Origens e objetivos
A Eletrocooperativa tem sua sede em Salvador, no centro do pelourinho e uma ilial administrativa em São Paulo, na Vila Madalena. Diferentemente dos outros Pontos de Cultura pesquisados, a Eletrocooperativa não se localiza numa comunidade carente, mas no histórico e turístico Pelourinho, e foi fruto da vontade e visão de um jovem paulistano recém saído de uma grande empresa que apostou
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numa ideia: formar jovens carentes em música e tecnologia, aplicando conceitos de produção colaborativa, busca por nichos (ANDERSON, 2006), produção em parceria, formação proissional, educação inanceira e sustentabilidade. O objetivo da Eletrocooperativa então delineou-se: um projeto de educação através da música, tecnologia e arte digital visando à promoção social através do acesso aos meios de produção musical, para auxiliar de forma colaborativa no desenvolvimento da autonomia inanceira de jovens de baixa renda.
Para atingir esses ins, indo além da meta de formar esses jovens em tecnolo- gias de ponta aplicada à produção de música, a Eletrocooperativa também ensina educação inanceira aos seus alunos, dando-lhes uma bolsa mensal de um salário mínimo, sendo que parte dessa bolsa é descontada “na fonte” com o objetivo de criar uma poupança para que cada aluno ao término do curso, possa sair dali com formação e algum recurso inanceiro para iniciar sua carreira.
Peril dos frequentadores e inserção no mercado de trabalho
Jovens de diversas comunidades carentes de Salvador frequentam o Ponto, tendo em vista sua localização no centro histórico do Pelourinho. Também pelo fato de usufruir de uma localização central, indo além de atingir apenas uma comunidade carente – o que já seria bastante signiicativo – a Eletrocooperativa tem potencial para atingir uma variedade de comunidades de Salvador, potencial esse que tem se concretizando de forma orgânica, mas eiciente. Pois segundo os alunos e gestores do Ponto, o modo mais efetivo de atração de novos jovens-alunos é através dos próprios alunos, no conhecido sistema boca-a-boca, criando uma relação bastante forte entre eles.
Como característica comum aos jovens frequentadores, percebeu-se que todos os jovens entrevistados estavam matriculados na escola, com exceção daqueles que já haviam terminado o ensino médio e era visível na rotina dos mesmos a preo- cupação com os estudos.
Do ponto de vista da sua relação com o mercado, a Eletrocooperativa vem obtendo considerável sucesso. Além de patrocinadores, o Ponto também tem uma série de clientes que pagam por serviços como a criação de jingles, trilha sonora de ilmes, produção musical dentre outros. Percebeu-se que para as empresas é um ótimo negócio contratar a Eletrocooperativa, pois seus serviços atendem a uma demanda crescente nas empresas pela estruturação dos negócios focado em três pilares de sustentabilidade “people, planet and profit” ou “triple bottom line”, oferecendo mão de obra qualiicada, de origem pobre, formada no projeto, através
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de atividades não poluentes, propiciando além de um serviço de primeira, uma considerável melhoria na imagem da empresa que toma o serviço.
Relação com a comunidade do entorno
A relação com a comunidade do entorno é curiosa, existe uma relação muito mais intensa com comunidades carentes da cidade, que com a própria população do Pelourinho. Segundo os próprios alunos, a prefeitura de Salvador não oferece o apoio necessário para projetos de música que não envolvam a música típica da Bahia, com isso, os grupos de hip hop e eletrônico formados na Eletrocooperativa encontram diiculdades para se apresentarem no bairro onde estudam e trabalham, o Pelourinho. Fugir do tradicional batuque ao estilo Olodum é um entrave cultural diante da política de incentivo da Prefeitura de Salvador, o que, apesar das diicul- dades, vem se mostrado uma decisão acertada, tendo em vista o crescimento do número de alunos e clientes, a riqueza do material produzidos e principalmente a cultura de criação em colaboração, as colagens e mash ups que têm lorescido nos trabalhos do Ponto, inserindo esses jovens no que há de mais moderno na produção musical, seja em termos de software de edição ou modos de produção.
Gestão, Manutenção do Ponto de Cultura e Relação com o Minc
Para a Eletrocooperativa, a maior importância de ser um Ponto de Cultura é a possibilidade de participar da rede nacional de Pontos de Cultura, trocando infor- mações e experiências. Para a estrutura da Eletrocooperativa a receita e equipamentos advindos dessa parceria com o MINC não chega a causar grande impacto, muito diferente de outros casos estudados, como o Coco de Umbigada, por exemplo. Em relação a gestão e manutenção do Ponto de Cultura, devido à própria formação acadêmica mais sólida dos gestores, não encontra maiores problemas no que tange à prestação de contas e atendimentos de exigências burocráticas, apesar da concor- dância de que os processos burocráticos poderiam ser simpliicados. Fica, no entanto, registrado que alguns gestores do projeto comentaram a necessidade da criação de faixas de apoio, com receitas apropriadas à necessidade de cada ponto de cultura.
Uso das tecnologias e relação com as lan houses do entorno
O uso da tecnologia talvez seja o ponto alto do projeto, uma vez que são utili- zados apenas os softwares mais modernos e que o mercado de fato utiliza, formando os jovens proissionalmente para uso de programas altamente soisticados.
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Para tal, a Eletrocooperativa possui uma série de regras referentes ao uso de computadores em sua instalação. Em horário de aula, só é permitido estudo e tra- balho, proibindo (sem no entanto bloquear) o acesso aos sites de relacionamento, jogos e outros usos que fujam do objetivo educacional e proissional. Isso funciona muito bem, permitindo que os alunos foquem no aprendizado e na produção. Antes ou depois do horário de trabalho, os jovens podem acessar seus e-mails e sites de relacionamento, mas, mesmo assim, muitos preferem fazer o uso recreativo da Internet em lan houses ou em casa.
Cabe destacar que o Pelourinho possui uma peculiaridade em relação às outras localidades pesquisadas, por ser um bairro turístico, onde as lan houses possuem um peril mais soisticado para atender os estrangeiros que ali frequentam, fugindo do modelo de lan house amplamente difundido nas periferias reconhecidas por seu baixíssimo preço. Com isso, os jovens desse Ponto de Cultura praticamente não se relacionam com as lan houses do entorno, fazendo uso recreativo da Internet em casa ou em lan houses localizadas nas comunidades em que vivem.
Ideário da Cultura Livre
Pode-se dizer que a Eletrocooperativa é, na sua essência, um projeto de cultura livre, baseado na produção colaborativa, utilizando licenças Creative Commons, copiando, colando, remixando.
Nesse sentido, foi construído um banco de dados com todas as músicas,
mash ups e ains criados dentro da Eletrocooperativa, mas também através da
contribuição de artistas renomados como Lucas Santtana, disponibilizadas sob uma licença Creative Commons, livres para que todos usem e abusem do material já existente para criar novas músicas. Ou seja, incentiva-se um sistema de produção colaborativo, com a participação de todos, intensiicando o processo de trocas e aprendizagem.
A única exceção ao ideário da Cultura Livre é a utilização de softwares pro- prietários, que segundo os professores, é fundamental para que se ofereça uma formação sólida que insira esses jovens no mercado de trabalho, tendo em vista que grandes gravadoras, estúdios e empresas do ramo baseiam sua produção em software proprietário. O programa ensinado em cada curso busca sempre ser aquele utilizado proissionalmente pelo mercado. Como bem disse um professor, “dói no meu coração não utilizar sempre software livre, mas aqui temos a responsabili- dade de formar jovens em situação de risco, nosso objetivo é a inserção deles no mercado de trabalho, e, para isso, temos que utilizar o que o mercado usa”. Não
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somos um lugar de recreação, somos um lugar que forma proissionais preparados para o mercado.