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O trabalho no parque começa cedo, já que a refeição de tantos animais precisa ser preparada e distribuída uma vez pela manhã e outra no fim da tarde. O zoológico produz 360 toneladas de pasto por ano. Para isso, dois funcionários são encarregados de cortar, diariamente, pelo menos 1.100 quilos de massa verde. Muitos animais são sensíveis a agrotóxicos, o que faz com que essa produção seja feita sem o uso desses produtos químicos.

Enquanto isso, tratadores vistoriam os cativeiros à procura de vestígios que possam indicar algum problema de saúde do animal, verificando se há algo de estanho nas fezes ou na urina, se ele comeu o alimento que lhe foi destinado, entre outros fatores. Esse cuidado acontece porque, por instinto, os animais não podem demonstrar aos seus predadores sinais de fraqueza, para não parecerem alvos fáceis. Ou seja, a aparência não demonstra a real condição de saúde do espécime e, por isso, faz-se necessária que essa inspeção constante. Diante de qualquer irregularidade, são contatados os biólogos e veterinários responsáveis.

No setor de nutrição, são preparados os pratos dos animais, ou o que eles chamam de “cochos”. Cada cocho possui o nome do animal para o qual ele é destinado, elaborado pelos funcionários da nutrição, mas sempre levando em conta os receituários feitos pelos veterinários. Isso ajuda a garantir que nenhum deles será esquecido, bem como que a entrega individual de algum medicamento, misturado à comida, seja realizada. O curioso – e apesar de óbvias, são coisas que podem passar despercebidas a um visitante comum – é que cada animal tem suas necessidades específicas quanto a sua alimentação. Uns precisam do pasto colhido diariamente, outros de maior ou menor quantidade. Alguns necessitam ainda de outros

cuidados especiais em sua alimentação. Os micos, por exemplo, precisam ter suas frutas cortadas em pequenos pedaços para poderem se alimentar.

Todos esses trabalhos demandam bastante atenção, tempo e pessoas que possam realizá-los em tempo. Entretanto, como será abordado a seguir, as baixas no plantel de funcionários ao longo dos últimos anos, sem reposição, são apenas uma das dificuldades que a instituição enfrenta atualmente.

Os conceitos sobre zoológicos mudaram muito nesses últimos 50 anos, idade aproximada do parque. O Parque Zoológico da FZB/RS realizou diversos esforços para manter-se atualizado. Algumas adaptações já puderam ser feitas. Entre os exemplos, vale citar as alterações realizadas em muitas das jaulas – não mais chamadas de “jaulas” por transmitirem a ideia de aprisionamento, mas sim de “recintos” – originais. O conhecimento sobre os animais e a preocupação quanto às suas necessidades era muito diferente do que se tem hoje. Em função disso, muitos recintos foram transformados, e até desativados, com a finalidade de proporcionar uma melhor qualidade de vida para os espécimes.

A legislação prevê diversas características de como os recintos devem ser, incluindo dimensões, enriquecimento, aquecimento, água etc. Entretanto, a atenção para as necessidades do animal deve ser constante, uma vez que esses parâmetros não são características definitivas para comprovar se o recinto consegue proporcionar uma vida saudável ao espécime:

Qualquer alojamento que, embora atendendo as recomendações desta Instrução Normativa, comprovadamente não esteja proporcionando o bem estar físico- psicológico a um ou mais animais que abriga, poderá ser interditado pelo IBAMA, que exigirá a retirada do(s) animal(is) do recinto (BRASIL, 2002).

Dentro dessa perspectiva, de que o recinto deve buscar atender as necessidades físicas e psicológicas da espécie, muitos desses locais foram desativados ou completamente alterados pelo parque. Entretanto, alguns desses espaços que ainda estão em funcionamento, apesar de possuírem boa estrutura, não são vistos pelos próprios funcionários como sendo ideais para determinadas espécies. É o caso dos recintos dos leões e tigres, que são semelhantes. O local, já apresentado anteriormente neste trabalho, é basicamente um fosso. Para um predador, que costuma usar de estratégias furtivas em seus ataques, estar abaixo do nível de visão das pessoas que passam por ali possivelmente já se constitui em um fator de desconforto. Os visitantes surgem e desaparecem de seu campo de visão de forma repentina, algo incomum para esse tipo de animal. Algumas estratégias já foram adotadas visando amenizar possíveis estresses. Antigamente, o local fechado que serve de abrigo era também plataforma de acesso,

onde era possível que os visitantes ficassem logo acima desses felinos, o que era, além de uma situação ainda mais desconfortável para o animal, perigoso – apesar da grade de amparo que existia ali –, uma vez que alguns adultos erguiam as crianças para que estas vissem os animais de cima. Além disso, as pessoas atiravam comida e até mesmo lixo diretamente nos animais. Hoje, o acesso a esse local é proibido.

Os funcionários são conscientes dessas e de outras situações e buscam, sempre que possível, amenizar esses prejuízos, mas a verdade é que atualmente é difícil fazer muito mais do que apenas manter o parque em funcionamento. Apesar de ser não aberto ao público nas segundas-feiras, outras atividades são desempenhadas normalmente nesse dia. Os animais precisam de alimentação e cuidados constantes, e para isso o zoológico deve estar sempre em funcinamento. Visando tornar isso possível, é realizado um rodízio de plantões entre as pessoas que ali trabalham. O último concurso foi realizado em 2001, ou seja, há aproximadamente 10 anos. Atualmente o número de funcionários encontra-se reduzido quase pela metade. Com isso, as pessoas que trabalham no parque precisam, além de ser polivalentes, transcender suas cargas horárias para que todas as atividades básicas sejam desempenhadas. Não raro alguém acaba trabalhando quinze dias de forma ininterrupta, ou até mesmo acaba ficando um mês sem folga em um sábado ou domingo.

Além do desgaste em função do plantel de funcionários reduzido, o parque enfrenta também, por se tratar de um órgão estadual, o problema da falta de verbas e da burocracia. O valor pago pelos ingressos é bastante popular, havendo ainda descontos para estudantes e para grupos numerosos, e isenção para crianças menores de 12 anos. Esse montante arrecadado é suficiente apenas para a alimentação dos animais e uma ou outra pequena manutenção. A folha de pagamento dos funcionários procede do Estado. O dinheiro arrecadado pelo zoológico vai para o Caixa Único do Estado, e só pode ser utilizado por meio de um processo em que sejam especificados as finalidades e os valores dessa requisição, o que leva tempo e pode ser rejeitado. Um exemplo é a sede administrativa, que foi totalmente destruída em um incêndio, em maio de 2007, e só recentemente foi aceito o projeto para construção de uma nova sede, que hoje se encontra de forma improvisada junto ao Centro de Educação Ambiental. Essa falta de autonomia dificulta também a aquisição de novos animais junto a outras instituições de vida selvagem.

Os próprios funcionários defendem que o parque precisa passar por uma reformulação completa. Existe atualmente um processo para a criação de um plano diretor para o zoológico, propondo um modelo de parque a ser atingido a fim de que todas as modificações realizadas, desde espaços de visitação até recintos, não sejam reparos pontuais, mas sim alterações que

busquem atingir um padrão de parque que se espera ter no futuro. Uma das esperanças é a Copa de 2014, que propõe investimentos em várias áreas, e entre elas a reforma de diversos parques. A ideia é apresentar um projeto para que o Parque Zoológico da FZB/RS seja contemplado com parte desses recursos.