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BU ÇERÇEVEDE ÖNE SÜRÜLEN BAZI İDDİALAR/İTİRAZLAR VE KRİTİĞİ

MUHTELİF YÖNLERİYLE Mİ’RAC MUCİZESİ

C. BU ÇERÇEVEDE ÖNE SÜRÜLEN BAZI İDDİALAR/İTİRAZLAR VE KRİTİĞİ

Entre fins do século XVIII e início do XIX, a região nordeste do atual Estado de São Paulo recebeu inúmeros migrantes vindos de regiões auríferas decadentes de Minas Gerais, estabelecendo-se ao longo dos vales dos rios Pardo e Mogi-Guaçu, que desenvolveram um modo de vida mais próximo do estabelecido ao sul da província de origem, com lavouras de subsistência e pecuária.

Segundo Lucila Reis Brioschi, “as décadas de 1720 e 1730 e o início do século XIX foram os dois períodos em que se concentraram os atos de concessão de sesmarias no Sertão do Rio Pardo”39. No primeiro período, devido à descoberta de ouro em Goiás, muitos paulistas rumaram para a região, visando à instalação de “pousos” ao longo do – como ficou conhecido – Caminho de Goiás, destinado a prover as necessidades dos que viajavam para as minas, promovendo uma agropecuária local e firmando determinados núcleos, que posteriormente alcançariam a condição de Vilas. O segundo período referido pela autora é marcado pela retração da produtividade das minas na região das Gerais e mesmo as do planalto central. Com o enfraquecimento das atividades mineradoras, houve uma expansão da já consolidada pecuária e agricultura em propriedades na região sul da Província das Gerais, avançando para além dos limites com a Província paulista. Esses dois momentos mostraram- se decisivos para a formação dos núcleos de povoamento na região oeste do então Caminho de Goiás, entre os rios Pardo e Mogi-Guaçu.

O chamado sul mineiro, abrangendo a região da Vila de São João Dell Rey, desenvolveu-se concomitantemente com a mineração, a pecuária leiteira e uma agricultura em pequena escala, propiciados pelas demandas do mercado local das regiões ao entorno das áreas mineradoras. Fator que iria ter grande relevância na forma de fixação daqueles migrantes na região nordeste paulista, como aparece no trecho abaixo, de Eduardo Diniz Junqueira, citado por Lucila Reis Brioschi:

39 BRIOSCHI, Lucila Reis. Fazendas de criar. In: BACELLAR, Carlos de Almeida Prado; BRIOSCHI, Lucila

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[...] os mineiros procuravam as terras mais propícias ao desenvolvimento de práticas às quais estavam habituados em sua Capitania de origem: a criação de gado e a plantação de roças. [...] Baseados em Franca e Batatais, Mojimirim, Caconde e São Simão e em outros locais nascidos dos pousos da Estrada de Goiás, os entrantes foram apossando-se das terras desabitadas, derrubando e queimando porções de mata ou do cerrado alto para plantar roças, apascentando gado nos campos vizinhos, e empurrando a “boca do sertão” cada vez mais para o Oeste. [...] buscando os campos e as margens dos rios, mais adequados as suas atividades. [...]40

Nota-se, de saída, a diferença na forma de ocupação das terras, nesse momento, daquela utilizada pela expansão cafeeira. Enquanto um primeiro contingente de mineiros ocupava campos e margens de rios, devido ao caráter de sua produção para subsistência e pequenas trocas, o avanço da frente pioneira pela expansão da cafeicultura, rumo ao então chamado Oeste paulista, promoveu a ocupação das terras mais altas para o plantio do café, a fim de evitar geadas; nesse processo, a prioridade eram as terras “férteis”, identificadas segundo a exuberância das matas nelas encontradas. Sobre esse aspecto, ressaltou Monbeig que a marcha pioneira fez-se “na floresta e contra a floresta” [...] “a caixa de fósforos, que, segundo Setzer, é o instrumento agrícola favorito do plantador brasileiro, nunca esteve tão ativa!”41.

Conforme menciona José Gonso, citado por Carlos A. Del Bel Belluz, já em 1820, existiam dezenas de famílias ocupando terras da região onde hoje se encontra o município de Santa Rita do Passa Quatro, provenientes do sul da província mineira, da região de Pouso Alegre42 e de São João Dell Rey; esses migrantes se deslocaram para essa região, possivelmente, no fluxo pós-declínio da produção aurífera, empreendendo pecuária e agricultura de subsistência. É importante considerar, também, que tal fixação de famílias em terras dessa região não ocorreu sem conflitos, conforme sugere a leitura do texto de José Gonso, “Gatos e Botas”, sobre as contendas entre duas famílias que habitavam a região

40 BRIOSCHI, Lucila Reis. Fazendas de criar. In: BACELLAR, Carlos de Almeida Prado; BRIOSCHI, Lucila

Reis. (Orgs.) Na estrada do Anhangüera: uma visão regional paulista. op. cit., p. 60-61.

41 MONBEIG, Pierre. Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. op. cit., p. 87.

42 Cf. BELLUZ, Carlos Alberto Del Bel. (Org.). História de Santa Rita do Passa Quatro – José Gonso. Santa

Rita do Passa Quatro: O Santarritense. 1993. p. 25. O livro consiste em uma coletânea de textos escritos por José Gonso e publicados no jornal Folha de Santa Rita, entre 1928 – 1932.

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localizada no vale do ribeirão Claro, da atual Santa Rita do Passa Quatro, somente terminando com o massacre de uma delas43.

Ainda segundo José Gonso, que escreveu uma história desse município, publicada na década de 1930, no jornal “Folha de Santa Rita”, a fundação de Santa Rita do Passa Quatro, em terras pertencentes à então Vila de São Simão, ocorreu em 1860, por migrantes mineiros de Pouso Alegre, fixados na região desde 1840. Originalmente, deveria estar na área localizada no vale do ribeirão Bebedouro. No entanto, a área doada para constituição do Patrimônio de Santa Rita de Cássia foi estabelecida onde a encontramos atualmente, pela justificativa de que era preciso o povoado localizar-se entre dois cursos d’água44. Contudo, além da existência dos referidos cursos de água, o fato de localizar-se sobre um terreno outrora ocupado pelo Cerrado parece contribuir para essa explicação, tendo em vista, como apresentamos anteriormente, que as áreas disponíveis para o plantio do café não eram tão vastas.

Por volta da década de 1870, as áreas daquela região ainda apresentavam uma produção baseada na lavoura de cereais, sobretudo o milho, e na criação de gado. Com o avanço da frente cafeeira, a partir de meados da década de 1880 e início de 1890, as áreas do atual município de Santa Rita do Passa Quatro pareciam definitivamente incorporadas ao movimento de expansão da cafeicultura, como sugere o relato de um viajante que passou pela cidade em 1899:

[...] havia trabalho e labuta diária, e os velhos jequitibás, sentinelas avançadas das matas virgens daquela era, caíam aos golpes de machado, para cederem terreno à preciosa rubiácea, que tanta sedução oferecia aos olhos cobiçosos de forasteiros vindos de longínquas plagas45.

Em escala regional, a introdução e expansão da lavoura cafeeira no nordeste do atual Estado de São Paulo conduziram a uma reorganização da estrutura fundiária, até então voltada para o abastecimento interno. Como característica marcante dessa mudança, a terra passou por um processo de concentração, na formação de propriedades rurais com grandes extensões. Há

43 Texto originalmente publicado em Folha de Santa Rita, Santa Rita do Passa Quatro, 20 nov. 1931.

Corresponde ao capítulo homônimo do livro: BELLUZ, Carlos Alberto Del Bel. (Org.). História de Santa Rita

do Passa Quatro – José Gonso. op. cit., p. 43-44.

44 Ibid., p. 39.

45 BELLUZ, Carlos Alberto Del Bel. Santa Rita do Passa Quatro: imagens da época do café. Campinas:

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indícios, no entanto, de que a grande propriedade existia nessa região ainda antes da expansão cafeeira, mas é com esta que se desencadearam as maiores transformações com a incorporação desses espaços para efetiva produção para o mercado externo.

O fazendeiro Victor Ribeiro, em artigo publicado no jornal Folha de Santa Rita, em 1952, transcrito em sua Autobiografia, evidencia os motivos que considerou determinantes para o estabelecimento da cafeicultura no município de Santa Rita do Passa Quatro, em fins do século XIX:

A perspectiva da estrada de ferro à porta, a amenidade do clima, a fertilidade do solo, a exuberância, a luxúria das suas matas virgens balizadas por altaneiros, robustos e frondosos jequitibás, e a elevação de seus terrenos, concorriam, então, para a atração de gente, não só de outros municípios do Estado, como também dos Estados do Rio e de Minas, principalmente cafeicultores que, sacrificados e ainda alarmados com os efeitos da grande geada que caíra em 1870 – fenômeno jamais constatado, com igual intensidade, no País, e que assolara a lavoura cafeeira – procuravam terrenos de cultura, mas de altitude elevada, livres de geada, para se estabelecer e encetar novas plantações da rubiácea. Adventícios esses que ao chegarem a este abençoado rincão, não encontraram óbices em adquirir, por preços vantajosos, grandes glebas, e das melhores terras, que são as localizadas nas vertentes do Rio Mogi e do seu afluente Bebedouro, constituindo algumas dessas fazendas verdadeiros latifúndios, como Córrego-Rico e Paulicéia, com cerda de oito mil alqueires de terras46.

Contudo, segundo o geógrafo Pierre Monbeig, devemos considerar que, as vantagens que determinada região oferece, em termos de topografia, clima, solos virgens, constituem vantagens só em relação às necessidades dos pioneiros, aos seus hábitos e aos meios técnicos de que dispõem. Por mais bem dotada que seja, por mais rica que se apresente, uma zona ainda inatingida pelo povoamento moderno seria, em si mesma, desprovida da capacidade de desencadear o avanço do desbravador e de assegurar o seu próprio aproveitamento econômico47. Nesse sentido, a “perspectiva da estrada de ferro à porta” foi fundamental, mas ainda assim, não determinante. Conforme indica Monbeig,

[...] a conjuntura só tornou a ser favorável por volta de 1870 e é nessa época que discernirmos as verdadeiras causas do movimento de conquista dos planaltos ocidentais. Essas causas não são apenas paulistas, nem somente brasileiras. A marcha ininterrupta da frente de povoamento, não passa de um

46 RIBEIRO, Victor. Autobiografia e outros escritos. op. cit., p. 214.

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aspecto da exploração do planeta pelos brancos. Complexo jogo de circunstâncias locais, de ordem natural e social, e de oportunidades muito mais gerais, que é preciso deslindar, se se quiser compreender por que os paulistas invadiram os planaltos ocidentais, ao findar o século XIX, e por que, desde então, não se deteve essa arrancada48.

No âmbito desse processo, teve destaque a chamada “migração de elite”, onde proprietários de terras em outras áreas ou províncias dirigiram-se para aquela região, atraídos pelas condições divulgadas por alguns já estabelecidos. Em particular, os fluminenses marcaram presença, em meados da década de 1880, ocupando terras em torno de São Simão49, propiciando o fortalecimento de uma elite proprietária de terras que traçará os caminhos das políticas locais.

Em Santa Rita do Passa Quatro, no ano de 1876, registrou-se a abertura de uma fazenda, chamada Paulicéia, com cerca de 3.000 alqueires, de propriedade do carioca, advindo da corte imperial, Francisco Leite Ribeiro Guimarães, que no ano seguinte iniciou o plantio de cafezais sobre áreas até então ocupadas pela floresta nativa próximo ao rio Mogi-Guaçu. Contígua às áreas dessa fazenda, o Conselheiro Lucas Augusto Monteiro de Barros, advindo da capital da província paulista, adquiriu uma gleba de terras cobertas pela mesma formação vegetal da anterior, criando a fazenda Córrego Rico, com cerca de 5.000alqueires, para o plantio de café. Além dessas duas propriedades, a então Vila de Santa Rita do Passa Quatro, em 1887, contava com mais trinta e cinco propriedades voltadas ao plantio daquela espécie de rubiácea. No ano de 1903, o número de proprietários produtores de café atingiu a marca de 144, num total de mais de 10 milhões de cafeeiros plantados50.

Vale ressaltar novamente que a referida produção deve ser entendida em um contexto que a viabilizava, ainda segundo Monbeig:

Teria ficado intacta a floresta dos planaltos ocidentais, se os plantadores não dispusessem de mão-de-obra, nem de meios de transporte: não se haveriam

48 MONBEIG, Pierre. Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. op. cit., p. 94.

49 Cf. BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. O apogeu do café na alta mogiana. In: BACELLAR, Carlos de

Almeida Prado; BRIOSCHI, Lucila Reis (Orgs.). Na estrada do Anhangüera: uma visão regional paulista. op. cit., p. 150.

50 Cf. BELLUZ, Carlos Alberto Del Bel. Santa Rita do Passa Quatro: imagens da época do café. op.

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estendido as culturas de café por imensas superfícies, se não tivesse sido possível cuidar de uma produção bem mais considerável que as que haviam sido até então obtidas. Não teria sido empreendida tamanha tarefa, sem a disponibilidade de capitais para seu financiamento51.

A introdução da ferrovia na província paulista e o estender-se dos trilhos para o interior, a partir da segunda metade do século XIX, contribuiu de modo ímpar para a própria expansão cafeeira nessa província, viabilizando o transporte da produção até o porto de Santos, de onde seguia para o abastecimento do mercado europeu.

As duas principais linhas de acesso à região nordeste dessa província foram a Estrada de Ferro Mogiana e a Companhia Paulista de Vias Férreas. Ambas visavam a atender as demandas da região nordeste. A primeira foi fundada em 1872; partindo de Campinas, alcançou o município de São Simão, em 1880. A segunda teve seu estatuto de fundação datado de 1868, empreendido por iniciativa do presidente da província de São Paulo, Saldanha Marinho, juntamente com proprietários da região de Campinas, contando, posteriormente, com grande apoio de fazendeiros do Oeste Paulista, como Martinho Prado Júnior52.

A Paulista, como era chamada, estendeu seus trilhos até a margem esquerda do rio Mogi-Guaçu, no município de Porto Ferreira, também em 1880. Como sua concorrente já havia se estabelecido em São Simão e garantido a concessão para estender seus trilhos até Ribeirão Preto, o que ocorreu em 1883, optou a Paulista por continuar sua penetração em direção às áreas recém-povoadas por meio da navegação fluvial a vapor, ao longo do rio Mogi-Guaçu, partindo de Porto Ferreira até a foz no rio Pardo, perfazendo 205 km de extensão53, atuando até 1903, quando iniciou a operação de linha férrea entre Rincão e Pontal, via Guatapará. Algumas das embarcações foram adquiridas pelos proprietários das fazendas Córrego Rico e Paulicéia servindo para o transporte da produção cafeeira para a cidade de Porto Ferreira, de onde seguiria de trem. (Imagem 2) Esse transporte fluvial também atendeu

51 MONBEIG, Pierre. Pioneiros e fazendeiros de São Paulo. op. cit., p. 95-96.

52 Cf. MATOS, Odilon Nogueira. Café e ferrovias: a evolução da ferrovia de São Paulo e o desenvolvimento da

cultura cafeeira. 4. ed. Campinas: Pontes, 1990.

53 Cf. BRAGA, Antonio Carlos Vilela; DOMINGUES NETO, Hilário (Orgs). A navegação dos rios Moji Guaçú

e Pardo (transporte fluvial – 1883 – 1903). Série documentos: fontes documentais e subsídios para pesquisas. São Carlos: Centro de Ensino Superior de São Carlos, 1999.

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a produção da então recém criada Companhia Usina Vassununga, a partir de 1926, conduzindo a produção de açúcar para a mesma estação de embarque na cidade vizinha54.

Imagem 2 – Vapor Conde D’Eu pertencente à Companhia Paulista de Vias Férreas ancorado em Porto Ferreira, em 1890.

Fonte: MOGI-GUAÇÚ: o curso de um rio. op. cit. p. 86.

O município de Santa Rita do Passa Quatro encontrava-se em meio às áreas de influência das duas companhias, no entanto ainda não possuía uma linha férrea para escoar sua crescente produção cafeeira de fins do século XIX. Como a escolha do traçado das linhas era determinada, além das possibilidades do relevo, pela oferta de café a ser transportado, proprietários locais criaram a Companhia Ramal Férreo Santa Rita, em 1888, que conduziria a produção de boa parte daquelas fazendas até a estação da Companhia Paulista, em Porto Ferreira. Esse Ramal foi incorporado à malha ferroviária da Paulista, em 1891, estendendo-se por outras paragens dentro daquele município, chegando até a Companhia Usina Vassununga, em 192855. A “Estação Vassununga” situava-se em frente ao prédio da usina de mesmo nome. Foi desativada em 1960, e seu prédio demolido (Imagem 3 e Imagem 4).

54 Cf. MOGI-GUAÇÚ: o curso de um rio. op. cit., p. 120.

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Imagem 3 – Aspectos da Companhia Usina Vassununga, Santa Rita do Passa Quatro, 1928. Fonte: Acervo do Museu Histórico e Pedagógico “Zequinha de Abreu”, Santa Rita do Passa Quatro/SP. Trem chegando à Estação Vassununga. À direita da imagem, percebe-se uma gleba de mata com algumas copas

sobressaindo-se, possivelmente de jequitibás. Essa mata corresponde, em parte, à atual gleba Maravilha, pertencente ao PEV. Atrás dessa vegetação, encontra-se o leito do rio Mogi-Guaçu.

Imagem 4 – Trem de passageiros chegando à Estação Vassununga, em 1959

Fonte: Acervo do Museu Histórico e Pedagógico “Zequinha de Abreu”, Santa Rita do Passa Quatro/SP. Ao fundo da imagem, percebe-se uma colina completamente desmatada, utilizada para o plantio de cana.

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De modo geral, o território paulista foi ocupado pela cafeicultura em diferentes períodos, ficando marcado por características próprias deixadas por processos específicos de implantação e expansão daquela cultura. Dentro dos diferentes momentos dessa evolução da ocupação do território paulista, cada período imprimiu seu próprio modo de produzir e preparar o café, refletindo-se, especialmente, nas distintas arquiteturas encontradas nas fazendas. Como ressaltou Olavo Batista Filho, “a fazenda de café em São Paulo não é uma instituição meramente econômica, mas, além disso, e, sobretudo, um traço cultural na vida social paulista”56.

Devemos recordar que a chegada do café ao território paulista se deu pelo Vale do Paraíba, proveniente do Rio de Janeiro, ainda na primeira metade do século XIX, logo, o estilo arquitetônico e a organização espacial das fazendas desse Vale se mostraram tributários das fazendas fluminenses, sendo que, nesse período, estava em curso o regime escravista. Dessa forma, aquela arquitetura guarda traços característicos, o principal seria a existência da senzala, mas teríamos ainda a posição da Casa Grande defronte aos terreiros, de maneira que o fazendeiro pudesse ter sempre à vista o núcleo “industrial” da fazenda, que, dependendo da extensão, comportava todo um aparato para completa auto-suficiência em alimentos, materiais de construção, animais de tração e até vestimentas para os escravos da unidade. Assim descreveu Victor Ribeiro:

Lembro-me nitidamente da casa residencial de aparência burguesa, tendo à direita as senzalas e à esquerda, em linha reta, o paiol; ao fundo deste, em agrupamento, o engenho de cana, a ceva de porcos, currais e outras dependências, formando tudo um conjunto simples e muito tosco. À frente da sede, estendia-se a lavoura de café e, no fundo, as pastagens; além destas, em terrenos mais elevados, estavam plantados canaviais, os mandiocais e outras culturas. Ao lado do mandiocal, achavam-se instalados o indefectível monjolo e a roda de ralar mandioca, pois, naquela propriedade e naqueles bons tempos, plantava-se e produzia-se de tudo, não faltando os tecidos de lã e de algodão, que eram trabalhados por minha boa mãe57.

As fazendas encontradas na região de Campinas, embora inicialmente tributárias da organização e traços arquitetônicos das unidades do Vale do Paraíba, gradativamente foram se adaptando a um novo contexto socioeconômico, servindo, mais tarde, de parâmetro para a formação das demais fazendas da nova fronteira agrícola, que se abria na região de Ribeirão

56 BATISTA FILHO, Olavo. A fazenda de café em São Paulo. Rio de Janeiro: Serviço de Informação Agrícola;

Ministério da Agricultura, 1952, p. 05.

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Preto. No entanto, fazendas como Córrego Rico e Paulicéia, em Santa Rita do Passa Quatro, guardaram traços característicos ainda do período escravista.

A abolição do trabalho escravo e o advento das ferrovias imprimiram uma nova dinâmica nas estruturas das fazendas, das quais encontramos referência na região de Ribeirão Preto. A utilização de mão de obra imigrante abriu espaço para a construção das colônias, enquanto as fazendas tinham que possibilitar acesso aos trilhos para escoar a produção. Com a dinamização dos meios de transporte por meio das ferrovias, os proprietários não precisariam