De acordo com Ribeiro (1993) a adoção de uma escala de abordagem: meso, topo ou microclimática, nos estudos de clima urbano, permite eleger a metodologia adequada ao trabalho, bem como a melhor técnica instrumental de aquisição de dados, facilitando a análise e o entendimento espacial e temporal dos fenômenos estudados.
Neste sentido Nunes (1998, p. 71): destaca que a escala de abordagem é um dos aspectos mais importantes das ciências atmosféricas, definindo numa pesquisa não apenas a área e período de abrangência, mas também as técnicas e os métodos a serem empregados em busca de seus objetivos.
O clima urbano insere-se na ordem de grandeza do mesoclima, porém sua influência espacial vai além do fato urbano, adentrando na escala geográfica sub- regional.
Neste sentido Monteiro (1993, p. 200) destaca que as influências das alterações causadas pela urbanização na atmosfera se estendem para além dos
98 limites urbanos, alterando substancialmente os climas locais e projetando seus efeitos até os espaços sub-regionais.
Ainda de acordo com Monteiro (1993, p.200): o comportamento atmosférico, integrado às demais esferas e processos naturais, “organiza” espaços climáticos a partir das escalas superiores em direção as inferiores; e a ação antrópica em derivar ou “alterar” essa organização ocorre no sentido inverso, ou seja, das escalas inferiores para as superiores.
Assim a ação humana tem a capacidade de alterar o clima nas escalas inferiores (mesoclima, topoclima e microclima).
Em relação às escalas de abordagem do clima urbano, Andrade (2005, p. 72) destaca três níveis escalares, sem, no entanto estabelecer limites rígidos para estas dimensões, que são as seguintes:
a) Microclima: reflete a influência de elementos urbanos individuais e dos seus
arranjos mais elementares (edifícios e as suas partes constituintes; ruas, praças, pequenos jardins); a dimensão típica pode ir até cerca de uma centena de metros; a influência direta desses elementos restringe-se à Urban Canopy Layer.
b) Clima Local12: clima de uma área com uma combinação característica de elementos
(SCHERER, et al, 1996), podendo corresponder seja a um tipo de solo diferenciado (bairro, parque urbano), seja a condições topográficas específicas (vale, colina, etc). Um clima local engloba um mosaico de microclimas, que se repetem com alguma regularidade (OKE, 1997 e 2004) e, idealmente, corresponde a uma ‘unidade climo- topológica’ (ALCOFORADO, 1999).
c) Mesoclima: corresponde à influência integrada da cidade (compreendendo vários climas locais), essencialmente ao nível da Urban Boundary Layer. Podem considerar- se igualmente como efeitos de mesoescala os efeitos ‘extra urbanos’, de dimensão aproximada ou superior à da própria cidade (sistemas de brisas, barreiras topográficas, etc). Não se pode deixar de relembrar que o clima urbano depende dos fenômenos de escala climática superior (mesoescala β e α, macroescala).
Quando Andrade (op.cit) fala em mesoescala β e α ele se refere a dimensão espacial e temporal dos processos atmosféricos, conforme Orlansky (1975
12 Para Andrade (op.cit, 2005, p. 72) clima local e topoclima se generalizam para designar o clima de
áreas homogêneas quanto à ocupação do solo ou condições topográficas. Ainda de acordo com o autor supracitado, clima local e topoclima tendem atualmente a serem considerados sinônimos, pois ambos os termos empregados possuem o mesmo significado, ou seja, são equivalentes.
99 citado por Andrade, 2005) e a área relevante para os fenômenos urbanos, conforme Wanner e Fiilliger (1989 citado por Andrade, 2005), vide a figura 61 abaixo.
Figura 61: Dimensões espacial e temporal típicas dos processos atmosféricos e áreas relevantes para os fenômenos urbanos.
Fonte: Orlansky (1975); Wanner e Filliger (1989 apud Andrade, 2005, p. 72).
Portanto de acordo com Andrade (op.cit, p.72), os fenômenos urbanos dentre eles o clima urbano, ocorrem nas escalas do micro ao meso, sendo as escalas micro β e α, dimensões típicas da escala local. Em relação a escala temporal, nota-se que os fenômenos urbanos tem duração de minutos na escala micro e de horas na escala meso.
Oke (2004) classifica as escalas de abordagem climática em: meso, aquela que engloba a área urbana como um todo; local, que abrange partes da cidade; e micro, que compreende ambientes mais restritos como vias e praças.
De acordo Mendonça e Danni-Oliveira (2007, p. 23) existem três níveis ou ordem de grandeza climática: macroclima, mesoclima e microclima, conforme o quadro 10. O clima urbano se enquadraria na ordem de grandeza do mesoclima e do microclima.
100 Quadro 10: Organização das escalas temporal e espacial do clima.
Fonte: MENDONÇA; DANNI-OLIVEIRA (2007, p.23).
Uma classificação mais detalhada como a de Monteiro (2003, p. 29), baseada em Tricart e Cailleux (1956), relaciona as unidades climáticas com as unidades ou graus de urbanização, e assim, os dados do clima aos elementos componentes do ambiente urbano, visando subsidiar o planejamento urbano.
De acordo com o quadro 11, verifica-se que Monteiro (op. cit, p.29), estabeleceu para cada ordem de grandeza, uma corresponde unidade de superfície, escalas cartográficas de tratamento, espaços climáticos e urbanos a ela associada, além de estratégias de abordagem.
Assim por exemplo, a ordem de grandeza VI, corresponde ao Mesoclima cuja unidade de superfície é dada em centenas de metros, as escalas de tratamento variam de 1: 25.000 até 1:50.000, os espaços urbanos correspondem à cidade grande, bairro ou subúrbio de metrópole e os registros móveis (episódios) são os meios de observação adequados a esta classe.
Ainda de acordo com Monteiro (op.cit, p. 30) o espaço climático Sub-Regional corresponde à megalópole ou grande área metropolitana; o clima Local à área metropolitana ou metrópole; o Mesoclima, correspondente à cidade grande, bairro ou subúrbio de metrópole e pode ser identificado como um compartimento básico da configuração (como uma várzea, espigão, colinas periféricas etc.); o Topoclima, no nível da pequena cidade, fácies de bairro ou subúrbio de cidade, se associa a expressões específicas formadas pelo relevo articulado à topografia edificada; e a menor unidade, o Microclima, compatível com a grande edificação, habitação, ou setor de habitação.
101 Quadro 11: Categorias taxonômicas da organização geográfica do clima e suas articulações com o clima urbano.
Fonte: Monteiro (2003, p.29).
2.3 Abordagem sistêmica do Clima Urbano (o SCU-Sistema Clima Urbano)