Highbrow e Lowbrow
Percepções de degradação cultural são ainda mais comprometidas por sua parcialidade seletiva. Cópias e imitações foram sempre uma via de dois sentidos, com muitos intelectuais comprometidos atravessando de um lado para o outro por nenhuma outra razão, sem segundas intenções, do que a criação da arte.
Čapek123 e Lem124, ambos indicados ao Prêmio Nobel e empregadores de uma
sofisticada estética, construíram suas carreiras em gêneros, temas e técnicas da variedade Lowbrow125. De fato, os escritores de gênero na realidade
frequentemente aprofundam-se no mesmo inventário de técnicas formais como faz o avant-garde, e fazem isso independentemente do impulso imitativo.
Não é por nenhum outro motivo que, seguindo o imperativo epistemológico na ficção pós-moderna, Brian Mchale aprova diversos escritores populistas best-
sellers126 (Swirski cita os exemplos de Doctorow, Vonnegut, Heller e Woody Allen127). Sua urbanidade intertextual, irônica, e epistemológica, muitas vezes
123 Josef Čapek
124 Stanislaw Lem
125 SWIRSKI, Peter. From Lowbrow to Nobrow. Mcgills Queens University Press, 2005, p. 51.
126 MCHALE, Brian. In Telling Stories Again: On the Replenishment of Narrative in the Postmodernist Long
Poem. Poetry Criticism, vol. 80, ed. Michelle Lee (Detroit: Thomson Gale), 331-9. Reprinted from Yearbook of English Studies 30, 2000.
combinada com a narrativa radical autoreflexiva e com um brio linguístico, é, talvez, o melhor contra-argumento para os defensores da degradação cultural popular. Devemos lembrar-nos que a cultura popular foi e tem sido frequentemente utilizada para “fertilizar os campos” superiores Highbrow. Novamente, o crossover é uma via de mão dupla que em geral só tem a beneficiar ambos os lados. Ao invés de um dos lados ficar irritado com o outro se apropriando de técnicas e ideias, este deveria ficar feliz em ver seu trabalho ampliado e mais divulgado, sua criação ajudando na criação dos outros.
No fim, mesmo se a arte popular realmente “pegar emprestado” da arte
Highbrow mais do que esta última da primeira, isto pode ser simplesmente devido
ao fato de seu público ser muito maior em número, e, assim sendo, requerendo uma produção muito mais quantitativa. Além de que esta crítica fica amarrada em sua própria lógica, pois esse empréstimo mútuo tem acontecido já há tanto tempo que, se a acusação de depreciação cultural fosse de fato verdadeira, a cultura
Highbrow já teria deixado de existir, considerando-se seu tamanho e a degradação
sofrida, esta já estaria completamente degradada. Ou a acusação de degradação é errônea, ou a arte séria feita por artistas sérios e dissecada por uma crítica séria é agora simplesmente nada senão uma arte popular degradada de qualquer maneira. Não vamos declarar que a possibilidade de degradação seja falsa, mas vamos novamente nos fixar no fato de que essa troca pode até ser prejudical para o artista individualmente, mas sempre será muito benéfica para a arte.
Podemos até dizer que o fato de que os incentivos da cultura popular afastam artistas talentosos da arte intelectual esteja correto, mas apenas se considerarmos novamente a ideia da via de mão dupla também neste caso. Não nos prendemos tanto ao fato de que também os artistas populares acabam se aventurando em projetos mais ambiciosos por uma busca de prestígio cultural, e também correm o risco de abandonar seu público de massas.
Alguns exemplos proporcionados por Peter Swirski:
[...] Um exemplo clássico seria Thomas Disch, um virtuoso da ficção científica New Wave e da história de horror. Em paralelo com suas buscas dentro de seu gênero, ele também publicou livros de poesia, dirigiu peças de teatro da Broadway, adaptou óperas, e se estabeleceu como um crítico de teatro muito procurado. Caracteristicamente, no meio da sua movimentada carreira sci-fi, ele tomou um tempo para co-escrever "Neighboring Lives", um “roman fleuve” ambicioso, literário, e péssimo em vendas sobre a vida e os tempos de Thomas Carlyle128.
Ainda dentro do mesmo tópico outro exemplo dado foi o de Conan Doyle, como:
[...] Uma das mais drásticas medidas tomadas para arranjar prestígio literário. Não é segredo que Sir Arthur era desdenhoso das histórias de aventura e de detetive que o tornaram renomado. Paralelamente às façanhas de seu detetive de consultoria gênio, Conan Doyle portanto, estabelecia uma veia literária "séria" no modo histórico (por exemplo, "White Company"), esperando que esta lhe trouxesse elogios dos intelectuais. O fascínio pela libra esterlina não foi claramente acima de tudo em sua mente quando ele matou Holmes no ápice de sua popularidade. No entanto, o falecimento de Holmes provocou um clamor em toda a Grã- Bretanha durante o qual os fãs vestiam faixas de luto em público, com o resultado que, no final, o detetive teve que ser trazido de volta à vida no próximo livro. Disposto a abrir mão de sua criação mais lucrativa para o bem da posteridade literária, Sir Arthur estaria desconcertado ao saber que hoje ninguém se importa com seus dramas históricos, enquanto Holmes é um clássico da literatura mundial, reverenciado nas obras de grandes contemporâneos, tais como Borges e Eco129.
Com estes exemplos, demonstramos apenas a existência do crossover cultural entre todas as categorias da cultura e da arte, não seus benefícios ou malefícios. A questão é o fato de não podermos ignorar esse crossover, o fato de
128 SWIRSKI, Peter. From Lowbrow to Nobrow. Mcgills Queens University Press, 2005, p. 52.
não podermos ignorar seus efeitos na história da cultura e na mudança em sua diagramação (como mencionado no primeiro capítulo).