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Origens e objetivos

Localizado entre os bairros do Leblon e São Conrado, fazendo fronteira com a comunidade da Rocinha, o Morro do Vidigal abriga uma comunidade de baixa renda da zona sul do Rio de Janeiro que conta hoje com mais 20.000 pessoas. Com

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áreas de lazer reduzidas pela arquitetura rápida e sem planejamento, os jovens do Vidigal têm poucas opções de divertimento e de acesso a bens culturais.

O projeto Nós do Morro tem como público alvo justamente esta comunidade do Vidigal. Fundado em 1986 por um grupo de amigos, formado por atores e jornalistas, que visava criar um movimento cultural aproveitando o talento artístico dos jovens locais, o projeto tinha o objetivo inicial de formar atores e técnicos de teatro. Atualmente o Nós do Morro oferece 20 oicinas, entre elas, interpretação, cenário, igurino, iluminação, história do teatro, literatura, dança e roteiro de cinema. Intercalando encenações de textos clássicos da dramaturgia nacional com trabalhos de pesquisa de uma linguagem local, o grupo preocupa-se com a formação dos atores e técnicos, visando tornar-se um instrumento de inserção de jovens e adultos da comunidade no mercado de trabalho.

As atividades são realizadas no Teatro do Vidigal, local construído pelo próprio grupo, com exceção das oicinas de violão, cenograia, dança, capoeira, cinema, literatura, yoga e história do teatro, que desde agosto de 98 se concentram na rua Olinto de Magalhães, 54, no chamado “Casarão”. Em 1995 também foi fundado um núcleo audiovisual no grupo, que se aprimorou após o núcleo ser contemplado como Ponto de Cultura.

Peril dos frequentadores e inserção no mercado de trabalho

Como já foi salientado, grande parte dos frequentadores – alunos e funcio- nários – do Nós do Morro são moradores da comunidade local, com exceção do núcleo de audiovisual, em que há um balanço entre pessoas da comunidade e de fora dela.

Com cerca de 400 alunos, o projeto abrange praticamente todas as faixas etárias, mas a maioria dos alunos é composta por crianças e jovens. Os funcioná- rios costumam ser alunos antigos do projeto que criaram um maior vínculo com a instituição até começarem a trabalhar como multiplicadores e proissionais, a maior parte encontra-se cursando o 3º grau, enquanto outros passaram em algum momento pela universidade sem, contudo, concluir o curso. Muitos já estão no grupo há muitos anos, havendo inclusive proissionais que estão desde a primeira formação do grupo, a maioria trabalhando mais de oito horas diárias no Ponto. Porém, tanto alunos, quanto professores do Nós do Morro não comparecem no Ponto somente nos dias de aula ou durante as horas de trabalho, sendo frequente passarem grande parte do tempo em suas dependências durante as horas livres.

Assim como ocorre com a população do entorno, praticamente todos os entrevistados que fazem parte do Ponto não possui vínculos trabalhistas e se man-

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têm como free lancers ou trabalhadores informais, sem direitos trabalhistas. Vale sinalizar que a fonte de renda da maioria dos proissionais que trabalham no Ponto não provém do Nós do Morro, a maioria realiza trabalhos externos ao projeto para complementar a renda, alegando que o Nós do Morro contribui somente para uma ajuda de custo, não constituindo um salário que garanta sua sustentabilidade. Dos alunos entrevistados nenhum recebe remuneração pelo projeto, apenas participam gratuitamente das atividades oferecidas pelo Ponto.

Contudo, vale ressaltar que em algumas entrevistas icou claro que o grupo está vivendo um momento de relexão sobre os mecanismos que direcionariam os membros do grupo para o mercado de trabalho, e nessa discussão a sustentabili- dade, no sentido de geração de renda para os alunos e proissionais, tem sido uma preocupação muito presente. Muitos proissionais do grupo percebem a demanda por proissionais técnicos na área e enxergam isso como uma oportunidade de inserirem novas pessoas no mercado de trabalho, sugerindo que o grupo invista mais na área técnica para formar técnicos de teatro e cinema.

Ainda nesse sentido, existe no grupo um departamento de elenco para encaminhar os alunos para testes de televisão, cinema, comercial, entre outras oportunidades que apareçam nesse universo artístico. Em razão disso, é frequente a presença de alunos do Nós do Morro em grandes produções cinematográicas (ex. Cidade de Deus, Estômago, etc), em novelas e, em decorrência dos trabalhos de relevo, é comum que seus alunos e proissionais sejam nomeados em premiações, como foi o caso recente do Prêmio da Academia Brasileira de Cinema (ABC) para melhor ator coadjuvante.

Quanto às suas expectativas para o futuro, boa parte pretende aprofundar-se nas artes cênicas e áudio-visuais de modo que consigam sustentabilidade inanceira trabalhando apenas na área. A maioria dos alunos entrevistados participa das oi- cinas, seja no audiovisual ou no teatro, por aptidão, por terem escolhido as artes como caminho para a ascensão social, e frisam que no Nós do Morro podem ter acesso a ótimos cursos que, além da qualidade, são gratuitos, o que, caso contrário, inviabilizaria a frequência da maior parte dos alunos.

Relação com a comunidade do entorno

A maioria da população do entorno entrevistada conhece o Nós do Morro e já participou em algum momento das oicinas. Muitos pararam por falta de tempo, tendo que trabalhar para sustentar e cuidar da família. Mesmo afastadas dos cursos, muitas pessoas ainda possuem uma relação forte com o espaço, con- tribuindo sempre que podem de alguma maneira, seja prestigiando os espetáculos

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ou frequentando o “casarão” (casa sede do Ponto) por morarem nas proximidades e possuírem muitos amigos integrantes do grupo.

Boa parte dos entrevistados no entorno reconhece a importância do projeto e apresenta expressões muito felizes ao falar do grupo. Percebeu-se que não há qualquer envolvimento com o tráico ou com milícias. As entrevistas deixaram claro que existe uma relação de respeito e até admiração e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido no Nós do Morro. Os próprios traicantes reconhecem que o projeto realiza um trabalho importante na comunidade, ajudando inclusive a difundir uma imagem positiva da mesma, além de abrir alternativas para que jovens não se envolvam em atividades ilícitas.

Gestão e Manutenção do Ponto de Cultura

O Nós do Morro tem passado por diiculdades na questão da gestão. Tendo em vista o peril dos gestores, um ator e uma pedagoga, que não tiveram nenhum acesso a uma formação na área de Administração ou Direito, a questão da gestão icou à margem da concepção da organização, que passou anos mais focada na pedagogia dos cursos lá ministrados.

O Ponto não possui um captador de recursos ou um departamento de técnicos preparados para fazer essa captação. Tudo é feito de maneira um tanto informal e negociado pelos próprios gestores do grupo.

Relação com o MinC

Ainda que o Nós do Morro receba recursos substanciais, estes são descon- tínuos e, dada a fragilidade na gestão, por vezes um luxo de caixa mínimo não é mantido, o que faz com que, por vezes, iquem sem recursos. Nesse ponto, tornar-se um Ponto de Cultura foi importante como forma de garantir uma fonte de receita constante.

Muito dos proissionais compreendem a importância deste vínculo com o Ministério da Cultura, reconhecendo que tal convênio ajudou a agregar novos ele- mentos ao grupo, dando maior visibilidade ao projeto e facilitando o intercâmbio com os demais Pontos de Cultura. No entanto, alguns dos proissionais entrevis- tados demonstraram ter pouco conhecimento sobre os requisitos e características especíicas de se tornar um Ponto de Cultura. O mesmo acontece entre alunos e entrevistados no entorno, que entendem que a própria atividade do Nós do Morro seja, por si só, um Ponto de Cultura, desconhecendo toda a relação envolvendo a política pública por trás do conceito.

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Contudo, os coordenadores do projeto, a despeito de alegarem ter uma boa relação com o MinC e elencarem vantagens ao tornarem-se um Ponto de Cultura, queixam-se em alguma medida da burocracia para a prestação de contas, o que se agrava pela falta de formação e conhecimentos em gestão dos criadores do Ponto. Também apareceram críticas quanto ao volume de investimento, alegando que o montante deveria ser proporcional ao tamanho do projeto e que o kit é geralmente insuiciente para atender a um público maior, o que, por vezes, faz com que o kit passe desapercebido, dada a dimensão da organização.

O pouco conhecimento da população acerca dos kits multimídia fornecidos pelo MinC icou claro através de respostas sem muita segurança e algumas vezes equivocadas, como foi o caso de pessoas que acreditam que todos os equipamentos existentes no Ponto fazem parte do kit. Desconhecem que existe um determinado valor destinado apenas para a montagem dos Kits, sendo relevante ressaltar que o Ponto não promove qualquer tipo de discussão a respeito do Programa dos Pontos de Cultura, contribuindo para a falta de informação sobre o assunto entre os frequentadores.

Uso das tecnologias e relação com as lan houses do entorno

O conhecimento dos frequentadores e da população do entorno do projeto sobre a linguagem tecnológica limita-se, de uma maneira geral, a comentários supericiais sobre computador, Internet e telefones móveis. Ainda assim, a popu- lação da comunidade demonstra importar-se bastante com o acesso à cultura e à informação viabilizados pela tecnologia.

O acesso à Internet para alunos nesse Ponto é ainda incipiente visto que não possui um espaço físico especiico e regras de utilização que organizem o acesso às poucas máquinas disponíveis. O acesso a computadores no projeto é por vezes possível graças à informalidade das relações, permitindo-se que um aluno que pre- cise ou deseje acessar e pesquisar algo utilize, por alguns momentos, as máquinas de uso da administração ou de outros proissionais do Ponto.

Apesar disso, o acesso à Internet é explorado diariamente pelos frequentadores do Ponto, considerando que parte dos entrevistados possui computador em casa com acesso à Internet e que aqueles que não possuem – ou mesmo os que possuem – têm o hábito de ir a lan houses, incentivados pelo baixo preço de utilização do serviço e pelo aspecto de socialização desse espaço, o que corrobora com tese desses estabelecimentos serem importantes instrumentos de inclusão digital, contribuindo efetivamente para o desenvolvimento da comunidade.

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Perguntados sobre o crescimento das lan houses, vale salientar que os pro- issionais entendem como sendo algo positivo, uma vez que viabiliza o acesso barato a pessoas que não teriam essa oportunidade. Contudo, os proissionais do projeto transparecerem uma preocupação com relação ao uso que as pessoas e principalmente os jovens e crianças fazem dessa tecnologia. Nas entrevistas ica claro o desejo de se construir um laboratório de informática que permita o acesso aos alunos e membros da comunidade que deveria funcionar como uma espécie de lan house educativa, como aponta um dos proissionais em sua entrevista. No mesmo sentido, muitos dos entrevistados sugeriram que lan houses educassem os jovens e crianças a evitarem ou aproveitarem melhor determinados sites com objetivo de promover uma navegação mais instrutiva.

Ideário da Cultura Livre

Em relação à utilização e demais questionamentos envolvendo software livre e kits multimídia fornecidos pelo MinC, as entrevistas deixaram claro que são raros os membros da comunidade que dominam o assunto, sendo que aqueles que têm maior conhecimento geralmente são integrantes do Ponto de Cultura.

Uma das queixas mais frequentes quanto ao software livre, entre os entrevista- dos frequentadores do Ponto, foi o fato de não ter nenhum técnico para auxiliar e tirar dúvidas em relação ao software, bem como reclamações demandando oicinas mais demoradas e direcionadas. Essa referência se explica pelo fato de que, quando o Nós do Morro passou a ser considerado como um Ponto de Cultura, um grupo do projeto Cultura Digital (Pontão Digital-Circo Voador) foi enviado para minis- trar oicinas, mas os frequentadores se queixaram por ter sido algo muito rápido e que o software livre não se aprende tão rapidamente. Vale ressaltar também, que o software livre é pouco utilizado no projeto, sendo poucos os alunos que se prontiicam a tentar mexer.

Benzer Belgeler