ÖRGÜTSEL BAĞLILIK VE PERFORMANS
3.1. ÖRGÜTSEL BAĞLILIK
3.1.2. Örgütsel Bağlılığın Sınıflandırılması
3.1.2.2. Tutumsal Bağlılıkla İlgili Yaklaşımlar
Nesse tipo de discurso, são destacados os problemas e/ou dificuldades vivenciados no cotidiano da assistência ao parto e ao nascimento na Maternidade de Felipe Camarão. Além disso, discute-se como essas situações afetam a satisfação com o trabalho e, consequentemente, como interferem nas práticas diárias no contexto do serviço público.
Então, entendendo que a questão física e funcional implica vários aspectos que se inter-relacionam, essa discussão é apresentada em uma perspectiva de articulação dos conteúdos. Assim, na ordem, apresentam-se as dificuldades/insatisfações relacionadas à localização geográfica da instituição; a estrutura física e os recursos materiais e humanos; e, por fim, aspectos do funcionamento da unidade que interferem nas práticas cotidianas e geram dissabores nos trabalhadores.
Apontar as dificuldades para a dinâmica das práticas em saúde nos serviços públicos dentro do contexto brasileiro é atentar para as questões que afetam as ações dos
157 trabalhadores e geram desagrados diante da dinâmica do serviço. Essa situação, no cotidiano das práticas em saúde, tende a transformar o fazer diário, dificultando o bem- estar. As dificuldades evidentes nesse espaço geram insatisfações nas pessoas e podem atuar comprometendo as ações e as relações corriqueiras com os diferentes envolvidos no trabalho em saúde.
O ser humano, para trabalhar satisfeito, precisa estar ligado ao espaço físico e ao trabalho desenvolvido. Para Martinez & Paraguay (2003), as teorias, em geral, conceituam satisfação como similar à motivação, quando, ao se sentir bem e feliz com o seu trabalho, o indivíduo acaba apresentando novas motivações para as práticas diárias.
Ao relacionar insatisfação ao trabalho cotidiano, é possível supor que a motivação está comprometida e, como consequência, também a qualidade e a interação no atendimento. Assim, as relações cotidianas apresentam tendência de serem mecânicas e até conflituosas, e a falta de interesse dos trabalhadores em atuar nesse contexto pode estar associada a questões econômicas, sociais e culturais, o que atrapalha a vinculação com a usuária e com o serviço de saúde.
Um dos motivos para o desprazer com o espaço do trabalho pode relacionar-se com o ambiente e a localização da maternidade. No dizer de alguns participantes da pesquisa, essa instituição está situada em uma região pobre e em parte perigosa por causa da marginalidade, o que faz com que muitos trabalhadores, em particular os que apresentam melhor condição econômica, tenham resistência ao bairro e, muitas vezes, perguntem-se por que ainda continuam trabalhando lá. Os fatos desagradáveis que acontecem no bairro, quando estão nos plantões, são sempre relatados, favorecendo a manutenção de estigmas preexistentes.
158 Teve uma colega que o carro dela foi todo riscado. E nem era dela, era do marido dela, que tinha acabado de comprar. Escreveram uma carta no carro. Assim, não tem muita segurança, apesar de ter dois soldados, que são pessoas boas, mas aqui não tem um local para você estacionar o carro (Médico pediatra 1, entrevista individual).
Agora eu gosto de trabalhar aqui, mas é aquele negócio... É um bairro perigoso... Aqui dentro a gente nunca viu nada, mas a gente ouve a história do bairro... Uma vez teve uma paciente que chegou aqui e o marido tinha atirado em não sei quem. Ela chegou passando mal e o homem veio armado. Estas coisas assustam a gente (Médico pediatra 2, entrevista individual).
Esses temores, associados às dificuldades institucionais e às motivações pessoais referentes ao fato de os médicos não gostarem de trabalhar nesse espaço, tendem a gerar tensões e estresses na prática cotidiana. Quando isso acontece, o trabalhador pode sentir-se suscetível a pedir relotação e/ou demissão do emprego.
É um emprego que tem muita dificuldade... Eu acho que eu já subi umas duas ou três vezes na secretaria para pedir demissão e voltei, porque algum colega liga e diz: não, vai melhorar, tenha paciência (Médico pediatra 3, entrevista individual).
159 Além das dificuldades inerentes ao bairro, outro entrave na dinâmica do serviço relaciona-se com o aumento na demanda de internamentos, como apresentado anteriormente. Diante desse incremento, não houve significativas mudanças estruturais e funcionais na maternidade, e, devido a deficiências no espaço físico e nos recursos humanos e materiais, a procura torna-se maior do que a capacidade resolutiva da instituição. Essa situação contribui para reforçar a insatisfação da equipe, e as práticas configuram-se cada vez mais distantes do que preconizam os manuais do Ministério da Saúde enquanto boa conduta na atenção à saúde no processo gestacional.
Natal é uma cidade que a população cresceu e praticamente só dispõe de três casas de assistência à parturiente que é Felipe Camarão, a Maternidade Escola Januário Cicco [MEJC] e Santa Catarina. Realmente, em muitos dias a maternidade daqui está lotada, a de Santa Catarina está lotada e a MEJC está lotada. Então, onde é que estas mulheres vão parir? Aí a realidade é esta: mulher parindo em cadeira, sempre cheio (Enfermeira 2, entrevista individual).
Outro desagrado em relação ao espaço físico é particular da equipe de técnicos e auxiliares de enfermagem, porém é partilhado pelos enfermeiros, pois reside na ausência de um repouso adequado para essa categoria profissional durante os plantões. Essa questão é uma luta antiga e constantemente gerava insatisfações nesses profissionais. Até então, o espaço utilizado para o repouso era insalubre e criticado pelos enfermeiros e auxiliares.
160 Trabalhar aqui à noite é muito estressante, pois, quando você pega um plantão movimentado, às vezes está acontecendo um parto no momento em que se vai para o repouso. O repouso da equipe de enfermagem é insalubre, pois era um banheiro dentro da sala de parto. Então não adianta, pois às vezes elas estão repousando e ficam ouvindo gemidos e gritos da mulher que está parindo. Fica escutando tudo que está acontecendo lá dentro e não descansa. Só está fisicamente deitado... Mentalmente você está estressado... (Enfermeira 3, grupo focal).
Todavia, no decorrer da investigação, juntamente com as mudanças de pintura, foi empreendida a transformação do leito PPP em local de repouso para essa equipe. Mesmo sem esse espaço ter um banheiro privativo, tal situação foi considerada uma conquista, sendo bastante comemorada entre os pares.
Destacando as dificuldades estruturais, as condições do local deixavam a desejar, e a precariedade na dinâmica de trabalho são relatadas por diversos profissionais, externando o desagrado com os recursos materiais e físicos existentes.
A estrutura física é precária, são problemas como mofo, poeira, poucos banheiros... Você imagina um alojamento com onze leitos e apenas um banheiro? Para elas deve ser muito desagradável dividir banheiro (Médico pediatra 3, entrevista individual).
161 Falta material e medicamentos. Muitas vezes aqui você pergunta por determinado medicamento e não tem. Falta um Methergin, uma ocitocina, e tudo isso faz parte do processo. Às vezes você sabe que precisa usar, mas não tem e você fica na vontade, porque você sabe que às vezes precisa (Médica obstetra 1, entrevista individual).
O problema da estrutura física daqui é o forte, e isto desestimula um pouco a gente. Você chega pra trabalhar e é falta de material, né? Muitas vezes você tem até motivação, e termina perdendo devido à estrutura, à falta de material. Aí você termina se cansando, se estressando, se chateando, você fica desgostosa (Técnica de enfermagem 2, grupo focal).
As carências materiais concretas contribuem para que, muitas vezes, os atores envolvidos nesse processo tentem resolver as questões pendentes para diminuir os problemas durante os plantões. Para tanto, regularmente, alguns profissionais trazem materiais de casa e/ou de outros serviços nos quais desenvolvem seus trabalhos.
A falta de material é periódica e algumas pessoas, dependendo do grau de desespero, trazem de casa às vezes. Eu já trouxe saco de lixo, porque não tinha aqui. Porque se não tem saco de lixo no plantão vai jogar onde? Vai parar de ter parto porque não tem onde jogar o lixo? Também trazem material de outro hospital para cá. Já vi obstetras trazerem ampolas de remédios porque não tinha aqui. É o desespero (Médico pediatra 3, entrevista individual).
162 A falta de recursos para a assistência caracteriza-se como uma situação contínua que atrapalha o desenvolvimento das atividades cotidianas e tende a potencializar o estresse e a insatisfação dos profissionais inseridos nos serviços de saúde (Borges, Argolo, Pereira, Machado & Silva, 2002; Carvalho & Malagris, 2007). Com isso, pode ocorrer a diminuição na produtividade e na motivação, não apenas no sentido técnico, mas também no estabelecimento de melhores relações entre equipes e destas com as usuárias.
Autores como Traverso-Yépez e Morais (2004) e Gusmão Filho (2008) reforçam que a existência de dificuldades estruturais e materiais para o funcionamento dos espaços da saúde acontecem em quase todo serviço público, nas mais diversas áreas de atenção. Há uma carência estrutural, material e de recursos humanos capacitados e comprometidos em bem atuar nesse momento. Pela conformação do sistema, via de regra, os espaços públicos de saúde são dotados dos recursos mínimos possíveis, insuficientes até pela defasagem nos valores pagos para o funcionamento do sistema, aprofundando a sua iniquidade e fragmentação (Santos, 2009). Todavia, os gestores das políticas mostram-se inabilitados para refletir sobre essa problemática, não se posicionando e/ou apresentando estratégias para a resolução dessa dinâmica.
Situações desse tipo merecem considerações pelas práticas presentes nos serviços e pela dinâmica das políticas de saúde. Apesar de os documentos de domínio público prescreverem os recursos necessários para se prestar uma boa assistência ao nascimento, não necessariamente todos os serviços são dotados desses instrumentais. Há de se questionar porque a gestão pública, conhecedora dessas carências, não consegue modificar as estruturas assistenciais dos serviços públicos.
163 Os diferentes atores, por sua vez, não refletem os limites das políticas e a única saída é trazer paliativos para a continuidade da assistência. No geral, essas pessoas tendem a se apresentar apáticas perante as limitações evidenciadas, agindo de modo automático, e, por não se aperceberem do seu papel, acabam não cobrando das autoridades competentes soluções para a resolução da dinâmica existente.
É evidente que há um agir não reflexivo presente na atenção à saúde e mesmo entre os trabalhadores, o que não se reflete nos problemas dos serviços públicos, tendendo a desenvolver apenas o trabalho mecânico. Desconsideram-se ainda os condicionantes dessa dinâmica, não havendo uma reflexão acerca do processo histórico e social de constituição da saúde no Brasil. Agindo desse modo, não se contribui para que outros atores, bem como as usuárias, sejam capazes de refletir e de exigir seus direitos.
Os problemas estruturais são perceptíveis e, inclusive, alguns profissionais acabam se solidarizando com as dores dos outros, tentando contribuir para a resolução dessa problemática. O fato de a equipe de enfermagem não ter um repouso adequado, e nem acesso à copa para fazer seus lanches, fez com que, mesmo os profissionais que não eram afetados pelo problema, se sentissem insatisfeitos diante desse quadro. Havia trabalhadores que consideravam essa situação crítica e acabavam mostrando sua indignação, realizando comparações com outros serviços no qual já tinham atuado.
Por exemplo, lá tinham coisas melhores, tipo tinha uma copa, pois quem vinha de outro plantão poderia lanchar, levar seu lanche. Aqui, as nutricionistas são as donas da copa. Elas proíbem esta entrada e eu achei isto um absurdo. Quando eu cheguei aqui elas [as auxiliares] tomavam café no alojamento. O risco de
164 infecção até para a paciente... Era banana, era pão, era tudo no alojamento. As auxiliares e o comer... (Médico pediatra 3, entrevista individual).
Outros estudos também demonstram que as dificuldades institucionais são percebidas e relatadas pelos profissionais da saúde. Todavia, argumenta-se que, mesmo percebendo as limitações, no geral, os trabalhadores não conseguem se articular e lutar por políticas e espaços de saúde mais justos e igualitários (Beck, Lisboa, Colomé, Silva & Tavares, 2009). Assim, limitam-se a precárias condições de trabalho que interferem de modo singular na sua forma de praticar a saúde no espaço de trabalho. Essas condições de trabalho chegam até a povoar o imaginário dos trabalhadores e as limitações estruturais e materiais já começam a render ansiedades desde a hora em que se chega para trabalhar, para vivenciar o seu plantão.
Todo dia que eu chego para trabalhar eu olho logo para aquele armário [local onde os lençóis são colocados], não tem um lençol... Aí você diz: meu Deus, a mulher vai parir, e agora? Aí fica os improvisos, os retalhos, sabe, esta questão estrutural é muito farta de problemas (Enfermeira 2, grupo focal).
Além desses relatos que mostram o desagrado dos trabalhadores com as carências estruturais, houve ainda a observação de problemas no cotidiano que afetavam a vida das diversas pessoas envolvidas na assistência. Uma vivência particular chamou a atenção e merece aqui ser relatada:
165 Por volta das 8 horas, veio um rapaz da manutenção à maternidade e avisou à enfermeira de plantão que iria precisar cortar a energia, pois iria fazer um conserto elétrico para um espaço do ambulatório. A enfermeira avisou que naquele momento poderia ser feito sem problema, pois tudo estava calmo. Solicitou que não demorasse devido ao fato de se ter na maternidade duas mulheres internadas em trabalho de parto. O eletricista afirmou que o procedimento seria rápido e logo iria fazê-lo. Contudo, o abastecimento elétrico só foi cortado às 10 horas e no momento em que as duas parturientes estavam no último estágio do trabalho de parto. Por sinal, uma delas já se encontrava no período expulsivo. Os partos aconteceram sem energia, primeiro um e na sequência o outro. O parto seguinte aconteceu na cama, pois o primeiro ainda estava na sala de parto. Como o serviço não tinha gerador próprio de energia, ambos os partos foram iluminados pelas luzes de alguns celulares. Não havia uma lanterna no serviço e nem no pronto-socorro. Todos os envolvidos mostraram-se muito tensos, especialmente o obstetra, que externava sua indignação, na frente da parturiente dizendo: “Isto é uma desorganização, como se pode trabalhar assim? Eu vou acabar fazendo algo errado sem a iluminação!” O procedimento elétrico que duraria 15 minutos acabou se estendendo para um período aproximado de 1 hora (Relatório da observação – diário de campo).
Situações desse tipo são potencializadoras das dificuldades vivenciadas na dinâmica do serviço de saúde e capazes de gerar estresses nos envolvidos nesse processo. Foi possível observar ainda que nesse momento de ansiedade por parte da equipe de saúde as parturientes mantiveram-se bastante apreensivas, parecendo entender
166 a gravidade da situação. No entanto, não se desesperaram, apenas esperaram e ajudaram no que foi possível naquele momento de dor.
Nessa direção, é preciso refletir que ambos, usuárias e trabalhadores, são vítimas de um sistema que exclui e acaba por gerar um sentimento de impotência nessas pessoas para o atendimento das necessidades dos diferentes atores envolvidos na dinâmica do cuidar em saúde. Não há nesses espaços a adoção de recursos técnicos e tecnológicos estruturais que gerem maior segurança na ausência de um componente indispensável, como no caso da iluminação. A estrutura do serviço tende a limitar e a afetar as práticas cotidianas e, quando associada com outras questões, acaba por potencializar os problemas e as dificuldades assistenciais.
Embora os gestores da saúde posicionem-se como sabedores das dificuldades, em nenhum momento são delineadas estratégias que possam resolver as carências nos diferentes espaços de atenção à saúde. Nesse sentido, conhecem-se os problemas, mas não se organizam meios e instrumentos que contribuam para a redefinição dos espaços e das práticas em saúde e, em consequência, que potencializem o cuidado.
Dessa forma, pensar em serviços com recursos físicos e funcionais insuficientes para o desenvolvimento das atividades cotidianas é saber que essa dinâmica interfere nas mudanças (Nagahama & Santiago, 2008). Todavia, não são apenas essas questões que dificultam as transformações, mas também o não atendimento das necessidades dos funcionários e/ou das usuárias, o que pode gerar uma diminuição do compromisso diante do trabalho cotidiano. Além disso, as questões socioeconômicas também afetam de forma direta o modo de ser e de estar nos serviços públicos de saúde.
Abordar os aspectos físicos do serviço dentro de uma discussão pela humanização das práticas em saúde delineia o espaço da atenção como essencial para
167 bem acolher e melhor vivenciar uma dinâmica inter-relacional na atenção com o outro. Num momento de troca, é importante que o ator se sinta bem e que possa contribuir para o bem-estar coletivo. Então, antes de apontar o cuidar como chave, é preciso rever os espaços nos quais essa prática acontece, pois não ela não ocorre apenas na troca entre um e outro, mas é contextualizada na produção e na reprodução da saúde pública.
Entre outras, essas situações tendem a afetar a dinâmica da atenção ao parto e ao nascimento nesse serviço. Há o entendimento de que para bem acolher é preciso que, além do envolvimento dos trabalhadores em prestar uma boa assistência, se entenda que um cuidado de qualidade depende de condições estruturais, físicas, materiais e humanas adequadas para atender as necessidades das usuárias, mas não apenas delas, pois as práticas são inter-relacionais e todos devem se sentir satisfeitos com a dinâmica do acolher.
Os problemas ligados à dinâmica institucional e as relações estabelecidas podem gerar práticas mecânicas e pouco relacionais, pois o trabalhador insatisfeito tende a não se vincular com a população e a não se comprometer em prestar o melhor cuidado. Essa vinculação é no sentido de se preocupar com o usuário, atentando e tentando atender as suas necessidades. Essa forma de ação encontra-se distante do preconizado pelo PHPN, que sugere melhoria da assistência e qualidade do atendimento, bem como vinculação entre trabalhadores e usuárias (Brasil, 2002).
Todavia, propor uma dinâmica inter-relacional no papel não necessariamente facilitará as interações que precisam ser estabelecidas entre trabalhadores, usuárias e serviços de saúde. Há que se refletir o que ocasiona as dificuldades assistenciais e, em consequência, a insatisfação em trabalhar em um determinado local, ou serviço público de saúde, e como esse descontentamento interfere nas práticas cotidianas.
168