2.2. Dil Gelişim Dönemleri 8
2.2.2. Konuşma Dönemi 14
Apesar de, entre o chocolate, o café e o chá, esse último provavelmente ser aquele que há mais tempo é cultivado pelos homens, ele foi o último a se difundir pelo ocidente. Adotada pelos chineses há quase cinco mil anos, a infusão produzida com as folhas do arbusto do chá (Thea sinensis) foi inicialmente utilizada em cerimônias religiosas, tendo-se tornado uma bebida da moda na corte dos Tang, a partir do século VIIo, quando “les ‘maisons de thé’ se multiplient dans toute la Chine” (Lemps, 1996: 637). Por volta dos séculos VIIo e VIIIo, o consumo de chá se difundiu entre coreanos, japoneses, mongóis, tibetanos, tártaros e turcos (Idem, ibidem). Levado para a Europa pelos portugueses, na ocasião de suas expedições pelo
Extremo Oriente, durante o século XVI, o chá foi introduzido na França e na Inglaterra durante o século XVII. Quando as coffee houses se difundem pela Inglaterra, o chá é ainda uma simples curiosidade, tendo seu consumo se generalizado na Inglaterra a partir do início do século XVIII, quando as coffee houses começam a servir mais chá do que café (Ibidem: 638). Enquanto o consumo de chá se difundiu, ao longo do século XVIII, rapidamente pela Inglaterra, integrando-se “à la vie quotidienne au point d’être devenu un art de vivre pour tous les Britanniques” (Ibidem: 639), o hábito de beber chá permaneceu marginal na maior parte da Europa ocidental, à exceção da Rússia, onde seu uso se tornou corrente nos meios abastados ao longo do século XVIII e se popularizou durante o século XIX (Idem, ibidem; Braudel, 1979: 224). Mas a mania inglesa pelo chá foi, sem dúvida, a mais impressionante139 e, como a China permaneceu, durante todo esse tempo, como a
única produtora de chá, essa situação teve pesadas conseqüências para os europeus interessados nesse produto. Conforme Schivelbusch (1980: 81), “this supplanting of coffee by tea in England still remains an unexplained phenomenon. Surely neither a mysterious transformation in English taste – as has been proposed – nor some purely economic reason was responsible. It remains an unsolved yet fascinating problem in cultural and economic history”. Para Lemps (1996: 638-639),
l’étonnant succès du thé en Angleterre est dû, semble-t-il, à la conjonction de plusieurs facteurs favorables: le dynamisme de l’East India Company qui réalise de véritables campagnes publicitaires en faveur du thé; la coutume déjà ancienne de consommer des boissons sucrées telles que le café, les vins liquoreux; le désir de limiter l’usage de l’alcool; la baisse des prix, accélérée par la diminution des droits de douane en 1784, etc.
Num texto em que protesta contra “a idéia de que a expansão global do capitalismo ocidental, ou o chamado Sistema Mundial, fez dos povos colonizados e periféricos objetos passivos, e não autores de sua própria história, e transformou analogamente sua cultura em bens adulterados, através de relações econômicas tributárias” (Sahlins, 1988: 8; g.a.), em que examina “como povos indígenas tentam integrar a experiência do Sistema Mundial em algo que é lógica e ontologicamente mais inclusivo: seu próprio sistema de mundo” (Ibidem: 10), e em que mostra que “a presente ordem global foi decisivamente moldada pelos chamados povos periféricos, pelos diversos modos como articulam culturalmente o que lhes estava acontecendo”
139 Ao menos no Ocidente, já que, como registra Braudel (1979: 225), “o essencial, ainda hoje, situa- se na China, o maior consumidor e produtor de chá”, embora também no Japão o chá tenha-se tornado, nos termos de Braudel (Ibidem: 227), uma “bebida universal”.
(Ibidem: 11), Sahlins (1988: 12) revela, analisando o que ele chama de o “setor transpacífico do Sistema Mundial”, que,
por todo o Pacífico, mercadores ocidentais, que buscavam valor de troca, foram forçados a aquiescer a demandas locais por valor de prestígio. Mas isso se deu, em última análise, por causa de certos valores de prestígio chineses, de que estava prisioneiro todo o comércio do mundo. Desde a abertura do comércio direto com o Ocidente, no início do século XVI, os chineses não tinham ficado nada impressionados com os manufaturados europeus, nem mesmo com as últimas maravilhas da Revolução Industrial, e preferiam ficar com pouca, mas preciosa prata em troca de seus próprios bens. Além disso, durante o século XVIII, essa alergia chinesa às mercadorias européias associou-se à crescente “mania” do chá na Grã- Bretanha e em suas colônias de língua inglesa, o que resultou em um fluxo de prata em direção ao Oriente – fluxo cujos efeitos reverberavam nas minas de Potosi e, em
decorrência, no tráfico de escravos africanos140. Como se sabe, a Grã-Bretanha foi
capaz de superar essa balança de comércio desfavorável que advinha de seu hábito do chá apenas infligindo aos chineses um hábito ainda mais pesado, na forma do ópio importado da Índia – um tráfico ilegal, apoiado em 1839 por uma guerra infame.
De fato, a situação dos europeus interessados no chá da China não era, absolutamente, confortável. Não só os chineses manifestavam há longo tempo um obstinado desinteresse pelos bens europeus, como os europeus também tinham que se sujeitar aos poucos portos de comércio abertos pelos chineses (particularmente Cantão e Macau) e às inúmeras taxas e extorsões dos agentes imperiais repassadas pelos poucos mercadores chineses autorizados a comercializar o chá, além de serem “socialmente postos em quarentena e culturalmente não-apreciados” (Sahlins, 1988: 13). Ainda conforme Sahlins (Idem, ibidem),
apesar de tudo, os ingleses tinham se conformado com a situação para conseguir seda, nanquim e porcelana e, cada vez mais, por causa do chá. Em meados do século XVIII, beber chá era um hábito que, na Grã-Bretanha, se estendia a todas as
140 Essas “triangulações” comerciais não envolveram somente britânicos, chineses, peruanos, espanhóis e africanos. Conforme Sahlins (Idem, ibidem), “tendo poucos recursos desse tipo a oferecer e pouca prata, norte-americanos e australianos percorreram o Pacífico em busca de produtos aceitáveis à China: nesse contexto ocorre o comércio marítimo de peles do Noroeste americano e o comércio de sândalo e holotúria das Ilhas dos Mares do Sul”. Em todos esses casos, que envolveram povos tão diferentes, Sahlins procura mostrar que “o Sistema Mundial é a expressão racional de lógicas culturais relativas”. Daí que, se “a capacidade de reduzir propriedades sociais a valores de mercado é exatamente o que permite ao capitalismo dominar a ordem cultural [...], às vezes pelo menos, essa mesma capacidade torna o capitalismo mundial escravo de conceitos de
status, meios de controle do trabalho e preferências por certos bens, que são locais” (Idem, ibidem),
classes sociais e tinha-se tornado (nas palavras de Lorde Macartney), não somente um “luxo indispensável”, ao lado de outras chinoiseries, mas uma “necessidade vital indispensável”. A importação de chá através do monopólio da Cia. das Índias Orientais cresceu, no século XVIII, de uma média de 75.021 libras anuais, na primeira década, para mais de 20 milhões de libras anuais por volta de 1800. Assim, se o desprezo do imperador por manufaturados estrangeiros-bárbaros estava vinculado ao seu status de Filho do Céu, por outro lado, no esquema cósmico dos britânicos (como diz um historiador), “o chá era... o deus ao qual tudo mais era sacrificado”.
UM INEBRIANTE SECO
Provavelmente uma das plantas mais antigas cultivadas no “Novo Mundo”, o tabaco (Nicotiana rustica, Nicotiana tabacum) era largamente empregado (fumado, mascado ou inalado) por povos ameríndios muito tempo antes da chegada dos europeus ao continente americano. Levado por Colombo para a Europa141, “entre os
séculos XVI e XVII, [o tabaco] tomará conta do mundo inteiro, sendo o seu acolhimento ainda maior do que o do chá ou do café, o que não é dizer pouco” (Braudel, 1979: 232)142. Segundo Mintz (1985: 36), “the first crop in the New World to
win a market for itself was tobacco, an American domesticate, swiftly transformed from a rare upper-class luxury into a working-class necessity. Tobacco made headway even against royal disapproval, and became part of the consumption to ordinary folk by the seventeenth century”. A expansão social do uso do tabaco não se deu, contudo, sem sobressaltos, tendo sido inúmeras as tentativas de coibir ou limitar o seu uso. Segundo Braudel (Ibidem: 235), “os primeiros usos do tabaco são-nos conhecidos através das
141 De acordo com Rudgley (1993: 166),
Jean Nicot de Vellemain is generally credited with bringing the first tobacco to Europe when, in 1560, he brought Nicotiana rustica to he French court in the form of snuff (which, like the pipe and the cigar, was an American Indian innovation). He was in fact preceded by others, including an ex-Franciscan friar named André Thevet who had brought back tobacco seeds to France four years earlier. Being aware of the claims of his rivals, Nicot actively asserted his own case for having the new plant bear his name, and Linnaeus’ subsequent naming of the tobacco genus Nicotiana crowned Nicot’s undeserved success. 142 Segundo Braudel (Ibidem: 234),
a planta [do tabaco], cultivada na Espanha desde 1558, depressa se difundiu na França, na Inglaterra [...], na Itália, nos Bálcãs, na Rússia. Em 1575, chega às Filipinas [...]; em 1588, à Virginia [...]; ao Japão, em 1590; a Macau, a partir de 1600; a Java, em 1601; à Índia e ao Ceilão por volta de 1605-1610. Essa difusão é tanto mais notável quanto o tabaco, na origem, não tem atrás de si um mercado produtor [...] como a pimenta nos seus longínquos primórdios (a Índia), como o chá (a China), como o café (o Islã), até como o chocolate [os astecas]. O tabaco vem dos “selvagens” da América; foi, portanto, necessária a produção da planta antes de gozar os seus benefícios. Mas, vantagem única, possui uma grande facilidade de adaptação aos climas e solos mais diversos.
violentas proibições dos governos [...]. Essas proibições dão a volta ao mundo”143.
Apesar disso, Braudel (Idem, ibidem) pontua que tais proibições não tardaram a se tornar “letra morta”, tendo o emprego do tabaco rapidamente se difundido.
Contudo, durante muito tempo o emprego do tabaco fumado não esteve aberto a todos: por vários séculos, ele foi prerrogativa exclusiva dos homens, havendo ocasiões – geralmente depois do repasto –, locais – ainda no século XIX “middle-class residences [...] contained a room reserved for just this purpose, the smoking room or the study” (Schivelbusch, 1980: 125) –, e trajes adequados – “como os ingleses fizeram com o smoking” (Cascudo, 1967: 148) – para seu consumo.
A expansão social do uso do tabaco acompanhou o emprego de diferentes modos de utilizá-lo. Conforme Schivelbusch (1980: 111), “in the seventeenth and eighteenth centuries the pipe was the preferred smoking instrument. At the beginning of the nineteenth century the cigar appeared, and in the second half of the nineteenth century the cigarette – still the favorite of the three today”. Schivelbusch (Idem, ibidem) prossegue: “if we look for some concept that adequately describes this evolution, what comes to mind is acceleration. [...] In the history of tobacco use the act of smoking accelerates as the smoking process becomes simpler and shorter”144.
Schivelbusch (1980: 120) nota, ainda, que “the same process that led from the pipe
143 Conforme Braudel (Idem, ibidem), ao longo do século XVII foram baixadas leis coibindo o uso de tabaco na França, na Inglaterra, no Japão, no Império otomano, no Império mongol, na Suécia, na Dinamarca, na Rússia, em Nápoles, na Sicília, na China, entre vários outros lugares. Provavelmente, essas foram as primeiras tentativas de que se tem notícia de proibição legal e integral do emprego de alguma “droga” enquanto tal, isto é, pelos efeitos que, se acredita, ela produz.
144 Afinal, enquanto para se fumar um cachimbo é necessário um tempo considerável (não só pela parafernália e pela variedade de manipulações envolvidas, como também porque seu consumo propriamente dito costuma exigir mais tempo para ser finalizado), o tempo exigido para se fumar um charuto é menor (já que são reduzidas a parafernália e as manipulações envolvidas, bem como o tempo gasto ao fumá-lo), sendo ainda mais abreviado quando se trata de cigarros (que são menores que os charutos e vêm prontos para serem fumados). Portanto, a aceleração no ritmo de ingestão do tabaco acompanha, em linhas gerais, a do ritmo de vida moderno, marcado pelo crescente processo de industrialização. O hábito, ainda atual, do consumo de “cigarros de palha” nos meios rurais (relativamente menos sujeitos à aceleração do ritmo de vida que acompanha o processo de industrialização) serve de contraprova a esse fenômeno da aceleração do modo de ingestão do tabaco e do ritmo de vida moderno. A recente voga do consumo de “cigarros de palha” em meio urbano, que se diferencia do seu emprego nos meios rurais por, nos meios urbanos, eles serem comercializados prontos para o consumo, também pode ser pensada nos termos desse fenômeno de aceleração.
to the cigarette and to more and more drastic simplification and acceleration of smoking led also to the advance of smoking into areas where it had previously been taboo, not only into specific places and settings but also a specific segment of the population – namely, women”. Cabe notar, contudo, que, embora fumar tenha sido a forma mais popular e freqüente de consumo de tabaco, houve uma época em que essa forma não teve tanta importância: “in the eighteenth century snuff became a major cultural phenomenon”, particularmente nos meios corteses do Antigo Regime, estando seu emprego, nesse caso (ou desse modo), também franqueado às mulheres da corte145.