TEHAFÜT GELENEĞİNDE İLAHİ BİLGİ PROBLEMİ
2. Allah’ın Eşyayı Tümel Tarzda Bilmes
Expusemos, no Capítulo 1, um breve panorama da ocupação da região nordeste do atual Estado de São Paulo, em particular, da região onde se encontra o município de Santa Rita do Passa Quatro, em suas feições ambientais e sociais. Contudo, cumpre no momento retomarmos algumas considerações sobre essa região e, em especial, sobre a Companhia Usina Vassununga.
Vimos que a ocupação dessa região deu-se inicialmente por meio da agricultura e pecuária de caráter local, empreendida por migrantes provenientes do sul da Província de Minas Gerais, ainda na primeira metade do século XIX. Com o avanço da frente cafeeira do Vale do Paraíba rumo ao “Oeste Paulista”, na segunda metade do século XIX, ocorreu grande impulso à ocupação, agora sob a expansão das plantações de café. Em fins do século XIX, o território da então Freguesia de Santa Rita do Passa Quatro encontrava-se ocupado por extensos cafezais. Esse avanço foi responsável por grande parte do desflorestamento da
99 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.
__________________________________________________________________________________________
região, haja vista a preferência, na época, por terras altas para escapar das geadas, e com exuberantes florestas, como indicativo de fertilidade do solo.
Após a crise deflagrada pelas sucessivas superproduções cafeeiras, ao longo das primeiras décadas do século XX, e a Quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, a diversificação agrícola ganhou força e, nesse contexto, o plantio de cana obteve maior visibilidade, até assumir a posição de destaque que o café possuía, na pauta de exportações do Estado paulista, na segunda metade do século XX, e o estabelecimento da agroindústria canavieira, a partir da década de 1970.
A criação da Companhia Usina Vassununga aconteceu em junho de 1924, por iniciativa de dois dos maiores cafeicultores daquele município, proprietários das fazendas Córrego Rico e Paulicéia, com 5.000 e 3.000 alqueires, respectivamente, ocupando a maior parte da região oeste do município em questão. A instalação dessa Companhia e o contexto favorável à produção de açúcar, no Estado de São Paulo, promoveram a rápida substituição dos cafezais pelo cultivo da cana, destinada à exploração industrial. Essa usina, até fins da década de 1960, representava o grande centro rural do município de Santa Rita do Passa Quatro, contando com 11 colônias povoadas por inúmeras famílias, algumas ainda descendentes de imigrantes, sobretudo italianos, vindos na época das plantações de café.
Até o presente momento, privilegiaremos em breve retrospecto, as condições financeiras dessa Companhia, pouco antes de se efetivar sua falência, em 1969, e a repercussão desse processo, na sociedade santarritense. Embora tal Companhia fosse, até a década de 1960, de significativa importância no contexto local, do ponto de vista econômico e político, considerando-se o número de trabalhadores e eleitores que residiam em suas colônias, além da influência de seus proprietários, suas condições financeiras, há tempos, encontravam-se fragilizadas. Não restou muita documentação específica a seu respeito, tendo sido seus arquivos remanescentes incinerados após cinco anos da liquidação da Ação Falimentar, em 1993. Contudo, encontramos referências nos Autos da Ação Falimentar, nas Atas de Assembleias publicadas no Diário Oficial do Estado de São Paulo, e na imprensa local, podendo, assim, servir-nos de algumas informações que possibilitaram uma visão geral dessa Companhia, de sua falência e dos desdobramentos desse processo.
Criada inicialmente com capital de 1.500:000$000 (mil e quinhentos contos de réis), ao longo de sua trajetória, essa Companhia realizou, até 1967, nove assembleias visando a elevar o capital da empresa, englobando novas áreas. Em 1956, pertenciam-lhe as fazendas
100 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.
__________________________________________________________________________________________
Córrego Rico, Limoeiro, Paulicéia, Vassununga e Santa Rita23. Cabe sublinhar que essas fazendas já pertenciam aos proprietários da usina, apenas foram incorporadas ao patrimônio da mesma, para ampliar seu capital. Por outro lado, tais assembleias parecem também apontar para as dificuldades que essa empresa vinha encontrando para se manter por atividades próprias. Em 1959, a Companhia pede concordata preventiva, conseguindo se restabelecer somente em 1964. Desde então, suas condições financeiras pioravam ano a ano. Acumularam- se as dívidas, ao ponto da insolvência. Entre 1966 e 1969, a Fazenda do Estado de São Paulo moveu inúmeras Execuções Fiscais, arrematando terras e implementos agrícolas.
Em decorrência daquelas dívidas, foram postos em leilão três glebas de Cerrado, com audiência pública marcada para 10 de abril de 1969; contudo, somente foi efetivado o leilão em terceira chamada, em 28 de maio daquele ano, ocasião em que a Fazenda do Estado arrematou as referidas áreas por conta dos Executivos Fiscais; juntas, essas áreas somavam cerca de 440 alqueires paulistas, equivalentes a 1.064,80 hectares, referentes aos Executivos Fiscais 794/66, 184/67 e 1620/6724, arrematadas pelo valor Cr$ 880.000,0025, o que equivaleria ao valor aproximado de 5.640 salários mínimos vigente em maio daquele ano. A localização dessas áreas apareceu de maneira bastante superficial26. Tal imprecisão foi uma das justificativas dadas, no período, para a não efetivação das transferências dos Registros Imobiliários da posse das áreas para a Fazenda do Estado. Voltaremos a essa questão.
Naquele momento, a situação da Companhia já era de iminente falência, refletindo diretamente em seus funcionários27. Várias matérias tomavam as páginas do jornal local, informando a situação precária em que se encontravam mais de 500 famílias residentes nas
23 Cf. PLANO DIRETOR do Município de Santa Rita do Passa Quatro. op. cit., f. 63.
24 Cf. “Cartório de Primeiro Ofício – Edital de Praça”. O Santarritense, Santa Rita do Passa Quatro, ano III, n.
136, p. 04/06, 05 abr. 1969. Com audiência marcada para 05 de maio de 1969.
25 Cf. AUTOS de Ação Falimentar. op. cit., v. 2, f. 451.
26 Cf. Executivo Fiscal 794/66: “18 alqueires paulistas ou 43,56 hectares de terras fracas em sua quase totalidade
composta de terras de campos [...] a gleba confronta com a propriedade da Cia Usina Vassununga de um lado e com a via Anhanguera de outro”; Executivo Fiscal 184/67: “220 alqueires paulistas ou 532,40 hectares de terras fracas em sua quase totalidade composta de terras de campos [...] a gleba de terras confronta com a via Anhanguera e a propriedade da executada”; Executivo Fiscal 1620/67: 200 alqueires paulistas ou 484 hectares de terras fracas em sua quase totalidade composta de terras de campos [...] que confronta com a divisa de Ribeiro do Vale e com a executada. Cf. Edital de Praça. Cartório de Primeiro Ofício. O
Santarritense. Santa Rita do Passa Quatro. ano III, n. 134, p. 04/06, 22 mar. 1969.
27 Cf. “Rebelião da Fome”. O Santarritense, Santa Rita do Passa Quatro, ano III, n. 98, p. 06, 07 jul.1968. Nessa
ocasião, cerca de 500 trabalhadores fizeram uma manifestação em frente ao escritório da Companhia em protesto contra a situação, já insuportável, de quase três anos sem recebimento dos salários, apenas “ordens de compras”. A manifestação fora reprimida pela polícia local, a pedido da direção da empresa. Em nota na edição seguinte, de 14 de julho, ( p. 04) o semanário pede desculpas a mencionada Companhia pela forma que noticiou o ocorrido, ponderando que a mesma possui um excelente sistema de atendimento médico a seus funcionários, sendo injusto condená-la apenas pelos fatos denunciados anteriormente.
101 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.
__________________________________________________________________________________________
colônias de propriedade dessa usina, solicitando ajuda da administração municipal, a fim de diminuir os impactos da crise sobre essas famílias28.
Buscando a medidas para contornar a crise, a nova gerencia contratada decide restringir a produção de açúcar ao tipo “demerara” que seria livre de ICM e produção de “melaço”, ao invés de álcool, que estaria isento de IPI, assim, evitando aumentar os impostos já devidos. O novo gerente, José Pedro Assunção, ainda considerava necessário “disciplinar” os trabalhadores e, lhes dar certeza de que seriam recompensados pelos sacrifícios feitos naquele momento difícil, mas sempre deixando nítida a punição aos “desleixados”29. Ainda sobre os desmandos dessa gerência, o semanário local noticiava o fechamento de várias estradas, municipais e estaduais, que cortavam a propriedade daquela Companhia para utilização dos espaços para o plantio de cana. O delegado local não pode empreender a desobstrução por ter sido recebido com homens armados, sendo necessário a ajuda do pelotão de choque de Ribeirão Preto para regularizar o trânsito naquelas vias30.
Em agosto de 1969, o Juiz da Comarca da Santa Rita do Passa Quatro, Dino Carpi, acata o pedido de falência requerido por Antonio Candido Fagundes Gomes, um dos mais de oitocentos credores daquela Companhia. Segundo jornal local, tal falência teria mobilizado o então Ministro da Fazenda, Antonio Delfim Neto, ao designar o procurador Ayrton Carvalho Junqueira para acompanhar o processo31.
Decretada a falência, procedeu o Juiz de Direito à nomeação do síndico que iria conduzir os bens da falida, sendo escolhido o advogado Edson Viviani, residente na mesma cidade, o qual já havia prestado serviços à Companhia Usina Vassununga e era também seu credor. Em prosseguimento ao processo falimentar, foi realizado o inventário geral dos bens, apresentados no Termo de Arrecadação, elaborado pelo síndico. Foi feita ainda uma perícia para identificar as causas da falência e eventuais culpados. Pelas irregularidades constatadas, os diretores dessa Companhia foram indiciados por crime falimentar, sendo decretada prisão preventiva do Diretor proprietário, Marcos Antonio Monteiro de Barros, o que não se efetuou.
28 Cf. “Talo de abóbora e broto de bambu para não morrer de fome”. O Santarritense, Santa Rita do Passa
Quatro, ano III, n. 128, p, 01, 08 fev. 1969.
29 Cf. “Iniciado corte de cana na Usina”. O Santarritense, Santa Rita do Passa Quatro, ano IV, n. 148, p. 01, 28
jun. 1969.
30 Cf. “Pelotão de choque abre estrada da Usina”. O Santarritense, Santa Rita do Passa Quatro, ano IV, n. 150, p.
01, 12 jul. 1969.
31 Cf. “Falência preocupa Ministro da Fazenda”. O Santarritense, Santa Rita do Passa Quatro, ano IV, n. 173, p.
102 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.
__________________________________________________________________________________________
No curso da Ação falimentar, foi fixada a lista de credores habilitados e dos retardatários que não habilitaram o crédito, no prazo determinado pela lei, chegando ao total de 758, além dos créditos públicos32. A avaliação dos bens, arrolados no Termo de Arrecadação elaborado pelo síndico, foi submetida à aprovação do credores, não havendo manifestação contrária; o valor total arbitrado para a venda da Massa Falida foi de Cr$ 25.000.000,00 (vinte e cinco milhões de cruzeiros), que equivaleriam ao valor de aproximadamente 133.547 salários mínimos vigentes naquele momento. O valor total obtido se deu pela soma dos valores das terras, construções, maquinaria, da cana plantada e outros bens arrolados no Termo de Arrecadação. (Tabela 3)
Tabela 3 – Valores dos bens da Massa Falida Companhia Usina Vassununga em leilão
a) Terras (4.660 alq.) Cr$ 10.186.000,00
b) Edifícios Cr$ 2.319.109,39
c) Maquinismo e equipamentos Cr$ 2.908.271,36
d) Cota de fabricação – 408.549 sacas Cr$ 6.128.235,00
e) Cana Cr$ 2.458.384,25
f) Bens restantes Cr$ 1.000.000,00
TOTAL Cr$ 25.000.000,00
Fonte: AUTOS de Ação Falimentar. op. cit., v. 5, f. 1628.
Precisamente no dia 20 de outubro de 1970 foi publicado Edital para chamada de concorrentes, para a venda sob melhor proposta, forma de liquidação escolhida pelo síndico, ante a opção por leilão, conforme lei falimentar vigente no período. As propostas deveriam ser encaminhadas ao Fórum da Comarca de Santa Rita do Passa Quatro, em envelopes lacrados, seguidas de cheque-caução no valor de Cr$ 100.000,00 (cem mil cruzeiros). A data estabelecida para a audiência fora 09 de dezembro. Entretanto, a não entrega de propostas inviabilizou a sessão.
Novo Edital foi expedido em 12 de março de 1971, com data para a nova audiência fixada em 29 de abril. Nesse Edital, o Juiz da Comarca de Santa Rita do Passa Quatro determina o acréscimo de parágrafo indicando que as glebas que constituem o PEV estão incluídas nos bens da falida: “VIII – Fica estabelecido: a) que não há qualquer recurso interposto pela falida; b) que as glebas que integram o denominado Parque Estadual de
103 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.
__________________________________________________________________________________________
Vassununga criado pelo Decreto 52.546, de 26-X-1970, estão incluídos na letra “a” [terras] dos bens do acervo”33.
Para essa audiência, registrou-se apenas uma proposta. Submetida à apreciação do síndico, este a recusou, por considerar não ter contemplado integralmente o disposto pelo Edital, além de julgar não viável aos interesses da falida, sendo a decisão ratificada pelo Promotor e Juiz de Direito. Outro Edital foi expedido com data para próxima audiência estabelecida em 17 de junho de 1971. Para essa sessão, foram apresentadas quatro propostas. Analisadas pelo síndico, apenas a feita pela Usina Martinópolis, com sede em Ribeirão Preto, foi considerada de acordo com o Edital e com os interesses da Massa Falida.
As condições de pagamento assim foram oferecidas pela proponente: em 30 de junho daquele ano, seria depositado o valor de Cr$ 3.900.000,00 (três milhões e novecentos mil cruzeiros), que, somados ao caução de Cr$ 100.000,00 (cem mil cruzeiros), chegaria ao total de Cr$ 4.000.000,00 (quatro milhões de cruzeiros) pagos à vista; o restante seria pago em 10 parcelas anuais no valor de Cr$ 2.100.000,00 (dois milhões e cem mil cruzeiros) cada, sem juros ou correções monetárias, perfazendo o total da quantia mínima de 25 milhões imposta pelo Edital. Porém, cabe destacar que tal valor somente seria alcançado dez anos após a venda da Massa Falida, sem qualquer reajuste nas parcelas.
Não obstante o grande número de credores habilitados, apenas dois se manifestaram em favor da impugnação dessa proposta, por as considerarem nocivas aos interesses dos credores e em desacordo com a Lei de Falências34, tendo em vista o longo período para liquidação da Massa, sem juros e correções, o que acarretaria, em última análise, vender os bens da falida abaixo do valor mínimo estipulado, dada a inflação e a desvalorização da moeda, ao longo desses dez anos. Exposta à apreciação do representante dos antigos proprietários da Massa Falida, este também se posicionou contrário à aceitação de tal proposta, sob os mesmos argumentos dos credores acima35. Entretanto, tal raciocínio não foi levado em conta pelo Juiz de Direito da já mencionada Comarca, ratificando a posição assumida pelo síndico e sentenciando a venda dos bens da Massa Falida à Usina Martinópolis
33 Cf. AUTOS de Ação Falimentar. op. cit., v. 5, f. 1.628.
34 BRASIL. Decreto-lei nº 7.661 de 21 de junho de 1945. Lei de falências. Artigo 123 parágrafo 2º - “o ativo
somente pode ser alienado, seja qual for a forma de liquidação aceita, por preços nunca inferiores aos da
avaliação feita nos termos do § 2º do art. 70” Disponível em:
<http://www.consumidorbrasil.com.br/consumidorbrasil/textos/legislacao/falencia.htm>. Acesso em: 26 jul. 2006.
104 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.
__________________________________________________________________________________________
S/A, de propriedade de membros da família Cury, detentora de vários negócios no ramo agroindustrial, na região de Ribeirão Preto.
Transcorrida a sentença e lavrada escritura de venda e compra dos bens, um pequeno grupo de credores ainda interpôs recurso, conseguindo do Tribunal de Justiça de São Paulo liminar suspendendo provisoriamente o curso da Ação. Contudo, o recurso foi julgado e não teve acolhida no Tribunal de Justiça, o qual ratificou a sentença de venda da Massa Falida. Notadamente, pelas condições em que foram vendidos esses bens, os requerentes desse recurso entendiam que não fora respeitada a lei falimentar, constituindo favorecimento a um dos concorrentes, em detrimento dos interesses gerais da falida e dos credores.
Restituído o curso normal do processo falimentar, o pagamento dos credores obedeceu à ordem estabelecida pela Lei de Falências, com prioridade ao crédito trabalhista – de privilégio especial – depois os privilégios gerais e os quirografários. O crédito público só não tem preferência sobre o crédito de privilégio especial. A Fazenda do Estado recebeu, entre os anos de 1973 e 1976, o valor total de Cr$ 3.616.716,92, referente à soma de Executivos Fiscais, que equivaleriam ao valor aproximado de 4.710 salários mínimos vigente em 1976. A última parcela relativa à venda da Massa Falida foi recebida em outubro de 1981, contudo, não bastou para efetivar o pagamento integral de todos os credores. Os quirografários receberam apenas 30% proporcionalmente ao valor de seus créditos habilitados.
Essa situação resultou em apelação, por parte de credores, solicitando nova revisão da venda da Massa Falida, o que conduziu a discussões judiciais por mais alguns anos, até que, em 19 de agosto de 1985, esgotados os meios de pagamento, foi encerrado o processo de falência da Companhia Usina Vassununga.
Feita esta exposição sobre as condições gerais da falência dessa Companhia, passaremos a examinar as indicações para a constituição de um acervo para o Museu Histórico e Pedagógico “Zequinha de Abreu”, com peças oriundas da fazenda Córrego Rico, então propriedade da Massa Falida, para, no tópico seguinte, procedermos à análise da criação do Parque Estadual de Vassununga e da Estação Biológica de Mangaíba.
105 À SOMBRA DOS JEQUITIBÁS. Capítulo – 2.
__________________________________________________________________________________________