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Tehafütlerde Allah’ın İlm

TEHAFÜT GELENEĞİNDE İLAHİ BİLGİ PROBLEMİ

1. Tehafütlerde Allah’ın İlm

O governo do Estado de São Paulo, em meados da década de 1950, propôs parcerias com as administrações municipais, a fim de empreender ações de planejamento urbano e rural, nessas localidades, expressas pelos diagnósticos e diretrizes contidos nos Planos Diretores. Para a elaboração desses documentos, contou-se com os serviços técnicos do Centro de Pesquisa e Estudos Urbanísticos da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP). A preparação desses Planos revelou a necessidade de conhecimento das condições locais e a regulamentação das ações, nesse âmbito, para uma melhor articulação entre os municípios e as regiões onde se localizam, a dinamização econômica e a organização espacial. Ao longo do tempo, parece visível que tais prescrições tiveram pouca acolhida nas práticas administrativas locais posteriores.

14 CUÉLLAR, Javier Pérez de (Org.). Nossa diversidade criadora: Relatório da Comissão Mundial de Cultura e

Desenvolvimento. Trad. Alessandro Warley Candeas. Brasília: Ministério da Cultura; UNESCO; Campinas: Papirus, 1997. p. 277.

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Entretanto, as formulações contidas nesses primeiros documentos nos dão algumas indicações sobre o processo de gestão das áreas urbanas e rurais desses municípios, em geral, de pequeno porte, em um período de crescente urbanização.

Particularmente, com relação ao município de Santa Rita do Passa Quatro, durante as pesquisas para subsidiar a elaboração desse Plano Diretor, entre os anos de 1958 e 1959, os planejadores não vislumbraram qualquer possibilidade de desenvolvimento industrial consistente para essa localidade. De saída, propuseram a preservação de sua produção agrícola e o fomento ao comércio no setor urbano. Para incentivar este último, a proposta fora estimular o turismo pelas potencialidades paisagísticas que possuía o município.

Analisando os chamados “equipamentos sociais” da área urbana, observaram a inexistência de espaços específicos para atividades culturais e, em tópico sobre “monumentos históricos”, nada consideraram de significativo valor que merecesse visita. Entretanto, salientaram que, “com as peças históricas das Fazendas Vassununga e Paulicéia, seria possível montar um museu. No entanto, não há o menor movimento nesse sentido”16. Tal constatação, entretanto, não se traduziu em proposta no texto do referido Plano. Por ora, notemos a percepção sobre espaços, atividades e bens de valor histórico e cultural dos planejadores desse documento: orientada pelo atrativo à visitação. Diante disso, as paisagens naturais foram bastante exaltadas.

Cabe destacar que, nesse período, a noção de patrimônio está estreitamente ligada às formas arquitetônicas, de maneira que a ampliação das discussões sobre esse conceito se daria apenas em meados da década de 1970, passando a abranger outros objetos e apontando para o conjunto da cultura material. Segundo a historiadora Marly Rodrigues, “isso abriria as possibilidades de estender a proteção oficial para áreas naturais e urbanas de porte, bem como para a consideração da memória social como um dos vetores envolvidos na preservação de artefatos materiais”17, já no âmbito do CONDEPHAAT, órgão criado em 1969 e vinculado à então Secretaria da Cultura, Turismo e Esportes do Estado de São Paulo.

Quanto às áreas naturais, estiveram em evidência no tópico sobre os chamados “Sítios pitorescos”, como atrativos turísticos, tanto na zona urbana quanto na rural. Em particular, procedeu-se à indicação para a constituição de três grandes áreas naturais públicas voltadas à

16 PLANO DIRETOR do Município de Santa Rita do Passa Quatro-SP. op. cit., f. 80.

17 RODRIGUES, Marly. Imagens do passado: a instituição do Patrimônio em São Paulo (1969 – 1987). São

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atração turística, sendo propostas a criação de duas represas, uma em área ocupada por formação de Cerrado, ao norte do município, aproveitando as águas dos rios Bebedouro, Sucuri e das Pombas, considerada de execução econômica pela conformação do terreno, acrescentando-se referência a “toda a fascinação do cerrado, abundante em caça e belezas naturais”18. A outra represa visava a valorizar a região do então distrito de Jacirendi – atual Santa Cruz da Estrela – localizado a sudoeste no município, tentando-se assim assegurar sua continuidade. Contudo, nenhuma dessas propostas configurou-se em prática.

Todavia, a represa do rio Bebedouro esteve, desde então, presente no discurso político de vários candidatos ao Executivo e Legislativo municipal, aparecendo novamente como proposta no Plano Diretor de 2006, agora, para prática de esportes aquáticos e futura fonte de captação de água para abastecimento da cidade19. O emprego da proposta de construção dessa represa, por candidato ao Executivo nas eleições municipais de 2004, conduziu a oposição a encomendar laudo sobre os impactos ambientais que esta causaria, caso fosse realizada, influindo diretamente no Parque Estadual de Vassununga, por meio da gleba Capetinga Leste, que tem divisa nesse rio20.

A outra proposta de área natural a tornar-se patrimônio público, feita pelo primeiro Plano Diretor, constituir-se-ia sobre remanescentes de florestas existentes na fazenda Córrego Rico, de propriedade da Companhia Usina Vassununga. Tais remanescentes corresponderiam, em parte, aos mesmos que foram decretados constituintes do PEV, em 1970, abrangendo, na verdade, uma área maior, que foi rapidamente desmatada.

Levando-se em consideração o fato de já haver sido cogitada a desapropriação por parte do Governo do Estado, da reserva florestal da Fazenda Córrego Rico, aproveitou-se a existência de outras matas próximas, para se criar uma reserva florestal de grandes proporções, unindo-se todas as áreas verdes próximas, conseguindo-se assim um motivo de grande atração turística natural, margeando boa parte do rio Mogi-Guaçu21.

18 PLANO DIRETOR do Município de Santa Rita do Passa Quatro-SP. op. cit., f. 31.

19 Cf. PLANO DIRETOR do Município de Santa Rita do Passa Quatro. In: Jornal Oficial do Município de Santa

Rita do Passa Quatro. Santa Rita do Passa Quatro, ano I, n. 06, 10 out. 2006, p. 02-28. Também encontra-se

para consulta on line, disponível em: www.santaritadopassaquatro.sp.gov.br/planodiretor/planodiretor.htm . Acesso em 15 abr. 2007.

20 Cf. Xinguí, um sonho impossível de se realizar. Gazeta de Santa Rita, Santa Rita do Passa Quatro, ano XXX

n. 1410, p. A-5, 02 out. 2004.

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Deixemos evidente que tal proposta para a criação de uma Reserva Florestal naquela área não constitui a “origem” do Parque Estadual de Vassununga, nem configura uma preocupação ambientalista presente no município desde aquele período, como se tem interpretado22. O que a torna relevante para nós referida proposta é a indicação da existência de uma área florestal maior do que a encontrada, em 1970, e o conhecimento – e possível interesse – por parte do governo estadual naquela área, o que, neste caso, ajuda a compreendermos a ação do Estado no momento da falência da Companhia Usina Vassununga, em trocar seus créditos pelos remanescentes florestais.

Para visualizarmos a proposta mencionada, reproduzimos a seguir o mapa do município, com a indicação das três áreas naturais que seriam destinadas a constituição de patrimônios públicos (Imagem 11), as quais correspondem: 1) a área escura ao norte, representando o lago que se formaria com o represamento do ribeirão Bebedouro; 2) a área escura situada a sudeste representaria o outro lago, formado pelo represamento próximo às nascentes do ribeirão Claro, na região do atual distrito de Santa Cruz da Estrela; 3) a área destacada em vermelho corresponderia aos remanescentes de Floresta Estacional Semidecídua, encontrados junto à margem do rio Mogi-Guaçu, de propriedade da Companhia Usina Vassununga. Na área central do mapa aparece a localização da cidade de Santa Rita do Passa Quatro.

22 Referimo-nos ao momento particular em que convergiram, entre os anos de 2005 e 2006, os trabalhos de

levantamentos científicos para subsidiar a elaboração do Plano de Manejo para o PEV e do novo Plano Diretor para o município de Santa Rita do Passa Quatro, onde a proposta citada foi incorporada nos discursos, por um lado, como indício da origem do PEV, e, por outro, afirmando uma consciência ecológica histórica no município.

São Simão

Luis Antonio

Santa Rosa de Viterbo

1

Tambaú

Rio 2 Mogi-Guaçu

Sta Cruz

das

Palmeiras

Descalvado Porto Ferreira

Imagem 11 - Proposta do Plano Diretor (1960) para Planejamento Rural do Município de Santa Rita do Passa Quatro, com criação de áreas naturais públicas.

Fonte: PLANO DIRETOR do Municipio de Santa Rita do Passa Quatro. op. cit., f. 88. Editado por Carlos Alberto Menarin

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Destacamos a proposta da Reserva Florestal, por corresponder às glebas Capetinga,

Praxedes e Maravilha, que constituíram o PEV, em 1970. Por essa representação, é possível

identificar que a superfície coberta pela mata se estende, mantendo interligadas as áreas do que serão as glebas Capetinga e Praxedes. Se compararmos essa representação com as representações da ocupação da região (apresentadas no Capítulo 1, particularmente a Imagem 6), em 1962, a extensão e as florestas que interligavam essas glebas já não existiam mais. Nesse sentido, a mudança no traçado da rodovia Anhanguera, ocorrida em 1959, atravessando aqueles remanescentes de floresta, parece ter corroborado a rápida ocupação. Na imagem anterior que utilizamos do Plano Diretor já aparece o novo traçado.

Nota-se logo que essa tentativa de organização de áreas naturais públicas está voltada, prioritariamente, para a recreação e o turismo, mediados por paisagens pitorescas, como meio de dinamizar a economia local. A natureza aparece como o móbil ao turismo e este como vetor para o desenvolvimento local. Nesse sentido, ocorre certa predominância em ressaltar aspectos naturais em detrimento de aspectos históricos ou culturais, no sentido de que a vinculação dessas categorias à demanda turística necessita eleger bens que transcendam a relevância local para associá-los a contextos mais amplos – como peças ligadas à escravidão, por exemplo. Nesse sentido, a natureza desde o século XIX figura como um dos elementos definidores da identidade nacional, apresentando reconhecimento geral, de sorte que suas singularidades locais ganham apreço.

Sob este ponto de vista, desenvolvem-se as propostas daquele Plano Diretor, elegendo o turismo como caminho que conduzirá ao desenvolvimento, ainda que considerem imprescindível a tomada de medidas pela administração municipal, pois os atributos naturais, por si mesmos, não seriam capazes de tornar o município uma estância turística. A busca por esse ideal turístico permeia o imaginário social e o discurso dos grupos políticos até a atualidade. Na mídia local, é sublinhada como a “vocação” desse município, desde a década de 1960, por suas belezas naturais, como as cachoeiras e o Jequitibá-rosa, e sua importância cultural, por ser a cidade natal do músico e compositor José Gomes de Abreu. De saída, percebemos que, na procura por fomentar o turismo, buscam-se os pontos mais singulares que identificam o município, caso comportem um reconhecimento mais geral possível. Essa postura praticamente inviabiliza a organização de acervos patrimoniais alheios a essas características. E tal vinculação, de possíveis bens a serem protegidos, à demanda por turismo,

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enquanto propugnador do desenvolvimento local, faz-se presente nesse município, ainda na atualidade.

Conforme nos referimos anteriormente, a análise sobre a perspectiva da formação de um patrimônio histórico, a partir de peças da fazenda Córrego Rico, surgiu como desdobramento da pesquisa. Foi durante o processo de falência da Companhia Usina Vassununga que despontou tal possibilidade, bem como transcorreu a criação do Parque Estadual de Vassununga e da Estação Biológica de Mangaíba. Portanto, apresentaremos, no tópico seguinte, uma breve exposição sobre as condições gerais dessa Companhia e seu processo de falência, para melhor compreendermos algumas discussões entabuladas acerca desses patrimônios, em particular, na constituição de acervo para o Museu Histórico e Pedagógico “Zequinha de Abreu” e, principalmente, a proteção das áreas naturais mencionadas, questões que examinaremos em seguida.