Um sentimento de vazio e irrealidade se instala em você. Sua vida se fragmenta desordenadamente em imagens, dígitos, signos – tudo leve e sem substância como um fantasma. Nenhuma revolta. Entre a apatia e a satisfação, você dorme68.
Enquanto o Modernismo buscava o extraordinário, a superação humana, a obra de arte suprema, divina, sobrehumana, e também acreditava em heróis, o Pós-Modernismo se instala devido a perda da fé na humanidade. Não se acredita mais em heróis, Auschwitz e Hiroshima aconteceram, e se perde a crença no extraordinário. Assim o Pós-Modernismo se foca no ordinário, no cotidiano. Não se exige mais uma busca pelo extraordinário nas artes, por uma obra-prima. Mesmo o artista deixa de ser um ser extraordinário para se tornar ordinário.
O pós-moderno invadiu o nosso cotidiano com a tecnologia de massa e com a tecnologia eletrônica individual, visando a sua saturação com informações, diversões e serviços. O computador chega, e na era da informática (que é o tratamento computadorizado do conhecimento e da informação), lidamos com mais signos do que com coisas. O motor a explosão detonou a revolução moderna
há um século; o chip, microprocessador com o tamanho de um confete, está causando um rebu pós-moderno, com a tecnologia programando cada vez mais o dia a dia69.
A sociedade de consumo, agora na fase do consumo personalizado, tenta a
sedução do indivíduo isolado até arrebanhá-lo para a sua moral hedonista – os
68 SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é Pós-Moderno. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 9.
valores calcados no prazer de usar bens e serviços. A fábrica suja e feia foi o templo moderno, o shopping feérico em luzes e cores, é o altar pós-moderno70.
Mas foi na arte que o pós-moderno, ainda nos anos 50, começou a se espalhar pelo mundo. Ele se espalhou pela arquitetura, pela pintura, pelo romance e daí para todo o resto, de maneira satírica e sem esperança. Os modernistas complicaram a arte por levá-la muito à sério, enquanto os pós-modernistas querem, ao menos tentar, rir levianamente de tudo, principalmente por ser a única coisa que sobrou a se fazer depois de se perder a esperança.
O pós-moderno encarna o niilismo, a nada, o vazio, a ausência de valores e de sentido para a vida, já não havia outra coisa a fazer, todos os valores, crenças e esperanças haviam se perdido.
O homem moderno valorizou a arte, a história, o desenvolvimento, a consciência social. Dando adeus a essas ilusões, o homem pós-moderno já sabe
que não existe Céu nem sentido para a história, e assim se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo71. Não se pensa nem no passado, nem no futuro. Assim, tecnociência, consumo personalizado, arte e filosofia em torno
de um homem emergente ou decadente são os campos onde o pós-moderno pode ser surpreendido72.
Com a desilusão na humanidade e na realidade, a essência da pós- modernidade é a preferência pela imagem ao objeto, a cópia ao original, o simulacro ao real. Isso porque desde a perspectiva renascentista até a televisão,
70 SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é Pós-Moderno. São Paulo: Brasiliense, 2001. Pg. 10.
71 Ibid.
que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca da simulação perfeita da humanidade, da melhor simulação possível da realidade.
Mas o simulacro intensifica, melhora o real, como uma fotografia cujas técnicas e cores bem utilizadas embelezam a paisagem retratada além da realidade. O simulacro fabrica o hiper-realismo, algo mais espetacular, um real mais real e mais interessante que a própria realidade. O hiper-real nos fascina porque é o real melhorado, intensificado na cor, na forma, no tamanho, nas suas propriedades. É como um sonho, e com a desilusão da humanidade com sua realidade, este é um sonho com o qual querem sonhar, melhor do que a vida levada no real. Com isso, somos levados a exagerar nossas expectativas e modelamos nossa sensibilidade por imagens sedutoras.
[...] O ambiente pós-moderno significa exatamente isso: entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, de simulação. Eles não nos informam sobre o mundo; eles o refazem à sua maneira, hiper-realizam o mundo, transformando-o num espetáculo73.
No início de seu livro sobre essa sociedade do espetáculo, Guy Debord diz que:
[...]As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudomundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo74.
73 SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é Pós-Moderno. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 13.
Dentro do período pós-moderno, o indivíduo se encontra constantemente em testes. Digitalizados, os signos pedem escolha. Não uma decisão profunda,
existencial, mas uma resposta rápida, impulsiva, boa para o consumo75.
Se a pós-modernidade significa mudanças em relação à modernidade, o fato é que não se pode dispensar a fábrica, o automóvel, a luz elétrica – conquistas associadas ao modernismo. Mas as relações entre modernidade e pós- modernidade são ambíguas, e é claro que há mais diferenças que semelhanças, menos prolongamentos que rupturas. O individualismo atual nasceu com o modernismo, mas o seu exagero narcisista é um acréscimo pós-moderno. Um,
filho da civilização industrial, mobilizava as massas para a luta política; o outro, florescente na sociedade pós-industrial, dedica-se às minorias – sexuais, raciais, culturais - , atuando na micrologia do cotidiano76.
O Pós-Modernismo contém um princípio esvaziador, diluidor. Ele desfaz princípios, regras, valores, práticas e realidades com a desreferenciação do real e a des-substancialização do sujeito, motivadas pela anteriormente mencionada saturação do cotidiano pelos signos.
[...] Entendamos que o pós-modernismo é um ecletismo, isto é, mistura várias tendências e estilos sob o mesmo nome. Ele não tem unidade; é aberto, plural e muda de aspecto se passamos da tecnociência para as artes plásticas, da sociedade para a filosofia77.
Agora, ao o compararmos ao Nobrow, temos algo ao mesmo tempo semelhante e completamente contrário, pois o Nobrow é a desunião da arte na
75 SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é Pós-Moderno. São Paulo: Brasiliense, 2001, p. 17.
76 Ibid, p. 18.
sua falta de aspectos em comum, é a pluralidade, mas também é a união do mundo na internacionalização das artes de todos os lugares por meio da comunicação proporcionada pela tecnologia.