• Sonuç bulunamadı

ed-Dumû‘u’l-harsâ’ (Sessiz Gözyaşları)

MUHAMMED ABDULHALİM ABDULLAH’IN HİKÂYELERİNDE KAHRAMANLAR

10. ed-Dumû‘u’l-harsâ’ (Sessiz Gözyaşları)

Comumente não cantamos no púlpito como na cena, e quais são as diferenças que distinguem esses dois modos de cantar? Quais são os caracteres da música mais suscetíveis a essas dife- renças? Esse é o objeto de nossas pesquisa neste capítulo.

Cantando no púlpito damos à música toda sua expressão natural, toda aquela que concerne propriamente o estilo e que constitui o que ela de fato é, suprimimos a expressão declama- tória porque, ligando-se à ação e à representação, ela deve de- saparecer com o aparato do teatro. Uma ária, passando da cena ao púlpito, faz, portanto, o que faz o próprio cantor: tira seu traje teatral e se mostra sob uma vestimenta comum. Em que consiste esse ornamento que a música empresta da declamação? Consiste na alteração da voz, no gesto e na expressão facial,

sendo que estas duas últimas partes pertencem unicamente à declamação, o que nos dispensa de falar sobre isso. mas, como a alteração da voz não pode ser independente da arte dos sons, convém dizer algumas palavras a seu respeito.

Não falamos nunca como cantamos. a emissão da voz, em seus dois procedimentos do órgão, não é a mesma,37 pois o canto

exige sons homogêneos, que têm um mesmo corpo de voz. a declamação segue menos severamente esse princípio, uma vez que ela permite às paixões alterar ou desnaturar o som da voz para torná-la expressiva. o cantor deve sempre manter a sua voz

melódica e não tem o direito de fugir a esse princípio, assim

como os instrumentos não têm direito de tirar um som fatigado e vicioso para exprimir os sentimentos afetados e penosos. No tea- tro lírico, no qual a música e a declamação se reúnem, é necessá- rio que os dois princípios opostos se combinem e se modiiquem uns ao outros. a música admite, portanto, alguma alteração na voz. o ator a torna, em vários momentos, menos melódica e mais declamatória, ele exagera também a expressão natural do canto, adequando-o ao gesto, aos olhares e aos movimentos que o acompanham. Ele anima e exalta a melodia em cena mais do que no concerto, tal é a inluência da declamação sobre o can- to. mas nem todos os caracteres do canto recorrem igualmente a essa expressão emprestada de outra arte. Uma ária graciosa, uma ária suave, é cantada no púlpito do mesmo modo que no teatro. se quiser, pode tirar a prova com a primeira ária de Colonie e com as árias que indicarei: Eu nunca amei com ternura a vida. É o

amor que cuida. Ah! que tormento ser sensível. Amor, amor, qual é ainal tua potência?, entre outras. ao contrário, as árias Eu perdi minha Eurídice, a de alceste, Dilacero-me e arranco meu cora- ção. Eu me reconheço, da Ópera de Roland; a reprise viva do duo

de silvain, entre oturas, todos esses trechos recebem, no teatro, 37 Veja aristoxeno e todos os músicos gregos. Veja também a obra intitulada Méca-

uma expressão mais forte e mais patética, que emprestam da de- clamação. Todos esses trechos pertencem ao gênero vivo, forte e

ruidoso, e é sobre esse caráter, menos determinado que os outros,

que a declamação exerce, mais facilmente e de modo absoluto, seu poder; quanto menos nele encontrar uma signiicação positi- va, mais chance terá de lhe atribuir uma, acidental e casual.

Um dia, airmei que, de uma ária ininitamente patética no teatro, poder-se-ia fazer uma peça de cravo charmosa, mas que seria apenas viva, espiritual e animada, mas não acreditaram em minhas palavras; todos os que me ouviam, ainda impregna- dos pela emoção trágica que a ária lhes havia causado, não acre- ditavam que pudessem ouvi-la com um prazer despojado dessa agitação patética. Chegou então um homem, com um reco- nhecido talento para o cravo, que executou o que eu propunha e conseguiu o efeito que eu havia anunciado. Esse fato nada prova contra a referida ária, nem contra o autor, nem mesmo contra a arte. a ária em cena é tão patética quanto pode sê-lo, e o autor é um homem de gênio que viu, na melodia de sua ária, toda a expressão declamatória à qual ela é suscetível. Eh! Que prejuízo poderia causar à arte o fato de que uma peça plena de agitação e de delírio no teatro, seja, em um aposento, uma peça charmosa de cravo? Uma tal melodia assemelha-se a um ator inteligente que multiplica sua função e interpreta diferentes papéis: é Garrik, disputado pela tragédia e pela comédia que, ao mudar de máscara e de vestimenta, serve muito bem tanto a uma quanto a outra.

Familiarizemos o leitor com essa ideia de que o mesmo canto pode emprestar da declamação diferentes expressões quase con- trárias uma à outra: eh! é isso que acontece com as frases do dis- curso. a ironia faz que se pronuncie as palavras com um sentido contrário ao que elas possuem: Kain, no quinto ato de Zaïre, ao dizer: “eu não estou nem um pouco agitado”, pelo prestígio da declamação, dizia efetivamente: “eu me encontro na maior agi- tação”. mas se a declamação pode extrair das palavras o sentido

que lhes é inerente e lhes atribuir um sentido contrário, por que, sobre simples sons, terá ela uma eicácia menor?

aprenda, portanto, caro leitor, a não ser mais enganado por todas as críticas ditadas pela ignorância e pela má-fé. “Tal ária é ruim”, dizem, “pois não posso aplicar-lhes outras palavras além das que nela se encontram.” mas não existe ária viva, forte e rui-

dosa (exprimindo o ódio, a raiva, o desespero, todos esses senti-

mentos dolorosos e antilíricos), que não possa ser despojada de tal expressão e revestir-se de outra. Não atormente vosso espíri- to para contrariar vossos prazeres e não combatei vossas sensa- ções por meio de soismas, visto que tal ária no teatro vos penetra com paixões turbulentas e impetuosas, e o músico que opera tal prodígio é um mágico cuja arte vos deve ser cara e preciosa, pois nem todos possuem essa arte tão difícil.

Não é a apenas a tragédia que associamos ao canto; o cômi- co e o bufo também podem ser cantados e, tanto nesses gêneros quanto no patético, a declamação ajuda a música com seus meios e lhe empresta sua expressão.

o autor de La Serva Padrona dava a seu músico uma missão difícil de realizar, prescrevendo-lhe a expressão da impaciência de um homem que espera.38 Como quereis que a música atinja

essa expressão? Que meios ela possui para consegui-lo? o músi- co criou uma ária viva e não podia fazer nada além exprimir isso.

Esse caráter, como dissemos, é suscetível a diversas interpre- tações. a declamação lhe empresta o caráter da impaciência e demonstra esse sentimento pela interpretação do ator.

o autor da charmosa ópera-cômica de Rose & Colas quis que seu músico exprimisse a ironia, sentimento cuja linguagem não é falada pela música. a declamação corrige aquilo que ela não pode fazer, mas conta com algum talento de expressão que o ator coloca na ária: Ah! que dor, cantado vivamente; o ouvido musical

sente, pelo caráter da melodia, que a ária teria ganhado algo caso tivesse sido cantada com um sentido positivo, sem ironia e com menos velocidade.

Falarei dessas imitações bufas que a declamação acrescenta algumas vezes à música, como rir ou bocejar ao cantar, ou ain- da contrafazer o tom quebrado ou o caráter jocoso e ridículo de um velho, entre outras coisas. submeter a música a tais provas é caricaturá-la é desigurar a melodia, é depravá-la pelo bem da imitação, é querer que um belo rosto se pareça com o que há de mais abjeto. sacrifícios muito cruéis podem ser feitos, eventual- mente, em favor da verossimilhança teatral, e repeti-los com fre- quência seria abuso. Tente fazer, em um concerto, essas grotescas modiicações do canto; elas soarão a monstruosa decomposição desse canto, e não será possível sustentá-las. Que este exemplo acabe de nos convencer que não se canta no púlpito como se canta em cena. mas que me expliquem como os declarados partidários da melodia, que nas guerras musicais se batem em seu nome e ex- cluem do gênero trágico tudo que tende à expressão mais verda- deira a despeito (dizem eles) da graça e da unidade exigidas pela melodia, que me expliquem, repito, como melodistas tão delica- dos e tão escrupulosos aplaudem com entusiasmo representações cômicas, nas quais a melodia é completamente desigurada para que se torne imitativa e substitui suas graças naturais por ignó- beis simulações? Tais julgamentos são emitidos de boa-fé?

Capítulo XX

Respostas a diversas questões relativas