aumento das interações culturais e sociais, com uma redução substancial das

diferenças regionais na renda per capita. A família de cenários A1 se desdobra em

três grupos: tecnologia intensiva no uso de combustíveis fósseis (A1F1); fontes

energéticas não-fósseis (A1T); ou um equilíbrio entre todas as fontes (A1B).

O cenário A2 descreve um mundo muito heterogêneo. O tema subjacente é a

auto-suficiência e a preservação das identidades locais. Os padrões de fertilidade

entre as regiões convergem muito lentamente, o que acarreta um aumento crescente

da população. O desenvolvimento econômico é orientado primeiramente para a

região e o crescimento econômico per capita e a mudança tecnológica são mais

fragmentados e mais lentos do que nos outros contextos (IPCC, 2000).

Assim, o uso desses dois cenários possibilita avaliar os impactos futuros das

mudanças climáticas em contextos de maior ou menor aumento da temperatura. Até

meados do século, o cenário A1B é mais pessimista, pois pressupõe um crescimento

econômico mais rápido e, como conseqüência, maiores emissões de gases de efeito

estufa e elevação das temperaturas. Para a segunda metade do século, o cenário A2

torna-se mais pessimista que o A1B, pois supõe um ritmo de crescimento econômico

contínuo, tal que as emissões de gases de efeito estufa e os aumentos de temperatura

são maiores.

Como alternativa para analisar a relação entre temperatura e mortalidade,

estimou-se um modelo que capta o efeito da temperatura média mensal sobre a taxa

mensal de mortalidade. A seguinte equação foi ajustada:

ct rp m c ct ct ct ct

ct

TMEAN

STMEAN

PREC

SPREC

Y

ε

γ

μ

α

β

β

β

β

+

+

+

+

+

+

+

=

1 2 3 4

,

(25)

em que os subscritos c e t indicam município e mês, respectivamente; Y é a taxa

mensal de mortalidade (mortes por 100 mil habitantes); TMEAN é a temperatura

precipitação mensal (mm); SPREC é a precipitação mensal ao quadrado; α

c

são

efeitos fixos para os municípios; μ

m

são efeitos fixos para os meses do ano; γ

rp

são

efeitos fixos para região/ano; e ε

ct

é o termo de erro.

O objetivo de incluir o quadrado das variáveis climáticas no modelo é

permitir que a relação entre elas e a taxa de mortalidade seja não-linear (na forma de

U). Os efeitos fixos para os meses do ano (μ

m

) captam diferenças sazonais na taxa

de mortalidade ligadas a outros fatores que não o clima (diferenças comportamentais

das pessoas, por exemplo). Os efeitos fixos γ

rp

captam os determinantes da taxa de

mortalidade que variam entre regiões e ao longo dos anos.