2.4. Dinleme Becerisi 27
2.4.2. Dinleme-Anlama 30
A propósito desse conjunto aparentemente tão diversificado de substâncias (café, chá, chocolate, tabaco e bebidas alcoólicas destiladas), é possível notar alguns pontos em comum para além do fato de praticamente todas envolverem o emprego de açúcar.
De um lado, todas essas substâncias vieram de longe, de fora da Europa: o açúcar e o café da Arábia, o chá da China, o chocolate e o tabaco da América, e mesmo as bebidas destiladas, que aparentemente foram inicialmente elaboradas na Europa, só o foram em virtude da introdução, naquele continente, do alambique, aparelho que, ao que tudo indica, é de origem árabe. Apesar disso (e embora, obviamente, tais substâncias – com exceção do açúcar e das bebidas destiladas – tenham sido de uso relativamente corrente nos seus locais de origem, ou naqueles onde os europeus foram encontrá-las), foi a partir da Europa, ou pelas mãos dos europeus (que, nesse empreendimento, certamente não estavam sozinhos, haja vista o aporte conferido a partir dos locais de produção dessas substâncias pelos povos que os habitavam ou que para eles foram levados à força) que seu consumo ganhou o mundo ocidental, chegando mesmo a ultrapassar suas fronteiras. Em todos os casos, trata-se de raridades, de luxúrias exóticas introduzidas na dieta de nobres e burgueses que foram-se tornando, paulatinamente, itens de consumo de massa, necessidades rotineiras na dieta de segmentos cada vez mais amplos da população.
De outro lado, nenhuma dessas substâncias (talvez com relativa exceção do açúcar) se difundiu sem levantar opiniões controversas, tendo todas elas conhecido seus entusiastas apaixonados e seus críticos ferrenhos, seus apologistas e seus censores. Acolhido entusiasticamente por muitos por suas propriedades estimulantes, outros tantos condenaram o café (e o chá) por seu consumo alterar a alternância entre vigília e sono que comporiam o ritmo “natural” da vida; o chocolate, por sua vez, foi aclamado por uns e condenado por outros precisamente porque seu consumo estava associado à nobreza e ao catolicismo; o tabaco teve seu consumo interditado por uma série de medidas legais que, no
entanto, logo caíram em desuso; enquanto as bebidas alcoólicas, particularmente as destiladas, encontraram forte oposição dos movimentos de/por “temperança”; e mesmo o açúcar, que fazia parte da produção e/ou do consumo de praticamente todas essas substâncias, não teve só aficionados154.
Além disso, a crescente demanda ocidental por esses produtos que, de luxúrias exóticas na dieta de nobres e burgueses foram-se tornando pouco a pouco itens de consumo de massa, obedece a certas razões de ordem prática que convém destacar: enquanto as bebidas quentes, leves, estimulantes e não alcoólicas se coadunam com os ditames do capitalismo emergente e seus reclamos por sobriedade, racionalidade e disciplina no trabalho, o tabaco e as bebidas alcoólicas destiladas, ao entorpecerem seus consumidores, tornam mais suportáveis a crescente (o)pressão disciplinar e as precárias condições de vida que se abatem sobre os mais pobres. Enquanto isso, o açúcar, rico em calorias, além de fornecer energia indispensável para o trabalho, torna doce tudo aquilo com que ele se mistura...
Contudo, ainda que razões práticas possam ser observadas no emprego de todas essas substâncias, elas não dão conta de tudo. Como notou Sahlins a propósito do chá,
neste caso, como em outros, a função prática é um modo situacional de um
esquema nativo de proporções cósmicas. Ela certamente envolve algumas idéias
próprias ao Ocidente sobre a pessoa como uma criatura imperfeita, com
necessidades e desejos, cuja existência terrestre como um todo pode ser reduzida à busca do prazer físico e à evitação da dor. Essa descrição da condição humana,
uma tragédia teológica de longa data, tornou-se um credo filosófico no século XVII e um dado cotidiano no século XVIII – prova disso é a rápida disseminação daquilo que Sidney Mintz chamou de “alimentos-droga” entre as classes populares européias. O desenvolvimento da moderna “civilização” ocidental baseou-se numa enorme cultura de drogas leves, pelo menos como condição de tolerância, marcada pelo consumo diário generalizado de substâncias como chá, café, chocolate, tabaco e açúcar – uma lista sem muito valor nutritivo que a redima.
154 Freyre (1937: 97) comenta, a propósito do emprego do açúcar no Nordeste brasileiro na época da Colônia, que
ao muito doce na alimentação da gente de engenho, alguns críticos foram atribuindo uma série de males. Que os maus dentes dos aristocratas das casas-grandes – das próprias sinhás, segundo salientaram observadores holandeses do século XVII – resultavam do muito açúcar que consumiam. Que algumas moças dengosas só se alimentando de doces – com vergonha de comer carne e o pirão – definhavam. Que os meninos criavam lombriga do muito doce que as pretas davam a eles.
Segundo Sahlins (1988: 24-25), trata-se de uma “visão trágica da natureza humana” porque tal concepção ocidental da pessoa humana155 condenava, ao
menos desde Santo Agostinho, a existência terrena dos homens “à miséria contínua, por suas insaciáveis necessidades físicas”. Ao menos desde o Renascimento, essa concepção estava, contudo, mudando, tendo sido enunciada com sinal invertido já no início do século XVII, quando, com Hobbes, o “homem” tornou-se “uma máquina de prazer e de dor, [...] uma criatura que se volta para aquilo que lhe faz bem e se afasta daquilo que lhe faz mal” (Sahlins, 1988: 25) e, com Locke, “o sofrimento humano” converteu-se no “grande incentivo para a indústria humana” (Idem, ibidem), de tal modo que, “pela época de Adam Smith, a permanente miséria de cada um – i.e., a escassez e a necessidade – tinha-se tornado a premissa da sabedoria econômica e fonte do bem-estar nacional” (Idem, ibidem). Essa mudança de sinal, por sua vez, é inseparável da introdução e da difusão dessas novas substâncias (particularmente do açúcar, presente em praticamente todas e, de todas, a mais consumida), as quais lhe emprestaram um fundamento material ao mesmo tempo que foram, por ela, simbolicamente fundamentadas. Assim, num período da história ocidental em que “all of human society and behavior came to be perceived, popularly as well as philosophically, through the master trope of individual pleasures and pains” (Sahlins, 1996: 415), em que se procurou reduzir tudo à “simple and sad156 idea of
life as movement towards those things that made one feel good and away form those things that hurt” (Idem, ibidem), tais substâncias foram enaltecidas como sendo (e consumidas por serem) capazes de tornar “suportável a existência terrena do homem decaído”, de tornar doce uma vida percebida como amarga (Ibidem: 24-25).
Registre-se, ainda, que o aparecimento e a difusão dessas substâncias pelo mundo ocidental parecem ter-se dado, em linhas gerais, sob o modo dos processos de repetição por/da diferença analisados por Gabriel Tarde (1890). Enquanto inovações, a introdução dessas substâncias não foi obra de nenhum grande homem,
155 A propósito, veja-se o artigo em que Duarte & Giumbelli (1993) procuram “localizar as linhas que unem [as] concepções cristãs e modernas” (Ibidem: 2) de Pessoa e, com isso, “relativizar a Grande Ruptura [que teria sido produzida nos três séculos que separam o Renascimento da Revolução e originado a concepção moderna e laica de Pessoa] pela ênfase na continuidade de um princípio de classificação, de um nódulo de significação, de uma marca cultural específica como a da Pessoa cristã” (Ibidem: 29).
156 Sahlins (Idem, ibidem) afirma que essa é uma idéia triste “because anyone who defines life as the pursuit of happiness has to be chronically unhappy”.
nem resultou de um encadeamento causal racionalmente planejado; em vez disso, essas inovações se constituíram sob a forma de emergências, de virtualidades atualizadas através de encontros fortuitos e situacionais de ao menos duas séries de radiações imitativas. Ainda enquanto inovações, elas não surgiram do nada, mas da conexão de irradiações imitativas já existentes que, no entanto, se modificaram para/ao se conectarem: elas são, portanto, compostas, resultando de processos de coprodução que agenciaram elementos autóctones e exóticos. No caso que nos interessa, a introdução dessas substâncias e sua posterior difusão estão relacionadas, de um lado, com a série de radiações imitativas em torno da concepção ocidental da “pessoa como uma criatura imperfeita, com necessidades e desejos”, essa “tragédia teológica de longa data” que Sahlins dissecou em outro trabalho (Sahlins, 1996); de outro lado, com as séries de radiações imitativas em torno dos hábitos não ocidentais de consumo dessas substâncias – nos casos do chá, do café, do chocolate e do tabaco – ou das técnicas não ocidentais de sua produção – no caso do açúcar e das bebidas destiladas. E, se essas substâncias exóticas se difundem pelo mundo ocidental, que não as conhecia, ou seja, se elas se espalham nesse momento e não em outros, a partir desse lugar e não de outros, é porque elas encontraram aí uma corrente repetitiva adequada para com elas se conectar, sendo essa corrente constituída pelas alterações em curso da concepção ocidental da pessoa tradicionalmente repetida há vários séculos. A corrente em torno da concepção da existência humana como miserável se repete, portanto, mas apenas sob a condição de ser simbólica e materialmente alterada: ela só se repete, assim, na medida em que se transforma, em que se diferencia, como sugere o esquema analítico proposto por Tarde (Vargas, 2000: 192ss).