2.4. Dinleme Becerisi 27
2.4.5. Temel Dil Becerileri ve Dinleme İlişkisi 35
Vimos que a alquimia e a anatomia, desenvolvidas, respectivamente, entre outros, por Paracelsus e Vesalius ao longo do século XVI, levantaram uma variedade de ressalvas e obstáculos à teoria hipocrática dos humores e à rotina galênica que, desde a Antiguidade, embora não sem alterações, haviam-se tornado hegemônicas nos discursos e nas práticas médicas da Europa ocidental. Referindo- se aos rumos impressos no desenvolvimento da medicina ocidental pelas lições dos anatomistas, Canguilhem (1975: 52) afirma que, simplificando abusivamente a principal diferença entre esses rumos e aqueles traçados pela antiga medicina grega, essa diferença poderia ser resumida nos seguintes termos: enquanto a medicina grega seria “contemplativa”, a medicina inaugurada pelos anatomistas seria “operativa”. Porém, Canguilhem (Ibidem: 52-53) pondera que,
entre estas duas épocas, separadas pela revolução copérnica e suas conseqüências críticas, a diferença é ainda filosófica, sem efeito perceptível na saúde e na doença do homem, à escala das sociedades humanas. Não se traduziu por nenhuma realização notável o projeto comum de Bacon e Descartes: preservar a saúde e evitar ou pelo menos retardar a decadência e a velhice, isto é, prolongar a vida. [...] Em suma, a medicina era tragicamente impotente para realizar o seu projeto; ela não conseguiu passar além de um discurso vazio que incidia sobre práticas que muitas vezes se assemelhavam à magia.
Essa situação de impotência teria persistido ao menos até o século XIX. Cabe notar, contudo, que, se a medicina renascentista quebrou a hegemonia da teoria dos humores e da rotina galênica, essas não caíram em completo desuso, embora tenham-se tornando cada vez mais controversas. Segundo Ackerknecht (1962: 394- 395), após o Renascimento perspectivas terapêuticas freqüentemente opostas coexistiram ou tornaram-se dominantes, de modo alternado, por curtos períodos de tempo, sendo os vários “sistemas médicos” que a partir de então surgiram “a vain attempt at stabilization”.
Sinal disso é que nenhum dos “sistemas médicos” que o século XVIII deixou como legado para o XIX seria capaz de “dominar intelectualmente a primeira grande
invenção terapêutica” (Canguilhem, 1975: 52): a prática da vacinação157. Ainda
segundo Canguilhem (Ibidem: 52), não foi em virtude da elaboração de melhores teorias médicas que tais sistemas médicos sucumbiram, mas “perante uma revolução na arte de curar conduzida pela química”.
De fato, é possível localizar, quer na passagem do século XVIII para o século XIX, quer ao longo do século XIX, a emergência de ao menos dois fenômenos decisivos para que esse quadro de impotência se alterasse (Cf. Canguilhem, 1975: 53-54). Um deles se refere àquilo que Foucault (1963) chamou de “nascimento da clínica”. Esse “nascimento” consistiu no acoplamento, que não se deu sem conflitos, entre a anatomia patológica – que, através da análise da geografia dos corpos mortos, procurou estabelecer as localizações das doenças destacando as lesões tissulares – e a já antiga experiência clínica – que, através da análise histórica dos indivíduos doentes, procurava estabelecer “o parentesco entre os sintomas e compreender sua linguagem” (Foucault, 1963: 143) enfatizando as manifestações, as freqüências e as cronologias dos processos mórbidos.
Esse acoplamento entre anatomia e clínica foi iniciado por Giambattista Morgagni (1682 – 1771), que, em 1760, publicou De sedibus et causis morborum (As localizações e as causas das doenças), e por Auenbrügger, que introduziu, na clínica, a técnica da percussão. No entanto, ele só foi efetivado 40 anos depois por Jean-Nicolas Corvisart, que desenvolveu a técnica da percussão, e por François Xavier Bichat (1771 – 1802), que elaborou o princípio do isomorfismo dos tecidos e desenvolveu a teoria vitalista segundo a qual “la vie est l’ensemble des fonctions qui resistent à la mort” (Apud. Chast, 1995: 20). Segundo Foucault (1963: 165-166; g.a.), com sua teoria vitalista, Bichat
relativizou o conceito de morte, fazendo-o decair deste absoluto em que ele aparecia como um acontecimento indivisível, decisivo e irrecuperável: ele o volatilizou e repartiu na vida, em forma de mortes a varejo, parciais, progressivas e de conclusão lenta, depois da própria morte. Mas ele constituía assim uma estrutura essencial da
157 Conforme Canguilhem (Ibidem: 51), “a prática da vacinação [...] é historicamente a primeira invenção de um tratamento efetivo e real para uma doença”. A primeira prática de vacinação foi aquela que Edward Jenner (1749 – 1823) realizou em 1796 contra a varíola, ao inocular um ser humano com o exsudato resultante da “vacínia” ou varíola das vacas, doença que os ingleses chamaram de cow-pox. A palavra “vacina”, que deriva do latim vaccina, vocábulo que faz referência a algo que provém de vacas (Nascentes, 1955: 518), foi proposta, em 1801, pelo Dr. Odier, um médico suíço, para substituir o termo cow-pox (Canguilhem, 1975: 51).
percepção e do pensamento médico; aquilo a que a vida se opõe e se expõe; aquilo em relação a que ela é viva oposição, portanto, vida; e em relação a que ela é analiticamente exposta, portanto, verdadeira. (...) O vitalismo aparece tendo como pano de fundo esse “mortalismo”.
Esse acoplamento foi levado adiante por René Laënnec (1781 – 1826), que instalou “l’anatomie pathologique au couer de la médecine clinique” (Chast, 1995: 20) ao estabelecer que a uma doença corresponde uma lesão e ao criar o estetoscópio; e por François Joseph Victor Broussais (1772 – 1838), que, embora se opusesse a Laënnec, dissolveu a ontologia médica ao fazer desaparecer “o ser da doença” em proveito de uma medicina anatômica e, sobretudo, fisiológica centrada nas noções de “irritabilidade” e de “inflamação” dos tecidos e de “sofrimento orgânico” (Foucault, 1963: 218-220, g.a.)158.
De acordo com Foucault (Ibidem: xvii-xviii), o “nascimento da clínica” resultou em uma nova estrutura de percepção dos fenômenos mórbidos, “que se revela, mas certamente não se esgota na mudança ínfima e decisiva que substitui a pergunta ‘o que é que você tem?’, por onde começava, no século XVIII, o diálogo entre o médico e o doente, com sua gramática e seu estilo próprios, por esta outra em que reconhecemos o jogo da clínica e o princípio de todo seu discurso: ‘onde lhe dói?’”. Esse “nascimento” foi, ainda, marcado pela difusão de práticas de exploração dos corpos vivos, particularmente da percussão159 e de auscultação mediata160. Além
disso, esse “nascimento” instituiu, inicialmente em Viena e em Paris, toda uma reforma das instituições hospitalares. Segundo Foucault (1974b), até o final do século XVIII o hospital era, antes de mais nada, um “morredouro” ou, mais precisamente, uma instituição de assistência aos pobres marcada pelos expedientes da separação e da exclusão. Nada havia nele que o tornasse uma instituição de cura, sendo a medicina da época realizada fora do espaço hospitalar. De acordo com ele (Idem, ibidem), foi a partir do final do século XVIII que o hospital tornou-se,
158 Sobre Broussais, veja ainda Canguilhem (1943: 27-42).
159 Técnica que consiste em escutar o ruído produzido ao bater em uma parte do corpo do paciente desenvolvida por Auenbrügger e Corvisart. Sobre a técnica de percussão, veja Foucault (1963: 185-186).
160 Técnica que consiste em escutar os ruídos produzidos pelo corpo mediante o emprego de instrumentos como o estetoscópio, inventado por Laënnec. Sobre a técnica de auscultação mediata, veja Foucault (1963: 186-188).
simultaneamente, uma instituição terapêutica e uma instituição de formação e transmissão dos saberes médicos.
Um fenômeno não menos decisivo para a mudança do quadro de impotência dos saberes e das práticas médicas diz respeito ao uso de “drogas” terapêuticas. Até o século XIX, a produção de “drogas” de uso terapêutico envolvia o emprego quer de plantas inteiras, frescas ou secas, quer de produtos de fórmulas complexas, como as tinturas e as ancestrais triagas, produtos esses marcados pela mistura de uma impressionante variedade de substâncias (Chast, 1995: 10-11; 22-24). O uso terapêutico de tais “drogas” já havia-se tornado objeto de controvérsias ao menos desde que, durante o Renascimento, Paracelsus e outros alquimistas começaram a investir na introdução da química nas práticas médicas. No final do século XVII, várias tentativas de eliminação de uma variedade de “drogas” então consideradas suspeitas ou inúteis foram iniciadas na corte de Gotha; essas tentativas se avolumaram ao longo do século XVIII, particularmente com a remoção do Paris Codex, entre 1748 e 1758, de “numerous substances suspect as superstitious remedies, among them some useful ones” (Ackerknecht, 1962: 395), e com o desenvolvimento da homeopatia por Samuel Hahnemann (1755 – 1843), que também se desenvolveu “as a reaction against vampirism [isto é, as práticas de sangrias] and pollypharmacy” (Idem, ibidem). Contudo, foi somente no século XIX que essas tentativas de eliminação de “drogas” consideradas “inúteis” se fizeram acompanhar pela abertura de “a new era in drug therapy” (Ibidem: 396). Essa nova era, por sua vez, foi aberta pela introdução, nas práticas médicas, de substâncias “puras” de origem mineral (como o iodo), vegetal (como a morfina) ou animal (como a insulina) produzidas em um campo de investigação tão afastado quanto possível dessas práticas, a saber, o da química de síntese. Isoladas sob a forma de cristais brilhantes a partir de métodos como a destilação ou a extração, tais substâncias “puras” contrastam “singulièrement avec les traditionnels extraits noirâtres” (Chast, 1995: 22).
Por ter testado, mediante experimentos em laboratório, certas “drogas” quimicamente “puras” recentemente isoladas, nomeadamente os alcalóides, François Magendie (1783 – 1855), “the most sceptical of all French secptics” (Ackerknecht, 1962: 396), foi um dos principais artífices da abertura dessa “nova era”, tendo sido, por isso, considerado um dos “pais fundadores” da farmacologia experimental moderna (Idem, ibidem). Segundo Canguilhem (1975: 58), a importância de Magendie pode ser avaliada pelos deslocamentos que sua medicina experimental realizou com relação à medicina fisiológica de Broussais. Canguilhem
(Idem, ibidem) detecta “um triplo deslocamento” operado pela medicina experimental de Magendie: “de lugar, do hospital ao laboratório; de objeto experimental, do homem ao animal; de modificador externo ou interno, do preparado galênico ao princípio ativo isolado pela química farmacêutica, por exemplo, do ópio à morfina, da quinquina ao quinino” 161. Essa abertura de uma “nova era” na terapia com “drogas”
foi levada adiante por Claude Bernard (1813 – 1878), discípulo de Magendie. Inspirado nas concepções de Magendie e em franca oposição à medicina não experimental de Broussais, Claude Bernard, que identificava doença e envenenamento e a procurava “na alteração tóxica, operada pelos sistema nervoso, dos elementos do meio interior que banham as células” (Ibidem: 61 e 70), comparou medicamentos, venenos e alimentos e, com isso, procurou estabelecer diferenças entre eles a partir da constatação de uma base comum: a atividade dessas substâncias diz respeito a fenômenos experimentalmente observáveis e quantificáveis “puisqu’ils étaient de nature chimique ou physique” (Chast, 1995: 27). Chast (Idem, ibidem) resume a comparação realizada por Bernard nos seguintes termos:
si l’aliment est nécessaire à l’entretien des phénomènes de l’organisme sain, le médicament (auquel on peut ajouter l‘oxygène, la lumière et l’électricité) place l’organisme dans des conditions particulières qui en modifient heureusement les procédés physiques et chimiques. Quant au poison, nuisible à l’organisme, il y produit des désordres graves ou la mort.
De fato, foi impressionante o montante de novos produtos introduzidos, a partir da química, nas práticas terapêuticas ao longo do século XIX. Entre eles, destacam-se aquelas substâncias de origem vegetal com pronunciado efeito
161 Conforme Canguilhem (Idem, ibidem),
destes três deslocamentos, o segundo foi o mais mal compreendido e avaliado. As vivissecções praticadas por Magendie provocaram protestos e manifestações hostis, por motivos sem dúvida mais profundos do que a compaixão pelo sofrimento dos animais. Concluir do animal ao homem é abolir a distância entre um e outro, é uma assimilação defendida pelo materialismo e eventualmente capaz de suscitar a tentação de uma extensão dessas práticas ao homem. Magendie teve que defender-se da acusação de praticar experiências no homem.
Contudo, não deixa de ser surpreendente que Magendie não só não tenha compreendido o mecanismo fisiológico da anestesia, prática que então estava sendo introduzida nos Estados Unidos, como também tenha-se oposto duramente à sua utilização em cirurgia. “Além disso, Magendie nunca se interessou pelo fato de que os ensaios das drogas anestésicas foram feitos pelos médicos ou pelos químicos neles próprios e que este novo rodeio, a auto-experimentação humana, permitia ao segundo rodeio que o próprio Magendie tinha operado – a utilização sistemática do animal – toda a sua extensão legítima”, afirma Canguilhem (Ibidem: 59). Sobre Magendie, veja ainda Chast (1995: 21-23).
fisiológico sobre os animais que, por reagirem como álcalis, passaram a ser conhecidas, a partir de 1818162, como “alcalóides”163. Já em 1803, Friedrich Wilhelm
Adam Sertürner havia isolado do ópio, resina extraída da cápsula da papoula (Papaver sonniferum), um ácido orgânico que ele nomeou de ácido mecônico; neutralizado com amônia, esse ácido deu origem a uma substância alcalina que Sertürner chamou de principium sonniferum ou morphium, assim batizada em homenagem a Morfeu, o deus grego dos sonhos, filho do Sono e da Noite. Em 1817, o químico Gay-Lussac propôs, para uniformizar a denominação das substâncias com princípios ativos extraídos de vegetais, que todas fossem nomeadas utilizando o sufixo –ina: assim, morphium virou morfina164. Nesse mesmo ano, Joseph Pelletier e
François Magendie isolaram a emetina (substância usada como emético) da ipecacuanha (Cephelis ipecacuanha). Dois anos depois, Pelletier e J.B. Caventou isolaram a estricnina (substância usada como estimulante nervoso) da noz-vômica (Strychnos nux vomica). Em 1824, P.-J. Robiquet isolou, também a partir do ópio, a codeína (substância usada como sedativo, hipnótico). Em 1831, Mein, químico alemão, isolou a atropina (usada como anti-espasmódico, sedativo, midriático e anti- secretório) da beladona (Atropa belladona). Meio século depois, Albert Ladenburg isolou a escopolamina (usada como sedativo e hipnótico) de uma solanácea (a Datura stramonium, também conhecida como “erva-do-diabo”). Nesse mesmo ano, a efedrina (usada por suas propriedades adrenérgicas) foi isolada a partir da Ephedra japonica pelo japonês Nagajosi Nagai. Em 1860, Albert Niemann isolou a cocaína a partir do arbusto da coca (Erythroxylum coca)165.
162 Foi em 1818 que Wilhelm Meissner, químico alemão, cunhou o termo alkaloïd para designar essas substâncias de origem vegetal (Chast, 1995: 41-42).
163 Sobre o isolamento dos diferentes alcalóides listados a seguir, veja Chast (1995).
164 A morfina começou a ser fabricada comercialmente em 1827 pelos laboratórios E. Merck, da Alemanha. 165 Nesse mesmo ano, a cocaína passou a ser fabricada comercialmente pelos laboratórios E. Merck. O arbusto de coca é originário dos Andes, tendo os espanhóis observado seu emprego pelos Incas já em 1499. Contudo, as primeiras mudas da planta só foram levadas para a Europa em meados do século XVIII, tendo sido necessário esperar ainda um século para que seu alcalóide fosse isolado. Os médicos não tardaram a preconizar seu emprego terapêutico: a esse respeito, o caso mais notório é o de Freud que, depois de ter experimentado em si mesmo, prescreveu o uso de cocaína, inicialmente de modo entusiástico (Freud, 1884 e 1885), depois de modo mais cético (1887), para tratar especialmente o caso de um colega dependente de morfina, no que foi relativamente bem-sucedido, “mas às custas da obtenção de um dos primeiros viciados em cocaína nos tempos atuais” (Ritchie & Greene, 1987: 198). Embora fosse necessário esperar ainda várias décadas para que o uso de
Além dos alcalóides, o século XIX também conheceu uma variedade de produtos cujo emprego tiveram forte impacto, quer no campo da terapêutica, quer muito além dele. Entre esses destacam-se os produtos de sínteses químicas como o clorofórmio, sintetizado por Eugène Soubeiran em 1831; o cloral, sintetizado por Justus von Leibig no ano seguinte; o ácido acetilsalicílico (mais conhecido como “aspirina”), sintetizado por Charles Frederich Gerhardt166 em 1853; e a diacetilmorfina
(mais conhecida como “heroína”167), sintetizada por Albert Wright em 1874.
A lista de novas substâncias introduzidas ao longo do século XIX (basicamente, embora não exclusivamente, a partir da química) poderia ser estendida quase indefinidamente, ainda mais se considerarmos que, apesar de algumas exclusões notórias de substâncias tidas como de uso “danoso” algum
cocaína, inclusive o terapêutico, fosse criminalizado, e apesar de, ainda no início do século XX, ser possível comprar nas farmácias, com relativa facilidade, um grande número de medicamentos que continham cocaína, desde o isolamento do alcalóide das plantas de coca não foi no campo da terapêutica que sua difusão se processou de forma mais expressiva. Já em 1863, Angelo Mariani, um químico italiano, lançou em Paris uma série de produtos à base de cocaína que, rotulados com seu nome, fizeram um enorme sucesso. Entre eles, o que mais se destacou foi o “vinho Mariani”, o qual continha cocaína na concentração de aproximadamente o equivalente a uma “fileira” (entre 35 e 70 miligramas) por copo de vinho. Em 1886, John Styth Pemberton, farmacêutico de Atlanta, lançou nos Estados Unidos uma imitação do vinho Mariani. Diferentemente desse, o produto lançado nos Estados Unidos continha, além de cocaína, extratos da noz de cola (Cola nitada, planta que produz uma noz rica em alcalóides estimulantes, particularmente cafeína e teobromina, cujo uso é um hábito tradicional e popular entre povos muçulmanos, sobretudo os da África Oriental, povos para quem, no entanto, o emprego de outras substâncias “psicotrópicas” é, em geral, interdito), água, açúcar e gás carbônico. Esse produto americano tornou-se mundialmente conhecido sob o nome de “Coca-Cola”. Em 1903, a cocaína foi substituída, na fórmula da Coca-Cola, por fartas doses de cafeína, o principal alcalóide extraído do café... Sobre a cocaína, veja Chast (1995: 111-112), Delpirou & Labrousse (1986: 39-52) e Rudgley (1993: 137-138). Sobre a noz de cola, veja Rudgley (1993: 139-141).
166 Quando publicou seus trabalhos, Gerhardt não sabia, no entanto, que se tratava do ácido acetilsalicílico. Seus trabalhos foram retomados 40 anos depois por Félix Hoffmann que, trabalhando nos laboratórios Bayer, descreveu com precisão, em 1897, a síntese do ácido acetilsalicílico. Dois anos depois, os laboratórios Bayer registraram a síntese industrial desse ácido e o nomearam “aspirina”, “cette substance blanche [que] allait devenir le médicament le plus populaire du monde” (Chast, 1995: 59). 167 De fato, a diacetilmorfina só foi batizada como “heroína” pouco mais de uma década depois de ter sido isolada, quando Heinrich Dreser assim a nomeou por considerá-la um “medicamento heróico” contra o então já disseminado emprego da morfina, sem, no entanto, saber que o uso da heroína envolvia riscos tão grandes, senão maiores, do que os da morfina. Tal batismo ocorreu na mesma época em que a heroína começou a ser fabricada comercialmente pelos laboratórios Bayer e E. Merck.
tempo depois de sua introdução nas práticas terapêuticas, ela praticamente só fez crescer ao longo do século XX. A introdução dessas novas substâncias mudaria drasticamente a capacidade de intervenção terapêutica da medicina. Contudo, apesar de a prática da vacinação ter sido, como já se disse, “a primeira invenção de um tratamento efetivo e real para uma doença” (Canguilhem, 1975: 51), teria sido necessário “esperar até ao fim do século [XIX] pelo aparecimento de técnicas e produtos terapêuticos capazes de uma ação sobre doenças que não fossem nem sintomáticas nem imaginárias” (Ibidem: 68-69) e até o final da década de 1930, quando ocorreu a síntese química da penicilina, para que surgisse um produto capaz de ser saudado “como o maior triunfo desse tempo” (Ibidem: 65). Pois não deixa de ser sugestivo que, precisamente quando se estabeleceu, com o “nascimento da clínica”, que a doença não é constituída pela trama dos sintomas, devendo esses ser explicados pelas lesões que a doença provoca (Foucault, 1963), a terapêutica com “drogas” tenha crescido particularmente no que se refere ao controle dos sintomas, especialmente no controle (ou na supressão) da “dor”, experiência complexa carregada de variados sentidos culturais que, a partir de então, tendeu a ser reduzida a um problema técnico passível (ou demandante) de medicalização (Illich, 1975: 127-142).
De fato, foram as substâncias que alteram a experiência da “dor” aquelas que produziram um impacto mais imediato e profundo nas práticas terapêuticas então em curso e mais rapidamente arregimentaram usuários para além do campo terapêutico. A propósito, cabe recordar não apenas que o ópio, conhecido e utilizado há muitos séculos, ocupava, ainda no final do século XIX, um lugar de destaque no arsenal terapêutico (Chast, 1995: 39)168, como também que a morfina foi o primeiro alcalóide
a ser isolado e produzido industrialmente, tendo seu emprego se disseminado e alcançado dimensões “epidêmicas” especialmente após a invenção da seringa hipodérmica em meados do século XIX (Chast, 1995: 44; H. W. Morgan, 1981: 22- 28)169. Outro ponto que merece destaque foi o sucesso alcançado pela aspirina logo
168 Num artigo sobre o ópio publicado no Dictionnaire populaire de médicine usuelle no final do século XIX, Camboulives escreveu que, “sans contredit, l’opium est le remède le plus important et le plus universellement répandu, ce qui a fait dire avec juste raison à plusierus observateurs que la médecine serait impossible sans lui. En effet, il est employé seul ou associé à d’autres médicaments dans presque toutes les maladies qui peuvent atteindre l’espèce humaine” (Apud. Chast, 1995: 39). 169 Tal “epidemia” ficou clara sobretudo após a guerra de Secessão na América e a guerra franco- prussiana em 1870, quando milhares de soldados foram tratados, no campo de batalha, à base de
após o início de sua produção, tendo essa “droga” se convertido rapidamente, “alimentos-droga” como o açúcar à parte, na “droga” “plus populaire du monde”170
(Chast, 1995: 59).
Não menos importante do que o impacto provocado pela introdução desses sedativos e analgésicos, foi o provocado pela ingresso dos analgésicos nas práticas