Antes mesmo da pesquisa TIC lan house ser divulgada, alguns usos das lan houses paulistas já haviam sido averiguados pela pesquisa Cultura Data, re- alizada entre os dias 10 e 17 de dezembro de 200871 para o programa Conexão
Cultura. Referida pesquisa levantou que na Grande São Paulo, 34% acessam a Internet em lan houses; nas lan houses de São Paulo, os serviços mais utilizados durante o período de pesquisa eram: os de comunicação (93%); lazer (80%); Informações/serviços on-line (40%); treinamento/educação (34%); e serviços inanceiros (15%); dado relevante da pesquisa também apontava que grande parte dos entrevistados possuía interesse em outros conteúdos, como cursos de educação à distância.
Respaldando essas pesquisas, artigos acadêmicos também têm ressaltado a função de inclusão digital das lan houses. No artigo “Lan houses: A new wave of
digital inclusion in Brazil”72, Ronaldo Lemos aponta que as “lan houses são locais
de intensa sociabilidade e que ocupam um lugar importante na vida das comuni- dades de baixa renda”.
Elaborado para o International Development Research Centre (IDRC), tratando do futuro das TICs e o desenvolvimento, o artigo “Brazil: Socio-digital Inclusion
through the Lan house Revolution”73, apresentou que ao mesmo tempo que jogar
videogame é a atividade principal para 42% dos entrevistados, uma proporção igual
71 http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/lenoticia.php?id=102800&c=5313. Acessado em
15.03.2009.
72 Lemos, R.; Martini P. LAN Houses: A new wave of digital inclusion in Brazil, texto apresen-
tado em 21 de setembro de 2009 em resposta ao “A Dialogue on ICTs, Human Development, Growth, and Poverty Reduction”. Disponível via Berkman Center for Internet & Society, Harvard University: http://publius.cc/lan_houses_new_wave_digital_inclusion_brazil/091509. Acessado em 10.03.2010.
73 Paula Góes. Brazil: Socio-digital Inclusion through the Lanhouse Revolution. Global Voices.
Setembro de 2009. Disponível em CDI Europa: http://cdieurope.eu/2009/10/07/socio-digital- inclusion-through-the-lan-house-revolution/. Acessado em em 10.03.2010.
94 Luiz Fernando Marrey Moncau • Joana Varon Ferraz
acessa portais de cultura, notícias e entretenimento. O artigo também apontou que redes sociais e bate-papo on-line (ou seja, atividades de comunicação) são muito populares, bem como que as lan houses são utilizadas para pesquisas diversas, trabalhos escolares e busca de emprego.
Diante destes dados, pode-se considerar como equivocada a premissa ge- neralizante que considera as lan houses apenas como locais de jogos. De igual forma, é forçoso reconhecer que são mal embasadas ou contestáveis as frequentes equiparações entre jogos eletrônicos e jogos de azar, bem como as airmações que consideram todo e qualquer tipo de jogo como um mal para a juventude. Esse tipo de posicionamento, visto com frequência nas justiicativas de propostas legislativas, desconsidera o potencial educativo dos jogos eletrônicos como novas mídias, tal como ocorreu em outros momentos com o cinema e a literatura. Nesse sentido, são cada vez mais comuns artigos e estudos que apresentam os jogos eletrônicos como uma mídia em ascensão, além de forma de expressão cultural e artística.74
Além disso, é importante mencionar que o fomento a essas mídias pode ser estratégico para o desenvolvimento econômico e cultural do país. Não por acaso, o incentivo aos jogos eletrônicos tornou-se alvo de políticas públicas do Ministério da Cultura – MinC, como no programa BR Games75, mas também de programas
especíicos do Ministério de Ciência e Tecnologia, principalmente voltados para o desenvolvimento de simuladores.
Ao se estudar a inclusão digital por meio do programa dos Pontos de Cul- tura, o artigo deste livro denominado “Pontos de Cultura e inclusão digital: estudo de caso em 4 Pontos de Cultura do país” também ressaltou a importância das lan houses para a educação e inclusão digital. Tal pesquisa teve como objeto de estudo Pontos de Cultura do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife e observou que, enquanto que o uso dos computadores e da Internet é mais focado para desenvolvimento de habilidades proissionais nos Pontos de Cultura, as lan
74 PROTASIO, Arthur. Games e Liberdade de Expressão. Apresentado nos anais do VIII Sim-
pósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital. 2009; e, PORTNOW, James. ‘he Power of Tangential Learning’. Acessado via Edge em 10/03/2010: http://www.edge-online.com/blo- gs/the-power-tangential-learning?page=0%2C0
75 Segundo a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura – SAv/MinC – “A Secretaria
do Audiovisual investe no desenvolvimento da indústria de jogos eletrônicos com as perspectivas de abrir novos nichos de mercado e fortalecer a presença do Brasil na produção de conteúdo para o mercado audiovisual no Brasil e no exterior.” http://www.cultura.gov.br/site/2007/09/25/ jogos-br/. Acessado em 11.03.2010.
95
Lan house: os desaios da formalização desses centros de inclusão digital
houses do entorno têm papel fundamental na inclusão digital dos frequentadores dos Pontos de Cultura.
A inclusão digital faz parte da estrutura de inanciamento dos Pontos de Cultura, já que parte do incentivo recebido é obrigatoriamente utilizado para aquisição de um kit multimídia. Contudo, a pesquisa observou que, dada a di- mensão insuiciente do kit, o acesso à Internet para alunos dos Pontos de Cultura nesse mesmo estabelecimento é ainda incipiente. Na maioria deles, permite-se que um aluno que precise ou deseje acessar e pesquisar algo utilize apenas por alguns momentos as máquinas de uso da administração ou de professores do Ponto. Ou ainda, nos Pontos com maior estrutura, o acesso por maior tempo ica restrito às atividades de trabalho.
Ainda que o uso de Internet nos Pontos de Cultura seja pontual e restrito, o que se observou foi que o acesso à Internet é explorado diariamente pelos alunos dos Pontos de Cultura. Isso se dá porque grande parte dos entrevistados que não possui computador com acesso à Internet em casa tem o hábito de frequentar lan houses.
O mesmo estudo entrevistou os professores dos Pontos de Cultura, indagando sobre os efeitos do crescimento das lan houses na comunidade. Os proissionais entendem esse fenômeno como algo positivo, uma vez que viabilizou o acesso barato à rede para pessoas que não teriam essa oportunidade.
Diante de preocupações a respeito do uso que é feito das tecnologias, mui- tos dos entrevistados sugeriram que as lans tivessem programas que educassem os jovens e crianças com objetivo de promover uma navegação mais instrutiva. Nesse sentido, é possível vislumbrar ações conjuntas entre os Pontos de Cultura e lan houses, utilizando a estrutura de um e o conhecimento de outro para cursos e usos mais promissores.
Diante de todos esses estudos, não restam dúvidas que as lan houses são importantes para se pensar as políticas de inclusão digital (e social) no país. Contudo, o fenômeno das lan houses é recente. Conforme pesquisas do CGI, a quantidade de acessos através das lan houses evoluiu de acordo com o gráico “Local de acesso individual à Internet (percentual sobre o total de usuários de internet), 2005-2010”.
Dada a novidade desse fenômeno, são comuns os equívocos na interpretação de sua relevância e na classiicação jurídica atribuída a esses estabelecimentos. Como se verá no próximo item, o fenômeno chamou a atenção do Poder Público, que buscou regular esses empreendimentos. Entretanto, a regulação tende a ser extremamente restritiva para o setor, não contemplando o seu potencial inclusivo e benéico. Como resultado, a Pesquisa TIC Lan house do CGI indica que cerca
96 Luiz Fernando Marrey Moncau • Joana Varon Ferraz
de 50% do setor sobreviva na informalidade76. Esta realidade acaba por sujeitar
os empreendimentos a constantes ameaças de punições por parte dos agentes do Estado (que são frequentemente convertidas em corrupção destes oiciais), impe- dindo o desenvolvimento de importantes serviços para as comunidades em seu entorno (incluindo-se aqui serviços de governo eletrônico) e inviabilizando o pleno aproveitamento do fenômeno de proliferação das lan houses através de parcerias junto ao Poder Público e outras entidades.
Local de acesso individual à Internet (percentual sobre o total de usuários de internet1), 2005-201077
Fonte: Elaboração própria com base em dados de série histórica da “Pesquisa sobre o uso das tecnologias da Infor- mação e Comunicação no Brasil”