• Sonuç bulunamadı

Marifet, tasdik, ikrar ve kalb fiil

MÜRCİE'DE FARKLI İMAN TANIMLAR

3. MÜRCİE'NİN İMAN TANIMLAR

3.2. Mürcie’ye Atfedilen Diğer İman Tanımları 1 Marifet, Kalp Fiilleri ve İkrar

3.2.2. Marifet, tasdik, ikrar ve kalb fiil

Em princípio, procuraremos explicitar rapidamente, neste tópico, a noção de Patrimônio Ambiental aqui usada. Essa opção mostrou-se necessária, por observarmos, tanto em literatura científica, como na mídia, a utilização corrente de dois termos para designar áreas naturais protegidas, aparecendo ora como Patrimônio Natural, ora como Patrimônio Ambiental. Seriam sinônimos ou categorias distintas? Não é tarefa fácil definir satisfatoriamente esses termos. Longe de propormos uma conceituação definitiva, apresentaremos apenas a nossa posição quanto ao emprego do adjetivo ambiental para a categoria de patrimônio referente a bens do meio natural em questão neste trabalho. Evidentemente que, ao fixarmos nossa opção, nós o fazemos em função de uma distinção entre as duas possibilidades. O que então diferirá o Patrimônio Natural do Ambiental, que justificaria a utilização deste último, neste trabalho? Vejamos.

No âmbito da bibliografia consultada, no que se refere ao termo Patrimônio Natural, identificamos uma vinculação desse termo ao Patrimônio Cultural. Particularmente, referimo- nos ao artigo da historiadora Silvia Helena Zanirato, em co-autoria com o geógrafo Wagner Costa Ribeiro3, publicado no dossiê “Cultura e Natureza” da Revista Brasileira de História, em 2006. De início, é importante frisar que concordamos com esses dois pesquisadores no sentido de que, a discussão integrada sobre ambas as categorias de patrimônio revelaria o amadurecimento do próprio conceito de patrimônio4.

Esses pesquisadores partem do conceito abrangente de Patrimônio Cultural para equacionar os bens de caráter natural, utilizando a designação Patrimônio Natural, definindo-o como “uma área natural apresentando características singulares que registram eventos do

3 Cf. ZANIRATO, Silvia H.; RIBEIRO, Wagner C.. Patrimônio Cultural: a percepção da natureza como um bem

não renovável. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 26, n. 51, p. 251-262, jan./jun., 2006.

89 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.

__________________________________________________________________________________________

passado e a ocorrência de espécies endêmicas”5. Sua relevância consistiria em “permitir o reconhecimento da história natural e, também, para que se possa analisar as consequências que o estilo de vida hegemônico pode causar na dinâmica natural do planeta”6. Tal patrimônio, portanto, seria conservado à luz da ciência,

[...] menos por permitir uma identidade a quem nele vive, mas sim pelos atributos que lhe conferem beleza cênica, a possibilidade de novas experiências e a busca de informação genética. Ou seja, a conservação de áreas naturais ainda obedece a visão utilitarista, que predomina na sociedade capitalista7.

Entretanto, sem desmerecer a conceituação dada acima, no que diz respeito ao predomínio da visão utilitarista acerca da proteção dos bens naturais, essa definição de Patrimônio Natural nos parece um tanto circunscrita a áreas de características naturais nativas, dificultando, por exemplo, sua aplicação a ambientes naturais modificados, como as áreas verdes urbanas.

A geógrafa Simone Scifoni8 é tributária da mesma noção. Ressaltamos o trabalho dessa pesquisadora, ao analisar os processos de tombamento de áreas do litoral norte paulista, constatando a relação funcional em que essa prática está ligada ao processo de valorização da área como um espaço para atender aos interesses da capital paulista e do capital privado. Valendo-se da análise de grande documentação e da experiência profissional junto ao CONDEPHAAT, trabalha com a categoria de Patrimônio Natural também como um desdobramento do Patrimônio Cultural.

Cotejando esses dois trabalhos, encontramos um traço comum no que se refere à criação do Patrimônio Natural: o processo de tombamento, um expediente característico da política cultural; não se trata, portanto, de uma formulação derivada de uma política ambiental. Essa perspectiva do tombamento aparece na legislação brasileira desde a década de 1930, com o Decreto-Lei 25 que se propõe organizar a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, conforme aparece em seu artigo 1º, parágrafo 2º:

5 ZANIRATO, Silvia H.; RIBEIRO, Wagner C.. Patrimônio Cultural: a percepção da natureza como um bem não

renovável. op. cit., p. 256.

6 Ibid., 7 Ibid., p. 261.

8 Cf. SCIFONI, Simone. A construção do Patrimônio Natural. 2006. Tese. (Doutorado em Geografia).

90 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.

__________________________________________________________________________________________

Equiparam-se aos bens a que se refere o presente artigo e são também sujeitos a tombamento os monumentos naturais, bem como os sítios e paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou agenciados pelo indústria humana.9

Nota-se de saída a predominância do elemento estético como norteador do critério de escolha para proteção, perfeitamente compreensível para a época em que foi redigido. Contudo, no tocante às áreas florestadas, nessa mesma década, era o Código Florestal o instrumento mais abrangente para a regulação do uso desses recursos naturais.

O expediente de tombamento ainda foi referendado como instrumento de proteção de áreas naturais por organizações internacionais, sendo a mais conhecida a UNESCO. Organizada por essa instituição, a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial,

Cultural e Natural, realizada em 1972, na cidade de Paris, tornou-se referência, e

encontramos aí, talvez, o principal elemento a reforçar a utilização do termo Patrimônio Natural. Para aquela comissão, seriam considerados Patrimônio Natural

[...] os monumentos naturais constituídos por formações físicas e biológicas ou por conjuntos de formações de valor universal excepcional do ponto de vista estético ou científico; as formações geológicas e fisiográficas, e as zonas estritamente delimitadas que constituam habitat de espécies animais e vegetais ameaçadas de valor universal excepcional do ponto de vista estético ou científico; os sítios naturais ou as áreas naturais estritamente delimitadas detentoras de valor universal excepcional do ponto de vista da ciência, da conservação ou da beleza natural.10

Dessa estreita vinculação com o universo das políticas culturais geridas no âmbito da UNESCO, e mesmo anteriormente e fora dela, sobressai a noção de Patrimônio Natural como monumento de características singulares que deve ser protegido, articulado a uma concepção de paisagem como um retrato do passado. Essa percepção parece vincada pela idéia preservacionista presente nesse momento, no âmbito das decisões da UNESCO, conforme

9 BRASIL. Decreto-Lei n. 25, de 30 nov. 1937. Organiza a Proteção do Patrimônio Histórico e Artístico

Nacional. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/Decreto-Lei/Del0025.htm. Acesso em: 24 abr. 2008

10 UNESCO. Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural. Disponível em:

91 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.

__________________________________________________________________________________________

apontou McCormick11. Devemos considerar que a proteção de áreas naturais, para os preservacionistas, significava minimizar ao máximo as interferências causadas pelas ações humanas sobre a dinâmica natural do meio ambiente, por meio do afastamento completo da ocupação daquelas áreas, preservando intactos aqueles remanescentes naturais.

Ressaltamos que não é nosso objetivo criar campos opostos. Usaremos a expressão Patrimônio Ambiental, por entendê-la mais abrangente, captando, ou mesmo explicitando, relações mais dinâmicas entre o meio natural e o social. De maneira sintética, a historiadora Marly Rodrigues parte da seguinte idéia:

[...] as condições ambientais se configuram segundo os fazeres sociais de cada época. São eles que dão historicidade às paisagens, isto é, submetem- nas a um processo de contínua transformação. O meio ambiente, portanto, faz parte do patrimônio cultural, daquilo que herdamos dos que nos antecederam.12

Notemos que o meio ambiente também aparece vinculado ao Patrimônio Cultural, mas a relação aqui é marcada pela dinâmica, pela transformação. A paisagem não é mais a do pitoresco a ser preservado como resquício de um passado estanque, mas a do contínuo movimento, de sorte que, agora, o meio ambiente é concebido como aquilo que herdamos das formações sociais que nos antecederam, e não apenas como as formações naturais que existiram. Partindo dessa concepção, é importante levar em conta que “o processo estabelecido entre uma comunidade humana e o seu ambiente é dialético: toda prática social tende a modificar (ou a adaptar-se a) um ecossistema do qual faz parte o grupo que a exprimiu”13. Dessa forma, a noção de Patrimônio Ambiental aqui sugerida aparece alinhada à dimensão social, em sua dinâmica histórica, ou seja, aponta para as relações entre sociedade e ambiente, no espaço e no tempo.

Com base nesse panorama, podemos pensar que o Patrimônio Ambiental, muito mais que conservar aspectos de ecossistemas ameaçados, revela, sob uma perspectiva diacrônica, a dinâmica de interações entre as formações sociais e o meio, interações que, com diferentes intensidades e contextos, promoveram a fragmentação de ecossistemas, a elevação de alguns

11 Cf. McCORMICK, John. Rumo do paraíso: a história do movimento ambientalista. op. cit., 1992.

12 RODRIGUES, Marly. Um rio, uma história. In: MOGI-GUAÇÚ: o curso de um rio. op. cit., p. 82.

13 Cf. BRUN, Bernard; LEMONNIER, Pierre; RAISON, Jean-Pierre; RONCAYOLO, Marcel. Ambiente. In:

ROMANO, Ruggiero (Dir.). Enciclopédia Einaudi. Trad. Irene Gil. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1986, v. 08, p. 21.

92 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.

__________________________________________________________________________________________

desses remanescentes à própria condição de patrimônio e a nova relação que se estabelece com esses bens postos fora de mercado, não obstante, extremamente valorizados.

Tal perspectiva parece demonstrar também possibilidades de pesquisas sobre esse tema, nas Ciências Humanas, na construção de conceitos que deem conta da diversidade cultural e biológica, aplicáveis não apenas em nível global, mas também local, num viés que vai ao encontro das demandas contidas no relatório Nossa diversidade criadora, da UNESCO, que, nesse momento, já superada a percepção preservacionista, propugna a necessidade de “transformar políticas e instrumentos de maneira a fortalecer a dimensão cultural dos vínculos entre meio ambiente e desenvolvimento”,14 fazendo emergir uma definição de sustentabilidade, para a qual, na gestão dos recursos naturais, também haja a participação dos cidadãos no processo político e nas instituições. Para essa nova consciência, a ecologia estaria além da simples gestão dos recursos, mas seria “o cálculo do poder sobre quem se apropria da natureza, e dos recursos físicos e do significado cultural que a ela se associam.”15