2.4. FAIR PLAY
2.4.3. Türkiye‟de Fair Play‟in GeliĢimi
uma maneira geral, giraram em torno da relação de dois grandes momentos: a crise da Idade Média e o surgimento da Idade Moderna. Nesse contexto contraditório permanece, por um lado, a força das construções do medievo e seu prolongamento na própria modernidade e, por outro lado, um novo momento histórico que rejeita e critica as construções do medievo. E é justamente esse contexto contraditório que possibilita o surgimento do novo, do moderno.
O que é o novo, o moderno, nos primórdios da modernidade?
Entre os diferenciados campos das produções humanas, o novo está no espaço que os artesãos, artífices, mecânicos e navegadores passam a ocupar na construção do mundo material e na consideração deles por alguns segmentos sociais. Novo é o conhecimento que a ciência empírica, através dos seus experimentos, introduz nas discussões teológicas e filosóficas para a compreensão do mundo, do ser humano e de Deus. Novas são as práticas socioculturais possibilitadas por uma relação individual com a leitura e com a escrita que só às pessoas que têm acesso a elas é permitido obter. Nova também é a prática que permite a um contingente de pessoas entrar em contato com o sagrado através da experiência individual. Novas são as experiências e o conhecimento que, aos poucos, os indivíduos vão construindo, a respeito do próprio corpo, da sensibilidade e das forças intelectuais. (Rossi, 1989; Ariès, 1991)
O novo nessas produções do século XVI e XVII surge trazendo implicações. Se, por um lado, práticas possibilitam que pessoas se sintam e se percebam sujeitos das suas próprias construções, avançando na superação, por exemplo, da concepção de que um poder divino delimitaria as obras, os feitos, as hierarquias sociais e o conhecimento do mundo e da vida, por outro lado, essas pessoas, na construção de suas individualidades estabelecerão outras formas de poder, permitindo o estabelecimento de outras exclusões individuais e sociais.
“... los individuos son resultado o producto de relaciones de dominación. Tanto este descubrimiento, que todavía aparece en forma de balbuceo, como su corolario, a saber, la necesidad de
25 racionalizar y controlar ese, en defintitiva, proceso de producción de hombres, constituyen la base del resto de los descubrimientos, atribuidos a esta época, muchos de los cuales se sitúan tan lejos de sus raíces que se convierten en verdaderos, y por eso engañosos,
ídola22: el descubrimiento de la debilidade del niño y de las posibilidades y responsabilidades del adulto en relación al tratamiento de aquél, el descubrimiento de la educación de la mujer, el
descubrimiento del valor de la disciplina y muchos otros ...” (Lerena,
1983, p. 113. Grifos do autor)
Ao mesmo tempo que se descobre, por um lado, as possibilidades de o ser humano libertar-se das noções falsas criadas socialmente num contexto em que predominou uma orientação teológica e filosófica de cunho clerical, por outro lado, o descobrimento das diferenciadas potencialidades humanas é utilizado para criar outras formas de dominação e de controle.
Contudo, naquele momento, o reencontro de alguns meios sociais com a cultura greco-romana e os lentos avanços dos meios de sustentação material favoreceram a busca de melhores condições para a vida humana. Novas respostas vão sendo apontadas às questões do próprio relacionamento manifestado em competições políticas, econômicas, religiosas e frente à disseminação de pestes. As epidemias, as guerras e as privações colocaram-se como desafios dessa época conduzindo a abrir fronteiras em diferenciados campos de ação e de pensamento. (Delumeau, 1984, v. 1)
As respostas àqueles desafios modificaram, aos poucos, as estruturas materiais e mentais e com elas elaboraram-se críticas ao pensamento filosófico e religioso de séculos anteriores. Um cristianismo reelaborado e rejuvenescido, vagarosamente, vai sendo apontando. Sob conflitos, paulatinamente, constrói-se uma abertura para um cristianismo que rompe com uma tradição teológica autoritária e abre-se à realidade do dia-a-dia que é adotada por leigos.
22 Idolos é a denominação que Bacon (1620) dá às noções falsas que “bloqueiam o intelecto humano”
obstruindo e dificultando às pessoas a compreensão da realidade da natureza e das possibilidades construtivas do próprio ser humano. (Bacon, 1998)
“La religión perde su sentido esencial y passa a ser religión humana, cosa de este mundo, religión natural, religión dentro de los límites de la humanidad.” (Maeztu, 1948, p.12)
Dentro dos limites da humanidade tem lugar também a experiência pessoal que se percebe com uma sensibilidade corporal. Uma estética diferenciada vai surgindo e possibilitando a iniciativa de uma mentalidade que se volta para a vivência individual, para a existência corporal e suas representações. (Braustein, 1991)
A aventura marítima foi tomada como um desafio para descobertas e os avanços técnicos, possíveis à época, foram decorrentes. Essa experiência possibilitou o surgimento de uma ciência que se fundamentou em experimentos. Uma nova idéia de processo de construção do conhecimento como síntese entre observação, experimentação e razão teórica foi, aos poucos, sendo sistematizada. (Hill, 1992)
Mas, por outro lado, contrária à magia que tinha a ver com a revelação do oculto pelos poderes da mente humana, essa mesma ciência impôs também recuos. Os alquimistas, os astrólogos, os feiticeiros e as feiticeiras foram tachados de obscurantistas do conhecimento. Com isso, surgiram oportunidades para os caçadores de feiticeiros e feiticeiras. Tornaram-se fortes os sentimentos de vingança e de ódio, foram acentuados espaços de lutas dizimadoras, de processos insensatos, de massacres dos povos americanos, dos autos-de-fé, da inauguração da deportação dos negros para o Novo Mundo. (Delumeau, 1984, v. 1)
A partir dessa trilha de caminhos complicados, do sonho dos paraísos mitológicos, das realizações impossíveis dos utópicos e do confronto com o espírito anticietífico foi tomando rumo uma abertura para a direção de um pensamento fundado no exercício da razão que passa pela experiência do contato com as coisas e pelo envolvimento com a sensibilidade provinda do corpo em relação com a vida e com o mundo material.
Os limites da humanidade, situados na vida material e espiritual das pessoas constituídas de corpo, sensibilidade e forças intelectuais, lentamente apontaram a possibilidade da percepção do indivíduo, tirando-o do anonimato de um tempo que o limitava quase que exclusivamente ao coletivo. Nesse sentido, a descoberta do indivíduo possibilita a construção das categorias: o homem, a mulher, o jovem, a
27 criança. Delumeau (1984), diz que, “através de contradições, e por caminhos complicados”, os primórdios da modernidade possibilitaram
“... também a descoberta da criança, da família, no sentido estrito da palavra, do casamento e da esposa. A civilização ocidental fez-se então menos antifeminista, menos hostil ao amor no lar, mais sensível à fragilidade e à delicadeza da criança.” (Delumeau, 1984, v. 1, p. 23)
Na complexidade desse contexto sócio-histórico situa-se Comênio. No anúncio de sua teoria pedagógica, como está colocada a lida com o ser humano, que passa a constituir-se sujeito da construção do mundo e de si próprio?