3. TÜRKİYE’DE YOKSULLUK VE ÖZÜRLÜLÜK
3.1. Türkiye’de Yoksulluk
3.1.2. Türkiye’de Yoksulluğun Genel Görünümü
Encontramos nos trabalhos do jurista Argentino Carlos Cossio, especialmente em sua obra La Teoria Egológica de Derecho y el Concepto jurídico de Libertad, páginas memoráveis acerca de estudos aprofundados consagrados à tarefa singular de pensar o direito e sua ciência como fundamento existencial e apoio fenomenológico. É nesta sua conhecida obra onde e quando foram condensadas suas principais idéias, inclusive as de sanção220.
219
Kelsen, Hans. ( . Trad. João Batista Machado. 6.ª ed., 5. tir. São Paulo : Martins Fontes, 2003, p. 26.
220
Nota: para desenvolvimento deste tópico, fizemos consultar, além das obras já relacionadas na bibliografia, resenhas, ensaios e artigos esparsos a respeito de Cossio e seu trabalho, bem como a obra de Machado Neto, A. L., 4 5 %& Z 4 5 . São Paulo: Saraiva, 1984; a de Silva, Paulo Roberto Coimbra, 6 / ( " 2 4 6 " . São Paulo: Quartier Latin, 2007; e o artigo de Carlos Costa, 4 5 6 " $ ! Cf. consulta feita em 23 fev 2009 e disponível no endereço http://www.frb.br/ciente/2005.2/DIR/DIR.COSTA.F1.pdf..
Carlos Cossio, à época, liderava um grupo de estudiosos do direito na Argentina, tidos como abnegados e reconhecidamente de qualidade ímpar, fato este que restou reconhecido pelo próprio Hans Kelsen quando em visita à Buenos Aires em 1949.
O tema fundante dos estudos deste grupo, liderado por Cossio, era os avanços e conquistas intelectuais obtidos por Kelsen, das quais era admirador, mas que não se contentava com algumas de suas conclusões. Assim é que, considerando a possibilidade de cumprimento ou violação do dever prescrito pela ordem jurídica e firmemente ancorado na disjuntividade, propõe a adoção de nova e mais abrangente concepção da norma jurídica, mediante a sua caracterização egológica221.
Cossio ficou conhecido como o autor da Teoria Egológica do Direito, que dá nome a
sua obra, denominada, em espanhol, de ' *. " . " 4
0 # ' , onde fez desfechar críticas quanto à distinção entre norma sancionadora e norma impositiva, tal qual proposta por Kelsen, bem assim sobre outros pontos, pois, !.., Paulo Roberto Coimbra Silva 222 entendia ser a conduta e não as normas o objeto da ciência jurídica. Também rejeita a idéia de haver sentido ontológico apenas nas normas primárias (originalmente, sancionadoras), entendendo as normas secundárias (inicialmente assim consideradas aquelas prescribentes da prestação) igualmente relevantes e significativas, sob pena de restar excluída a relevância jurídica da conduta humana cordata à prestação juridicamente imposta.
Destes embates de idéias entre Cossio e Kelsen, salientava o primeiro a sempre presente alternativa do adimplemento ou da violação do dever, não aceitando a posição de primazia da norma sancionadora sobre aquela que erige determina prestação.
Entretanto, em síntese apertada, a Teoria Egológica pode ser vista com os seguintes contornos:
221
Silva, Paulo Roberto Coimbra. 6 . São Paulo: Quartier Latin, 2007. pp. 45246.
222
Carlos Cossio criou uma teoria própria, cujas bases são fundamentadas em pressupostos radicalmente opostos ao de Hans Kelsen, de quem foi aluno e com o qual, posteriormente, escreveu um livro: Problemas Escolhidos da Teoria Pura do Direito (1952). Na sua formulação teórica, Cossio assevera: “mais importante que a própria norma é a conduta humana e a interação do ego em sociedade, sendo que uma de suas projeções é o ‘dever2ser’. Assim, a norma é a via pela qual o jurista toma conhecimento da conduta humana, esta sim o verdadeiro substrato no qual se erige o Direito”.
Nesse caso, a punição serviria apenas para garantir a aplicação da norma, tomando como base as modificações orgânicas e psicológicas do indivíduo, resultantes do desvio de conduta, face às próprias normas existentes.
Para defender sua tese, Cossio afirma que “a conduta é a própria vida humana. Para falar do Direito como conduta é necessária uma explicação: o Direito é sempre vida humana, porém nem toda vida humana é Direito. Quando nos referimos ao Direito como conduta, não estamos falando de uma conduta qualquer, mas da conduta humana em sua relação intersubjetiva, ou conduta compartilhada”.
Cossio declara que a ciência jurídica deve estudar a conduta humana enfocada em sua dimensão social, e não na norma jurídica. Situando o Direito no campo da cultura, que é tudo o que o ser humano acrescenta às coisas com a intenção de aperfeiçoá2las, concluiu que o espírito humano projeta2se sobre a natureza, dando2lhe uma nova dimensão. O pressuposto fundamental da Teoria Egológica é vislumbrar o Direito como incrustado e incorporado no próprio ego, em conjunto com a própria conduta do ser dotado de conhecimento.
A egologia, portanto, defende que os problemas existentes seriam resolvidos por meio da intuição, do pensamento inerente ao ser humano, pois, nesta acepção, a inteligência assimilaria imediatamente a essência do Direito, não sendo necessário recorrer2se, a princípio, a nenhuma norma. Em outras palavras, Cossio afirma que os seres humanos carregam em si, inerentes em sua conduta, a noção exata e inequívoca do que é Direito.
Desta feita, temos os contornos da Teoria Egológica do Direito. A denominação dada aos integrantes do grupo de estudos de Carlos Cossio, “Os egológicos”, tem origem nos próprios fundamentos desta teoria — a Teoria Egológica do Direito —, na qual está teorizado que a norma não é o principal elemento da ciência jurídica, mas sim seu principal meio de conhecimento. Segundo ela e Cossio, mais importante que a Norma é a conduta do indivíduo e a interação de seu ego em sociedade — daí o nome “egológica”.
A respeitabilidade alcançada por Cossio em razão de suas idéias e do apreço que lhe devotava Kelsen é uma constatação, sendo pertinente aqui o registro de fato ocorrido à época, o que comprova nossa afirmação e que está assim descrito por Carlos Costa, que faz referência ao contido na publicação conjunta de Cossio2Kelsen, ( " * . "
( " :
Quando Kelsen visita a capital Argentina em 1949 e ali pronuncia as exemplares conferências a que temos feito alusão, ele confessa que ia ao encontro de um grupo de estudiosos cujo pensamento e cuja produção considerava a de maior valia em todo o continente americano; e adiantava, em conseqüência: “não há em nenhuma parte outro auditório frente ao qual me atreveria a pronunciar2me sobre problemas que igualassem em dificuldade e complexidade aos que espero abordar223”.
Como se vê, esta revelação que colhemos no artigo de Carlos Costa é significativa num ponto absolutamente preciso:
Kelsen, o universalmente aplaudido pensador que identificava as normas como sendo o objeto da ciência do direito, visitava um centro de estudos onde sua obra era perfeitamente conhecida e reconhecida, mas no qual os epistemólogos do direito entendiam ser a conduta e não as normas, o objeto da ciência jurídica. Esses intelectuais, centralizados em torno da figura de Carlos Cossio, constituíam o grupo extraordinariamente criador e fecundo de cuja produção resultava a Teoria Egológica do Direito, naqueles anos em plena floração intelectual
223
Kelsen2Cossio, ( " * . " ( " ed. Kraft, B. Aires, 1952, p.11 . Apud Carlos Costa, in 4 5 6 " $ . Consulta feita em 23 fev 2009, disponível no endereço http://www.frb.br/ciente/2005.2/DIR/DIR.COSTA.F1.pdf.
e consagrada à tarefa singular de pensar o direito e sua ciência como fundamento existencial e apoio fenomenológico224.
Prosseguindo em seu artigo e descrevendo a respeito de Cossio e dos passos seguintes dados por seu grupo de estudos, anota Carlos Costa:
Os egológicos, depois constituídos em escola de pensamento, herdavam o legado culturalista e a crítica anti2positivista – de Rickert, de Windelband, de Dilthey, de Ortega, de Scheler, a fenomenologia de Husserl e a análise existencial de Heidegger – amadurecendo uma reflexão do direito que já encontrava direções semelhantes no pensamento jurídico latino2americano, a exemplo de Recaséns Siches e Garcia Maynez , México, ou Miguel Reale, no Brasil225.
Como remate do que aqui se anotou, é importante deixar fixado226que Cossio, desde muito tempo, havia percebido em seus estudos que toda conduta humana juridicamente relevante será inexoravelmente lícita ou ilícita, carecendo a norma jurídica de uma estrutura disjuntiva abrangente de ambas as possibilidades.
Nessa ordem de idéias, a norma jurídica é concebida como conjunção disjuntiva de dois juízos hipotéticos: no primeiro, prescreve2se a conduta desejada (prestação); no segundo, prescrevem2se as conseqüências de sua transgressão (e aí está a sanção). Sendo assim, pode2se descrever227:
224
Costa, Carlos. 4 5 6 " $ ! Nota. Neste sentido sãos os comentários do autor
cf. se vê da Consulta feita em http://www.frb.br/ciente/2005.2/DIR/DIR.COSTA.F1.pdf., em 23 fev 2009.
225
Costa, Carlos. Idem, Autor e Op. cit., e endereço para consulta.
226
Nota: aqui nos louvamos mais uma vez nos textos e obra de Silva, Paulo Roberto Coimbra. 6 /( " 2 4 6 " . São Paulo: Quartier Latin, 2007. p. 46.
227
Nota: estamos utilizando de demonstrativo tradicional para representação de sentença lógica, no entanto, anteriormente a nós, este formato foi utilizado na obra de Silva, Paulo Roberto Coimbra.
Se “ ” deve ser “ , D ou se “não2,” deve ser “ 4 ” Onde
“ ” = pressuposto fático ou antecedente
} * “,” = prestação ou dever jurídico
“não2,” = infração ou transgressão
} (
“ 4 ” = sanção
Cumpre ainda anotar que Cossio faleceu em 24 de agosto de 1987, em Buenos Aires, Argentina, em um acidente doméstico. Admitem seus intérpretes ser Cossio identificado com o Culturalismo jurídico 228 e assim o classificam, ao lado de juristas famosos como Miguel Reale, Emil Lask e Recaséns Siches. Mas, apesar de certas semelhanças, acabaram por trilhar caminhos bem distintos, conquanto seja inegável que tenham promovido construções teóricas importantíssimas para a Moderna Teoria do Direito. No caso de Cossio, o Egologismo Jurídico; no de Miguel Reale, a Teoria Tridimensional do Direito; no de Emil Lask, a Escola de Emil Lask229; no caso de Recaséns Siches, o Raciovitalismo Jurídico230.
As idéias de Cóssio, tidas como inovadoras entre seus pares, encontraram respaldo aqui no Brasil, com o então jovem jurista Antônio Luiz Machado Neto, que, a exemplo de Cossio, integrava o chamado pensamento jurídico latino2americano.
228
Cf. Reale, Miguel. * ! São Paulo : Livraria Martins Editora, 1940, p. 8. Sobre o Culturalismo Jurídico, Miguel Reale assim se refere: “não obstante reconheçamos os grandes méritos da concepção institucional, preferimos empregar o termo ‘culturalismo jurídico’ porque põe mais em evidência a natureza especial do Direito, sem invocar, desde logo, a idéia de grupo. O culturalismo, tal como o entendemos, é uma concepção do Direito que se integra no neo2realismo contemporâneo e aplica, no estudo do Estado e do Direito, os princípios fundamentais da Axiologia, ou seja, da teoria dos valores em função dos graus de evolução cultural”.
229
Sobre este ponto, cuja análise nos conduziria além da proposta deste estudo, v. os autores e obras: Gusmão, Paulo Dourado de. 3 " + . Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 45; v.ainda autor cit., %& * ! 31. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 393 e segs.; v. mais o autor Coelho, Luiz Fernando. 4 5 . São Paulo: Saraiva, 1974, p. 60.
230
Sobre este ponto, cuja análise nos conduziria além da proposta deste estudo, v. Siches, Luis Recaséns. $ + " +# " " . México : Fondo de Cultura Económica, 1956, capitulos II e III.