2. TÜRKİYE’DE RADYO
2.1 Türkiye’de Radyonun Kuruluşu ve Kullanımı
2.1.2 Tek Partili Dönemde Radyo
Antes que se adentre no estudo da saúde na Constituição de 1988, é preciso relembrar que a regulação da matéria já havia tomado relevância no direito internacional.
A esse respeito, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 já possuía previsão em seu artigo 25 de proteção do direito à saúde do ser humano e de sua família. O mesmo se diga, aliás, quanto ao Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966, que determina que os Estados forneçam às pessoas o mais elevado nível de saúde física e mental.
Como conclui Ingo Wolfgang Sarlet (2007), isto apenas revela que a Constituição de 1988 encontra-se afinada com o direito internacional. Encontra-se ainda em sintonia com as Constituições de diversos outros países, que possuem previsão expressa quanto ao direito à saúde212.
É preciso destacar, a esse respeito, que o tratamento da matéria conferido pela Constituição de 1988 é inédito, pois não havia sido incluído nas Constituições anteriores. José Afonso da Silva (2006), a esse respeito, esclarece que a Constituição anterior apenas dava à
211 ZOCKUN, 2009, p. 43-44.
212 SARLET, Ingo Wolfgang. Algumas considerações em torno do conteúdo, eficácia e efetividade do direito à
saúde na Constituição de 1988. Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado, Salvador, n. 11, set./nov. 2007. Disponível em: <http://egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/31953-37383-1-PB.pdf>. Acesso em: 30 maio 2015.
União competência para legislar sobre a defesa e proteção da saúde, como se a matéria fosse apenas de organização administrativa de combate às endemias e epidemias213.
Como se observa pela Constituição de 1988, a saúde, juntamente com a previdência e assistência social, integra o sistema da seguridade social.
Sustentam Sueli Gandolfi Dallari e Vidal Serrano Nunes Júnior (2010) que a seguridade social deverá ser financiada por recursos do orçamento de todos os entes da federação, assim como pelas contribuições sociais previstas no artigo 195 da Constituição Federal. Ademais, a seguridade social possui uma programação própria, tendo em vista que o artigo 165, §5º da Constituição estabelece que a Lei Orçamentária Anual de cada um dos entes da federação deverá possuir uma unidade orçamentária própria para a programação de receitas e despesas relativas à seguridade social214.
Prosseguindo, o artigo 196 da Constituição estabelece que “[...] a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”
Em seguida, o artigo 197 continua dizendo que, na qualidade de dever do Estado, cabe “[...] ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado”.
O primeiro ponto a ser esclarecido é sobre o que significa dizer que a saúde é um direito de todos e dever do Estado. Este dispositivo leva primeiramente à ideia de acesso universal e igualitário da saúde para todos.
Contudo, o artigo 5º, “caput”, da Constituição, afirma que os direitos e garantias nela previstos pertencem aos cidadãos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país. Então, eventual interpretação restritiva do referido dispositivo poderia levar à conclusão equivocada de que o acesso à saúde não poderia ser garantido aos estrangeiros não residentes no país.
Todavia, estamos alinhados com a posição de Ingo Wolfgang Sarlet (2007) no sentido de que, ainda que existam direitos fundamentais de titularidade restrita (como os políticos), o caso da saúde é uma exceção à regra, o que fica reforçado pela dicção do artigo
213 SILVA, 2006, p. 309. 214 DALLARI, 2010, p. 65.
196, que faz questão de frisar que a saúde é direito de todos, ou seja, não se submete ao art. 5º, “caput”215.
Outrossim, é certo que a saúde, por ter ligação direta com o direito à vida e à integridade física, não pode sofrer limitação, pois pertence a toda pessoa humana, sendo brasileira ou não. É de se notar ainda que, como exposto anteriormente, o direito à saúde é garantido a todo ser humano por meio de normas internacionais, as quais foram internalizadas pelo Brasil. Além disso, a Constituição, em seu art. 4º, inciso II dispõe que o Brasil, em suas relações internacionais, irá se reger pela prevalência dos direitos humanos216.
Além do mais, a garantia da saúde não consiste apenas no dever do Estado, mas da própria sociedade. Nesse sentido, é o entendimento de Sueli Gandolfi Dallari e Vidal Serrano Nunes Júnior (2010) que afirmam que isto implica que, na garantia do direito à saúde, deverão ser envolvidas todas as instâncias da administração pública, direta e indireta, além de todos os entes da federação, as empresas, organizações sociais, sindicatos e cidadãos de modo geral217.
Significa ainda, como não poderia deixar de ser, que os particulares também não poderão violar a saúde alheia, atentando contra a integridade física e moral de outros seres humanos. O ser humano não poderá atentar, ainda, contra a sua própria saúde, de caráter irrenunciável218.
A saúde é, ainda, um direito a ser garantido gratuitamente, pois é fornecido pelo Estado. Ou seja, como ensinam Sueli Gandolfi Dallari e Vidal Serrano Nunes Júnior (2010), fica proibida qualquer forma de cobrança dos usuários de ações, serviços e equipamentos públicos de saúde. A Constituição prevê, contudo, a possibilidade de cobrança de taxas para remuneração de certos serviços públicos, a exemplo daquelas cobradas em virtude do poder de polícia sanitária219.
Outra característica do direito à saúde, previsto na Constituição, é a da integralidade, a qual significa que todas as medidas para a preservação da saúde deverão ser tomadas em sua completa extensão. Isto é, o dever do Estado não poderá ser limitado, mitigado ou dividido, pois o direito à saúde merece uma abordagem integral220.
Carolina Zancaner Zockun (2009) esclarece sobre este ponto que, na busca pela integralidade, a Constituição dá prioridade às atividades preventivas, razão pela qual o Estado,
215 SARLET, 2007. 216 Ibidem, 2007.
217 DALLARI, 2010, p. 64. 218 SARLET, op. cit. 219 DALLARI, op. cit., p. 74. 220 DALLARI, 2010, p. 75.
além de sempre proporcionar qualquer tratamento adequado para qualquer problema de saúde, deverá atuar prioritariamente na prevenção de doenças221.
Em outras palavras, a Constituição deixa claro que a saúde não constitui apenas algo que deve ser garantido pelo Estado, mas pode e deve ser exigido pelo cidadão, posto consistir em seu direito público subjetivo. E mais: a saúde será fornecida pelo Estado ou por terceiros.
Como exposto acima, na qualidade de direito social, a saúde também foi agraciada com estratégias de positivação para a sua garantia. Desta feita, a saúde na Constituição, além de ser tratada como norma programática, também é tratada como direito público subjetivo.
Este é o entendimento de Vidal Serrano Nunes Júnior (2009), para quem, ao tratar a saúde de forma mais minuciosa na Constituição, garantindo assim um direito público ao cidadão, e delineando os meios para o Estado garanti-lo, o diploma maior o fez propositalmente por meio de normas de eficácia plena (sem a necessidade de lei). E isto foi feito intencionalmente pelo constituinte para deixar fora dos debates políticos e disputas partidárias os direitos que são essenciais à manutenção da dignidade da pessoa humana222.
O grande problema é que a constituição não define, exatamente, com contornos claros qual é o objeto do direito à saúde. Em outras palavras, não se sabe se a saúde a ser garantida pelo Estado se restringe a um mínimo vital ou se abarca toda e qualquer prestação relacionada ao direito à saúde.
Diante desse questionamento, Ingo Wolfgang Sarlet (2007) entende que quem irá definir o limite da prestação a ser garantida em matéria de saúde é o legislador federal, estadual ou municipal. Por outro lado, o Poder Judiciário, quando acionado, é que irá cumprir a tarefa de estabelecer o limite do direito à saúde no caso concreto223.
Seja como for, as questões relacionadas ao limite de garantia do direito à saúde irão ser analisadas sob a ótica de institutos criados pela doutrina e jurisprudência, que foram importados para o direito brasileiro, tais como a proibição do retrocesso, o mínimo vital e a reserva do possível. Todos estes conceitos se referem a formas de garantir condições de saúde que possibilitem uma existência digna, mas que, ao mesmo tempo, viabilizem a alocação de recursos escassos. Eles serão melhores tratados a seguir.
221 ZOCKUN, 2009, p. 72.
222 NUNES JÚNIOR, 2009, p. 123.
Por ora, cabe apenas esclarecer que a saúde não pode ser tratada isoladamente, mas deve ser considerada juntamente com outros fatores determinantes e condicionantes, tais como a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais, previsto no artigo 3º da Lei nº. 8.080 de 1990.224
Por fim, o artigo 199, “caput”, da Constituição, estabelece que “[...] a assistência à saúde é livre à iniciativa privada [...]” e o §1º define que “[...] as instituições privadas poderão participar de forma complementar do sistema único de saúde, segundo diretrizes deste, mediante contrato de direito público ou convênio, tendo preferência as entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos [...]”.
Nesse sentido, cabe esclarecer que há a iniciativa privada dentro e fora do SUS. Dentro do SUS, como esclarecem Sueli Gandolfi Dallari e Vidal Serrano Nunes Júnior (2010), a iniciativa privada atuará de forma complementar, interferindo apenas quando houver a necessidade de preencher espaços para que o atendimento seja estabilizado. O que significaria que a saúde pública deverá ser promovida prioritariamente pelo Estado225.
Isto não é o que ocorre, todavia, com a iniciativa provada fora do SUS. Neste caso, não houve restrição da Constituição. Por esta razão, Sueli Gandolfi Dallari e Vidal Serrano Nunes Júnior (2010) entendem que a iniciativa privada poderá prestar os serviços de saúde em seus mais distintos níveis de complexidade226.
Este fato não exclui, contudo, a intensa fiscalização por parte do Estado sobre os serviços de saúde prestados pela iniciativa privada, sobretudo porque possuem relevância pública. Quanto aos planos de saúde privados, serão fiscalizados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar227.